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Nona Antologia Ponto & Vírgula - Pág. 44 - Editora FUNPEC- Secreto luxo

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Secreto luxo
Fernanda Rocha Mesquita


Que todos os dias são cheios de labutas domésticas, quase todos o sabem; as crianças crescem a olhos vistos. Quase todos, sim, porque alguns só sabem ver que as crianças crescem a olhos vistos. Arruma o último talher, coloca o ´´naperon` na mesa`` e ajeita as maçãs na fruteira de inox. As crianças, depois de tanta brincadeira e de uma história contada, abrandam a energia infantil no sono que prometem tranquilidade. Mais uma vez, vencera a luta na cozinha. Olha em volta; tudo em ordem, tudo preparado. Poderia cair na cama, que ela mesma arrumara, antes do dia ter cla-reado, mas não. Permite-se a um secreto luxo; viajar até à varanda. Senta-se na beira do muro, e faz o que ninguém sabe que ela sabe fazer: sonhar. Parece que no catecismo das mulheres domésticas, não existe o sonho. Antes de se entregar completamente ao culto, ajeita os fios de cabelo, soltos do fatigado carrapito.
Silhueta pequena no enorme silêncio universal, entrega-se ao doc…

Etapas a vencer

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             Basta nascer para nos sentirmos confrontados, diariamente, com etapas por vencer. Mas existem etapas e etapas. Muitas barreiras são visíveis, outras nem tanto. Quantas vezes há quem trabalhe para o deleite dos outros e muitos são os que acham apenas ´´ bonitinho``. Na beleza que deleita os olhos de muitos estão lá, lágrimas, suor, e certamente alguns palavrões de raiva e desalento. Sempre que recebo um exemplar da revista Ponto & Vírgula, deleito-me com a qualidade da escrita de cada autor, e com a excelente qualidade da diagramação. Enquanto leio, veios de boa disposição e otimismo de Irene Coimbra, viajam com a revista até mim. Certamente muitos dos leitores sentirão isso. Mas quem dirige algo deste género, precisa muito mais do que otimismo. Necessita de carregar nela, doses e doses de paciência e de coragem. Há a angústia de prazos a cumprir, que nem sempre são possíveis de cumprir.
Na edição 35, do bimestre setembro/outubro fui capa da revista...  Sim, eu, no Canadá…

Pintura

Deixei-me apaixonada, descansar... como o rosto pintado numa tela, belo instante; sobre o teu colo disposta a amar, escrava dos teus dedos... delirante!
Sou como o pano pronto a colorir, vaporoso... Que se estende e submete à pintura, onde tu hábil pintor, virtuoso, juntas os nossos corpos... aquarela pura!
E depois dos nossos instintos cansados, descansas os dedos, iguais a pincéis suados... E eu plácida, no teu peito descontraída...
Que pintura real! Que plenitude! Que beleza! Que deixa num quadro a virtude, a certeza de que o amor é o plasma  da vida. ☀️ Fernanda R-Mesquita


























Viagem mágica

O sol parecia um girassol que cansado
de viver na terra fugira para o céu,
as nuvens pareciam bordadas de dourado
pelo sol que parecia um girassol.

O burrinho atento ao caminho
subia o trilho de pedra e terra,
balançando as cangalhas devagarinho
subindo o trilho de pedra até ao cimo da serra.

O meu braço como um galho meio bambo
caía das  cangalhas que balançavam devagarinho,
sentia o beijo das ervas que beijadas pelas libelinhas
ondulavam fazendo vénia ao burrinho.

Pendurando a cabeça, quase fazendo o pino
via o mundo ao contrário, até a D. Josefina
no seu xaile preto dobrado em triângulo, benzendo-se dizia:
- Cruz credo, Sr. Francisco, olhe a sua menina!

O burro de orelhas grandes e crina pequena,
deitava de soslaio um olhar vivaço zurrando
para o cão da D.Josefina, que na tarde amena
ladrava ao cordeiro que lhe respondia  balindo.

Horas depois descendo a serra ao teu lado
de mãos dadas, ouvia-te cantar,
enquanto guiavas o burrinho de lenha carregado,
sobre as cangalhas que balança…