terça-feira, 15 de maio de 2018

Etapas a vencer




             Basta nascer para nos sentirmos confrontados, diariamente, com etapas por vencer. Mas existem etapas e etapas. Muitas barreiras são visíveis, outras nem tanto. Quantas vezes há quem trabalhe para o deleite dos outros e muitos são os que acham apenas ´´ bonitinho``. Na beleza que deleita os olhos de muitos estão lá, lágrimas, suor, e certamente alguns palavrões de raiva e desalento.
Sempre que recebo um exemplar da revista Ponto & Vírgula, deleito-me com a qualidade da escrita de cada autor, e com a excelente qualidade da diagramação. Enquanto leio, veios de boa disposição e otimismo de Irene Coimbra, viajam com a revista até mim. Certamente muitos dos leitores sentirão isso. Mas quem dirige algo deste género, precisa muito mais do que otimismo. Necessita de carregar nela, doses e doses de paciência e de coragem. Há a angústia de prazos a cumprir, que nem sempre são possíveis de cumprir.
Na edição 35, do bimestre setembro/outubro fui capa da revista...
 Sim, eu, no Canadá colaborando com Irene no Brasil e a Aline em Inglaterra. Milhares de quilómetros de distância, agravados com a diferença de horário.
O conteúdo da revista estava pronto, mas o que poderia ser de menor importância tornou-se o maior problema a ultrapassar.
- Fernanda tira muitas fotos. Na rua, em casa... de pé... sentada... etc...
Assim fiz. Mas as primeiras fotos tiradas com um telemóvel, sem alta definição, a Aline as recusou e com toda a razão...
- Vai a um fotógrafo.
Durante quase um dia inteiro visitei vários estúdios fotográficos. Em cada um que entrava, aumentava a minha desilusão. Apreensiva sabia que lá longe Aline, após um longo dia de trabalho, sentar-se-ia no computador esperando pelas fotos. Imaginava Irene, no Brasil, quase pronta para descansar, esperando uma resposta minha, para que Aline no outro dia quando chegasse, tivesse o material para a capa da revista. Mas porquê tanta dificuldade em tirar uma foto? Teria de ser mais do que uma, para escolher a melhor, claro. O grande problema é que todos os fotógrafos apresentaram-me preços exorbitantes. Se um fotógrafo saísse comigo para a rua, apenas por uma hora, custar-me-ia cerca de mil dólares ou mais. Se me limitasse apenas ao estúdio cobrar-me-iam mais de cem dólares cada foto. Se eu optasse por um pacote de seis, pagaria a bela quantia de seiscentos dólares. Ah, mas por fotos apenas digitais. Já no final do dia, cerca das cinco horas da tarde, entrei num minúsculo estúdio de um chinês. Apesar do difícil sotaque chinês lá o entendi. Por uma foto retocada eu pagaria cento e trinta dólares. Mas apenas uma. Se não me agradasse, teria que tirar outra. Respondi-lhe que voltaria no dia seguinte. O senhor marcou a hora. Onze da manhã. Dar-me-ia a foto quatros horas depois. Não satisfeita, nem confiante na qualidade do senhor, decidi visitar mais um estúdio. Fui atendida por uma senhora muito simpática. Pelo sotaque, deduzi que seria oriunda de um país da Europa do Leste. Escutou o que eu pretendia. Esta foi, de todas as propostas, a mais acessível.
- Tiro-lhe quantas fotos quiser, até aprovar uma, e ofereço-lhe uma em papel. Mas não retoco. Não sei.
Eu não estava interessada na foto em papel, mas essa amabilidade proporcionou-me um certo bem estar, depois de tantas horas a entrar e a sair em estúdios. Gentilmente quis mostrar-me o estúdio, onde eu no dia seguinte seria atendida. Gostei da senhora mas não gostei do estúdio. O pequeno espaço foi o que me causou menos preocupação. O que não me agradou foi a desarrumação. A visível desorganização revelava falta de profissionalismo e até um certo mau gosto. Agradeci, gentilmente à senhora e fui para casa. Enquanto conduzia, enfrentando a hora de ponta na cidade de Edmonton, pensava numa saída. Com toda a certeza não iria desiludir Irene e Aline. Se eu tinha aceite o desafio, iria cumpri-lo. Pensei na minha casa. Arranjaria um modo de a transformar num estúdio fotográfico. Entrei em casa, olhei o meu filho e disse:
- Prepara a tua máquina fotográfica. Não consegui encontrar um fotógrafo com ofertas decentes.
- O pior será a luz- argumentou ele.
Dirigi-me ao quarto da minha filha. Desliguei o enorme e potente candeeiro, cujas lâmpadas eram autênticos holofotes. Carreguei o pesado candeeiro de pé e levei-o até à sala. Virei as luzes para mim e procurando diferentes cantos da sala, com o candeeiro atrás, o meu filho tirou-me cerca de cem fotos. A dada altura  Nuno comentou:
- Agora entendo, porque os fotógrafos em Alberta têm falta de clientes.
Pois, também eu. Fiquei a saber o quão caros sãos os fotógrafos em Edmonton.
Da centena de fotos, escolhi umas seis e enviei para a Irene que já dormia e para Aline que provavelmente já estaria a caminho do trabalho.
 Quase não dormi nessa noite. Várias foram as vezes que fui ao computador para saber se as fotos tinham sido aprovadas ou não. Já quase de madrugada, a Irene enviou-me uma mensagem:
- Fernanda, descanse. A Aline aprovou as fotos. Nós vencemos amiga.
Eu sorri; Irene, sempre com a sua certeza de vitória! É uma característica que nos assemelha. Também recuso pensar, diante das dificuldades, que não há solução. Foi uma vitória que roubou muitas horas de sono, mas valeu a pena. Obrigado Aline, Irene e Nuno. Etapa vencida!
           
           
Fernanda R-Mesquita 




















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