Mensagens

A mostrar mensagens de 2018

O meu limite

Pensei chegar ao fim... ao fim dos meus limites! Senti a vida num horizonte bloqueado, pensei deixar-me adormecer nesta dormência e permanecer flutuando sem nada sentir, na ilusão que o vazio é doce. Foi então que senti, (e senti que ainda sentia) um ligeiro formigueiro ainda vivo dentro de mim. Estremeceu e fez-me estremecer! Desapareceu depois de me dizer que dentro de mim o limite é apenas o começo de alguém que eu ainda não conhecia: -Eu mesma... para além dos limites! ☀️ Fernanda R-Mesquita

















A Revista Ponto & Vírgula edição de Setembro/Outubro online

Pintura

Deixei-me apaixonada, descansar... como o rosto pintado numa tela, belo instante; sobre o teu colo disposta a amar, escrava dos teus dedos... delirante!
Sou como o pano pronto a colorir, vaporoso... Que se estende e submete à pintura, onde tu hábil pintor, virtuoso, juntas os nossos corpos... aquarela pura!
E depois dos nossos instintos cansados, descansas os dedos, iguais a pincéis suados... E eu plácida, no teu peito descontraída...
Que pintura real! Que plenitude! Que beleza! Que deixa num quadro a virtude, a certeza de que o amor é o plasma  da vida.
Fernanda R-Mesquita








Os meus poemas

Os meus poemas são palavras que correm, são doces sabores, por vezes doce azedume... sentimentos que em mim nascem e não morrem, que deslizam em mim como um queixume!
Os meus poemas são tristeza, são alegria, são criança que brinca, chora mas que não adormece. Sonham na noite o que querem ser de dia... são luz, razão que me conforta e entontece!
São maré forte ou o som de um riacho a brincar, alienação que não me deixa dormir, uma lâmpada que não se deixa apagar, uma mão forte que não se cansa de sentir! ☀️ Fernanda R-Mesquita



















Força

Sento-me muitas vezes no colo da criança que fui; como é bom o seu abraço, entregar-me à sua inocência, reaprender a sorrir e relembrar-me que o galho quando quebra, torna à terra, transmuta-se em adubo e germina árvore em flor, com mais vida do que nunca.
Fernanda R-Mesquita





















Aquela estrela

Já longe do dia, a noite de braços estendidos ia escurecendo o céu sobre a aldeia, que se tornava lentamente vazia... A névoa, dançando misteriosa escondia a lua e as estrelas na nuvem  silenciosa... Então que estrela era aquela que solitária e solidária brilhava naquela janela?
Entre os montes, na casa caiada de branco o homem descansava no travesseiro a sua mágoa enquanto a mó da azenha se movia na água... O moleiro enfarinhado mas atento, vigiava o vento que galopava nas velas do moinho, determinado a vencer  a névoa que dançava misteriosa, escondendo a lua e as estrelas na nuvem  silenciosa... Então que estrela era aquela que solitária e solidária brilhava naquela janela?
Os pinhais desciam e abraçavam os caminhos, as aves acomodavam-se nos ninhos, o galo marcava  no poleiro um lugar distinto no galinheiro enquanto o cão vigilante

Dos teus dedos nasciam poemas

Tu não sabias escrever, nem ler mas dos teus dedos nasciam poemas quando trazias o vento ao moinho de cana que fazias para mim, quando do balouço que penduravas debaixo de um pinheiro me empurravas até eu alcançar o sol, quando me ensinavas a utilidade dos rios enquanto regavas as hortas que cultivavas, quando trauteavas cânticos do povo enquanto o teu suor amaciava o atilho com que apertavas o molho de trigo, quando a minha pequena figura embevecida te via colher a uva, e me davas a provar ensinando-me que aquele fruto era sinal da obediência da cepa à natureza, quando descias ao meu tamanho e traquinas, nos ajustávamos aos intervalos dos galhos esguios das árvores para espreitar o ninho de alguma ave... Depois pé ante pé, engolíamos o riso para o soltar mais à frente  e oferecer o eco das nossas gargalhadas às serras que abraçavam o nosso mundo.
Fernanda R-Mesquita










As imagens do teto do meu quarto

Muitas das noites em que me deitavam antes dos adultos se deitarem, eu não adormecia logo; entrava noutro Universo; as tábuas do teto do meu quarto convidavam-me a ficar de olhos abertos e pareciam estender-me a mão para jogar jogos que eu não conhecia... e os lençóis gelavam. A penumbra do quarto criava misteriosas figuras, como uma aterradora sentença. Eu escondia o olhar debaixo do cobertor, esperando trémula e tensa que aquelas criaturas pálidas, sombrias e sem cor saíssem pela janela. Esperava uns segundos... espreitava com cautela, via um estranho olhar, um rápido movimento a tentar prender-me em aterradores laços que me paralisavam as pernas e os braços. Noite após noite meditava sobre o mundo controverso daquelas sombras na escuridão até que ganhei coragem e invadi os seus segredos... Questionei estas imagens imateriais mas ninguém respondeu... Apenas um sorriso maior numa tábua qualquer e uma sombra a esgueirar-se sem me dizer se era homem ou mulher. A pouco e pouco  fui descobrindo que pela manhã, quan…

Um mundo gigante

O sol entre os telhados, as andorinhas nos ninhos dos beirados...
-O vento tem coração?- eu perguntava. -Tem-dizias- assim como os teus olhos têm borboletas a brincar.
A chuva quente de verão em pingos grossos que desbotavam o chão, que provocavam um cheiro morno no feno e refrescavam a urze onde brincava a abelha num zumbido sereno.
As nuvens têm abraços? - Têm-dizias- porque os teus olhos são duas folhas tenras.
A formiga trabalhadeira, incansável, laboriosa  e a cigarra  cantadeira  teimosa preguiçosa.
Na lua existem flores?- perguntava eu. -Sim- dizias tu-  porque o teu coração é um pintor.
A tua navalha descascava a maçã   que partias em quatro pedaços  e davas-me um a um...
Posso ter sete vidas como o nosso gato? - Podes- dizias tu- se não esqueceres o eco das serras em primavera  quando te fizerem prisioneira num campo de guerra.
A lagartixa aparecendo e desaparecendo entre as pedras da casa do cão, que incomodado saltava e gania tentando matar a pulga que o mordia.
-O mundo aqui é tão gigante!- exclamava…

O moinho

Imagem
Corpo redondo, olhos pequeninos, no cume da serra de braço a girar ao sabor do vento, cantando hinos, sem preguiça...  sempre a trabalhar.
Lado a lado com o seu amigo, elabora a farinha  e canta crente, ser capaz de fazer de um grão de trigo o fim da fome que mata tanta gente.
Assim passa a noite o redondo moinho, dando guarida ao moleiro, que sozinho, luta na noite ora a  trabalhar, ora a vigiar
a escuridão da rua, pelos olhos pequeninos do moinho que alegremente, vai cantando hinos ao vento, que o seu grande braço faz girar!

Fernanda R-Mesquita

Em memória dos moinhos da minha infância

Assobios felizes ao amanhecer

Uma coruja vigia, folhas secas estalam sob umas botas ainda frias de um ser madrugador que  num ritual tranquilo lança um assobio libertador.
O vento devagarinho lança  à  árvore o rumor que pelo caminho há um camponês madrugador, que entoa com prazer assobios felizes ao amanhecer.
O camponês com a sua mão retira migalhas de pão do bolso remendado do sobretudo usado, e oferece ao passarinho que se espreguiça no ninho pipilando com alegria ao homem que assobia.
Numa janela quadrada  uma nuvem dança encantada à criança que de ouvido sonolento escuta o vento que prolonga com prazer os  felizes assobios do avô ao amanhecer...
Fernanda R-Mesquita
Ao meu avô






Fica por explicar...

Da frescura da árvore solta-se a respiração de uma ave e ouve-se no ar um sinal de liberdade; o pássaro pensou voar e voou... Ainda rodopiou aqui por baixo espiando, esperando por pegadas de felicidade na terra... Sem se convencer nas crenças dos homens entregou-se ao rosto feliz do céu.
Toda a expressão do Mundo, numa perfeição suprema permitiu-lhe um novo tempo, uma nova vida num novo voo e a vida apareceu cheia de sentido... Que pecado desequilibrará a nossa relação humana com a natureza? Fica por explicar...
É um mundo em presença de outro...
Fernanda R-Mesquita

















Hipocrisia e inocência

O novo e o antigo completam-se sem se escravizarem mutuamente... Nós os humanos é que legalizamos incluindo e excluindo o que bem entendemos sem usar a justiça. Nem sempre a legalidade significa justiça... Por isso muitas vezes cumprimos a lei mas não somos justos. É uma espécie de  inocência que usamos com hipocrisia.
Fernanda R-Mesquita




























Nunca pela metade

Se a hora assombra saio da sombra; a vida é demasiado querida para a viver perdida de intimidade com quem gosta de viver pela metade Na vida a que me dou sou aquilo que sou; amo a doce sensação, esta de voar ao  tocar com os pés descalços no chão Tão bom poder eu nesta doce sensação sentir que o chão também é meu Que terna unicidade, alcançar a eternidade na simples ação de uns pés descalços no chão... Viver por inteiro nesta simplicidade, da terra sentir o cheiro, por inteiro, nunca pela metade A vida é demasiado querida para a viver perdida de intimidade com quem gosta de viver pela metade Se a hora assombra saio da sombra


Dama de ciúme implacável

Desarmou-me a pouca idade que tinha e a fragilidade que me mantinha uns degraus abaixo de ti, por isso chegaste maldita dama de ciúme implacável. Ciúme que te fazia crescer o nariz e o queixo pontiagudos encobrindo o sorriso perigoso que trazias. Dezassete de Junho! A tua boca cresceu sobre a minha figura e baixinho segredou: - O teu tesouro há-de ser meu! O medo que me atou a alma não deixou a minha boca falar, mas vi todos os meus fantasmas dentro dos teus olhos. Ah, demónio de dezassete de Junho, que lentamente te foste apoderando do tesouro... Como um herói que traz da guerra a vitória escondendo o sangue que provocou, gritaste ao mundo que o tesouro era teu, alegando que eu não o merecia. Ah, armas malditas da morte que te instalas no coração dos humanos!
Fernanda R-Mesquita