segunda-feira, 11 de dezembro de 2017

O meu berço

Oceano Atlântico- Santa Cruz- 2007

O ódio escolhe a raça,
divide a cor
e manipula o trajecto natural do amor.
O meu patriotismo está naquele
que me olha nos olhos
e me convida a entrar no seu território,
que partilha a sua história
e respeita a minha.
Em demanda de colheitas diferentes,
tantos povos entraram por terra,
lutaram com outras gentes
e  não saíram... porque o  mar não  deixou.
Sou filha de um nómada,
de um vagabundo,
daquele que seguia o sol
e ficava preso nas margens
do Mar do Oceano Atlântico... tão profundo!
Sou filha de tantas lutas,
de empurrões,
talvez da ambição que quis dominar o mundo
ou do amor que juntou dois corações.
Sou filha de tantas migrações humanas,
de caçadores,
daquele que trabalhou a pedra,
de um mundo gelado extinto,
do explorador
que ligou o estanho ao metal
e descobriu o bronze.
Do que dirigiu o arado,
dos celtas e dos Iberos,
da civilização castreja,
dos combates entre romanos e cartagineses,
da teimosia de Viriato
vencido pela traição,
do tempo em que os cães eram inimigos do homem...
Falo português,
rebento do latim que os romanos impuseram.
Sou filha de algum escravo dos romanos,
da invasão barbara,
da nobreza dos visigodos,
dos mulçumanos
ou de algum  agricultor árabe.
Sou sobretudo,
filha daquele berço de histórias,
onde caía o olhar terno dos meus avós!

Fernanda R-Mesquita









Sem comentários:

Enviar um comentário