quinta-feira, 21 de setembro de 2017

Na textura da noite




Na textura da noite
o piar melancólico de uma coruja
inspira o poeta
a tocar os sonhos
com as pontas dos dedos.
Ao longe
ouço o piar melancólico de uma coruja;
na mesa, o papel converte-se a pio
e eu a ave noturna.



(foto- Ride the Wind Ranch 2016 )


Fernanda R-Mesquita

segunda-feira, 18 de setembro de 2017

O homem da flauta de pã


Como seda lavrada caíam as horas noturnas
sobre a casa pela gigante figueira abrigada,
para escutarem a hora serena no adeus do dia:
- O grilo completo de talento
 saía da toca espalhando magia.
O homem com a sua flauta de pã,
fina música, historiava o tempo...
Em disciplina a água do rio,
banhava os pés de uma rã,
(humedecendo a sua pele esverdeada)
que sobre a pedra molhada,
abrigada pela gigante figueira,
coaxava em tom baixo
para a lua que serenava no fundo do rio, deitada.
A mansidão e a harmonia da hora,
como uma corda entrançada,
reestabelecia o equilíbrio entre os últimos dias de vida
e a solidão da vida do homem de idade avançada,
que tocava flauta de pã
nas horas noturnas da casa pela gigante figueira abrigada.

Depois de um anoitecer onde tudo se silenciou,
um estranho herdeiro chegou,
à casa pela gigante figueira abrigada,
(um herdeiro que não conhecia a serena melodia)
e não viu nada;
não viu a rã de pele esverdeada,
não viu o grilo com a sua alegria e talento
pois pouco sabia
do homem da flauta de pã,
que na hora serena do adeus do dia,
historiava o tempo.

Eu ainda ouço o som alegre do grilo,
o coaxar da rã
chamando pelo  homem da flauta de pã.

Fernanda R. Mesquita




domingo, 10 de setembro de 2017

O Joãozinho

Joãozinho já estava a ficar grandinho,
já comia sozinho,
já passara a idade de usar babete...
Mas um dia, no dia em que fazia sete aninhos,
a mãe estranhamente amorosa disse:
- Comprei-te um babete com o número sete.
Hoje tens de o usar. Vá senta-te.
Está quieto,
hoje é dia de festa.
Pronto... assim... toma.
Hoje, quem te dá a sopa, sou eu.
Não vás por nódoa no fato novo...
Não está quente, não vês que estou a soprar?
Bonito, comeu a sopa toda!
Limpa a boca, toma o guardanapo.
Não te amarrotes,
a roupa nova vai parecer um trapo...
Daqui a pouco os convidados estão a chegar!

Não, não comas chocolates...
Só depois de cantarmos os parabéns.
Não passes a mão no cabelo!
Está quietinho,
vais entortar o lacinho!
Quieto não torças o nariz,
vão pensar que nem maneiras tens!
O que foi? Não estás feliz?
O que foi? Porquê essa lágrima?
Não gostas do fato novo?
Não?
Não gostas das senhoras que vieram à tua festa?
Olha que elas têm muitos presentes!
Também não gostas?
Hum...
Olha espera, fecha os olhos!

Um pouco depois,
o Joãozinho ouviu a mãe bater palmas,
abriu os olhos e viu...
Ah, que lindo;
os seus amigos
cheios de sorrisos que pareciam  coloridos balões
e as pernas tão livres dentro dos calções...

Mas porquê esse olhar?
Porquê esse beicinho? Pareces querer chorar!

Joãozinho olhou para baixo...
Como dizer que não gostava da roupa nova?
Nem se podia mexer! A roupa brilhava tanto,
mas tinha um ar tão austero,
ordenava-lhe que ficasse quieto a um canto.
Como dizer-lhe; tira-me isto, não quero!

A mãe que o entendeu
enfrentou o exame critico das senhoras;
retirou-lhe o lacinho,
afinal dava-lhe um ar tão aflitinho,
como se estivesse a explodir.
Tirou-lhe o colete,
pegou na tesoura, cortou-lhe as mangas da camisa
e o Joãozinho começou a rir...
A mãezinha contagiada pela felicidade do menino
arregaçou-lhe as calças até aos joelhos,
retirou-lhe os sapatos de verniz
e deixou-o andar descalço...
E o Joãozinho correu, saltou
brincou como se dissesse,
obrigado mãe por me deixares ser feliz!
Houve um momento que olhou a mãe
que aflita, ao ver o filho parado
já pensava,
-O que foi? O que é que ele está a sentir?
Ah, mas viu o Joãozinho a correr para ela a sorrir,
cair no seu regaço,
estreitando-a num abraço ...
E como ela se comoveu
quando ele lhe segredou;
obrigado mãe, por me deixares ser eu!

Fernanda R. Mesquita





sábado, 9 de setembro de 2017

Rio Alcabrichel


Habituado a longas avenidas, o mar,
quis fazer história;
tatuou o porto e fè-lo Porto Novo,
propôs-se a rio
e até hoje,
cochila terno entre as rochosas serras

Fernanda R-Mesquita

Foto- Portugal, Porto Novo, 27 de agosto-2017











segunda-feira, 4 de setembro de 2017

Ride the Wind Ranch




         A duzentos e dezoito quilómetros de Edmonton, 
no centro-oeste de Alberta, Canadá, na confluência dos rios Clearwater e North Saskatchewan e com uma longa história que vem desde o século XVIII, fica situada a pequena cidade Rocky Mountain House. Ela serve de marco na mudança, não apenas da estrada mas de toda a paisagem que nos conduz em direção ao Ride the Wind Ranch. Funciona como um filtro, esvaziando-nos da poluição sonora e de toda a correria do dia a dia, a estrada de gravilha que rompe léguas e léguas da frondosa e extensa floresta. 
 Vinte e um quilômetro depois de Rocky Mountain House,  surge a indicação; ´´Ride the Wind Ranch``. Quanta vida palpita protegida por toda aquela extensão de árvores! Do lado esquerdo os grous-canadianos convivem em paz com os bois. Do lado direito, dois coelhinhos brincam livremente. Paramos ao lado da casa. No cimo das curtas escadas de madeira, à porta de entrada, surge Kathy Rissi que acolhe-nos calorosamente. 
      Depois de dizermos olá à nossa cabine, vamos até ao alpendre do escritório do Sheriff, onde nos espera uma churrasqueira ao ar livre. Enquanto os alimentos libertam os seus aromas, alguns cervos olham-nos curiosos, e sobre as nossas cabeças as irrequietas andorinhas batem energicamente as longas asas. 
             Saboreamos o jantar enquanto o sol vai dourando as copas das árvores. Devagarinho vai deixando o céu, meio violeta, meio alaranjado. Sem pressa chega a noite. E a lua é o lampião para que as magníficas silhuetas dos cavalos, lentamente e graciosamente, se misturem nas sombras.
          Dez da noite e nós descansamos na confortável cama da cabine, onde a Internet e a televisão não ocupam espaço. Pela mão do silêncio, a quieta noite anima a nossa imaginação infantil; rimos e cochichamos histórias imaginando-nos crianças assustadas.
            São dez da manhã e enquanto degustamos o pequeno almoço preparado por Kathy, as palavras fluem. Kathy explica o que os  movera, a ela e ao marido, a sair da Suíça: mais espaço, silêncio, contacto com a terra e com a vida animal. Conta-nos uma história engraçada:
        ``- Um verão, o nosso gado pastava nas nossas terras, do outro lado da estrada. Como o  pasto é muito grande, com algumas partes dentro da floresta, nem sempre eu os conseguia ver. A um dado momento o telefone tocou. Era um vizinho a informar-nos que vira o nosso gado a uma milha daqui. Eu e Marty selamos os cavalos, e durante meia hora, cavalgamos pela floresta pública. Um tempo depois, já na estrada de cascalho, encontramos um outro vizinho de carro que nos informou que vira os nossos animais. Quando os encontramos, eles já estavam perto de casa. Eles caminharam quase em círculo, cerca de seis milhas, através da floresta espessa. Foi comovente sentir como eles encontraram o nosso lar.´´
        Hora de dizer adeus aos gentis cavalos que nos cercam amistosamente. Faço amizade com ´´Night``. Ele segue-me e pede carícias. Kathy explica:
        - Ele nasceu no nosso rancho, há oito anos. Seu pai é o cavalo preto e branco Mescalero e sua mãe é a égua preta, Dakota. Temos um livro, enviado pela própria autora, Lucia St.Clair Robson, que fala sobre os índios Comanche e há um cavalo chamado ´´Night``. O livro tem o nome do nosso rancho e está muito bem escrito.
      Entramos no carro. Um último olhar.  Kathy, a gentil anfitriã, vai ficando para trás. Imagino-a a cuidar da sua família com a paz e o amor que a ampla paisagem, que entra pelas janelas da casa, lhe oferece. Talvez na magnífica varanda lendo um livro ou simplesmente descansando, ou ainda, cavalgando livre pelos prados e florestas. Eu vou entrando numa outra sociedade, barulhenta e surda, prometendo a mim mesma que voltarei e trarei comigo a revista Ponto & Vírgula que fará parte da biblioteca do rancho, onde a escrita em língua portuguesa, esperará por outros hóspedes que gostem e saibam ler em português.
      Para além do fantástico silêncio podemos caminhar, cavalgar, nadar ou andar de barco pelos lagos, apreciando toda a vida selvagem. No entanto, para além da beleza do lugar, há a essência encantadora desta família que que nos faz voltar e voltar...


Texto que saiu na revista: Março- 2016

       





Pode visitar o site do rancho aqui: