terça-feira, 15 de maio de 2018

Carta ao Alceu Bigato


Olá Alceu
 
Como está? E sua esposa e resto de família? 
Finalmente estou a escrever-lhe. Algo que há muito tinha vontade de fazer. Sei que já tomou conhecimento, através de Irene, que sou sua fá. Entre tantos livros editados por esse mundo afora, eu gostaria muito de um dia sentir o prazer de ter nas minhas mãos um ou mais livros seus. A primeira vez que recebi algumas antologias Ponto & Vírgula, a Irene perguntou-me se eu tinha gostado. Respondi, obviamente, que sim. Perguntou-me se tinha gostado de alguém em especial. Mais uma vez respondi que sim. 
- Quem?- perguntou ela. 
- Alceu Bigato- respondi eu.
O primeiro poema que li seu, foi o ´´Retrato falado``. Um poema que mostra um pouco do seu sítio. Sou apaixonada por poemas que contam histórias. Cresci no campo, rodeada de serras, pinheiros, eucaliptos, oliveiras, vinhas e hortas. O meu avô tinha várias vinhas, um pinhal e uma fazenda. Eu cresci, brincando pelos campos enquanto ele trabalhava. Enriqueci a minha imaginação através das histórias dele. Acordava todos os dias ao som do galo. Foi um tempo lindo que permanece, até hoje, dentro de mim. Talvez devido a isso, quando encontro alguém que sabe falar da terra, do grande universo que ela abraça e da ligação entre homem e vida, fico rendida. Em certos, ou em quase todos, você revela, apesar de ter percorrido já um longo caminho, que nunca abandonou a sua criança. Ela fala por si, na sua palavra escrita. Eu também digo, todos os dias, bom dia ao dia, como o Alceu descreve  no seu poema ´´Bom dia, ao dia``. 
Falando de um outro poema ´´ Faça apenas isso``.  Este poema é excepcional! ´´ 

O quintal de sua consciência, 
procure mantê-lo limpinho, 
mas cuidado ao varrer o lixo 
pra não jogá-lo no quintal do vizinho.´´
           
Eu sinto-me na musicalidade das suas palavras. Uma parte de mim fica aqui, sentada, olhando a sua postura inclinada, escrevendo Visualizo-me parte integrante do mundo que o Alceu sente e vive.

Outra faceta sua, para além de escritor é um gigantesco declamador.  Adoro escutá-lo, nos programas de Irene, com o seu jeito único. Adoro a sua autenticidade, simplicidade. Gosto de pessoas reais e de quem sabe olhar para dentro dos outros e quem transpõe a porta dos significados e não se fica apenas pela explicação conhecida. 

Vai um pouco longa esta carta. Já passou por vários períodos; O primeiro, a empolgação de lhe escrever e dar a conhecer o quanto gosto do que escreve, o segundo, após essa fase de empolgação, a calma para não misturar todos os pensamentos e tornar confusa, a minha mensagem. O terceiro, a grande alegria ao saber da edição do seu primeiro livro. Parabéns Alceu! Parabéns! O mundo precisa de poetas como você. Poetas não adulterados pelas redes sociais. pela competitividade ou pela aparência. Adorei a capa do seu livro. Parabéns à sua neta. Muito bonito, ver um ser de uma geração tão diferente, cooperar na divulgação do seu talento. Parabéns a ambos por essa relação construída, num tempo em que os afetos mais simples e naturais são desconstruídos. 
Que mais posso dizer? Poderia falar de tantos outros poemas seus, dos quais gosto muito, mas vou deixar para quando tiver, nas minhas mãos, o seu livro. Sei que será uma preciosidade literária.  
Um grande abraço para toda a sua família, um beijinho à sua esposa. 

Continue sempre escrevendo e mantenha esse seu precioso jeito simples, que demonstra uma força gigantesca.

Ah, adorei que tivesse escolhido Sergio Kodato para escrever o prefácio do livro. O elemento adequado para completar a obra. Ele é um outro ´´personagem``, que me´´ atrai `` muito, dentre os autores do Ponto & vírgula. 

Abraço

Fernanda R-Mesquita


Esta é a primeira carta, que envio pelos correios, para um poeta.  😊






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