Ainda que eu durma



Ainda que eu durma,
ao entrar nesta face sossegada da vida,
não te esqueças,
mesmo que esta dor te seja  desconhecida,
que não chegou a hora do teu sono,
que não chegou a hora de parares.
Aceitei o sono calmamente,
mas inquieta
com a lembrança dos teus tormentos,
dos teus inquietantes olhares,
dos teus atentos  e inseguros movimentos...
É muito cedo para ti!
Não deixes que a minha vida
seja marcada apenas pelo dia em que nasci
e por aquele em que adormeci.
Deixa que ela seja a continuação
dos teus futuros instantes,
dos teus  alegres horizontes,
para que não se torne em vão
tudo o que tentei ensinar-te.
Lembra-me com um sorriso,
fala de mim com um sorriso.
Apenas nos separa uma floresta,
um enorme albergue, pleno de sussuros
que lembram até o gesto mais simples
vivido entre nós.
Não chores na saudade.
Sente o estalar dos teus passos
nas folhas secas que despiram as árvores,
mas que ainda assim não caíram.
Quando a noite chegar antes do tempo,
encosta os teus sentidos
à música cristalina de uma fonte
que não morre por cair no leito do rio
e o rio não morre por desaguar no mar
ou por alimentar as florestas.
Tudo se completa no movimento do tempo,
mesmo nas horas que nos parecem tristes e diferentes.
Vive e deixarás que eu continue a viver
na lembrança de tudo aquilo que eu amei!
Esta hora apenas deve ser para ti...
uma hora diferente!

Fernanda R-Mesquita

( de uma mãe para um filho)


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