Cordel de palavras Livro Janelas1






Com a voz de Carmen Dolores na apresentação do livro

Com os poemas:

Aquela estrela

Já longe do dia,
a noite de braços estendidos
ia escurecendo o céu sobre a aldeia,
que se tornava lentamente vazia...
A névoa, dançando misteriosa
escondia
a lua e as estrelas
na nuvem  silenciosa...
Então que estrela era aquela
que solitária e solidária
brilhava naquela janela?

Entre os montes,na casa caiada de branco
o homem descansava no travesseiro a sua mágoa
enquanto a mó da azenha se movia na água...
O moleiro enfarinhado
mas atento,
vigiava o vento
que galopava nas velas do moinho, determinado
a vencer  a névoa que dançava misteriosa,
escondendo
a lua e as estrelas
na nuvem  silenciosa...
Então que estrela era aquela
que solitária e solidária
brilhava naquela janela?

Os pinhais desciam e abraçavam os caminhos,
as aves acomodavam-se nos ninhos,
o galo marcava  no poleiro
um lugar distinto no galinheiro
enquanto o cão vigilante
abanava a cauda curioso
pelo movimento silencioso
da nuvem que escondia
a lua e as estrelas
num lugar misterioso...
Então que estrela era aquela
que solitária e solidária
brilhava naquela janela?


A chuva miudinha tocada pelo vento,
de braço dado
com o galho que trazia orvalhado,
espreitaram pela vidraça
e acharam graça;
descobriram através da janela baça,
que lá dentro, uma menina
bem aconchegada,
ainda acordada,
ainda traquina,
ria,
porque ela sabia
que estrela era aquela
que brilhava na janela
até chegar a madrugada...

Era a mecha da lamparina
que se mantinha naquele canto,
que como por encanto
afugentava os fantasmas noturnos da menina.

E desde que a noite estendera os braços
até o dia clarear
a inocente alma
dormia calma
porque a mecha da lamparina
dançando, dançando adormecia
a traquina menina,
até que a avó, no lar harmonioso,
num passo silencioso,
quando pressentia a luz do dia
ainda menina,
chegava e apagava
a luz da lamparina
e eu acordava
menina... menina... tão menina!


Que primaveras

Difícil imaginar primaveras mais lindas
do que aquelas
por onde os meus primeiros anos
correram irrequietos
à descoberta dos campos perfumados
pelas flores singelas,
onde até os mais densos arbustos
deixavam de ser secretos.
A primavera vestia-se singularmente,
trazendo pela madrugada um corpete branco; as geadas.
Pelo meio dia, uma saia perfumada
com formosas  rosas, margaridas e cravos...
À tardinha um chapéu verde; as serras
adornadas  por um raio de sol como se fosse uma fita alaranjada
que lhe enfeitava a encosta
dando-lhe um ar tão descansado!
À noite escolhia um vestido azul de veludo
cheio de estrelas; o céu...
por onde se perdiam os meus olhos...
Isto num tempo em que os assuntos eram simplificados
sem se tornarem absurdos.
Que primaveras!


Houve um tempo...

Houve um tempo em que me bastava pendurar
numa árvore para rir à gargalhada,
em que me bastava descalçar
para sentir que a terra tinha asas
e que eu podia voar nelas.
Houve um tempo em que me bastava
sentar no colo das histórias
(  o meu avô ) para crescer,
em que me bastava deitar
nos lençóis lavados nas águas do rio
por aquela que me beijava a testa
(  a minha avó ) para sentir que a lua entrava pela janela
e vinha dormir comigo...
Houve um tempo
em que era preciso tão pouco para ser livre;
num tempo em que os abraços eram puros...


Fernanda R-Mesquita

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