quarta-feira, 16 de maio de 2018

Nona Antologia Ponto & Vírgula - Pág. 44 - Editora FUNPEC- Secreto luxo

Secreto luxo
Fernanda Rocha Mesquita


Que todos os dias são cheios de labutas domésticas, quase todos o sabem; as crianças crescem a olhos vistos. Quase todos, sim, porque alguns só sabem ver que as crianças crescem a olhos vistos. Arruma o último talher, coloca o ´´naperon` na mesa`` e ajeita as maçãs na fruteira de inox. As crianças, depois de tanta brincadeira e de uma história contada, abrandam a energia infantil no sono que prometem tranquilidade. Mais uma vez, vencera a luta na cozinha. Olha em volta; tudo em ordem, tudo preparado. Poderia cair na cama, que ela mesma arrumara, antes do dia ter cla-reado, mas não. Permite-se a um secreto luxo; viajar até à varanda. Senta-se na beira do muro, e faz o que ninguém sabe que ela sabe fazer: sonhar. Parece que no catecismo das mulheres domésticas, não existe o sonho. Antes de se entregar completamente ao culto, ajeita os fios de cabelo, soltos do fatigado carrapito.
Silhueta pequena no enorme silêncio universal, entrega-se ao doce fluxo e encontra o escudo que a protege das lâminas que lhe almejam, não a carne, mas a alma. Admira as estrelas e a lua.
Elas não temem as alturas e não têm medo de sair à noite.
De mansinho, inventa-se hera, sobe até ao universo que nunca se gasta, senta-se na lua, mostra-lhe o lado que nunca mostra a ninguém. O decote respirando calmo e a testa expulsando as rugas;
sente-se pedra preciosa que fugiu ao lapidário.
Vem visitá-la um anjo poeta que traz na sua mão uma gota do oceano. Ela, envolta em sonhos de lã branca, refresca-se para fazer jus ao verbo viver.


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Nona Antologia Ponto & Vírgula - Pág. 44 - Editora FUNPEC
Coordenação: Irene Coimbra







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