domingo, 15 de julho de 2018

Antologia Ponto & Vírgula n.12

Conhecer para vencer

Ao vestir o dia de hoje,
desenhei
uma nova estrada,
entrei na minha alma,
projetei
uma nova caminhada!
Olhei,
senti,
decidi
das lágrimas me despir,
da tristeza me despedir!
Abandonei
o meu passo,
atento e desconfiado.
Abandonei a vigília
de animal cauteloso,
que caminha em território
desconhecido e perigoso!
Cumprimentei a dor,
cantou-me poemas seus,
vivi a sua cor.
Compreendi o seu texto,
assinei o contrato da paz.
Caminhei em frente
sem olhar para trás!
À dor...
escrevi o adeus!

( poema escrito no ano 1998)















12a. Antologia Ponto & Vírgula - Página 37















terça-feira, 22 de maio de 2018

Um ganso pousando

O melhor para dissipar a desilusão
causada pelos efeitos de certas regras e leis humanas?
Olhar a natureza e rir
com a simples pouse de um ganso

Edmonton- 21 de maio-2017





quarta-feira, 16 de maio de 2018

Nona Antologia Ponto & Vírgula - Pág. 44 - Editora FUNPEC- Secreto luxo

Secreto luxo
Fernanda Rocha Mesquita


Que todos os dias são cheios de labutas domésticas, quase todos o sabem; as crianças crescem a olhos vistos. Quase todos, sim, porque alguns só sabem ver que as crianças crescem a olhos vistos. Arruma o último talher, coloca o ´´naperon` na mesa`` e ajeita as maçãs na fruteira de inox. As crianças, depois de tanta brincadeira e de uma história contada, abrandam a energia infantil no sono que prometem tranquilidade. Mais uma vez, vencera a luta na cozinha. Olha em volta; tudo em ordem, tudo preparado. Poderia cair na cama, que ela mesma arrumara, antes do dia ter cla-reado, mas não. Permite-se a um secreto luxo; viajar até à varanda. Senta-se na beira do muro, e faz o que ninguém sabe que ela sabe fazer: sonhar. Parece que no catecismo das mulheres domésticas, não existe o sonho. Antes de se entregar completamente ao culto, ajeita os fios de cabelo, soltos do fatigado carrapito.
Silhueta pequena no enorme silêncio universal, entrega-se ao doce fluxo e encontra o escudo que a protege das lâminas que lhe almejam, não a carne, mas a alma. Admira as estrelas e a lua.
Elas não temem as alturas e não têm medo de sair à noite.
De mansinho, inventa-se hera, sobe até ao universo que nunca se gasta, senta-se na lua, mostra-lhe o lado que nunca mostra a ninguém. O decote respirando calmo e a testa expulsando as rugas;
sente-se pedra preciosa que fugiu ao lapidário.
Vem visitá-la um anjo poeta que traz na sua mão uma gota do oceano. Ela, envolta em sonhos de lã branca, refresca-se para fazer jus ao verbo viver.


*****
Nona Antologia Ponto & Vírgula - Pág. 44 - Editora FUNPEC
Coordenação: Irene Coimbra







terça-feira, 15 de maio de 2018

Dar e receber



Ainda que sinta que o que tem para dar é pouco,
ofereça, partilhe.
Saber partilhar é um ato corajoso
que não inclui apenas quem dá
mas aquele que sabe receber

Um beijo e um abraço
recheiam uma bolsa, de vida
e apenas custa o sentimento
que impulsiona o gesto.

Cultivemos o sentimento
para que nas ruas do mundo
se passeiem bolsas de conteúdo
verdadeiro e gratuito!

Fernanda R-Mesquita





Carta ao Alceu Bigato


Olá Alceu
 
Como está? E sua esposa e resto de família? 
Finalmente estou a escrever-lhe. Algo que há muito tinha vontade de fazer. Sei que já tomou conhecimento, através de Irene, que sou sua fá. Entre tantos livros editados por esse mundo afora, eu gostaria muito de um dia sentir o prazer de ter nas minhas mãos um ou mais livros seus. A primeira vez que recebi algumas antologias Ponto & Vírgula, a Irene perguntou-me se eu tinha gostado. Respondi, obviamente, que sim. Perguntou-me se tinha gostado de alguém em especial. Mais uma vez respondi que sim. 
- Quem?- perguntou ela. 
- Alceu Bigato- respondi eu.
O primeiro poema que li seu, foi o ´´Retrato falado``. Um poema que mostra um pouco do seu sítio. Sou apaixonada por poemas que contam histórias. Cresci no campo, rodeada de serras, pinheiros, eucaliptos, oliveiras, vinhas e hortas. O meu avô tinha várias vinhas, um pinhal e uma fazenda. Eu cresci, brincando pelos campos enquanto ele trabalhava. Enriqueci a minha imaginação através das histórias dele. Acordava todos os dias ao som do galo. Foi um tempo lindo que permanece, até hoje, dentro de mim. Talvez devido a isso, quando encontro alguém que sabe falar da terra, do grande universo que ela abraça e da ligação entre homem e vida, fico rendida. Em certos, ou em quase todos, você revela, apesar de ter percorrido já um longo caminho, que nunca abandonou a sua criança. Ela fala por si, na sua palavra escrita. Eu também digo, todos os dias, bom dia ao dia, como o Alceu descreve  no seu poema ´´Bom dia, ao dia``. 
Falando de um outro poema ´´ Faça apenas isso``.  Este poema é excepcional! ´´ 

O quintal de sua consciência, 
procure mantê-lo limpinho, 
mas cuidado ao varrer o lixo 
pra não jogá-lo no quintal do vizinho.´´
           
Eu sinto-me na musicalidade das suas palavras. Uma parte de mim fica aqui, sentada, olhando a sua postura inclinada, escrevendo Visualizo-me parte integrante do mundo que o Alceu sente e vive.

Outra faceta sua, para além de escritor é um gigantesco declamador.  Adoro escutá-lo, nos programas de Irene, com o seu jeito único. Adoro a sua autenticidade, simplicidade. Gosto de pessoas reais e de quem sabe olhar para dentro dos outros e quem transpõe a porta dos significados e não se fica apenas pela explicação conhecida. 

Vai um pouco longa esta carta. Já passou por vários períodos; O primeiro, a empolgação de lhe escrever e dar a conhecer o quanto gosto do que escreve, o segundo, após essa fase de empolgação, a calma para não misturar todos os pensamentos e tornar confusa, a minha mensagem. O terceiro, a grande alegria ao saber da edição do seu primeiro livro. Parabéns Alceu! Parabéns! O mundo precisa de poetas como você. Poetas não adulterados pelas redes sociais. pela competitividade ou pela aparência. Adorei a capa do seu livro. Parabéns à sua neta. Muito bonito, ver um ser de uma geração tão diferente, cooperar na divulgação do seu talento. Parabéns a ambos por essa relação construída, num tempo em que os afetos mais simples e naturais são desconstruídos. 
Que mais posso dizer? Poderia falar de tantos outros poemas seus, dos quais gosto muito, mas vou deixar para quando tiver, nas minhas mãos, o seu livro. Sei que será uma preciosidade literária.  
Um grande abraço para toda a sua família, um beijinho à sua esposa. 

Continue sempre escrevendo e mantenha esse seu precioso jeito simples, que demonstra uma força gigantesca.

Ah, adorei que tivesse escolhido Sergio Kodato para escrever o prefácio do livro. O elemento adequado para completar a obra. Ele é um outro ´´personagem``, que me´´ atrai `` muito, dentre os autores do Ponto & vírgula. 

Abraço

Fernanda R-Mesquita


Esta é a primeira carta, que envio pelos correios, para um poeta.  😊






Etapas a vencer




             Basta nascer para nos sentirmos confrontados, diariamente, com etapas por vencer. Mas existem etapas e etapas. Muitas barreiras são visíveis, outras nem tanto. Quantas vezes há quem trabalhe para o deleite dos outros e muitos são os que acham apenas ´´ bonitinho``. Na beleza que deleita os olhos de muitos estão lá, lágrimas, suor, e certamente alguns palavrões de raiva e desalento.
Sempre que recebo um exemplar da revista Ponto & Vírgula, deleito-me com a qualidade da escrita de cada autor, e com a excelente qualidade da diagramação. Enquanto leio, veios de boa disposição e otimismo de Irene Coimbra, viajam com a revista até mim. Certamente muitos dos leitores sentirão isso. Mas quem dirige algo deste género, precisa muito mais do que otimismo. Necessita de carregar nela, doses e doses de paciência e de coragem. Há a angústia de prazos a cumprir, que nem sempre são possíveis de cumprir.
Na edição 35, do bimestre setembro/outubro fui capa da revista...
 Sim, eu, no Canadá colaborando com Irene no Brasil e a Aline em Inglaterra. Milhares de quilómetros de distância, agravados com a diferença de horário.
O conteúdo da revista estava pronto, mas o que poderia ser de menor importância tornou-se o maior problema a ultrapassar.
- Fernanda tira muitas fotos. Na rua, em casa... de pé... sentada... etc...
Assim fiz. Mas as primeiras fotos tiradas com um telemóvel, sem alta definição, a Aline as recusou e com toda a razão...
- Vai a um fotógrafo.
Durante quase um dia inteiro visitei vários estúdios fotográficos. Em cada um que entrava, aumentava a minha desilusão. Apreensiva sabia que lá longe Aline, após um longo dia de trabalho, sentar-se-ia no computador esperando pelas fotos. Imaginava Irene, no Brasil, quase pronta para descansar, esperando uma resposta minha, para que Aline no outro dia quando chegasse, tivesse o material para a capa da revista. Mas porquê tanta dificuldade em tirar uma foto? Teria de ser mais do que uma, para escolher a melhor, claro. O grande problema é que todos os fotógrafos apresentaram-me preços exorbitantes. Se um fotógrafo saísse comigo para a rua, apenas por uma hora, custar-me-ia cerca de mil dólares ou mais. Se me limitasse apenas ao estúdio cobrar-me-iam mais de cem dólares cada foto. Se eu optasse por um pacote de seis, pagaria a bela quantia de seiscentos dólares. Ah, mas por fotos apenas digitais. Já no final do dia, cerca das cinco horas da tarde, entrei num minúsculo estúdio de um chinês. Apesar do difícil sotaque chinês lá o entendi. Por uma foto retocada eu pagaria cento e trinta dólares. Mas apenas uma. Se não me agradasse, teria que tirar outra. Respondi-lhe que voltaria no dia seguinte. O senhor marcou a hora. Onze da manhã. Dar-me-ia a foto quatros horas depois. Não satisfeita, nem confiante na qualidade do senhor, decidi visitar mais um estúdio. Fui atendida por uma senhora muito simpática. Pelo sotaque, deduzi que seria oriunda de um país da Europa do Leste. Escutou o que eu pretendia. Esta foi, de todas as propostas, a mais acessível.
- Tiro-lhe quantas fotos quiser, até aprovar uma, e ofereço-lhe uma em papel. Mas não retoco. Não sei.
Eu não estava interessada na foto em papel, mas essa amabilidade proporcionou-me um certo bem estar, depois de tantas horas a entrar e a sair em estúdios. Gentilmente quis mostrar-me o estúdio, onde eu no dia seguinte seria atendida. Gostei da senhora mas não gostei do estúdio. O pequeno espaço foi o que me causou menos preocupação. O que não me agradou foi a desarrumação. A visível desorganização revelava falta de profissionalismo e até um certo mau gosto. Agradeci, gentilmente à senhora e fui para casa. Enquanto conduzia, enfrentando a hora de ponta na cidade de Edmonton, pensava numa saída. Com toda a certeza não iria desiludir Irene e Aline. Se eu tinha aceite o desafio, iria cumpri-lo. Pensei na minha casa. Arranjaria um modo de a transformar num estúdio fotográfico. Entrei em casa, olhei o meu filho e disse:
- Prepara a tua máquina fotográfica. Não consegui encontrar um fotógrafo com ofertas decentes.
- O pior será a luz- argumentou ele.
Dirigi-me ao quarto da minha filha. Desliguei o enorme e potente candeeiro, cujas lâmpadas eram autênticos holofotes. Carreguei o pesado candeeiro de pé e levei-o até à sala. Virei as luzes para mim e procurando diferentes cantos da sala, com o candeeiro atrás, o meu filho tirou-me cerca de cem fotos. A dada altura  Nuno comentou:
- Agora entendo, porque os fotógrafos em Alberta têm falta de clientes.
Pois, também eu. Fiquei a saber o quão caros sãos os fotógrafos em Edmonton.
Da centena de fotos, escolhi umas seis e enviei para a Irene que já dormia e para Aline que provavelmente já estaria a caminho do trabalho.
 Quase não dormi nessa noite. Várias foram as vezes que fui ao computador para saber se as fotos tinham sido aprovadas ou não. Já quase de madrugada, a Irene enviou-me uma mensagem:
- Fernanda, descanse. A Aline aprovou as fotos. Nós vencemos amiga.
Eu sorri; Irene, sempre com a sua certeza de vitória! É uma característica que nos assemelha. Também recuso pensar, diante das dificuldades, que não há solução. Foi uma vitória que roubou muitas horas de sono, mas valeu a pena. Obrigado Aline, Irene e Nuno. Etapa vencida!
           
           
Fernanda R-Mesquita 




















domingo, 6 de maio de 2018

Pintura



Deixei-me apaixonada, descansar...
como o rosto pintado numa tela, belo instante;
sobre o teu colo disposta a amar,
escrava dos teus dedos... delirante!

Sou como o pano pronto a colorir, vaporoso...
Que se estende e submete à pintura,
onde tu hábil pintor, virtuoso,
juntas os nossos corpos... aquarela pura!

E depois dos nossos instintos cansados,
descansas os dedos, iguais a pincéis suados...
E eu plácida, no teu peito descontraída...

Que pintura real! Que plenitude! Que beleza!
Que deixa num quadro a virtude, a certeza
de que o amor é o plasma  da vida.

Fernanda R-Mesquita







sexta-feira, 20 de abril de 2018

A paz



Programa Ponto & Vírgula - 24.02.18




Às vezes a paz sai apressada da minha vida,
parte e parece não fazer caso do que eu sinto,
ficam as vozes alteradas, a palavra irrefletida
e eu fico no deserto, com o prelúdio da paz extinto.

Que se calem as vozes por um instante,
que renunciem a esse irrisório enredo,
que a fúria seja delírio, inspiração distante,
que a ira se levante tarde e se deite cedo.

As palavras alteram-se, cegas e sem rede,
são  braços traiçoeiros que a agitação atrai,
grita aquele, grita este, irado, cheio de sede
de uma razão que enfastiada, também se vai.

Por isso, procuro o meu repouso longe de tanta tolice,
no terno ninho  que a paz fez com carinho ardente
e distanciada das sentenças: “tu disseste, eu disse“
achego-me a ele, enrosco-me lenta e docemente!



Fernanda R-Mesquita