sábado, 29 de dezembro de 2018

... e a vida flui...

O espírito da vida fala, fala-me
fluindo no fluxo do dar e receber
sem questionar quem sou.
Ampara-me quando desamparada me sinto.
Como uma flecha dispara do topo da cabeça
até abaixo do meu ventre.
Conecta-me com a Terra
trazendo música aos meus conflitos.
Alegria, amor, desilusão, medo, inspiração...
Sou toda eu, nua de máscaras.
Aceitar-me leva-me ao conhecimento
da minha força vital:
que faço parte do fluxo do espírito da vida
que me ensina a sair dos rios turvos
onde corro o risco em afogar-me vazia e esgotada
por doar demais
pois descansar é amar-me,
encontrar-me no equilíbrio.
Receberei tanto, tanto quanto necessito
e plena
voltarei a doar.
Enquanto tudo isso, a vida flui,
flui sem parar
ainda que despida e deslocada seja a aparência da árvore.


Fernanda R-Mesquita







Vento sereno



Bailaram lentas algumas horas da vida
envolvidas por silêncios que me embalavam
em vazios confusos e sonhos ridículos
aos olhos do mundo.
No entanto eu via nas ruas escuras
estrelas exaltando possibilidades.
Do denso nevoeiro surgiste tu
vento sereno disposto a ser fogo
na minha solidão.
Dei-te a mão meu amor
que reconheceu a brisa da tua...
um encontro com o amor que cintila até hoje.

Fernanda R-Mesquita









sábado, 1 de dezembro de 2018

Liberdade














Lágrimas













O meu limite











O meu limite


Pensei chegar ao fim... ao fim dos meus limites!
Senti a vida num horizonte bloqueado,
pensei deixar-me adormecer nesta dormência
e permanecer flutuando sem nada sentir,
na ilusão que o vazio é doce.
Foi então que senti,
(e senti que ainda sentia)
um ligeiro formigueiro
ainda vivo dentro de mim.
Estremeceu e fez-me estremecer!
Desapareceu depois de me dizer
que dentro de mim o limite
é apenas o começo
de alguém que eu ainda não conhecia:
-Eu mesma... para além dos limites!
☀️
Fernanda R-Mesquita



Conhecer para vencer





Os meus poemas







terça-feira, 20 de novembro de 2018

Chuva de Julho


Expirou o pôr-do-sol ao cruzar-se com ele
a chuva de Julho; pingos grossos inclinam-se
fortemente sobre a Terra regando os jardins
dilatados pelo calor. Enquanto a rua se inunda de água,
cria-se, no solo, um licor eterno; a dureza do agora será
a eloquente virtude, quando o vento uivar na nuvem
e a levar para longe, deixando o solo seco,
que nascerá e correrá no coração do mar, das montanhas,
dos rios, e até nesta chávena de chá de erva cidreira,
que entrega o seu vapor aromático ao meu rosto.
A poça de água que vejo formar-se no meio da estrada,
amanhã será aventura a explorar por uma criança.
A boa árvore que se mostra na luz do candeeiro,
amanhã, mais viçosa, de sorriso aveludado, sombreará o banco
e num abraço perfumado partilharão a grandiosa poesia da vida.
Daqui a pouco irei deitar-me, sentindo que a paz desta noite é feita de água,

porque ela cria carreira no solo e mantém a sua orquestra nos beirais.
Talvez amanhã, a manhã desponte juvenil, afrodisíaca.
Talvez o sol chegue como senhor absoluto de um dia de Verão,
e termine com este bailado, recomeçando outro, onde,
diante do canto do rouxinol, o rubor subirá às faces das rosas
e as libelinhas voarão horas a fio em perseguição dos raios do sol.
A chuva é apenas uma gota de toda a evocação da natureza.

O estranho é, sempre que ela chega, nós somos assaltados por
exclamações de espanto e um sentimento de nostalgia ou tristeza.

Fernanda R. Mesquita


Foto- Canadá, Ride The Wind Ranch



Êxtase



Os nossos lençóis marulham excitados,
chegam em cardume as tuas carícias;
primeiro miro-me nos teus olhos,
depois ouço-me nos teus braços,
a minha pele mistura-se na tua essência
e caio na avalanche dos teus beijos.
Os teus dedos são pétalas misteriosas
que se abeiram do meu corpo
ceifando dos meus lábios gemidos
de gazela selvagem.
Sem preconceitos ou medos
sinto-me longe do chão
sentindo a imensidão
das estrelas que deslizam pela janela.
Há jardins vivos no nosso quarto,
rios a correr...
Sou ave debaixo do teu corpo;
é a liberdade.
Derramas versos na minha intimidade,
atinjo o arco-íris, fico leve, leve
e estremeço; é o êxtase...
Fluo como água de um riacho
e o Universo volta a ficar arrumado;
adormeço nos teus braços meu amor!

Fernanda R-Mesquita





Cansaço

Vou assim, tão cansada;
procuro-me,
busco o silêncio,
gastei-me na multidão...

Das horas a fio que inutilizei por aí
trouxe este vazio existencial e esta ansiedade,
fruto da apressada multidão que traz nos passos
o tédio, tornando o ar tão pesado
confundindo o voo às gaivotas.

Os homens correm, correm mas continuam tão atrasados
ao derrube do muro das máscaras;
vivem numa orgia de cumprimentos, sorrisos e olhares
sem que sejam questionados os sentimentos,
carregando o olhar com desculpas à vida
por ignorarem o seu poema.

Gastei-me na multidão...

Trago os gemidos da terra debaixo da calçada
e a atitude de alguns homens que ofenderam
o voo dos pássaros.

Busco o silêncio...

Preciso da brisa virgem
para curar a ferida sem deixar cicatriz,
preciso abastecer-me onde a vida é insubstituível...

Procuro-me...
Preciso continuar... sem este cansaço...

Fernanda R. Mesquita



Que promiscuidade!

Ela partia, voltava, e tornava a partir...
Ninguém sabia para onde ia, nem de onde vinha.
- Sabem por onde anda Maria, quando desaparece?
- Não! O que encontrará ela, de interessante, para tantas saídas?
- Que é intrigante, é!
-Nós todos tão certinhos, dentro de casa, navegando pela Internet,
ou sentadinhos no sofá apreciando um Reality show, e ela, sai por aí...
- E como volta? Já repararam? Brilho no olhar, respiração de apaixonada...
Um dia, os ´´amigos`` uniram-se e seguiram Maria.
- Não vai simples demais para um encontro?
- Que nada. Aquela simplicidade tem duplo sentido; ela sabe que um airoso vestido
é mais atraente do que uma grande ´´toilette``.
- E olha a bolsa de pano! Deve ser um lanche para dois.
- Espera, ela apanhou aquele atalho! E olhem como sorri e anda!
Após uns minutos, os perseguidores, deitaram -se no chão.
Silenciosamente, seguiram todos os gestos de Maria;
Ela, comodamente, sentou-se no prado verde, tirou os sapatos
e encostou-se a uma árvore, como se sentasse na melhor poltrona.
Com um suspiro, beijou, embevecida, o poema da brisa,
com um leve esfregar dos pés descalços, possuiu a terra e um ar rosado dominou-lhe as faces.
Ela, flor alheia ao burburinho humano, afogado nas ervas,
retirou o ´´lanche`` do saco e ajeitou-se melhor para olhar o amante;
por ele roçou a face e os lábios ondularam seduzidos...
Ah, e os olhos, comovidos, semi-cerrados, enamorados,
por aquele, que nas suas mãos ardentes se entregava, pronto amante perante a amada!
O vestido, numa felicidade sensual, subiu até aos joelhos, incitando o sol a entrar-lhe na pele.
Os pés, tornando inteira aquela entrega, enterraram-se mais na terra, para que tudo fosse liberdade;
uma mulher e um livro, numa cândida relação com outro livro; a natureza.
... Os homens, desprevenidos e desapontados, abandonaram o local, sussurrando:
- Que promiscuidade!

Fernanda R. Mesquita

(Ironias dos tempos de hoje )



Do lado de lá do meu muro

Por vezes, em certas noites,
Uma sombra, vinculada à minha almofada, morde-me;
A sua boca absorve os meus pensamentos, os meus sonhos...
Age como se eu não existisse e programa-me
Sombra de corredores sem morada,
Onde os ecos dizem tudo o que não quero ouvir,
Imita vozes de pretensos amigos, repete deles, frases rudes
De acontecimentos passados e castiga-me...
Castiga-me o descanso, castiga-me o sono,
Castiga-me com culpas...
Tem expressão de doente,
Olhar masoquista,
E postura pessimista.
Descobri quem é; é a minha mente.
Salva-me a morada secreta do subconsciente
Que me envia correntes de sentimentos frescos
E mostra-me o lado de lá do meu muro
Onde o sol matinal
Aviva o vermelho outonal das folhas das árvores
Que dizem bom dia à vida.
Do lado de cá do meu muro,
Eu quero que o sol me atice e me faça dizer,
Bom dia à vida...
... Mas... o sol continua do lado de lá do meu muro.
Eu vou mudar de morada; vou saltar para o lado de lá do meu muro,
Onde a vida se fertiliza e fecunda sentimentos
Numa simples rosa que dança airosa
Sem marcas de sombras que mordem...

Sim, porque em todos nós habita um muro
Apenas temos que descobrir de que lado mora o sol.

Fernanda R-Mesquita




Por que o sexo acabou entre nós?

Hoje, no teu olhar, li a pergunta:
´´Por que o sexo acabou entre nós?``
Se estivesses atento, escutarias o efeito lâmina na minha alma;
dói sentir que o que tivemos até hoje foi sexo.
Houve momentos em que pensei que era amor.
Mesmo quando a dúvida me assaltava tentava oferecer-me
cálice cheio à tua sede, imaginando que cada gota tua de prazer
era gota pura de pura devoção.
Sexo? Ele decora a cena e repete, e repete, e repete...
de vez em quando muda de posição,
demora um minuto mais ou um minuto menos
mas o jato final é sempre a intenção.
É tão bom o encanto, o fascínio do amor.
É tão frio o arfante suor do sexo.
É tão bom o silêncio de uns lábios no pescoço
declamando, sem voz, poemas de carinho.
Magoa tanto sentir um corpo virar para o lado
após ter lido o meu corpo à sua maneira.
Não quero ser Maria vulgar, Maria grata, Maria submissa.
Não quero cumprir deveres, quero ser Maria cheia de graça,
mulher feliz, fêmea amada que em tempo desapressado
se entrega ao seu amado.
O amor tem coração, é um abraço da cabeça aos pés,
um olá, quando chegas a casa, que excita o espaço que fica entre nós,
é ombro apoiando o meu rosto, aconchego quando termina a entrega.
Não quero mais esse suor que encharca os meus medos,
esse vício que dissipa o perfume do amor, esse jogo que me derrota.
Poderá o amor viver sem sexo? Como poderá algo existir sem ter nascido?

Fernanda R. Mesquita











quinta-feira, 15 de novembro de 2018

Saber estar ou saber ser?

Foto- julho 2017, biblioteca, Edmonton, Canadá


I- Olhar crítico 

À minha frente, mãe e filha
parecidas na matéria e no paladar.
Entre um gole de coca-cola 
e uma mordida numa batata frita
fixam, com um olhar crítico,
o grupo de jovens árabes
que falam acima do tom permitido numa biblioteca.
Analisando melhor, a expressão delas
 enfraquece a igualdade.
Não é apenas o som das vozes que ambas reprovam,
mas a presença.

O racismo passeia-se, discreto, malicioso por todos os cantos
numa sociedade que se organiza através do conceito
´´Todos diferentes, todos iguais``
Mais do que banal, esta frase, neste momento
soa-me a um
longínquo mundo
esperando por viver.

Ainda que um país disponha de leis iguais
para qualquer etnia
se o indivíduo não muda
essa sociedade será sempre pobre de tolerância
e todos viverão na 
limitação a que o conceito individual o confina.

O que importa saber o significado da palavra igualdade
se não conseguimos discernir tudo o que a acompanha?

II- Ruído

Há um conjunto de ruídos
numa sala, cuja regra primária
determina o silêncio. 
Vozes entusiásticas quebram a norma.
Necessário será tornar a disciplinar.

Há um ruído de saco de plástico
e um mastigar de batata frita
que quebram a tranquilidade.
Necessário será tornar  a disciplinar.

No entanto há um outro ruído
que qualquer lei é incapaz de disciplinar:
o ódio de um olhar que espelha
o mundo em que a alma vive.
A esse, apenas o próprio poderá trazer à razão.

Saber estar ou saber ser?

Fernanda R-Mesquita







sábado, 10 de novembro de 2018

Vivamos o amor pelo amor

Vivamos o amor pelo amor,
ele é a mola impulsora,
o espírito fundamental da criação
Uma das leis da natureza é o perdão,
para isso cultivemos a tolerância;
todos estamos prenhes de erros e fraquezas.
Então brindemos ao amor com alegria!
Um, pode ter mais conhecimento que o outro,
mas ambos somos de conhecimento limitado.
Então, brindemos, nós dois, à alegria do amor
gratos por existirmos!


Fernanda R-Mesquita











A Revista Ponto & Vírgula edição de Setembro/Outubro online

quinta-feira, 8 de novembro de 2018

Contar carneirinhos



Um, dois, três, quatro, cinco...
cinco carneirinhos a saltar
o sexto já não vi
adormeci

mas antes que o sétimo saltasse a cerca
acordei;
o sono traiçoeiro
tinha salto de carneiro

Fernanda R-Mesquita


Pintura

Deixei-me apaixonada, descansar...
como o rosto pintado numa tela, belo instante;
sobre o teu colo disposta a amar,
escrava dos teus dedos... delirante!

Sou como o pano pronto a colorir, vaporoso...
Que se estende e submete à pintura,
onde tu hábil pintor, virtuoso,
juntas os nossos corpos... aquarela pura!

E depois dos nossos instintos cansados,
descansas os dedos, iguais a pincéis suados...
E eu plácida, no teu peito descontraída...

Que pintura real! Que plenitude! Que beleza!
Que deixa num quadro a virtude, a certeza
de que o amor é o plasma  da vida.

Fernanda R-Mesquita


Os meus poemas

Os meus poemas são palavras que correm,
são doces sabores, por vezes doce azedume...
sentimentos que em mim nascem e não morrem,
que deslizam em mim como um queixume!

Os meus poemas são tristeza, são alegria,
são criança que brinca, chora mas que não adormece.
Sonham na noite o que querem ser de dia...
são luz, razão que me conforta e entontece!

São maré forte ou o som de um riacho a brincar,
alienação que não me deixa dormir,
uma lâmpada que não se deixa apagar,
uma mão forte que não se cansa de sentir!

Fernanda R-Mesquita


Força

Sento-me muitas vezes
no colo da criança que fui;
como é bom o seu abraço,
entregar-me à sua inocência,
reaprender a sorrir
e relembrar-me que o galho quando quebra,
torna à terra, transmuta-se em adubo
e germina árvore em flor,
com mais vida do que nunca.

Fernanda R-Mesquita


Aquela estrela

Já longe do dia,
a noite de braços estendidos
ia escurecendo o céu sobre a aldeia,
que se tornava lentamente vazia...
A névoa, dançando misteriosa
escondia
a lua e as estrelas
na nuvem  silenciosa...
Então que estrela era aquela
que solitária e solidária
brilhava naquela janela?

Entre os montes, na casa caiada de branco
o homem descansava no travesseiro a sua mágoa
enquanto a mó da azenha se movia na água...
O moleiro enfarinhado
mas atento,
vigiava o vento
que galopava nas velas do moinho, determinado
a vencer  a névoa que dançava misteriosa,
escondendo
a lua e as estrelas
na nuvem  silenciosa...
Então que estrela era aquela
que solitária e solidária
brilhava naquela janela?

Os pinhais desciam e abraçavam os caminhos,
as aves acomodavam-se nos ninhos,
o galo marcava  no poleiro
um lugar distinto no galinheiro
enquanto o cão vigilante
abanava a cauda curioso
pelo movimento silencioso
da nuvem que escondia
a lua e as estrelas
num lugar misterioso...
Então que estrela era aquela
que solitária e solidária
brilhava naquela janela?

A chuva miudinha tocada pelo vento,
de braço dado
com o galho que trazia orvalhado,
espreitaram pela vidraça
e acharam graça;
descobriram através da janela baça,
que lá dentro, uma menina
bem aconchegada,
ainda acordada,
ainda traquina,
ria,
porque ela sabia
que estrela era aquela
que brilhava na janela
até chegar a madrugada...

Era a mecha da lamparina
que se mantinha naquele canto,
que como por encanto
afugentava os fantasmas nocturnos da menina.

E desde que a noite estendera os braços
até o dia clarear
a inocente alma
dormia calma
porque a mecha da lamparina
dançando, dançando adormecia
a traquina menina,
até que a avó, no lar harmonioso,
num passo silencioso,
quando pressentia a luz do dia
ainda menina,
chegava e apagava
a luz da lamparina
e eu acordava
menina... menina... tão menina!

Fernanda R-Mesquita

e

Dos teus dedos nasciam poemas

Tu não sabias escrever, nem ler
mas dos teus dedos nasciam poemas
quando trazias o vento ao moinho de cana
que fazias para mim,
quando do balouço que penduravas debaixo de um pinheiro
me empurravas até eu alcançar o sol,
quando me ensinavas a utilidade dos rios
enquanto regavas as hortas que cultivavas,
quando trauteavas cânticos do povo
enquanto o teu suor amaciava o atilho com que
apertavas o molho de trigo,
quando a minha pequena figura embevecida
te via colher a uva, e me davas a provar
ensinando-me que aquele fruto era sinal
da obediência da cepa à natureza,
quando descias ao meu tamanho
e traquinas, nos ajustávamos aos intervalos
dos galhos esguios das árvores
para espreitar o ninho de alguma ave...
Depois pé ante pé, engolíamos o riso
para o soltar mais à frente 
e oferecer o eco das nossas gargalhadas
às serras que abraçavam o nosso mundo.

Fernanda R-Mesquita



As imagens do teto do meu quarto

Muitas das noites em que me deitavam
antes dos adultos se deitarem,
eu não adormecia logo; entrava noutro Universo;
as tábuas do teto do meu quarto convidavam-me
a ficar de olhos abertos e pareciam estender-me a mão
para jogar jogos que eu não conhecia... e os lençóis gelavam.
A penumbra do quarto criava misteriosas figuras,
como uma aterradora sentença.
Eu escondia o olhar debaixo do cobertor,
esperando trémula e tensa
que aquelas criaturas pálidas, sombrias e sem cor
saíssem pela janela.
Esperava uns segundos...
espreitava com cautela,
via um estranho olhar,
um rápido movimento a tentar
prender-me em aterradores laços
que me paralisavam as pernas e os braços.
Noite após noite
meditava sobre o mundo controverso
daquelas sombras na escuridão
até que ganhei coragem e invadi os seus segredos...
Questionei estas imagens imateriais
mas ninguém respondeu...
Apenas um sorriso maior numa tábua qualquer
e uma sombra a esgueirar-se
sem me dizer se era homem ou mulher.
A pouco e pouco  fui descobrindo
que pela manhã, quando abria os olhos,
  não havia nada nem ninguém.
Teriam elas medo da luz do dia?
Reflecti e percebi que afinal
elas moravam no espírito da ilusão;
talvez como tantos outros medos...
Foi assim que fui vencendo,
as imagens do teto do meu quarto;
mandei-as partir... foram morrendo!



Fernanda R-Mesquita


Um mundo gigante

O sol entre os telhados,
as andorinhas nos ninhos dos beirados...

-O vento tem coração?- eu perguntava.
-Tem-dizias- assim como os teus olhos têm borboletas a brincar.

A chuva quente de verão
em pingos grossos que desbotavam o chão,
que provocavam um cheiro morno no feno
e refrescavam a urze
onde brincava a abelha
num zumbido sereno.

As nuvens têm abraços?
- Têm-dizias- porque os teus olhos são duas folhas tenras.

A formiga trabalhadeira,
incansável, laboriosa 
e a cigarra  cantadeira 
teimosa preguiçosa.

Na lua existem flores?- perguntava eu.
-Sim- dizias tu-  porque o teu coração é um pintor.

A tua navalha descascava a maçã  
que partias em quatro pedaços 
e davas-me um a um...

Posso ter sete vidas como o nosso gato?
- Podes- dizias tu- se não esqueceres o eco das serras em primavera
 quando te fizerem prisioneira num campo de guerra.

A lagartixa aparecendo e desaparecendo
entre as pedras da casa do cão,
que incomodado saltava e gania
tentando matar a pulga que o mordia.

-O mundo aqui é tão gigante!- exclamava eu extasiada.
- Sim, lá fora é uma gaiola.
Hoje, eu sei o quanto essa tua divagação, não foi exagerada.

Fernanda R-Mesquita


O moinho


Corpo redondo, olhos pequeninos,
no cume da serra de braço a girar
ao sabor do vento, cantando hinos,
sem preguiça...  sempre a trabalhar.

Lado a lado com o seu amigo,
elabora a farinha  e canta crente,
ser capaz de fazer de um grão de trigo
o fim da fome que mata tanta gente.

Assim passa a noite o redondo moinho,
dando guarida ao moleiro, que sozinho,
luta na noite ora a  trabalhar, ora a vigiar

a escuridão da rua, pelos olhos pequeninos
do moinho que alegremente, vai cantando hinos
ao vento, que o seu grande braço faz girar!

Fernanda R-Mesquita

Em memória dos moinhos da minha infância


Assobios felizes ao amanhecer

Uma coruja vigia,
folhas secas estalam
sob umas botas ainda frias
de um ser madrugador
que  num ritual tranquilo
lança um assobio libertador.

O vento devagarinho
lança  à  árvore o rumor
que pelo caminho
há um camponês madrugador,
que entoa com prazer
assobios felizes ao amanhecer.

O camponês com a sua mão
retira migalhas de pão
do bolso remendado
do sobretudo usado,
e oferece ao passarinho
que se espreguiça no ninho
pipilando com alegria
ao homem que assobia.

Numa janela quadrada
 uma nuvem dança encantada
à criança que de ouvido sonolento
escuta o vento
que prolonga com prazer
os  felizes assobios do avô ao amanhecer...

Fernanda R-Mesquita

Ao meu avô