Ruínas de Frank





Onde a história, mais uma vez, se vincula ao progresso e à tragédia. 
Ainda que um pouco cansados da estrada, ansiosos por chegar a  Coleman, nossa primeira paragem de uma viagem que iria durar oito dias, ao longo do gigantesco e majestoso lago Kootenay, diminuímos a velocidade do carro perante o espantoso cenário que desfazia a tranquila paisagem, percorrida até ali. Um longo cemitério de rochas, firmes e eloquentes, embora mudas. Um cenário que atrai e impressiona inúmeros visitantes.
            Às 4h10 de 29 de abril de 1903, cerca de 80 milhões de toneladas (30 milhões de metros cúbicos) de calcário caíram da face leste da Montanha da Tartaruga e cobriram aproximadamente três quilômetros quadrados do fundo do vale.
A gigantesca e implacável queda de rochas  represou o rio Crowsnest e formando um pequeno lago, cobriu dois quilômetros da Canadian Pacific Railway, destruiu a maior parte da infraestrutura da mina de carvão e enterrou sete casas nos arredores da cidade adormecida de Frank, além de vários edifícios rurais e matando cerca de cem indivíduos, com algumas excepções surpreendentes; três meninas, Fernie Watkins que foi encontrada ilesa entre os escombros, Marion Leitch, 15 meses de idade, jogada de sua casa para a segurança em uma pilha de feno; Gladys Ennis, 27 meses de idade, encontrada escondida em uma pilha de lama por sua mãe (Gladys morreu em 1995 aos 94 anos, o último sobrevivente da catástrofe.
Houve tentativas de enviar avisos telegrafados  para o oeste até Cranbrook, mas as linhas orientais haviam sido cortadas, de modo que dois responsáveis pelas obras da estrada, atravessaram o rochedo para pedir ajuda ao comboio que passasse. Apenas um,  Sid Choquette atravessou, mas chegou a tempo de acenar para o trem. Dezassete homens presos na mina Frank, escaparam pelo túnel de carvão virgem e chegaram à superfície. Foram necessárias 14 para cavar 6 metros (20 pés) de carvão e 2,7 metros (9 pés) de pedras calcárias. Um cavalo de minas chamado Charlie sobreviveu sozinho na mina por um mês sem ver a luz do dia, procurando por algum possível sobrevivente, mas sucumbiu pouco depois de ser encontrado.
A cidade foi evacuada, mas após um mês, as pessoas puderam retornar, e tanto a mina quanto a ferrovia voltaram a funcionar. Apenas doze corpos foram recuperados dos escombros no momento do deslizamento. Em 1922, uma equipe de construção de estradas descobriu os restos de mais sete pessoas.


Certamente com o desgosto marcando o passo, 
com o estrondo ecoando nos ouvidos
pedindo a Deus resistência contra os demónios do medo;
não fossem as outras montanhas seguir o rastro 
do recente cemitério,
meteram mãos à obra,
certamente incomodados com os imaginários 
gritos de socorro dos corpos soterrados
e o relinchar de Charlie
Mas era mais forte a necessidade
de continuar remexendo nas entranhas 
das montanhas. 
Seria? 
A negligência e a ganância
cegam os famintos por explorar a Terra e os mais fracos.
A Terra vai reagindo, assim como na cidade de Frank
enquanto os mais fracos vão dizendo ámen. 
Perdoa Charlie, esta nossa espécie
de uma engenhosidade formidável
que mexe e remexe nas entranhas do planeta, 
obrigando-o a reagir drasticamente.


          Hoje, a avalanche em Frank é um espetáculo impressionante para todos os visitantes. A estrada n.3 passa por ela, contendo painéis interpretativos que fornecem informações. O Centro Interpretativo das ruínas de  Frank fica no topo de um penhasco com vistas impressionantes da derrocada.
            Existem duas trilhas, uma mais fácil e outra mais aventureira. A primeira, de curta distância e fácil acesso através do próprio deslizamento começa e termina no Centro. A outra, mais aventureira e exigente leva os mais audazes até ao cume da Turtle Mountain para uma vista excepcional das ruínas de Frank e do vale ao redor.

Tradução e poema de:
 Fernanda R-Mesquita

Agosto 2018














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