sábado, 24 de fevereiro de 2018

Cacum




em pdfCacum

No blog o conto encontra-se aqui  Cacum



            Tic... Tac... Tic... Tac... prosseguia o relógio friamente concentrado em levar o tempo adiante.
            Ping... Ping... resvalavam do beiral do telhado, as últimas gotas da Primavera até ao parapeito da janela do seu quarto.
            Pum...Pum...Pum... batia artisticamente o seu coração, já com algumas notas desafinadas.
E o sono tão ansiosamente procurado, na hora em que deitara o corpo cansado de nada fazer? Para onde partira o sono? Estaria a brincar com ele? Estaria perdido entre o labirinto dos fios que formavam o tecido da almofada? Tentava enfiar a orelha no retângulo de esponja, com a esperança de adormecer e esquecer o dia aborrecido e a hora em que se arreliara com a filha. O poder e o tempo daquela cápsula para dormir, tomada diariamente ao jantar, tornava-se cada vez menor. Queria dormir! Dormir! Queria atingir mais do que aquela sonolência fatigante. Mais uma vez esfregava o lóbulo da orelha na almofada. Sentia-a roçar em cada fibra longa e delgada do linho. A concha auditiva parecia querer divertir-se. Parecia querer revelar os segredos do seu ouvido. Pois qual melhor testemunha dos nossos sentimentos que o nosso ouvido? Quantas vezes por conveniência, preguiça ou cansaço o desconsentimos? Uma grande inquietude obrigou o seu corpo a expressões que estavam para além de qualquer coerência. Sentiu um vento forte disposto a deslocá-lo sem que ele abandonasse o leito:
        ``Ouvia o barulho, sentindo todo o poder de um ambiente, onde homens sentados numa mesa comprida, pareciam prontos a passar a tarde a jogar, a fumar e a beber. Estava na loja da Ema. Tarde de domingo, ocasião imperdível para descontrair, desabafar palavrões e beber uns copitos a mais. Cada «copo de três» avivava mais o jogo. Cada absorção do cigarro era seguida pela vaidade de expelir o fumo, rindo e imaginando que o poder estava ali e que se poderia perpetuar, mesmo que fosse tão vão e de tão pouca duração como as nuvens de fumo que pareciam não incomodar ninguém.
            Mas no meio daquele ambiente via a sua menina, a Maria Luísa. O que fazia ela ali? Ah, lembrava-se... todos os domingos dava-lhe umas moedas para que ela pudesse comprar a sua guloseima. Era como um prémio que lhe oferecia aos domingos, talvez exatamente pela mesma razão que ele oferecia a si, aquelas tardes na loja da Ema.
            - Vá, não demores Maria Luísa! Olha que daqui a nada aparece o Cacum- avisou ele, para que a sua criança não respirasse muito tempo, aquele ar pouco educado.
            Bastava a palavra Cacum, para que a menina e todas as crianças da aldeia obedecessem.
            - Cacum!- murmurou um dos homens,  num som prolongado e com  voz rouca.
             Maria Luísa e o seu amiguinho, paralisados pelo medo, precipitaram-se para debaixo da mesa. Encolheram-se entre as pernas dos homens.
            - Ah,ah- riam-se os homens- olha o Cacum! Olha que ele vem para aqui- berravam eles. As duas crianças tremiam assustadas. Em uníssono, os pés dos adultos pareciam ter acordado; do chão subiam até aos seus ouvidos num ritmo ensurdecedor, quase satânico. Aos olhos de Maria Luísa e do amigo todos os pés lhe pareciam os do monstro. Pareciam ameaçar que o trariam até ali.
Diante este brado cavernoso, todas as crianças escondiam os seus pequenos corpos debaixo de alguma mesa ou atrás do primeiro esconderijo que encontrassem. Depois da ceia, se alguma criança teimasse em querer retardar a hora de ir para a cama, bastava pronunciar a palavra ´´Cacum`` para que elas corressem  para dentro das mantas; as pernas, impelidas pelo medo, tornavam-se mais ligeiras do que quando iam ao encontro de alguma brincadeira.
            Mas o homem sinistro, vestido de preto, cujo rosto nunca ninguém vira, porque ele o escondia com um enorme chapéu preto, nem entrou na loja. Ninguém se lembrava de ter visto alguma vez o seu rosto.
            Uma semana depois fora dado o grande alerta;
- Morreu o Cacum! Já estava morto há uns dias, com certeza- diziam uns.
- Foi o padeiro que deu com ele. O corpo já ´´tava`` rijo- comentavam outros.
O padeiro, todas as madrugadas, deixava um pão à porta do falecido, dentro de um saco.  Um saco, que o freguês, todas as noites antes de se deitar, pendurava na maçaneta da porta. Todas as sextas feiras à noite, Cacum, enrolava num papel pardo, a quantia certa para pagar sete pães; ao domingo o padeiro não trabalhava. A verdade é que o padeiro batera na porta do falecido, não por preocupação ou qualquer outro sentimento, mas por não ter encontrado o saco do pão, nem o pagamento semanal.
            - Pai, posso ir ao funeral do monstro?- perguntou Maria Luísa.
            Na época, um funeral era um acontecimento importante. Razão para a aldeia se reunir para longos debates. Desnecessário dizer que o principal alvo era o defunto; como tinha morrido, tão novo que era, se já tinha certa idade, ainda estava bem bom. Se era uma criança, Deus assim o quis, se estava doente, foi uma esmola.   Manuel viu o olhar curioso e infantil da filha debruçar-se, num análise adulta, sobre o corpo do velho Cacum..
           - Mas pai, ele é tão pequenino e magrinho!
      Manuel agitou-se diante da verdade da filha e talvez  tenha sido essa verdade, que expulsou o sonho e o tenha deixado agitado, como quem sofre um golpe sobrenatural. Suava... gemia agoniado e intimidado. Lentamente foi tomando consciência do sonho que tivera e sentiu o agro sabor, de que aquele pesadelo tinha sido um conflito, com uma realidade aparentemente esquecida durante um longo período de tempo. Deixou-se ficar quieto. Esperaria que a noite terminasse.

Fernanda R-Mesquita




















quarta-feira, 21 de fevereiro de 2018

Lake Louise- 2016

 Lake Louise) é um lago do Parque Nacional de Banff, na província de Alberta, no Canadá. 
A cor esmeralda da água, vem de partículas das rochas, por onde descem, até ao lago, as águas derretidas das geleiras. Este encontra-se rodeado por montanhas cobertas de neve, dentre eles:
  • o monte Temple (com 3 543 metros de altitude), 
  • o monte Whyte (com 2 983 metros) 
  • o monte Niblock (com 2 976 metros). 


As diferentes atividades de  recreação engloba caminhadas pela região, escalada de blocos e esqui. Existem cavalos em carroças para curtos passeios. Também há cães e trenós. Sinceramente, os dóceis animais não me pareceram muito felizes dentro das suas ´´gaiolas``. Talvez por isso, grande é a alegria deles quando, atrelados aos trenós, podem partir montanhas afora e exercitar os músculos atrofiados dentro dos carros, enquanto esperam. Se por um lado atrai-me ser conduzida por estes animais e experimentar a velocidade deles, por outro lado sinto, seriamente, que poderíamos passar sem, em prol do bem estar da raça canina. No entanto, tudo poderia ser feito de modo equilibrado. A ganância leva a amontoar cães num cubículo e a esquecer que eles também sentem. Puxando ou não pessoas, a corrida estimula-os à alegria, à vida. Expressão que morre quando voltam a um espaço que deprime não apenas o movimento, mas a essência. Se existem leis que protegem os animais, neste caso, não se aplicam. Involuntariamente pensei na lei aprovada em Portugal, que permite levar animais ao restaurante. Pessoas e animais, animais e pessoas. Cada raça com as suas necessidades. Algumas cruzam-se na relação homem-animal. O animal gosta e precisa do homem e o homem gosta e precisa do animal, mas isso não anula as diferenças. O equilíbrio, para quando?




Embora as estátuas de gelo estivessem a descongelar, olhei-as com o mesmo deslumbramento de sempre. O pormenor do artista é fantástico. 
O lago Louise recebeu este nome em homenagem à princesa Luísa do Reino Unido, a quarta filha da rainha Vitória e esposa de John Campbell, 9.º Duque de Argyll e Governador Geral do Canadá de 1878 a 1883. 
O pequeno povoado do lago Louise, chamado igualmente Lake Louise, está localizado ao lado da Rodovia Trans-Canadá, 180 quilômetros a oeste de Calgary. 

No pequena vila existe uma pequeno local de comércio chamado Samson Mall que contém um centro de informação, uma mercearia, uma padaria, uma loja de equipamentos desportivos e estabelecimentos de refeição rápida. A área de esqui Lake Louise Mountain Resort também está localizada na região.

Na costa leste do lago, está o Château Lake Louise, um elegante hotel quatro estrelas, que foi construído gradualmente no fim do século XIX e nos princípios do século XX pela Canadian Pacific Railway.























Neste link, irá encontrar mais um passeio a este lago ↪Lake Louise gelado- 2009









terça-feira, 20 de fevereiro de 2018

O piriquito

          Conheci-o numa loja de animais. Ao olhá-lo, senti-o perdido no meio de tantos outros pássaros. 
         Gostava de companhia humana. Cantava muito forte quando escutava a água correr. Saía da gaiola mas voltava sempre para lá. Normal. Era a sua sala de refeições. Por vezes escolhia dormir fora😊; alugava os outros vasos de flores. Pela manhã, nunca sabia em que ´´hotel`` ele estava hospedado. Chamava-o e ele respondia. Quando me sentava, olhava-me de lado e voava direto para o meu ombro ou colo. Cantava no meu ouvido. Mantinha boas relações não apenas comigo, mas com toda a familía. 
          No verão ele voava na rua, mas voltava. Era bonito vê-lo levantar voo. Parecia ganhar o céu.  Também participava dos nossos passeios diários, após o jantar. Apreciava a paisagem, ora no nosso ombro, ora na relva. Debicava o que lhe apetecia e voltava a nós. Um dia, após soltá-lo por volta das três da tarde, não voltou mais. Deixei, por umas semanas, a gaiola na varanda, aberta, com comida e água, mas nunca mais voltou. Ou enganou-se na varanda e apanharam-no, ou decidiu procurar pelos seus semelhantes.  Ele conhecia tão bem a casa. Era lindo! Tenho saudades dele, mas se conquistou uma liberdade maior, fico feliz. Quem não gosta de liberdade?

Edmonton- 17 de junho de 2013
           
















O sol de Inverno


Edmonton- Beaumaris Lake. inverno- 2011










domingo, 11 de fevereiro de 2018

Jasper- 2009











Estátua do trabalhador

Esta estátua representa o momento de um trabalhador num intervalo para o lanche.
O termo do café, a chávena e o saco do lanche são feitos do mesmo material usado para a estátua: o bronze.

Edmonton- Downtown - 2010









Lake Louise gelado- 2009

O dia estava lindo e antes de partir, paramos na zona dos trenós. Os cães encontravam-se todos na rua. Latiam a plenos pulmões. Entusiasmados, partiram, galgando os trilhos entre a floresta e quebrando o silêncio das montanhas. 
Foi tudo muito bonito até ao momento em que voltamos para o carro. Começava a anoitecer, os casacos tinham ficado dentro do carro e.... surpresa... o carro estava trancado! E a chave? Quentinha,  no volante, relaxando no ambiente tranquilo e agradavelmente morno! E nós, olhando do lado de fora, espreitando pelos vidros, em plenos pulmões das montanhas sentindo a temperatura a descer, com a pergunta bailando no nosso cérebro: quanto tempo conseguiremos esperar, sem arrefecer completamente?  Não perdemos a calma. Uns dez minutos depois, um jovem notou a nossa situação. Prometeu, assim que chegasse à pequena vila,  enviar alguém para abrir o carro.  Uma vez por outra surgia o pensamento e se o jovem não cumprisse? Esperámos uns quarenta minutos. Foi com grande alívio que recebemos o senhor. Saiu do seu jipe, identificou-se e abriu o carro num abrir e fechar de olhos. Creio que pagamos cem dólares, mas suspiramos aliviados. Felizes entramos no carro, rumo a Banff, acreditando que ainda existem seres humanos que se importam com os seus semelhantes. Grata!