segunda-feira, 27 de novembro de 2017

O mundo está ali



O mundo está ali, mesmo daquele lado,
no entanto tudo o que vejo mexer
é apenas uma lebre, que sentada no relvado
aprecia a paz da noite a nascer.

O mundo está ali, mesmo daquele lado,
apenas uma porta me separa dele, tão transparente...
No entanto o meu corpo não se mexe, fica sentado,
olhando em redor como quem nada sente.

Sentir o quê? Se tento agarrar algo, tudo foge mais.
A minha coragem ficou cansada.
Porquê viver de sonhos onde apenas os ais,
parecem querer ficar no fim de cada jornada.

Olhando a noite em que o mundo mergulhou,
consigo ver a lebre que adormeceu deitada
num pedaço de relva, que no grande mundo encontrou,
enquanto eu me perco no escuro da casa... sentada.

Fernanda R-Mesquita




domingo, 19 de novembro de 2017

A revista Ponto & Vírgula em Paris





              A grande aventura de Irene. Apenas ela a pode descrever. O que, então,  poderemos dizer? Falar da alegria que sentimos, quando, ainda que longe, verificamos que alguém que nos é querido está realizando um sonho. Quando nutrimos sentimentos sinceros por alguém, sentimos felicidade quando essa pessoa está feliz. Os mais pequenos gestos se tornam gigantes, fluindo energias tão fortes capazes de ultrapassar qualquer distância física. Irene viajou do Brasil até Londres e depois até Paris, levando na bagagem alguns frutos da sua luta; alguns exemplares da revista Ponto & Vírgula. Cerca de um mês antes de partir ela vibrava com a vontade de realizar um dos seus sonhos: entregar a revista no Teatro Le Point Virgule.
                Eu nunca duvidei que ela fosse capaz. Conheço a sua determinação. E ei-la, em Paris, na entrada do teatro Le Point Virgule!
           Eu, daqui, num outro continente, sorria imaginando o seu desassossego enquanto não visse o seu sonho concretizado. Agora, neste momento, pulo de contentamento ao colocar estas fotos aqui. 
                      Parabéns Irene! Os sonhos são possíveis realizar, sim!

Fernanda R-Mesquita





Irene Coimbra entregando a revista Ponto & Vírgula na Biblioteca da casa de Daniele, também sua  anfitriã, em Saint Georges du Montaigu!




Boa leitura Irene e Daniele
















sexta-feira, 17 de novembro de 2017

Leitura de ´´Vamos gozar a vida`` e ´Histórias de Arquibaldo`` de Cezar Augusto Batista




Recebi, há cerca de dois meses, dois livros de Cezar Augusto Batista. Inicio esta minha apreciação sobre as suas obras, pedindo desculpa pela minha demora em responder. ´´ Honestly´´ , como diria o bom canadiano, é um defeito que me acompanha; demorar a responder. Mas nunca é esquecimento e quem me conhece, sabe disso. Deixo cozinhar todas as sensações provocadas pela leitura e, por uns tempos, degusto a companhia de cada texto, cada mensagem e cada personagem. Pois, como qualquer conclusão ou apreciação precipitada, sobre algo, pode empobrecer  o valor das ´´coisas não ditas``, as aparentemente ignoradas, mas presentes nas entrelinhas.
Preciso dizer que me rendi ao bom humor literário do autor. Para partilhar a minha opinião convosco decidi realçar algumas passagens das obras ´´Vamos gozar a vida`` e ´´Histórias de Arquibaldo``.

´´Vamos gozar a vida``

Ri a bom rir com algumas histórias. Uma delas fala sobre um português que queria perder peso. Ao concluir que continuava igual, decidiu despir peça a peça. Conforme se ia livrando delas, pesava-se. Amaldiçoou a balança. Ela continuava a apresentar-lhe o mesmo peso. Pudera; despira-se, mas, mantinha no braço, cada peça de vestuário, incluindo os pertences dentro dos bolsos.
Numa ligeira análise, poderia ser apenas uma história engraçada, mas analisando bem, e foi isso que concluí nas obras de Cezar, cada uma, apresenta uma outra vertente; verdades embuçadas nas culpas que atribuímos aos outros ou a determinada situação, quando os nossos objetivos não são atingidos. Na forma como vestimos e explicamos as nossas derrotas, nem reparamos que cada um de nós tem a tendência para carregar os velhos hábitos, muitas vezes por um suposto conforto ou por vício.
Outro conto que merece destaque é  ´´ Violência doméstica``. Fala de Datena, uma mulher violentamente espancada e estuprada pelo marido. Muito reclama ela! Mas como todas as grandes causas existe sempre o outro lado da verdade. Datena reclama quando o marido a agride e quando não o faz. Alega que sente falta das agressões, que estranha quando ele está calmo. Muito se poderia falar sobre as grandes causas. Elas carregam certos exageros de ambos os lados; dos ofensores e dos defensores. Eu sou a favor do equilíbrio, da defesa de igualdade pelo ser humano. Sei que muitos evocarão os grandes crimes cometidos, ao longo da história, contra o ser feminino. Realidades que abomino e lamento que ainda aconteçam em certas etnias. No entanto, essa verdade, não nos pode levar ao outro lado. Muitas mulheres, aqui no Canadá sentem-se fortes pela proteção que lhes é atribuída e usam e abusam do direito, usando a mentira para obterem o favor dos tribunais. Como disse, sou a favor da igualdade e não de leis que dão força, quer ao homem ou à mulher de abusar do seu semelhante. E para finalizar, a verdade é que infelizmente ainda existem muitas Datenas. 

´´Histórias de Arquibaldo``
´´Mentira para o neto``. Um conto, entre tantos outros que o livro contém, que fala sobre o termo ´´amigo``. Rogério fala para Arquibaldo sobre o passeio que dera com o seu neto e o encontro que tivera com um colega de trabalho. Não fora o encontro que o incomodara, mas a forma como apresentara o colega para o seu neto; como amigo. A isto o neto perguntara-lhe: ele é de verdade teu amigo? Rogério tomara consciência da falsa definição. Não é raro, infelizmente, o atributo de amigo a qualquer conhecido. A palavra amigo é usada das mais variadas formas e por diversas razões. Nem sempre as melhores. Tomemos consciência!
Desculpe-me Cezar pela extensa ´´crítica``. Os seus livros levaram-me a isso e se desse asas a todas as ´´provocações`` dos mesmos, escreveria um outro livro. Muito obrigado Cezar, pela leitura que me proporcionou.



Fernanda R-Mesquita





Sinto-te assim



De tão sincero o teu amor se tornou o meu abrigo,
a tua ternura a minha companheira, a minha luz...
A tua paixão é o meu luar ao estar contigo
e os teus lábios o carinho que me seduz!

E tantas vezes em que a tristeza me cerca,
o teu abraço vem sem eu pedir, protector
e para que minha alma numa ilha não se perca,
sem nada pedir, te ofereces em forma de amor!

Tu és o segredo doce que a vida me deu,
tu és o murmurar que o meu sono acalma,
tu és o ombro onde a minha certeza nasceu,
tu és a paz que vive na minha alma!

A paz que me ofereces é o meu passo seguro e certo.
O teu esquecer de ti para seres o meu céu
me faz crescer o desejo de te ter por perto
sentindo que o teu amor, a minha solidão venceu!

Fernanda R-Mesquita


Aqueles que me rejuvenescem o espírito



Luto para não estagnar entre a vida
e esta sombra que persiste em ocultar o sol
dentro de mim.
Recusando o estado frágil do meu corpo,
fugi da aragem fria da sombra e corri
para os raios  quentes do sol.
Na rua, com os passos acariciados pela neve
inspirei, inspirada pela força que sinto ainda ter,
para algemar as imagens reais que me circundam,
às imagens de todos aqueles que me fazem lutar.
Sem cerimónia expulso a fria sombra,
crio um nevoeiro entre mim e ela
e sorrio ao frescor da esperança,
porque me fortificam a alma e a carne,
aqueles que me rejuvenescem  o espírito...
com o amor e a amizade!

Fernanda R-Mesquita





Quem mora aqui?





Já não és aquele que outrora tanto amei,
que como um sol, me tomou de modo ardente,
aquele a quem ainda ontem me entreguei
e sensual me arrebatou num beijo quente.

Daquele claro amor, depressa te cansaste...
Nesse teu olhar seco que tanto espelha a frieza,
num rigoroso descuido não vês no que me tornaste,
que me perdi ao saltar da alegria para a tristeza.

Que aposento sombrio é esta noite que não tem fim,
onde o segredo não se desvela... é apenas teu.
Enquanto lágrimas loucas se riem de mim,
eu choro o amor que de mim se perdeu.

Estou tão longe de saber quem és agora,
sinto que também já não sei quem sou,
parece que fomos os dois embora
e que aquele amor nunca aqui morou!

Fernanda R-Mesquita



Procura



Hoje o chão que piso queima, arde!
O céu que me cobre pesa, troveja!
Peço à noite que não tarde,
para que a minha tristeza não se veja!

O mundo que enfrento é um labirinto,
onde sou um soldado que a guerra enfrenta.
Se fujo, há algo que me persegue... eu sinto,
se fico, sinto a fragilidade que me sustenta!

Alguma coisa os meus olhos procuram,
algo sem malícia ou fingimento,
mas encontram sentimentos que pouco duram,
ou se ficam, tornam-se um tormento!

Sinto a solidão que me rodeia,
que me acompanha, acorda e adormece.
Por vezes é liberdade, outras a cadeia,
mas raro a vida, que eu procuro e não acontece!

Fernanda R-Mesquita

quinta-feira, 16 de novembro de 2017

O quadro



Pedi uma cor ao tempo,
de azul me vestiu,
calçou-me da velocidade do vento,
deu-me um lápis mágico... e partiu.
Retifiquei o passado
e anulei o presente,
pintei o futuro,
de verde florescente...
Voei ao quadro da morte,
tornei-o incolor,
deselhei-lhe um sorriso,
arranquei de mim a dor!
Pintei uma mulher grávida,
que uma criança à luz deu.
A criança eras tu
e a mulher... era eu!...
Pintei um novo quadro,
e o amor desenhei.
Contigo, já ao meu lado,
viver eu desejei...
Pintámos o preto de branco,
pintámos o branco de esperança,
pintámos o Mundo inteiro,
com o teu sorriso de criança!   

Fernanda R-Mesquita 

 Ao Marcos
     

Cordel de palavras- A barca dos sentidos 3


Cordel de palavras A barca dos sentidos 2


Cordel de palavras Fragmentos Duetos RadioLusitaniaCb


Cordel de palavras A barca dos sentidos 1









Cordel de palavras Livro Janelas1






Com a voz de Carmen Dolores na apresentação do livro

Com os poemas:

Aquela estrela

Já longe do dia,
a noite de braços estendidos
ia escurecendo o céu sobre a aldeia,
que se tornava lentamente vazia...
A névoa, dançando misteriosa
escondia
a lua e as estrelas
na nuvem  silenciosa...
Então que estrela era aquela
que solitária e solidária
brilhava naquela janela?

Entre os montes,na casa caiada de branco
o homem descansava no travesseiro a sua mágoa
enquanto a mó da azenha se movia na água...
O moleiro enfarinhado
mas atento,
vigiava o vento
que galopava nas velas do moinho, determinado
a vencer  a névoa que dançava misteriosa,
escondendo
a lua e as estrelas
na nuvem  silenciosa...
Então que estrela era aquela
que solitária e solidária
brilhava naquela janela?

Os pinhais desciam e abraçavam os caminhos,
as aves acomodavam-se nos ninhos,
o galo marcava  no poleiro
um lugar distinto no galinheiro
enquanto o cão vigilante
abanava a cauda curioso
pelo movimento silencioso
da nuvem que escondia
a lua e as estrelas
num lugar misterioso...
Então que estrela era aquela
que solitária e solidária
brilhava naquela janela?


A chuva miudinha tocada pelo vento,
de braço dado
com o galho que trazia orvalhado,
espreitaram pela vidraça
e acharam graça;
descobriram através da janela baça,
que lá dentro, uma menina
bem aconchegada,
ainda acordada,
ainda traquina,
ria,
porque ela sabia
que estrela era aquela
que brilhava na janela
até chegar a madrugada...

Era a mecha da lamparina
que se mantinha naquele canto,
que como por encanto
afugentava os fantasmas noturnos da menina.

E desde que a noite estendera os braços
até o dia clarear
a inocente alma
dormia calma
porque a mecha da lamparina
dançando, dançando adormecia
a traquina menina,
até que a avó, no lar harmonioso,
num passo silencioso,
quando pressentia a luz do dia
ainda menina,
chegava e apagava
a luz da lamparina
e eu acordava
menina... menina... tão menina!


Que primaveras

Difícil imaginar primaveras mais lindas
do que aquelas
por onde os meus primeiros anos
correram irrequietos
à descoberta dos campos perfumados
pelas flores singelas,
onde até os mais densos arbustos
deixavam de ser secretos.
A primavera vestia-se singularmente,
trazendo pela madrugada um corpete branco; as geadas.
Pelo meio dia, uma saia perfumada
com formosas  rosas, margaridas e cravos...
À tardinha um chapéu verde; as serras
adornadas  por um raio de sol como se fosse uma fita alaranjada
que lhe enfeitava a encosta
dando-lhe um ar tão descansado!
À noite escolhia um vestido azul de veludo
cheio de estrelas; o céu...
por onde se perdiam os meus olhos...
Isto num tempo em que os assuntos eram simplificados
sem se tornarem absurdos.
Que primaveras!


Houve um tempo...

Houve um tempo em que me bastava pendurar
numa árvore para rir à gargalhada,
em que me bastava descalçar
para sentir que a terra tinha asas
e que eu podia voar nelas.
Houve um tempo em que me bastava
sentar no colo das histórias
(  o meu avô ) para crescer,
em que me bastava deitar
nos lençóis lavados nas águas do rio
por aquela que me beijava a testa
(  a minha avó ) para sentir que a lua entrava pela janela
e vinha dormir comigo...
Houve um tempo
em que era preciso tão pouco para ser livre;
num tempo em que os abraços eram puros...


Fernanda R-Mesquita

Versos tristes




Amo-te como sou, porquê ser diferente?
Se não te amasse como sou, não seria eu...
Ama-me sem tentares que seja outra e sente
que todo o amor que tenho para dar é teu!

Não deixes que morra em pedaços
a longa viagem que fiz até ti... até nós!
Deixa-me adormecer eternamente nos teus braços,
não me deixes retornar a mim... não nos deixes sós.

Não me faças sentir cruel e fria!
São como vendavais... nem sabes quanto,
que me enlaçam em cadeias de agonia,
as palavras dos teus lábios que te fazem parecer santo.

Serei eu erva daninha de rebento violento
ou será um estranho impulso pelo desejo,
uma estranha luta entre a razão e o sentimento
quando tão inquieta te procuro e não te vejo.

Destino estranho o desta noite fria,
onde a minha alma no silêncio se aninha
e se debate em versos com tão pouca alegria,
ao serem escritos por uma tristeza... que é minha!

Fernanda R-Mesquita



Aqui



Despeço-me lentamente da noite que se vai,
sinto o dia ainda como sombra encantada
e ouço a chuva que mansamente cai,
acordando inconsciente, a casta madrugada.

Entre a noite e o dia, a incerteza me enlaça,
hora nua,  insensível e de rudes melodias,
saqueia da minha boca, a tal  graça,
que apagaria da minha alma as rugas fundas e frias.

Talvez eu sorrisse contente,
após esta noite  sempre acordada
se visse  o sol nascer no poente
e o sentisse, como eu, estrela desorientada!

Fernanda R-Mesquita