terça-feira, 26 de dezembro de 2017

Movimento

   
        Porque estou calma agora e andei tão nervosa ontem? Queria ver-te e não te vi. Foi apenas um desejo que não aconteceu. Poderia alimentar essa tristeza e entrar no campo onde governaria o dramatismo, que me levaria a ter pena de mim. Não. Eu disse não. Não quis permanecer na minha consciência física, naquele momento inclinada a despertar sentimentos negativos, que tento manter fechados num armário de difícil acesso. Os sentimentos negativos são como cogumelos venenosos, que crescem tão parecidos com as emoções harmoniosas. É demasiado limitado o campo físico. E ilusório. Permanecer na desilusão, seria permanecer no caos. No mundo caótico, existe a a tendência de culpar alguém. Eu não culpo ninguém. Eu entendo que os outros, aparentemente culpados, também possam estar envolvidos em situações e emoções, que os levam para um mundo diferente do meu. Como posso exigir que os outros vivam o meu mundo, os meus sentimentos? Nem sempre quem desejamos encontrar, está na mesma linha de pensamento. 
      A vida foi-me oferecida, e eu aceitei-a. Tenho a responsabilidade de a viver. Não apenas por dever, mas porque a amo. Sou eternamente apaixonada pela vida. Ontem, foi ontem. Foi há um minuto, um segundo, um ano? Não sei. Foi apenas ontem. Não importa. Apenas existe um pequena lembrança. Lembrança que me leva a escrever. Escrever para um dia recordar como é possível mudarmos de campo energético. Basta movimentarmos os nossos pensamentos e encontraremos o equilíbrio. É no movimento que encontramos o equilíbrio. Quando aprenderes a andar de bicicleta verás que, enquanto pedalares, poderás dirigir-te para a direção que escolheres. Se teimares, em permanecer, por muito tempo, quieta em cima dela, cairás. 
      Poderás perguntar: ´´ se esqueceste a dor por não me teres visto, não me amavas tanto assim ``. Eu respondo-te; o melhor caminho para transmitirmos força a quem amamos, é sermos fortes. Se eu permanecesse na tristeza, que luz te transmitiria eu? Minha querida, nunca te faças vítima da tristeza. Se o fizeres sofrerás de tristeza, e ela, a tristeza, entenderá que tu a queres ao teu lado. Diz-lhe, a sorrir, que no teu mundo não há lugar para ela. Neste momento, estou a sorrir. Imagino-te dormindo no teu mundo mágico, onde ainda não reconheces o Natal, porque no teu mundo todos os dias são Natal. 
     Vou dormir. Vou entrar no meu jardim secreto, onde as estrelas descem e brincam nos canteiros. Entre elas, estás tu. 

... com muito amor

Natal de 2017

      Bastaria um minuto de boa vontade para que este texto não tivesse sido escrito. Se eu te tivesse olhado apenas por um minuto, ainda que a dormir, o meu sorriso, neste momento seria a dobrar... ainda assim ... sorrio...

Fernanda R-Mesquita

terça-feira, 12 de dezembro de 2017

Beleza natural


Por muito que tentemos enfeitar árvores de Natal, nenhuma ficará tão bela como algumas árvores enfeitadas pela mão da natureza. Esta árvore é um exemplo de  que mesmo com a chegada do frio,  mantém os seus frutos selvagens,  coloridos por um vermelho vivo, para permitir que realce nela, a branca neve que se deixa cair e permanece nos seus frutos,  num contraste que embeleza a nossa vista





Edmonton- o bosque no Inverno

De face rubra, de vermelho a palpitar
de tão gracioso perfil, altivo e brando,
és fruto selvagem, digno de admirar,
que obriga a parar a quem vai passando.

E a neve, como branca e leve espuma,
como os versos cheios de uma canção,
libertam as suas rimas, uma a uma
e em graciosos flocos brancos, a ti se dão.

E numa combinação tão bela e real,
na tua face rubra, vermelha a palpitar
cai a neve branca de forma escultural
criando um poema mágico no ar.

E o ramo que te sustenta vitorioso,
agradece à vida que não lhe negou,
um tronco robusto e poderoso
num chão que de felicidade o perfumou!

Fernanda R-Mesquita





segunda-feira, 11 de dezembro de 2017

Momentos de ouro

O céu do bosque

São estrelas de ouro, sonhos gloriosos
na noite azul onde a lua pousou,
são pérolas da vida, diamantes radiosos,
são fantasia em flor que a vida talhou.

São assim os momentos grandiosos
na noite azul onde a lua pousou,
por onde viajam em liberdade e poderosos,
pensamentos meus,
reflexos de sonhos
que a vida me mostrou!

Fernanda R-Mesquita




Não, não são ciúmes


Não, não são ciúmes, é o estado em que me deixas,
 quando nos teus poemas não me reconheço,
 é um  pressentimento... são mudas queixas,
é uma embriaguez triste que não conheço.

Não, não são ciúmes, é esta vontade louca,
em querer acreditar que é meu o teu amor,
 apesar dos traços frios da tua boca
me oferecerem tanta vontade de chorar, meu amor.

 É dor forasteira que me dá medo
por notar no teu olhar um segredo
que te faz fugir de mim...  Fadiga?  Talvez!

Não, não são ciúmes, são um cansaço,
vontade de eu ser o que fazes, de seres o que eu faço
de voltarmos a sermos o que fomos na primeira vez!

Fernanda R-Mesquita

Ai felicidade!

Foto tirada a um dos tantos desenhos de Álvaro Cunhal, expostos na Fortaleza de Peniche, Portugal- Agosto 2017

Ai a felicidade!
Em árduas procuras,
são cúmplices de interesses
são inquietas almas,
que em obscuras vitórias
e em escusadas aventuras
matam horas calmas
com tristes histórias
Destroem por prazer
e vitimam-se sem saber!
Que efeitos desastrosos;
o desânimo e o descontentamento!
Mas sem amor e caridade
(que tormento)
eles continuam como antes
praticando atos horrorosos
procurando, procurando..
pela felicidade!
(que loucos instantes)
Depois, clamam perguntando com dor,
mas sem amor:
– Que foi que fizemos? –
Porque perdemos?
Ai a felicidade!
O Homem diz que não existe
mas teimoso persiste
no caminho que o leva ao insucesso...
e a impossibilidade de ser feliz,
é o processo, é a deslealdade
que ele dedica a essa desejada ventura...
lamentando a desventura:
– Não existe felicidade!

Fernanda R-Mesquita




Chegar a ti

Peniche, vendo a Ilha das Berlengas- Agosto 2017

Embalada pela saudade a minha carícia acordou,
tremeu porque te quis e não te viu,
deitou-se na distância que a levou
ao sonho que me abraçou e sorriu.

Escuta e sente a todo o momento...
É o meu desejo de ti que escreve esta história;
se de noite ouvires um grito, é o meu tormento,
que insiste em fazer de ti a minha memória,

 Se olhares o céu e vires uma estrela cadente,
não a deixes cair, sou eu!...
Abre os teus braços, acolhe-me e sente
que o meu amor vive por ti, é só teu.

E se os mares pela terra navegarem
e se o sol de noite brilhar
e se a lua passear de dia e as estrelas cantarem...
é a luta do Universo para eu até ti chegar!

Fernanda R-Mesquita





Não te feches

Montanhas Rochosas, verão- 2010

Não feches num cofre, o teu coração,
para que ele encontre a sua hora, o seu espaço
e não se ausente da vida...
e o cofre, pode ter armadilhas...
Não deixes que te sobrem maravilhas por sentir
esgota-as multiplicando-te
derrama-te como um vaso cheio
tentando ver como se fosses cego...
sentirás melhor...
Permanece lúcido para viveres, mas não cresças demais.
Não fiques à porta à espera que outros a abram,
raramente a abrirão da forma certa para passares.
Conquista o teu mundo, dedica-te a ele
mas nunca ao mundo inteiro...
sentir-te-ás perdido.
Não vivas alheio ao mais solitário,
ele terá tanto para te dizer!
Procura no céu, nas estrelas ou na lua...
que te falarão da vida, da real vida.
Não deixes de exprimir aquilo que queres ser...
Que o reflexo do teu olhar
viva por vontade tua!

Fernanda R-Mesquita

Ao Nuno






Poema que me suporta


Relembro todas as palavras que te escrevi,
são como um rio de amor que te dediquei...
Nascem nas noites que quieta fico junto de ti,
novos versos, quando já todos ter escrito pensei.

E neste teu descanso que eu vivo e sinto com amor,
passeio a minha mão pelo teu rosto, sem te acordar,
varro o inverno do meu corpo com o teu calor
enquanto com amor, não durmo para te olhar !

Sabe a manhã que não tarda, que sem ti invento
um novo poema deste amor que cresce no tempo
onde o sentimento a tudo resiste.

O teu abraço que não dorme impede-me de viver perdida,
é  um novo poema que em mim nasce e me dá vida,
é a inteira luz quer a quadra seja alegre ou seja triste!

Fernanda R-Mesquita

Hora vazia


Não saber quem sou e sentir-me assim,
é viver silêncios que emudecem as horas que passam,
é sentir que me perco e dou por mim
presa em amarguras que me amordaçam.

Achega-se como um animal articulado, com patas de cetim
e prende o meu olhar na sua teia, tornando-o tão quieto;
ajeita-se esta hora parasita, alimenta-se de mim
forçando-me a sentir tão longe o que vive tão perto!

Durante o tempo em que baixei os braços,
possuíram-me abalos, quiseram-me mais cansaços...
invadiu-me um sono grande por hoje não querer pensar!

A vida lá fora parece viver de planos traçados,
decisivos traços onde os sonhos lutam alterados...
vejo o amor encarcerado e a glória a violar.

Fernanda R-Mesquita

As palavras

Brincam comigo as letras, sim,
me confundem e fazem questão
de saírem de dentro de mim,
sem que eu lhes consiga dizer não.

Aos sentimentos discretos,
elas têm uma forma especial
de os deixarem descobertos
de forma tão natural!

Quando eu penso que já está,
que já não vou mais escrever,
que mais palavras não há,
que mais nada tenho para dizer...

Vêm palavras teimosas,
querem elas assim viver,
em poemas ou em prosas
para quem as queiram ler.

Porque me confundem assim,
porque brincam comigo,
porque vivem em mim
e viver sem elas não consigo?...

Fernanda R-Mesquita

O Homem funda igrejas


O Homem funda igrejas,
ergue altares,
diz guardar as leis de Deus
dentro delas...
mas poucos as expandem nas acções.
Raramente as deixam brilhar;
poucos excluem o materialismo
e muitos adiam a vontade de serem santos.

Fernanda R-Mesquita

O mar


Santa Cruz, Portugal- Agosto 2017

O mar rompe meticuloso pelas minha memórias,
como se de tão longe quisesse ser o meu berço
e acalmar as horas sós
que se embrulham em histórias,
algumas sem fim
e outras com um curto começo.

Lembro-me que, às vezes, em ziguezagues lentos
ele deixava as ondas devagarinho, comovidas,
beijarem os meus pés e os meus pensamentos,
acalentando-me no seu leito...
como um rei que tem mil vidas.

Fernanda R-Mesquita


Quando a amizade sabe a traição


Que espada é esta tão afiada
e tão aguda, que me fere com tanta intensidade,
que modulação é esta que me deixa surda
com ruídos de traição, quando pensei que era amizade?

Que duro é este golpe estonteante,
que invade o meu discernimento,
destrói a minha esperança, outrora confiante
e me reduz a este estado de sofrimento!

Nem te desculpa a tua imperfeição... que triste
a forma como desdenhaste, te riste,
traíste e insultaste a amizade que te dei!

Não vou usar a mesma chave para abrir a porta
do lugar onde deste a nossa amizade como morta...
melhor esquecer-te... viver de rancor, não quero, nem sei!

Fernanda R-Mesquita

Guerreia


Andreia- 2012
Guerreia no porto onde se batem as tuas tristezas
e compra a coragem no rio que nas margens traz,
a bravura de um guerreiro que luta por certezas
e que deseja desaguar na foz, onde mora a paz!

Resiste ao desespero de querer desistir,
resiste à guerra das sombras de vida sombria!
Foge de onde te roubam a liberdade de sorrir,
agarra a luz, resiste à noite escura até ser dia!

Rasga de ti o medo do mundo e na vida avança,
vive na certeza... quem quer, sempre alcança
mesmo que saibas que o medo, por vezes voltará...

Prende-te à pedra preciosa do dia
mesmo que te pareça ser fantasia,
se compreenderes a vida... o sol não tardará!

Fernanda R-Mesquita


Insónia


Como sombra de um sono que não vem,
como estrela de um firmamento já conhecido,
tento sentir o repouso que a noite tem,
mas se a noite vem, o sono parece ter fugido.

Tropeço nos tentáculos da escuridão
mas ninguém ouve... como podem ouvir?
Esta é a hora longa que acordou a solidão
e quando o ruidoso mundo se calou para dormir.

Fernanda R-Mesquita










Sonhar


Apagar as sombras que escurecem a justiça e o amor,
criar jardins nessa tristeza que em ti cresce,
sonhar que é esperança, que não é dor,
que não é medo o arrepio que te estremece.

Quero junto contigo fechar os olhos e imaginar,
que o toque que bate na tua porta não é a fome,
que o frio que te cobre é apenas o calor a dormitar,
que a lágrima que desliza não é dor que te consome!

Sonhar que não há heróis por saberem matar,
que todas a diferenças são um jogo para brincar
e que o Homem é jardineiro, semeador de esperanças.

Dar-te a mão e inventar alegres histórias contigo,
imaginarmos o mundo como um seguro abrigo
porque em campo de batalha não existem crianças!

Fernanda R-Mesquita








O mundo On-line



Que loucura,
eles gostam mais do mundo On-line
do que ele dela e ela dele!
Avizinha-se a noite,
ela faz o jantar e prepara a mesa.
Ele chega, toma um banho,
senta-se na sua cadeira habitual
e inclina-se sobre o prato,
onde concentra todos os seus movimentos e emoções,
disposto a satisfazer o seu apetite.
Fala por enigmas... quando fala.
Bebem o café no sofá
enquanto se apegam
aos seus computadores,
como se na hora,
que deveria ser o destaque do dia, entre os dois,
preenchessem apenas as exigências da vida
e ficassem mais longe um do outro.
Abrem o olhar,
num comovente sentimento
que raramente dedicam um ao outro.
Divinizam, enobrecem,
conjecturam sobre presenças vagas
e abrem emoções
a essas criaturas incertas,
como insígnias dos seus sorrisos e sonhos.
Ficam assim, ela e ele,
emaranhados
no enredo desordenado da casa
a que chamam lar,
enquanto se desassociam da própria união
e arriscam-se em circuitos electrónicos,
onde a intervenção humana
calcula e escolhe
a sua melhor actuação.
Que tristes são!
A solidão a que se deram
repele o prazer terno de outrora.
Entramos na era, onde o Homem sente mais prazer
na afeição que não exige nada
e abdica do contacto físico.
Será  medo,
ou será a busca do ser perfeito,
que só poderá existir,
enquanto só ocupar o mundo virtual?

Fernanda R-Mesquita

















O meu berço

Oceano Atlântico- Santa Cruz- 2007

O ódio escolhe a raça,
divide a cor
e manipula o trajecto natural do amor.
O meu patriotismo está naquele
que me olha nos olhos
e me convida a entrar no seu território,
que partilha a sua história
e respeita a minha.
Em demanda de colheitas diferentes,
tantos povos entraram por terra,
lutaram com outras gentes
e  não saíram... porque o  mar não  deixou.
Sou filha de um nómada,
de um vagabundo,
daquele que seguia o sol
e ficava preso nas margens
do Mar do Oceano Atlântico... tão profundo!
Sou filha de tantas lutas,
de empurrões,
talvez da ambição que quis dominar o mundo
ou do amor que juntou dois corações.
Sou filha de tantas migrações humanas,
de caçadores,
daquele que trabalhou a pedra,
de um mundo gelado extinto,
do explorador
que ligou o estanho ao metal
e descobriu o bronze.
Do que dirigiu o arado,
dos celtas e dos Iberos,
da civilização castreja,
dos combates entre romanos e cartagineses,
da teimosia de Viriato
vencido pela traição,
do tempo em que os cães eram inimigos do homem...
Falo português,
rebento do latim que os romanos impuseram.
Sou filha de algum escravo dos romanos,
da invasão barbara,
da nobreza dos visigodos,
dos mulçumanos
ou de algum  agricultor árabe.
Sou sobretudo,
filha daquele berço de histórias,
onde caía o olhar terno dos meus avós!

Fernanda R-Mesquita









A brincar posso dizer...



KINGSWAY MALL Edmonton Alberta- 2011

Hoje só quero imaginar
que o sonho é real,
que posso viver a brincar
sem ninguém levar a mal.

Hoje quero ser diferente
sem eu mesma deixar de ser,
arriscando ser crente;
“que sou grande sem crescer.’’

Como é bom ser pequeno
e caminhar na vida a sorrir,
viver tranquilo e sereno
e sobre sonhos felizes dormir.

Que me desculpem quem me lê,
se nestes versos infantis
coerência não encontra e não vê...
sou a criança que sempre quis!

Neste momento a brincar
procuro dizer algo com jeito;
ousemos ao amor brindar
porque tudo o resto é suspeito.

Que faça o Homem do Mundo
o amor que tanto proclama;
um sentimento profundo
que não destrói a quem ama!

Fernanda R-Mesquita


Eu e esta senhora

Jardim de Devon- 2011

Os meus olhos
dedicam um olhar abatido à paisagem;
maternalmente debruçam-se
para dentro de mim.
Num especial interesse, examinam
as feições das minhas dores.
Talvez queiram ser o árbitro
da cena de pugilato entre a minha vontade
e  a invasora que se atreveu
a ocupar as minhas entranhas.
Eu, baça, fraca e trémula
recuso-me a agir como alguém
que já nada quer.
Não gosto desta senhora
que a qualquer custo quer vencer.
Ela conta-me histórias sem vida,
tenta destruir-me... sentir-me rendida.
Ainda que lá fora  apenas caia
a neve imperiosa,
eu imaginarei um campo verdejante,
rindo e florescendo como amante
de uma ave que voa airosa.

Eu teimo em preencher
todos os recantos do pensamento
com a ternura nítida da vida,
por isso escancaro as janelas...
deixo entrar
os pulmões da natureza,
o coração dos céus
e até a sonolência da lua...

Fernanda R-Mesquita







Aquela pequenina princesinha


Lembras-te daquela pequenina princesinha
que enquanto dançava sempre sorria
e em tantos desenhos, desenhava uma casinha
com uma janela, onde o sol brilhava todo o dia?

E das flores verdes do teu vestido branquinho?
Tão graciosas como os teus caracóis a florescer,
no teu rosto rindo e caindo de mansinho,
deslumbrantes anéis nos teus ombros querendo viver!

E as branquinhas sandálias que eu te comprei?
Iguais ao teu vestido branquinho que nunca esqueci,
seguravam-te os passinhos, que tantas vezes equilibrei
em ternos abraços, que hoje perguntam por ti.

E o pijaminha onde vivia aquele bonequinho?
Dele eu inventava histórias e igual a ele tu querias ser.
Ele ria contigo, brincavam alegres e juntinhos
e eu dizia-te que ele vinha de longe para te ver.

Depois de tão cansados de brincar,
estreitavam um abraço para dormir
e eu apagava a luz depois de te aconchegar
deixando no teu lençol uma lágrima a sorrir

Não te esqueças daquela pequenina princesinha,
não a deixes sem sorrir, viver sem magia,
não percas o desenho daquela casinha
com uma janela, onde o sol brilhava todo o dia!

Fernanda R-Mesquita






Um dia feliz

Abril- 2009

Felicidade! Sofrer por não a sentir
pela vida toda, é sofrer em vão,
é como angustiar o passo, não deixá-lo ir,
é impor a tortura e cegar o coração.

Hoje estou feliz, amanhã não sei,
nem quero lembrar se ontem não o fui.
no futuro lembrarei das águas em que me banhei
neste feliz e imenso mar que hoje flui.

Se eu fosse deter o meu coração
no dia em que as dores se apresentaram como são,
a minha alma viveria louca, sempre a gritar.

Por isso sorriu, sempre que a noite é mais escura,
desenho-lhe a felicidade, sentido-me segura
de que ela é como o vento... ora a partir, ora a chegar!

Fernanda R-Mesquita






Por vezes a memória falha-me...

Por vezes a memória falha-me, torna-se um véu,
parece invadir-me... que tormento,
mas o que mais me confunde é esse olhar teu
que parece querer abrir-me o pensamento.

Sinto-me como uma seca rosa, sinto-me nada,
rosa perdida, olhando as suas pétalas pelo chão,
vendo cair a noite, esquecendo que houve madrugada,
com vontade de te dizer, " não me lembres... é em vão " .

Na minha pouca lucidez habita a tua agitação,
um tormento desordenado, o que a minha alma sente,
as tuas perguntas são chaves que me fecham na prisão.

Talvez depois destes momentos magoados,
este meu apurado amor, anote na ninha mente
estes instantes... apenas como delicados!

Não, não me atormentes... é em vão
Acredita não é invenção,
não é história,
por vezes, falha-me a memória...

Fernanda R-Mesquita














Tanta maldade que não é inocente...


Tanta maldade que não é inocente, mas sim fria, cuido eu,
oculta num falsa bondade, clemência pervertida,
jura verdade sobre a mentira encarando de frente o céu,
plantando fingida misericórdia  a quem já pouco tem da vida.

De mão gelada envolve a vida numa mortalha e geme
como alguém inocente, de peito brando e puro,
de malvadeza sibilante que não teme
e como quem sabe que demora o castigo duro.

Como noite amarga, destrói a paz, traz a ruína,
como serpente que rodeia a árvore, aperta e tortura,
parecendo mais forte do que a lei divina.

Golpeia o próximo, profanando o segundo mandamento,
transformando a linhagem de Abraão em raça impura
e o Mundo que Deus criou para ser belo, num tormento!

Fernanda R-Mesquita






Porque precisamos de guerra?


Neste mundo de todos e de ninguém,
prevalece um maior poder
e o poder que homem pensa que tem,
por muito que viva, nunca vai o ter.

O homem pode o poder exercer,
outro homem destruir e dominar,
mas certamente nunca vai ter
o poder da natureza abafar!

Ele inventa a guerra e destrói,
ri sobre lágrima inocente...
mata crianças, velhos e não lhe dói,
porque não as vê como gente!

Porque precisamos de guerra,
porque precisamo de destruir,
se a natureza vem e enterra
vidas sem lugar e sem tempo para fugir?

Que olhe, o homem, hoje para Haiti!
Pensa ele que vive onde?
Pensa que não poderá chegar a si
e se chegar, onde pensa que se esconde?

Ah tão desatenta inteligência,
que oca sensibilidade,
tão pobre, sem consciência
e tão exaltada... apenas vaidade!

Fernanda R-Mesquita






Deixa-me ser

Anoitecer- Edmonton-2016

Não me julgues, não te desiludas, deixa-me ser
neste momento uma criança perdida,
deixa com as minhas fracas forças em ti me suster,
deixa-me chorar as minhas mágoas de mulher ferida.

Não me julgues, não perguntes porquê este meu ficar,
deixa-me em momentos de silêncio cair,
não te afastes, não deixes de me abraçar,
sê a minha luz quando de mim a escuridão fugir.

Não te canses, trava comigo uma aliança,
deixa-me sorrir, sonhar sem perder a esperança
que tu és aquele que eu livre posso amar.

Eu não queria nem por momentos ser alma desfeita,
por muito que queira não consigo ser mulher perfeita,
mas sei que sou genuína nesta minha forma de estar!

Fernanda R-Mesquita








Não quero assim

Ardem os astros em fogo quente
no andar lento das horas pesadas,
onde grita a falta de um beijo ardente
e onde as carícias parecem desmaiadas.

E na procura daquelas noites quentes
secam os meus lábios sem emoção,
vivendo na lembrança dos afagos ardentes
e do suor quente que nascia na tua mão.

Não quero um beijo pela metade
dado no canto da boca ao passar,
como alguém que já não sente vontade
e dá um beijo apenas por dar!

Fernanda R-Mesquita


Sinto-te assim

The Ride The Wind Ranch- entardecer- 2015

De tão sincero o teu amor se tornou o meu abrigo,
a tua ternura a minha companheira, a minha luz...
A tua paixão é o meu luar ao estar contigo
e os teus lábios o carinho que me seduz!

E tantas vezes em que a tristeza me cerca,
o teu abraço vem sem eu pedir, protector
e para que minha alma numa ilha não se perca,
sem nada pedir, te ofereces em forma de amor!

Tu és o segredo doce que a vida me deu,
tu és o murmurar que o meu sono acalma,
tu és o ombro onde a minha certeza nasceu,
tu és a paz que vive na minha alma!

A paz que me ofereces é o meu passo seguro e certo.
O teu esquecer de ti para seres o meu céu
me faz crescer o desejo de te ter por perto
sentindo que o teu amor, a minha solidão venceu!

Fernanda R-Mesquita











A minha flor preferida


Um dia sem eu querer
vi a minha alma roubada,
senti o amor nascer...
Principiou uma história encantada!

Alguém em mim sussurrou,
sou eu, o amor verdadeiro!
Foi nesse momento que me aprisionou
de um modo tão sorrateiro.

Sem nunca desistir
com tanta força se deu,
como podia eu fugir
se o meu coração já era seu.

Em marés fortes nos debatemos,
dias e noites desencontrados,
de sonhos e esperanças já vivemos,
que hoje recordamos abraçados!

E agora tão juntinhos
rimos do passado a brincar,
do tempo em que sózinhos
tínhamos vontade de chorar.

Se o malmequer é num jardim
a minha flor preferida,
na vida tu és para mim
a flor por mim escolhida.

Foi por ti, meu amor,
Que aprendi a desfolhar
Cada pétala desta flor,
Com o teu nome a soletrar!

Fernanda R-Mesquita










Fluíste na noite

A nossa rua- Edmonton 2011

Fluíste na noite inspirado a murmurar
palavras  que me fizeram sentir tua,
com cheiro a poesia das ondas de um grande mar
e de grãos de areia iluminados pela lua.

O teu poema foi como uma balada à distância
foi como um hino de amor que me fez rir de alegria,
que acalmou esta  insone e constante ânsia
e que enfeitou o azul da noite  com letras de poesia.

Poema de olhar íntimo que  aqueceu  o meu ser
como um abraço enamorado no canto de um  jardim,
que  do cheiro do mar ostensivo me fez esquecer
seduzida pelos teus braços com aroma de alecrim!

Fernanda R-Mesquita







Chorar? Apenas de saudade, meu amor!


Quero  tornar delicadas
as horas em que espero.
Não quero que as lágrimas calem
o som dos nossos passos.
Não quero tornar a separação
em desespero,
nem  quero que as lembranças chorem em fracos pedaços.

Quero sorrir ao que de  tão belo o nosso amor sentiu,
quer nos dias  em que o sol escaldou,
quer  nas horas em que a chuva caiu.
Perdemo-nos nos mistérios da natureza,
sorrimos com as peripécias de um esquilo,
refrescamos a alma em cascatas de rara beleza,
sempre de mãos dadas, rindo por isto e por aquilo.
Não meu amor, não vou chorar.
Enquanto espero, vou lembrar.
Se chorar, será apenas por saudade, meu amor!

Vou lembrar os dias em que sorri
ao sentir o teu fascínio pelo rio Missouri
e onde a brisa soprava calor.
Ajustámo-nos às longas horas de estrada
em diálogos vivos,
mesmo quando ficávamos calados.
Todas as horas aconteceram
Todas as horas aconteceram
e não sobrou nenhuma para dizer que foi nada.
Não houve paisagem anónima,
não houve horizonte abstracto.


As cabras das montanhas, os veados,
os bois, os cavalos, os pássaros pintados,
os bisontes que saciavam a sede
nos rios ou nos lagos,  que refrescavam
os nossos olhos de terra verde.
Nem mesmo no reino dos índios,
onde a terra se chamava dourada,
onde cheirava a esperança queimada,
a nossa vontade vacilou
e fomos descobrir as terras,  por onde o cowboy andou.
Por mais selvagem e árido
que fosse o horizonte seco e pálido,
uma flor colorida, acolá ou além,  oferecia-se ao vento
numa vontade de ser muito,  mesmo com pouco tempo.
Diante deste entusiasmo, exclusivo da natureza,
que em tão poucos dias nos abriu tantas janelas,
seria uma oferta com sabor a tristeza,
se eu distraidamente, com uma lágrima de dor,
manchasse coisas tão belas!
Chorar? Apenas de saudade,  meu amor!

Fernanda R-Mesquita





A tarde vai a meio

Edmonton- primavera- Beaumaris Lake- 2011

A tarde vai a meio e chove meu amor;
as árvores e as flores deixam-se regar
pelas gotas doces que caem do céu.
É como quando eu e tu, nos deixamos passear
pelos caminhos onde um oculto esplendor
brilha num olhar que é apenas meu e teu.
A tarde vai a meio e chove meu amor;
tudo fala de  tranquilidade,
onde o amanhã será apenas o amanhã
e o hoje a certeza de que ontem,
um sorriso alheio à dor
se entrelaçou na tua e na minha mão,
falando serenamente de amor!

Fernanda R-Mesquita




Não posso

Edmonton- downtown ao fundo- Agosto 2017

Não posso pesar o tempo!
Se o pesar, deliro,
porque o passo sem ti.
Não posso pesar o tempo!
Se o pesar, tornarei
mais pesados os nossos silêncios
cada vez maiores.
Mas também não posso pesar os nossos silêncios!
Se os pesar, viverei atormentada
na delicadeza a que nos habituámos,
com medo de nos confundirmos
em diálogos desencontrados!

Fernanda R-Mesquita







Bruscamente

Edmonton

Madrugada de escuro brusco e leves ais,
igual à tua imagem que se foi bruscamente,
onde já nem a lua vive e brilha mais
para embalar os meus ais docemente.

Não quero desfolhar bruscamente
os sonhos que construí devagarinho,
quero vivê-los sorrindo alegremente
ou passear por eles, falando baixinho.

E nesta saudade ansiosa que me invade,
veste-me uma trémula e aguda dor,
onde resistem os meus sonhos sem idade,
porque eles querem crer no amor.

O ai que gira dentro do meu peito
é o sentimento real que nasce da verdade
que viver este longe, pouco o aceito,
porque pouco se vive, vivendo na saudade.

Fernanda R-Mesquita

O teu abraço

Esse abraço que encontro em teus braços
em que todas as noites procuro sentir,
é o refúgio de todos os meus cansaços
que tu cansado abraças a sorrir.

Refugio o meu rosto no teu peito,
junto às tuas batidas as do meu coração
e nesse teu abraço que parece tão estreito,
as minha vontades às tuas se dão.

Em silêncios ou em palavras dadas,
nos vestimos de poemas, de carinhos
e as tristezas se tornam em brasas apagadas
e acendemos a chama onde ardemos sózinhos!

Fernanda R-Mesquita

Sentimentos silenciosos

Edmonton

Zumbe o silêncio tão certo e poderoso,
neste nosso lar, onde a tua imagem reparto
com aquele momento inquietante e saudoso,
de um adeus que choro neste silencioso quarto.

Calma e silenciosa a neve na noite cai,
tão igual à que cai, aí ao teu redor... alva e fria,
mas nem por isso esta distância se vai,
nem com o partir da noite e o chegar do dia.

E esquadro um olhar suave, tímido e cálido,
falo contigo e escondo que é triste a minha hora
e com a alma rasa de choros do meu peito pálido
não falo da queda das lágrimas, quando foste embora!

Fernanda R-Mesquita






Pequenos nadas


Vem meu amor, devagarinho,
escutar o que eu aqui guardo.
Vem, eu conto-te baixinho
para ouvires bem o que trago
e conheceres o que vive sozinho,
aqui, no meu peito trancado.
Sabes o que mais desejo de ti?
Os teus pequenos nadas!
Sim! Porquê esse olhar que sorri?
Não sabes que os nadas que guardas
tão desprendido assim,
são o tudo que quero ter
assim, dentro de mim?
Aquele sonho sem valor nenhum
e o leve frio que te fez estremecer
e um gesto teu,
que para ti é apenas mais um,
eu queria sentir docemente
que tão naturalmente,
é meu!
Pequenos nadas... pequenos?
Pequenos podem parecer,
mas a um grande amor
não deixam de pertencer!
Porque eu, meu amor,
não amo menos
os pequenos nadas, que para ti
não preciso saber.
Um grande amor
não deixa de sentir dor
quando sente que de um pequeno nada,
germina uma vontade de esconder
e sabe que pode assim... do nada...
uma grande dor nascer!

Fernanda R-Mesquita






Não meu amor, não deixemos


Não meu amor, não deixemos o furor
descer e entrar dentro do nosso coração,
façamos com que não passe de um rumor
para que não nos tornemos estranhos... sem razão.

Não deixemos falar palavras amargas de fel,
que não sinta a nossa boca um amargo profundo,
que não seja o nosso amor chamado de infiel
e que não seja a nossa vida destruída num segundo.

Que sejas sempre tu, aquele que em amor me enlaçou
neste misterioso sentimento... tão ardente!
Eu serei sempre aquela que sempre tanto te amou
e um dia lembraremos este dia triste... vagamente!

Fernanda R-Mesquita









Horas longas


Em cada madrugada, ainda hora escura,
partes e eu parto contigo de modo discreto;
desassossegado, o meu suspiro pelo teu procura,
comandado pela vontade de te ter por perto.

E em cada força de ti, existe em mim um raio de luz,
que nasce à hora certa do teu chegar,
que me transforma em onda sedutora que o teu corpo seduz,
insónia pura da hora que temos para descansar!

E a espera que me amordaça e entontece,
é um navegar em tormentas e desconhecidas neblinas,
em horas tão tontas em que a razão não me obedece,
em esperas de longas horas que eu queria pequeninas!

Fernanda R-Mesquita










Aquilo que o artista esqueceu


A trovoada,
a chuva
e o sol
que apesar de tudo
ainda espreita,
são uma obra de arte
esculpida e exposta
nas linhas do artista,
mas ele esqueceu da tua brisa fresca
na minha pele.
A cortina esvoaça leve pelo quarto
e fala do vento.
A tarde cai tranquila
e eu,
quer feche os olhos ou olhe o tempo
crio de modo simples mas intenso,
aquilo que o artista esqueceu:
- A tua brisa fresca que me aquece...
trecho lúcido deste amor imenso!

Fernanda R-Mesquita

Vestígios


Sinto na tua camisa lavada,
neste tecido que abraço
a tua pele marcada,
do teu corpo que adormeceu
vencido pelo cansaço,
descansando sobre o meu.
Lanço o olhar aquela hora
em que o teu respirar se perdeu
no meu peito que agora
respira triste sem o teu.
E sobre este tecido que aperto
cai uma lágrima cansada
como um grito que cai certo
na tua camisa lavada!

Fernanda R-Mesquita












Petição


Que não se apague a verdade... a luz,
que não se acendam os desenganos,
que não caia o céu sombrio... que reduz
a nada, o que para se erguer, levou anos.

Não deixes que de um sonho perfeito,
nasça um desvairado  mar de bruma,
que não morram os meus sonhos quando me deito
e não expirem as nossas lembranças... uma a uma.

Não deixes que o nosso amor, meu amor,
se desfaça em fragmentos... devagarinho!
Deixa sentir que é bom amar, amar sem dor!
Que cante de júbilo, o beijo fiel... no nosso ninho!

Fernanda R-Mesquita