O Madeirense

            
Edmonton- quinta-feira, 14 de outubro de 2010

      Falar da alma de alguém é sempre um grande risco. Quantos erros cometemos ao tentar decifrar o universo alheio? Por isso o que vou tentar transmitir foi o que senti quando avistei o Madeirense; cognome pelo qual é mais conhecido. O Eduardo já me tinha falado nele e numa tarde de passeio decidiu parar ao avistá-lo no meio de um dos parques verdes da baixa da cidade. Apoiava um braço na bengala. Ela era a perna que lhe faltava. Fiquei dentro do carro enquanto o Eduardo se dirigiu a ele. Certamente,  já habituado a ser alvo de curiosidade, saudou o Eduardo e despejou a sua história. Era notório o sentimento de raiva e o esforço em demonstrar que os seres diferentes também são inteligentes. Quanto mim, ele não precisava mostrar a sua inteligência,  pois sempre acreditei que as muitas das pessoas bafejadas pelo infortúnio da vida, desenvolvem um olhar atento às coisas que normalmente os outros na sua vida, aparentemente normal, esquecem ou perdem a capacidade de olhar, ver e sentir.
          De sessenta e cinco anos de idade, este homem que se diz chamar Agostinho falou de Portugal, da Madeira e do Canadá. Relembrou, talvez já demasiadas vezes, as cicatrizes no corpo, a falta da perna e dos dedos que perdeu  há muitos anos,  porque se deixou adormecer na rua,  durante uma noite de inverno. As noites de inverno em Alberta não permitem sonos ao luar. Falou de História e de injustiças, repetindo algumas vezes, sempre em português: 
          - Vocês não sabem nada!
           Esta frase Vocês não sabem nada!, refere-se à história errada, que o Canadá conta e assenta como certa; ignorando a chegada dos portugueses às terras canadense, antes dos ingleses e franceses. 
          Pedi-lhe autorização para lhe tirar uma foto a que ele respondeu rapidamente: 
         - É claro! Mas pode sair do carro.  
       Tirei-lhes duas fotos. Tentando que ele não se sentisse alvo de mera curiosidade, estendi-lhe a mão, num gesto de absoluto  carinho. Ele olhou curioso para o meu gesto, o que denunciou que não estava habituado, depois sorriu e estendeu-me a mão. O seu sorriso foi o melhor presente que tive neste dia. Assemelhou-se a um sorriso de criança, num rosto brutalmente amadurecido. O Eduardo perguntou-lhe, onde o poderíamos encontrar de novo, ao que ele respondeu:   
        - Moro num abrigo aqui perto. Ali na esquina. Daqui a pouco já não saio à rua... quando começar o frio. 
       Este homem que vive da caridade alheia, cercado pelas injustiças da sociedade, sorriu de novo e levantando a mão  disse-nos adeus. Mas, enquanto o carro se afastava, senti como que um rasto invisível, aquele olhar que sorriu na minha mão e que morreu na minha incapacidade de mudar o sistema que nos comanda. Trouxe comigo o desejo enorme de o abraçar e acariciar as suas barbas brancas, para sentir de novo acender aquele sorriso no seu olhar e fazê-lo sentir que o mundo sente que ele existe!

           ´´ A primeira visita documentada a terras canadenses por navegadores europeus ocorreu em 1497 ou 1498, quando o veneziano ao serviço de Inglaterra Giovanni Caboto (conhecido em inglês como John Cabot) aportou à Terra Nova. Alguns historiadores defendem que há indícios que a Terra Nova já teria sido visitada pelo navegador português João Vaz Corte Real em 1472 ou antes e por Diogo de Teive e o seu piloto Pero Vasques Saavedra em 1452.

              Baseando-se no Tratado de Tordesilhas, a Coroa Portuguesa alegava ter direitos territoriais na área visitada por John Cabot, em 1497-1498. 
             Em 1498, o marinheiro luso João Fernandes Lavrador visitou o que é agora a costa leste do Canadá, sendo que o seu apelido deu origem ao topônimo "Labrador".
             Posteriormente, entre 1501 e 1502, os irmãos Corte-Real exploraram Terra Nova e Labrador. 
             Em 1506, o rei D. Manuel I criou impostos para a pesca do bacalhau nas águas da região. 
       No ano 1521, João Álvares Fagundes e Pêro de Barcelos comandaram viagens de reconhecimento e estabeleceram postos avançados de pesca.
         No entanto, a extensão e natureza da presença portuguesa no norte do continente americano durante o século XVI permanecem obscuras. 
           Em 1534 Jacques Cartier explorou o Canadá em nome da França.
      O explorador francês Samuel de Champlain chegou em 1603 e estabeleceu os primeiros assentamentos europeus permanentes em Port Royal em 1605 e Quebec em 1608.``
         Onde está a verdade? Será ela reconhecida algum dia? Porque a história do Canadá, nas escolas canadenses é ensinada segundo o relato acima no primeiro parágrafo. Viverá, o Madeirense, o suficiente para ver a sua verdade reconhecida?

Fernanda R-Mesquita








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