sexta-feira, 12 de janeiro de 2018

Capa da revista Ponto & Vírgula

Muito obrigado:
Irene Coimbra- produtora
Aline Cláudio- diagramadora
Nuno R. Alfama- fotógrafo

Dos teus dedos nasciam poemas

Ao Francisco

Tu não sabias escrever, nem ler
mas dos teus dedos nasciam poemas
quando trazias o vento ao moinho de cana
que fazias para mim,
quando do balouço que penduravas debaixo de um pinheiro
me empurravas até eu alcançar o sol,
quando me ensinavas a utilidade dos rios
enquanto regavas as hortas que cultivavas,
quando trauteavas cânticos do povo
enquanto o teu suor amaciava o atilho com que
apertavas o molho de trigo,
quando a minha pequena figura embevecida
te via colher a uva, e me davas a provar
ensinando-me que aquele fruto era sinal
da obediência da cepa à natureza,
quando descias ao meu tamanho
e traquinas, nos ajustávamos aos intervalos
dos galhos esguios das árvores
para espreitar o ninho de alguma ave...
Depois pé ante pé, engolíamos o riso
para o soltar mais à frente 
e oferecer o eco das nossas gargalhadas
às serras que abraçavam o nosso mundo.

***
O teu esforço

À Celeste

Num tempo em que eu ainda não percebia que todo o Homem tinha nascido escravo de tudo ou de alguém, crescia segura do teu apoio, sem saber que eu inconscientemente também te estava a escravizar.
           Eu ainda não sabia analisar todas as regras do jogo a que a vida nos sujeitava.  Perdia-me a olhar as tuas mãos gastas, no pano que corria e se entregava ao ponto combinado entre a linha e a agulha da máquina de costura, sem ter consciência que essas mãos tinham histórias mais importantes que toda a História que eu aprendia na escola. 
Tu e tantas mulheres como tu eram os personagens principais que faziam a História do Mundo. Entregavas-te livremente à escravidão para que eu pudesse entregar-me à fantasia e tivesse o direito de sonhar. Permitiste a minha ingenuidade para que fosse fértil a minha infância.
         Eu não entendia que o duplo sentido que intentavas dar aos teus ditados populares e aos teus conselhos, eram um desafio e um incentivo à leitura da meninice que nunca tiveras.  Naquela hora aparentemente calma, em que eu pronta para ir dormir, lançava um último olhar à tua figura sentada, preparada para enfrentar um longo e silencioso serão, não sabia que ultrapassaras todos os limites  das tarefas  que alguém  pode suportar. Durante a noite, acordava levemente com o som da máquina de costura e adormecia de novo, tranquila com a tua imagem no andar de baixo.
            Conhecia o movimento das tuas pernas inchadas pelo cansaço impulsionando os pés a empurrarem o pedal da máquina que por sua vez através da correia de cabedal dava vida à roda que obrigava a agulha a gemer no tecido. Sabia que sentirias por pouco tempo o descanso da tua cama e que serias a primeira a interromper o silêncio da casa, embrulhada no teu xaile madrugador. 
 Hoje eu sei que viraste muitas vezes a tua existência do avesso para que eu me atrevesse a crescer. Nem sequer reparei na tua idade avançada, quando mais tarde me pedias:
           - Enfia a linha na agulha. Já me cansa a vista...
Eu, curiosa como sempre, quando apanhava a máquina a descansar, mal chegando com os pés aos pedais tentava experimentar a sensação de como seria estar no teu lugar. 
Com toda a paciência, ensinaste-me e eu aprendi, mas nunca o soube fazer com aquela disciplina a que tu te sujeitavas.

Fernanda R-Mesquita

Celeste e Francisco- A junção dos dois foi a ferramenta para que eu aprendesse letras, arrumasse palavras e as desfiasse em histórias

Do livro ´´Janelas``

***


1961 - Guerra Colonial, Guerra do Ultramar ou Guerra de África.

 “Vivi a ditadura e o dia em que nos libertamos dela.
Da História de Portugal antes do 25 de Abril? Até então, eu a conhecia através da matéria que dera na Escola de Ensino Primário e no Ciclo Preparatório. Matéria apenas para decorar. Era proibido sentir e levantar questões. Guardo na memória a sala de aula na pequena escola da aldeia. Sem que me apercebesse, tudo ali era comandado pelos ideais políticos de um só homem; Salazar. Todas as manhãs, antes do início das aulas, ficávamos de pé, solenemente direitos, para cantar o Hino Nacional. Este ritual obrigatório, estendia-se e fazia-se sentir em toda a nossa educação. Muito mais tarde, viria a entender a presença da enorme cruz, no meio das molduras escuras, com as fotos a preto e branco do Presidente da República e do Presidente do Concelho.
Até ali, Salazar não passara de mais um personagem nas histórias que o meu avô contava. Anos depois compreendi o verdadeiro significado do tom mais baixo que ele usava quando falava do Estado Português. Algumas vezes, em jeito de segredo, dizia para a minha avó: “Fulano falou demais e ninguém mais soube dele.”
A minha entrada no Liceu coincidiu com a chegada da liberdade. Não foi fácil a adaptação. Fui aprendendo que a liberdade não depende apenas de um estado político.




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