domingo, 11 de fevereiro de 2018

Inquietação




O lago do bosque

          Ainda não são seis da manhã. O sol começa a nascer. Sinto precisar encontrar grandes razões, nas pequenas coisas que me rodeiam, para acalmar esta inquietude que me desassossega. Pequenas? Como posso chamar de pequenas coisas ao canto do ganso que guia o resto do bando até às  águas ainda frias do lago? Atrás desse  bando de gansos segue um bando de corvos, talvez por curiosidade ou também por necessidade de um primeiro banho matinal. Acordaram com os primeiros raios de sol, com vontade de viver cada segundo em plenitude. Também eu desejo acordar todas as manhãs e debruçar-me na janela da vida e ganhar o tempo que corre. 
          No lago, as galinhas de água já acordaram os seus filhos para um novo treino. Tudo acordou para a vida, neste mundo animal, onde viver é a lei principal. Acabei de ouvir um novo canto. São uns pequenos pássaros que alegremente saltam de galho em galho, nas árvores que airosamente permitem,  que estas irrequietas aves saboreiem a frescura das suas folhas tão verdes e viçosas. Por vezes sacode a calma do lago,  um ganso que grita, um pato que protege as suas crias ou os pintos que se escondem na asa da mãe galinha. E tudo porque num breve momento nasce uma luta entre um corvo e uma gaivota. Ambos lutam pela comida que foi deixada para os patos, pintos e gansos.                           
Talvez a dor que eu sinta no peito, seja o desejo de fazer sentir às pessoas que amo, que cada segundo de vida desperdiçado é como morrer um pouco, mesmo que aparentemente continuemos a caminhar e a respirar. E é essa a inquietação que absorve os meus sentidos e me faz sentir tão pequenina, sobretudo quando testemunho a sabedoria e a audácia com que com todo este mundo animal vive e desafia cada instante, apenas com a certeza de que viver a vida é senti-la em cada momento e não em cada sentimento e suspiro perdido,  lamentando o que poderia ter feito e não fez. E quando penso assim, penso sobretudo nos meus filhos temendo que eles deixem passar,  em vão, os melhores momentos da vida.

Fernanda R-Mesquita
1 de outubro de 2010









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