Cacum




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            Tic... Tac... Tic... Tac... prosseguia o relógio friamente concentrado em levar o tempo adiante.
            Ping... Ping... resvalavam do beiral do telhado, as últimas gotas da Primavera até ao parapeito da janela do seu quarto.
            Pum...Pum...Pum... batia artisticamente o seu coração, já com algumas notas desafinadas.
E o sono tão ansiosamente procurado, na hora em que deitara o corpo cansado de nada fazer? Para onde partira o sono? Estaria a brincar com ele? Estaria perdido entre o labirinto dos fios que formavam o tecido da almofada? Tentava enfiar a orelha no retângulo de esponja, com a esperança de adormecer e esquecer o dia aborrecido e a hora em que se arreliara com a filha. O poder e o tempo daquela cápsula para dormir, tomada diariamente ao jantar, tornava-se cada vez menor. Queria dormir! Dormir! Queria atingir mais do que aquela sonolência fatigante. Mais uma vez esfregava o lóbulo da orelha na almofada. Sentia-a roçar em cada fibra longa e delgada do linho. A concha auditiva parecia querer divertir-se. Parecia querer revelar os segredos do seu ouvido. Pois qual melhor testemunha dos nossos sentimentos que o nosso ouvido? Quantas vezes por conveniência, preguiça ou cansaço o desconsentimos? Uma grande inquietude obrigou o seu corpo a expressões que estavam para além de qualquer coerência. Sentiu um vento forte disposto a deslocá-lo sem que ele abandonasse o leito:
        ``Ouvia o barulho, sentindo todo o poder de um ambiente, onde homens sentados numa mesa comprida, pareciam prontos a passar a tarde a jogar, a fumar e a beber. Estava na loja da Ema. Tarde de domingo, ocasião imperdível para descontrair, desabafar palavrões e beber uns copitos a mais. Cada «copo de três» avivava mais o jogo. Cada absorção do cigarro era seguida pela vaidade de expelir o fumo, rindo e imaginando que o poder estava ali e que se poderia perpetuar, mesmo que fosse tão vão e de tão pouca duração como as nuvens de fumo que pareciam não incomodar ninguém.
            Mas no meio daquele ambiente via a sua menina, a Maria Luísa. O que fazia ela ali? Ah, lembrava-se... todos os domingos dava-lhe umas moedas para que ela pudesse comprar a sua guloseima. Era como um prémio que lhe oferecia aos domingos, talvez exatamente pela mesma razão que ele oferecia a si, aquelas tardes na loja da Ema.
            - Vá, não demores Maria Luísa! Olha que daqui a nada aparece o Cacum- avisou ele, para que a sua criança não respirasse muito tempo, aquele ar pouco educado.
            Bastava a palavra Cacum, para que a menina e todas as crianças da aldeia obedecessem.
            - Cacum!- murmurou um dos homens,  num som prolongado e com  voz rouca.
             Maria Luísa e o seu amiguinho, paralisados pelo medo, precipitaram-se para debaixo da mesa. Encolheram-se entre as pernas dos homens.
            - Ah,ah- riam-se os homens- olha o Cacum! Olha que ele vem para aqui- berravam eles. As duas crianças tremiam assustadas. Em uníssono, os pés dos adultos pareciam ter acordado; do chão subiam até aos seus ouvidos num ritmo ensurdecedor, quase satânico. Aos olhos de Maria Luísa e do amigo todos os pés lhe pareciam os do monstro. Pareciam ameaçar que o trariam até ali.
Diante este brado cavernoso, todas as crianças escondiam os seus pequenos corpos debaixo de alguma mesa ou atrás do primeiro esconderijo que encontrassem. Depois da ceia, se alguma criança teimasse em querer retardar a hora de ir para a cama, bastava pronunciar a palavra ´´Cacum`` para que elas corressem  para dentro das mantas; as pernas, impelidas pelo medo, tornavam-se mais ligeiras do que quando iam ao encontro de alguma brincadeira.
            Mas o homem sinistro, vestido de preto, cujo rosto nunca ninguém vira, porque ele o escondia com um enorme chapéu preto, nem entrou na loja. Ninguém se lembrava de ter visto alguma vez o seu rosto.
            Uma semana depois fora dado o grande alerta;
- Morreu o Cacum! Já estava morto há uns dias, com certeza- diziam uns.
- Foi o padeiro que deu com ele. O corpo já ´´tava`` rijo- comentavam outros.
O padeiro, todas as madrugadas, deixava um pão à porta do falecido, dentro de um saco.  Um saco, que o freguês, todas as noites antes de se deitar, pendurava na maçaneta da porta. Todas as sextas feiras à noite, Cacum, enrolava num papel pardo, a quantia certa para pagar sete pães; ao domingo o padeiro não trabalhava. A verdade é que o padeiro batera na porta do falecido, não por preocupação ou qualquer outro sentimento, mas por não ter encontrado o saco do pão, nem o pagamento semanal.
            - Pai, posso ir ao funeral do monstro?- perguntou Maria Luísa.
            Na época, um funeral era um acontecimento importante. Razão para a aldeia se reunir para longos debates. Desnecessário dizer que o principal alvo era o defunto; como tinha morrido, tão novo que era, se já tinha certa idade, ainda estava bem bom. Se era uma criança, Deus assim o quis, se estava doente, foi uma esmola.   Manuel viu o olhar curioso e infantil da filha debruçar-se, num análise adulta, sobre o corpo do velho Cacum..
           - Mas pai, ele é tão pequenino e magrinho!
      Manuel agitou-se diante da verdade da filha e talvez  tenha sido essa verdade, que expulsou o sonho e o tenha deixado agitado, como quem sofre um golpe sobrenatural. Suava... gemia agoniado e intimidado. Lentamente foi tomando consciência do sonho que tivera e sentiu o agro sabor, de que aquele pesadelo tinha sido um conflito, com uma realidade aparentemente esquecida durante um longo período de tempo. Deixou-se ficar quieto. Esperaria que a noite terminasse.

Fernanda R-Mesquita




















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