segunda-feira, 23 de outubro de 2017

Lutas invisíveis

         

 A casa parecia cheirar apenas a água a ferver. Tem cheiro, a água, quando ferve? Neste caso, sim. As bolhas libertavam o cheiro da pressa. Saltavam, ansiosas por transformar as  batatas em puré.  Entre os meus dedos da mão esquerda um pobre tubérculo gemia, enquanto a direita manejava a faca, atingindo-o com duros cortes. A poesia... ah, a poesia ficara à minha espera. ´´ Que espere por melhores horas ``- pensei. Naquele momento a poesia era outra; a dos tachos, à luta com o meu cansaço.  Mais um pouco, o derrotado tubérculo, seria um vaidoso puré de batata nos pratos, que já esperavam na mesa. Os convidados estavam ausentes. Encontravam-se na sala ao lado, mas ausentes.  Eles não sentiam nem um pingo de curiosidade. Se assim fosse, teriam movido a cabeça, enquanto eu desabafava o meu enfado, batendo com mais força do que a necessária, com a colher de pau nos ombros do tacho que suava a bom suar. E o pobre pano da cozinha? Convertido a rodilha, experimentou a força de uma mulher aborrecida. 
         Sempre gostei de cozinhar, mas nem sempre nos momentos em que os outros me querem na cozinha. A poesia esbracejava em um outro universo, impaciente que eu lhe desse autorização de se manifestar. ´´ Que coisa! A poesia também precisa ser paciente! Não? `` Ela segredou-me que não. Desabafou: ´´a espera aniquila-me``. 
         Agora comam que eu vou escrever- senti vontade de dizer. Contive-me, sentei-me na mesa. A poesia brincou de rio dentro do meu copo de água e de jardim na jarra de flores.  Nem me deixava mastigar. Nunca ansiei tanto que todos terminassem de comer. ´´ Ah, mas depois de todos satisfeitos, quem arruma os pratos sujos?``- pensei levantando-me.
         Os pratos tremiam de medo nas minhas mãos, Elas quase que os afundavam no pobre do caixote do lixo, que por sua vez quase se engasgava, tal era a velocidade e fúria com que o obrigava a engolir os restos de comida deixados pelos convidados. A poesia, essa coitada, já desaparecera. Ocupara o seu lugar, a desilusão, por eu mesma lhe ter feito o funeral. 
Horas depois... muitas depois... Após aquele período em que eu tentei deitar a cabeça na almofada e chamei, em vão, o sono.  Ele decidira ficar de folga. Quatro horas a remexer-me na cama, imaginando a poesia a remexer-se no túmulo. Levantei-me, com todas as minhas forças, busquei a pá e decidi desenterrá-la. Não havia outro caminho. Quando a libertei, derramou-se em queixumes. Que poema triste ela escreveu! Mas depois de terminado, senti-me renovada. Que doce refrigério na minha alma! Poder desabafar num poema o que gostaria que os outros entendessem sem que eu falasse. 
         O mundo familiar é cheio de botões secretos. Alguns nunca chegam a ser acionados. O amor enferruja, constantemente na fechadura da porta. Por vezes espreita, quase pergunta se pode entrar, mas depois, encolhe-se; lá dentro o dever ocupa toda a casa. Uns esperam sentados, iguais a convidados que não conhecem os cantos da casa, que alguém cumpra o dever e esse alguém transpira, convencido que tem de dançar a valsa dos outros e de suportar o mundo no seu dorso. 

CONTOS

Lutas invisíveis

Autora: Fernanda R-Mesquita 
publicado naSala de Leitura - Site do Escritor



Doux crépuscule


Dans la main du crépuscule
j'accepte ce qu'il offre;
entre le ciel couvert,
et le bois tranquille
il y a une douce harmonie
disant bonsoir à la nuit,
et au jour, à demain,
si doucement...
Sans négations,
traumatismes,
frustrations,
juste le crépuscule
plein d'altruisme

Dans ma main
mon crépuscule est là
je suis calme, moi
avec cette douce poésie, douce,
si douce dans mon âme
Comme je suis calme!


Caressant mon cœur,
sans peur,
les doigts
de Brigitte Engerer
impliquées dans la magie
sans vouloir savoir s'il fait jour,
 s'il fait nuit,
à jouer Nocturnes de Chopin...
Quel beau moment!

Sublime nuit
qu'au lieu d'assombrir
remplit
la terre de lueur
et inspire les doigts de Brigitte
à jouer Chopin avec un tel amour ...
même si le ciel est couvert
et le bois tranquille...
C'est la vie des chemins ouverts.

Fernanda R-Mesquita


quarta-feira, 11 de outubro de 2017

Profissionalismo para além da aparência ou idade



 
    8h da manhã. Vesti o casaco, enrolei o cachecol em volta do pescoço, coloquei a mala no ombro, abri a porta. Ao chegar à rua inspirei o ar gelado. Realmente gelado. Era o primeiro dia de primavera. Uma primavera preguiçosa. A neve continuava a cair. Tudo era branco, branco, branco. E tendo os meus olhos limitados ao branco, dirigi-me com cuidado, caminhando sobre o gelo que cobria o chão,  até à paragem do autocarro. Pouco depois ele chegou, parou e eu entrei. Ao entrar aqueceu-me a alma, porque o corpo levaria um pouco mais de tempo,  um grande sorriso e um entusiasmado:

      - Bom dia! Como está?-  cumprimentou o motorista,  a que eu respondi também com um sorriso e um muito obrigado.
    Este grande cumprimento, não foi dirigido apenas a mim, mas a todos os passageiros que iam entrando e saindo. Foi como um raio quente, num lugar tão gelado!  Esta simpatia faz parte de um profissionalismo, que tenho o prazer de  encontrar,  não apenas nos autocarros, mas nos mais variados serviços ao público, aqui em Edmonton. Isto resulta num cliente satisfeito. É muito bom sentir que, quem nos está a prestar um serviço, não o está a fazer por obrigação. Que não nos olhe , como se dissesse ´´ Despache-se. Tenho mais gente para atender. ``
      Este resultado positivo é consequência de, quando alguém  se candidata a um emprego, poderá descansar na certeza de que não será escolhido pela aparência ou pela idade. Posso ver em qualquer local de trabalho,  pessoas de todas as raças, idades e muitas vezes com uma aparência  que infelizmente em muitos outros países, sobretudo na Europa, não seriam aceites. Talvez quando o aspeto físico ou a idade deixarem  de ser um requisito para alguém conseguir um emprego, tudo comece a funcionar melhor, nessas tais sociedades, que gastam boas somas de dinheiro, entrevistando gente que precisa de trabalhar e não gastar horas em filas de espera. Procuram modelos perfeitos que oferecem ao cliente, um atendimento que contradiz a melhor das aparências. Mais uma vez, se a prioridade for a qualidade e não a aparência ou a idade, um bom número de  pessoas que sofrem discriminação, poderão mostrar que valem muito mais do que aquilo que a sua figura externa mostra. 

Fernanda R-Mesquita
(foto, Edmonton- dezembro- 2011)



segunda-feira, 2 de outubro de 2017

Na textura da noite- poemança




Já está concluída a Folhinha Poética 2018, que tem como homenageada Nathalie Bernardo da Câmara.
Para baixar a matriz, entre no blog através do link

http://folhinhapoetica.blogspot.com.br/p/folhinha-poetica-2013.html#.WMcO7TsrLIU 




folhinhapoetica.blogspot.com.br
A matriz da Folhinha Poética bem como a do Calendário Perpétuo é composta de 185 folhas A4 com imagens duplas em um só lado. É simples: Imprima, corte as folhas ...

Enquanto dormes- poemança


O corvo e a tempestade- poemança




poemança: 9mai2015 Fernanda R. Mesquita

folhinhapoetica.blogspot.com/2015/05/9mai2015-fernanda-r-mesquita.html



Lágrimas- poemança









 Calendários de poesia por Jorge Amaral de Oliveira
Um excelente e altruísta trabalho 

A chuva







«Pinga, pinga levezinho,
cai a chuva sem um ai»
-canta feliz o passarinho, 
à chuvinha que cai. 

E num pingo transparente, 
responde a chuva ao passarinho: 
 - Para um lugar mais quente, 
voa, voa e faz o teu ninho! 

Cai na árvore, o pinguinho, 
quer nela  descansar
e refrescá-la devagarinho
para a árvore não secar. 

E a flor que até então
vivia com tanto calor,
escuta e sente a canção
que a chuva canta com amor:

-Pingo a pingo, devagarinho, 
sem saber quantos pingos são,
vou regando com carinho
a terra seca pelo Verão.

Pingo a pingo, devagarinho... 

Fernanda R-Mesquita





O Outono







O  Verão adormeceu
e o Outono chegou
o verde se rendeu
e de dourado se pintou

O dia grande fugiu
a noite longa chegou
o sol quente partiu
porque a terra rodou.

As aves ensinaram
às crias que ouviram
e juntas treinaram
o voo em que partiram.

Fresquinho,  fresquinho
o menino sentiu
vestiu um casaquinho
e o Outono sorriu.

O Outono e o menino
muito brincaram
e um verso pequenino
juntos cantaram:

-O  Verão adormeceu
e o Outono chegou
o verde se rendeu
e de dourado se pintou.

Fernanda R-Mesquita

O mistério de Alf



Faz de conta


Joaninha acorda e espreita à janela
 vê  a neve, tão leve, a cair
e faz de conta que a terra branca é uma tela
onde passa um filme para rir.

Cria o Pinóquio a espreitar
e o seu nariz a crescer,
porque não resiste a inventar
que a neve está a derreter.

E  o pai Gepeto desesperado,
porque fez um boneco que mente
um pouco desalentado
 desabafa a tristeza que sente.

Não falta o Grilo falante
bem humorado e sábio amoroso
que explica num um ar elegante
como é feio ser mentiroso.

Joaninha olha um pouco mais à frente
 faltam os reis da festa, onde estarão?
Logo chega a Branca de Neve, tão contente
  seguida pelo Mestre anão.

E neste faz de conta encantado
seguem-se os outros seis anões
Soneca, Dengoso, Feliz, Atchim, Zangado
e Dunga, o único sem barba,
saltitando aos empurrões.

Num esconde- esconde engraçado,
riem os porquinhos do Lobo Ruim
que chora desesperado
e grita que a história não é assim.

Olha a Sininho que  voa tão bem,
atrás do Peter Pan, rápido, pois então,
assustando o Capitão Gancho que  tem,
um gancho no lugar  da mão.

Passa uma cabaça a correr
do conto "A velha e a cabaça",
mas a velha nem dá para ver,
de tão depressa que passa.

E são tantos,  os  que vão passando,
todos os que Joaninha imagina rindo
uns refilando, outros brincando
nos cristaizinhos que vão caindo.

Fernanda R-Mesquita


O pintainho






piu piu
o ovo tem um buraquinho,
foi o pintainho que o partiu
porque já se sente crescidinho.
piu piu
mais um buraquinho ele fez
e assim ele saiu
e sentiu o ar pela primeira vez.
piu, piu
olhou a mãezinha que tinha,
que olhou para ele e sorriu
com orgulho de mãe galinha.
piu, piu
e da mãe foi atrás
e contente sentiu
que de correr era capaz.
piu, piu
O que o pintainho viu?
- O que depenicava a mãe galinha
  com tanto gosto?
- Grãozinhos de milho!
- exclamou bem disposto.
piu, piu
outra vez a correr,
desta vez descobriu
água fresca para beber.
Mas por fim o piu piu
pediu à mãe para ir para casa
a galinha olhou para ele... sorriu,
levantou a asa
abraçou o pintainho, e o piu piu
não fez mais piu piu
porque toda a noite dormiu!

Fernanda R-Mesquita


A borboleta

Pela verde couve
passeava a lagartinha
 devagar, caladinha.
Parecia nada ver, nada ouvir,
mas devagar,  devagarinho
a lagarta de mansinho
fez daquela caminhada,
uma hora de magia
 e num certo  dia
 sem se mostrar cansada,
ganhou asas de tantas cores,
como borboleta
pela terra voou,
muitas vezes  pousou
no néctar das flores...
Foram poucos os dias,
aqueles que viveu
mas foram grandes as alegrias,
todas as que pôde ter,
porque ao viver alegremente
deixou uma  lagartinha contente
e outra borboleta nascer!

Fernanda R-Mesquita

Os pardais







Os pardais são engraçados,
traquinas e saltitantes,
sem nunca parecerem cansados,
cantam, cantam radiantes.

Felizes parecem viver,
voam, voam sem cansar,
o galho, podem escolher
ou o telhado para pousar.

E as árvores com as suas folhinhas,
umas verdes outras amarelas,
riem-se como tontinhas
quando os pardais pousam nelas.

Muitas vezes eles vão
à água para refrescar,
que engraçados que eles são,
nunca param de cantar.

Que aves tão ágeis,
com voos rápidos por segundo,
por vezes parecem frágeis,
outras senhoras do mundo.

Quem me dera a mim ser
ave para poder voar,
 a nenhum espaço me prender
e em qualquer lugar  pousar!


Fernanda R-Mesquita

Pardais em Edmonton- Fotos de Marcos Alexandre

O Risquinha




´´ Se vocês querem saber,
da minha sesta está na hora,
por isso não me queiram ver
a correr ou a saltar agora.

Miau! Está tanto calor!
Eu preciso de descansar,
deixem-me dormir, por favor!
Prometo à noite ir brincar!``

Deitado no chão fresquinho
sonha meio a ressonar,
que um pouco de ventinho
o está a refrescar!

Sonha com água fresquinha
pronta para ele beber;
deliciosa e tão limpinha!
Miau! Que bem lhe vai saber!



E dorme assim, o Risquinha,
numa tarde ensolarada
uma sesta descansadinha.
Miau! Só quer dormir... mais nada!

Fernanda R-Mesquita


O burrinho Zeus




O Zeus nunca se cansa
é um lindo burrinho,
um animal giro  de confiança
que não gosta de andar  sozinho.

Quando acorda, acorda também
o Pedro para vê-lo,
para isso de zurrar tem
e o Pedro logo vem,
para afagar o seu   pêlo.

E os dois partem então,
cheios de aventura e alegria
e o burro  brincalhão  leva o Pedro,
para o mundo da fantasia.

Leva-o no seu dorso
e atravessa uma ponte,
passa perto de um poço
e bebe água da fonte.

Às vezes olha para trás,
de olhar atento para ver,
se o Pedro é capaz
de se segurar e não se perder.

Vai o Zico,  o passarinho,
ao lado deles a voar.
Vai o Rufia, o cãozinho,
ao lado deles a saltitar.

E todos seguem sem medo
um burrinho chamado Zeus.
Parece nada ser segredo
para este burrinho
que tem o nome de um Deus!

Canta o Zico, o passarinho
e o cão a ladrar,
sem entenderem porque  de burrinho,
ao burro teimam em chamar.


Fernanda R-Mesquita

O professor Secundino




Entrei na sala de aula
e com um pouco de medo tremi,
quando vi
 o professor do primeiro ano,
tão grande dentro da sala...
Um gigante; foi o que senti.
Era o professor Secundino
cá para mim de meter medo
e que parecia guardar o segredo
que antes de ser  grande
nunca fora pequenino.
Tímida de olhos no chão,
olhei os pés... que grandes!
Depois as pernas... tão altas!
Depois o tronco... tão forte!
Até que encontrei os olhos
e que  engraçado,
tinham um olhar brincalhão.
Ainda atordoada percebi  ele dizer:
 - Sentem-se!
Sentei-me e olhei em volta
e vi a alegria solta
no contente olhar
de todos os meninos,
que já sem medo de falar
sentiam que o professor Secundino,
ali de pé à nossa frente,
não era apenas um gigante
mas que era gente
e que já fora pequenino!

Fernanda R-Mesquita


A casinha que sonhou ser pássaro

Era uma vez uma casinha
que sonhou ser pássaro
fez-se leve, levezinha
soltou-se do chão
encheu-se de ar
e toda contentinha
dos passarinhos da árvore
fez-se vizinha

Fernanda R-Mesquita

Vamos contar de um até dez


Cá, cá rá cá cá
Grita aflita a galinha!
-Preciso de calor já,
nove amigos de pele quentinha

Preciso dos meus ovos chocar
de nove amigos para aquecer
para dez ovos guardar
  e no calor manter

1- Um, o gato vem a correr
2- Dois, o coelho dá um salto
3 e 4- Três e quatro, o pato traz a mulher
5- Cinco, o pombo vem lá do alto

6- Seis, o burro se apronta também
7- Sete, e o cão chama a ladrar
8- Oito, o rouxinol que a cantar vem
perto dos ovos poisar

9- Nove, com a galinha são
10- Dez, falta um para o dez
  diz o galo bonacheirão
cantando com altivez

E a vaquinha atenta  vigia
  o círculo quente que se fez
e conta com sabedoria
os números de um até dez

E para a todos animar
conta vez após vez:
- Um, dois, três, quatro, cinco a somar
  a mais cinco, igual a dez!

Fernanda R-Mesquita


O gatinho preto

           

 Num mágico saltinho,
pula o gato no ar,
ele é todo pretinho
e gosta de brincar.

Corre ligeiro
 para descontrair,
faz passo mágico
para se divertir.

A brincar também,
finge que foi embora,
pensa esconder-se bem
mas deixa o rabo de fora.

Se quer um carinho
é vê-lo a rebolar,
pede um miminho
no chão a miar.

Fernanda R-Mesquita

Hoje faço um aninho





 Eu sou o Martim
que hoje faz um aninho
e quem gostar de mim
vai dar-me um beijinho.
--
Traquina eu  sou
e às vezes barulhento,
 para a caminha sei que vou
quando fico rabugento.
--
Mas hoje quero brincar
com o avozinho,
o tio quero abraçar,
 à avó dar um carinho.
--
Já me ponho de pé
rio à gargalhada,
ao avô puxo o boné
e a avó deixo cansada.
--
Quando faço confusão
a mãe chama-me  furacão,
o pai com alegria
diz que tenho energia.
--
Quando fico cansado
gosto de dormir,
ao paizinho abraçado
com a mãezinha a sorrir.
--
Eu sou um bom menino
que hoje faz um aninho,
eu sou pequenino
quem me dá um beijinho?
---
Fernanda R. Mesquita

Parabéns Martim!
Muitos beijinhos!




Fernanda R. Mesquita