sexta-feira, 12 de outubro de 2018

Procurando por amigos

Foto- Benji- Edmonton, Canadá- 17 de julho-2018


             Buscar o encontro, ainda que imaginário, parece amornar-te a alma. Olho-te! E o que sinto? Que procuras no ambiente que te rodeia, uma realidade mais próxima da tua verdade. És sábio! Neste momento, em que intuis que não poderás gozar do teu universo, suspendes a ansiedade de saltar, correr ao ar livre e procuras aquilo que mais se parece com os teus. A ansiedade seria um empecilho à tua tranquilidade. Eu gostaria que fosses sempre livre, que pudesses sair  quando te apetecesse, mas o mundo que nos rodeia tem as suas leis. Uma delas: os gatos não podem sair à rua. Se me entendesses gostaria de te contar  sobre algumas ideias ridículas que assaltam os seres humanos.  Dói-me a alma, quando te colocas de pé sobre as duas patas traseiras e com uma das tuas patinhas dianteiras chegas à minha cintura, miando, pedes-me para te seguir. Eu obedeço e deixo-me conduzir por ti, deduzindo até onde me levas. Uma vez chegados à porta da rua, olhas-me e mias de novo. Limito-me a afagar-te o pelo ou a pegar-te ao colo. Por vezes aceitas as minhas carícias, outras não e escondes-te debaixo da cama, o teu esconderijo, quando te pretendes isolar. 
Não posso fazer muito. Existe uma multa, e grande, para aquele que deixar o seu gato correr em liberdade, sentir o vento, rebolar-se na relva e procurar uma eventual namorada. 
Sabes Benji, os humanos regem-se por filosofias baseadas na sua razão, mas desprovidas de sensibilidade e iluminação espiritual. 
A tua essência felina é desindividualizada por normas racionais humanas que concebem e julgam, usando o conhecimento que têm; a matéria visível. Esquecem ou ignoram que todas as criaturas do universo físico  são um ato puro da criação. A tua existência é vida, uma alma sensitiva com necessidade de crescer, reproduzir, de se mover e sobretudo que sente. 
Por enquanto, Benji deixemos o homem ficar pelas alegrias da vaidade. Deixemo-lo pensar que a sua força presente é e será sempre a sua medida de direito a reger a vida dos outros. Ignoram que a maioria das leis  advêm de ideias, em geral, incertas e instáveis, consequência da imperfeição dos sentidos. Por enquanto, descansa ao lado dos teus amiguinhos imaginários. Sabes que muitos dos homens que fazem as leis, não sabem o que é um amigo? Tenciono, um dia oferecer-te um lugar onde serás livre, e eu também. 


Fernanda R-Mesquita






quinta-feira, 11 de outubro de 2018

Hoje, não me batam à porta, por favor

Foto- Cidade de Nelson B.C, Canadá- 9 da noite no cimo das montanhas
agosto de 2018




















Há um ausência em mim;
uma falta de vontade de fazer,
entender, escutar ou falar o que quer que seja.
Os olhos tecem, no vazio, questões que secam na alma.
Hoje, não me batam à porta, por favor

O atrevido relógio, no fundo do corredor,
desafia-me e põe-me louca
Não respeita a minha vontade de me ausentar

Que atrevido! Chama a lua
e coloca-a à minha janela!
Teimoso! Quer falar-me de vida e chama a poesia.
A lua abraça a janela inteira e escreve um poema,
sem querer saber
se a quero receber e escutar
Não entendo se quer um mimo
ou se me quer mimar.
Como dizer-lhe que não me apetece
nem uma coisa, nem outra?
Amanhã conversaremos.
Vou pedir-lhe  que me explique
como se passeia, deslumbrante, por toda a parte,
como consegue dar-se a um mundo que vulgariza o amor?

O tic tac do relógio e a luz da lua
ocupam o espaço do quarto,
recolho-me no meu leito e
deixo-os tecendo a noite
Tic tac, é hora para sonhares- diz ele.
Amanhã nascerá o sol- diz-me ela.
Quase não os ouço... afasto-me, para longe... longe
Apenas quero dormir, ausentar-me...
Os dois que consertem o mundo

Hoje, não me batam à porta, por favor

Fernanda R-Mesquita





Tudo tem vida própria

Foto- Edmonton- O bosque- 2 de outubro 2018

Ao aceitar a presença do silêncio, sem tormento,
passo a escutar uma voz profunda, divinal:
 - ´´ Que o espírito seja vivo e quieto ao mesmo tempo,
que deixe viver o amor para que seja, ele, hóstia universal.``

Posso ver-me e ver todas as coisas sem dor;
a vida para gerar vida tem um dom celestial,
a vida que dá vida, liberta o novo espírito com tanto amor
que tudo ganha vida, livre do pecado original.

E este equilíbrio onde tudo nasce saudavelmente
mostra-me que a sujeição é apenas um complemento
para que tudo e todos se projetem infinitamente.

Ninguém tem que se moldar para se encaixar na sociedade
que cada um seja o escultor do seu próprio crescimento
pois o Universo dá, dá-se, vive e deixa viver em liberdade.

Fernanda R-Mesquita










Esperança

Foto- Edmonton, 9 de outubro 2018




















Muito falamos de esperança
Muito gostamos falar de esperança
Muito gostamos sentir esperança
Eu não sei se quero falar,
gostar de falar
e gostar de sentir esperança.
Não será triste viver de esperança,
correr o risco de sentir a vida passar
´´tendo esperança``?
Não será triste viver a vida inteira
apenas esperando?
Ora, eu prefiro dizer que acredito.
Acreditar, lança-me para a linha da ação
Esperança, atira-me na linha do hábito:
´´Há que ter esperança``- como isto me soa a submissão!
Pois, ´´ Os miseráveis não têm outro remédio
 a não ser a esperança``,
já dizia William Shakespeare.

Eu não usaria um expressão tão forte quanto
 William Shakespeare,
mas sim que ´´Os conformistas não têm outro remédio
 a não ser a esperança``.

Durante a criação do mundo
foi criada a liberdade?
Então não há que viver suportando.
Ainda que o olhar de Deus tudo purifique,
tudo liberte,
se permanecermos na vontade
de nos mantermos prisioneiros,
prisioneiros seremos.

A criação vive sempre no presente
nós é que nos agarramos ao passado
e choramos sobre o nosso destino que se enrola
sempre na mesma realidade.
Seguramo-nos à esperança
e ao passado. Ora esperança
e passado não se dão muito bem.

Nada está como o principio foi criado,
se estivesse estaríamos a viver no paraíso.
segundo a crença que no início foi criado o paraíso.

Envolvemos a esperança e a saudade
sem que elas tenham nada em comum.
Será um truque nosso para que possamos viver esperando
que Deus e os anjos façam por nós?

Durante a minha vida vi pessoas rezando, esperando
cheias de esperança,
e assim partiram; rezando, esperando e acreditando
que certas esperanças não se aplicavam a elas.
Vi outros, que se levantaram, olharam em frente,
procuraram e encontraram mais do que esperavam

Por vezes o que desejamos, não é o que precisamos;
queremos o que pertence aos outros.
Se formos sábios, no percurso da procura, na ação
acharemos a ´´roupa`` própria
e poderemos saborear agradáveis surpresas. 

Se desejamos o paraíso, abramos os olhos;
ele está em toda a parte,
excepto nas guerras.
Edmonton está coberto de neve, o céu cinzento
e a maioria das árvores
encontram-se secas, queimadas pelo frio
Ainda assim um pardal saltita contente
e escreve poesia
fazendo sorrir os meus olhos;
a minha alma encontra o que tanto procura;
paz e poesia...

II

A vida? Deixemos de a semear apenas à superfície,
agitemos as asas e voemos para além do aparente limite
e saberemos que muitos nos convencem à metade da existência
porque pretendem que enchemos, de esperança, a outra metade
para que cresça a classe de quem precisa de caridade
pois há quem engorde com isso.

Quem me pode criticar
quando digo que vejo peixes a voar
e estrelas no mar a nadar?
Quem me pode criticar?

Neste mundo de humanos estranhos
há quem se ache estrela, há quem se ache peixe
Quem se diz estrela, acha-se superior ao peixe
Quem se diz peixe, acha-se superior à estrela
Também  há quem não se ache nem estrela, nem peixe;
dizem ser os maiores dos maiores
e classificam tudo, segundo os seus interesses
como se alguém, a não ser a própria criação,
conseguisse classificar tudo o que existe entre a estrela e o peixe.
Coloquemos tudo no devido lugar;
deixem a criança ser criança, o humano ser humano,
a estrela ser estrela, o peixe ser peixe,
e todos serão autónomos, segundo o seu poder
e seu direito, e nem criança, nem humano, nem peixe, nem estrela
precisarão de viver na esperança de virem a ser, porque já o são
Assim, sendo todos a própria existência,
não haverá esperança, nem caridade
mas, sim, felicidade
Que sejam criadas condições para que todos sejam!

II

O sol parte devagarinho, não sem antes
deixar o seu fluxo dourado no meu coração
Entrou pela minha janela e deixou o seu brilho
na minha existência terrena
Essa luz reflete a profundidade de toda a existência humana
é um espelho onde me alinho e me sustento
É uma luz que me faz flutuar e abrir
a uma nova consciência que me oferece um mundo novo
com uma nova estrutura, onde todos somos iguais,
onde não existem fronteiras.

Fernanda R-Mesquita










Fica em paz

Foto- o belo Ride the Wind Ranch- Junho 2016


Olhas-me sempre do balcão do café
e eu  da mesa onde me encontro,
sinto essa expressão não muito bonita.
Fica em paz. Que amanhã sorriam os teus olhos,
hoje tão pouco amigáveis.
Tu não sabes, mas dentro de ti existe 
uma fonte de pensamentos abençoados;
procura pelo amor.
Que amanhã a distância entre a mesa e o balcão do café, 
corra um pacífico rio
que elimine este desconforto,
que eu beba o meu café em paz e tu também.
Ainda que desconhecidos, olhemo-nos em paz.
Vês o raio de sol que bate nos teus ombros? 
É o mesmo que ilumina o meu rosto;
ele traz a alegria, a luz e a coragem.
Deixa que os teus ombros 
se desenrolem nesse novo território
e amanhã traz contigo essa intensa harmonia interna.
Fica em paz.



Fernanda R-Mesquita











A breves passos do paraíso






Foto- Peniche, Portugal- Agosto 2017

No ringue da vida fui vencendo as sombras,
desvencilhei-me das suas redes
e uma a uma foram caindo, sem poder;
Nem a mais teimosa dessas sombrias criaturas
será lembrança,
para que a minha mente não traga de volta
o redemoinho das épocas imaturas.

Passei a conhecê-la: era aquela que invadia a paz
com orquestrações poluídas,
tentando dividir em pequenas migalhas, a felicidade.
Aprendi onde alçar voo
e fugi dos seus trechos movediços.
Entre o amor à vida e o medo, venceu o amor
e o meu espírito mostrou-me uma tela de luz
diante da qual a sombra tremia como deusa insegura.
Rompi os limites do corpo físico,
aplanei no território mais puro da minha consciência
e cheguei ao outro lado da existência;
encontrei, junto à musical onda do mar, um anjo
de quietude pacífica e alegria harmoniosa
tocando um hino de dimensão superior
mostrando que a felicidade não se explica.
Quando todos descobrirmos a ilusão em que vivemos
o amor eliminará todos os nossos conflitos
porque a paz não se comemora; acontece...
Adeus inútil sombra!
Descobri
que vivia
a breves passos do paraíso!

Fernanda R-Mesquita








Aurora Boreal


A noite consentiu que luzisses e que eu não dormisse
para que te visse
Lembrou-se, Galileu Galilei, de Aurora,
a deusa romana que se levantava todas as manhãs,
anunciando a chegada do amanhecer
e deu-te o nome de Aurora.
Lembrou-se também de Bóreas o deus grego,
comandante dos ventos frios do norte
e o teu sobrenome passou a ser Boreal.

Ora agora o galo dorme, não há vento
e tu és lanterna noturna...
Aurora, a deusa romana, deve estar dormindo
e Bóreas certamente tem os seus ventos
descansando sobre os mares da Grécia

 O deslumbramento abre-me as pálpebras
levando junto os cílios;
és um poema que dança sobre o lago
e para isso, comigo, palavras não trago
sinto o gosto de te ver
mas as palavras certas, não as sei dizer

Não és brisa, não és ruído e não tens perfume
mas és bela. Tão bela que o meu único queixume
é sentir a língua colada na ignorância
por não saber descrever a origem, de tão natural elegância

Escutei um zunzum entre as folhas de uma árvore;
pareciam elogiar a eloquência do sol, dos ventos solares
e de mais algumas combinações perfeitas do universo.
Eu embrenho-me na inocência  do povo Cree,
o povo  indígena,
que te chamava de "Dança dos Deuses"
ou considero-te um sinal divino,
como se vivesse na Idade Média

                                                  E tudo isto enquanto, Aurora, a deusa                                         
romana, deve estar dormindo 
e Bóreas certamente tem os seus  ventos 
descansando sobre os mares da Grécia
pois agora o galo dorme,
não há vento e tu és lanterna noturna 
abrindo-me as pálpebras,  
levando junto os cílios,
deslumbrados...

Que bom sofrermos as duas de insónia!

Fernanda R-Mesquita

Aurora boreal, Edmonton, 9 de Setembro- meia noite
Av 153- rua 139

O desconhecido

Foto- Portugal, Maceira, 27 de Agosto-2017

Um desconhecido com algo em comum;
procurar o instante da solidão
encontrar o momento superior do tão longe
ainda que a poucos metros
viva a gigantesca sociedade,
a aparente área vencedora

O desconhecido passa e por um instante,
apenas por um instante, o som
dos nossos passos misturam-se
Tudo o resto é o universo, sem precisar do homem

Fernanda R-Mesquita











Os meus fantasmas

 A natureza tem o poder de transformar  as minhas fragilidades em força, levando-me a sentir  que  os fantasmas só nos perturbam enquanto os consentimos





No ar escrevem-se palavras que não ouço. Como ouvi-las? São apenas desejos que rompem o sossego desta hora. Se escrevo, propaga-se o som das teclas. Se paro, ouço o som da noite. E essa tem tantos sons, que me parecem confundir e aumentar mais a incerteza; se devo desejar a vida como a desejo. Se eu ficar quieta ninguém me toca, ninguém me sacode. Claro, também não há ninguém. Lá fora só se pronuncia o negro. Não sei se existem estradas, caminhos ou atalhos. A gatinha Maria dorme tranquilamente. Posso afirmar isso pelo movimento suave do seu lombo. Escolheu as costas do sofá. Eu escrevo para libertar as nuvens que por vezes cobrem os meus pensamentos. Ela tenta ganhar um momento de descanso e parece querer mostrar que pode escolher um lugar mais alto do que o meu. Chego a ter pena de não gozar da sua segurança. 
Voltei-me de novo para as teclas e escrevi: 
- Existem momentos na vida em que a hesitação ou falta de vontade nos impede de darmos o passo completo. Uma atitude que nos pode levar a pensar que encontramos o equilíbrio. No entanto apenas mantemos um pé em cada margem dos lados da vida; experimentando uma sensação de sufoco e insatisfação. É uma decisão que cabe apenas a nós, que não depende de nenhuma régua nem de nenhuma teoria escrita. São daqueles momentos em que precisamos de arriscar e dar um passo, mesmo que seja para o desconhecido, para não vivermos sempre no impasse. Ao não vencermos o medo, viveremos sempre cambaleando e seremos sempre a criança que tem medo de aprender a andar. 
Decidida a deitar-me abandonei a sala e dirigi-me ao quarto. Estava calor e abri a janela. Deixei apenas a fina rede como barreira entre esta divisão da casa e a noite que lá fora reinava como rainha do Universo. Senti necessidade de tomar um banho rápido. Depois do dia passado, quase desinteressada no mundo, senti um desejo súbito da água tépida do chuveiro. Fechei os olhos e concentrei todos os meus sentidos naquele momento. De repente a água passou a escaldar-me a pele, o que me obrigou a gritar e a saltar para longe. Olhei no espelho e pude ver as marcas visíveis de queimadura nas minhas costas. Recorri rapidamente a uma pomada e com muita dificuldade tentava chegar às zonas queimadas. Cerrei os dentes. Não queria chorar. Há muitos anos que tinha decidido não chorar mais. Vesti a camisa de dormir tentando que o fino tecido caísse leve sobre o meu corpo. Sem entender bem o que se passou, saí da casa de banho e entrei no quarto. Aqui algo me desassossegou. O cheiro forte a fumo de cigarro obrigou-me a tossir. Parecia forte demais para ser o vizinho do andar de cima a fumar na varanda. Observando a minha própria hesitação, vacilei entre fechar a janela ou mantê-la aberta. O medo que começava a nascer em mim, dobrou-se à minha necessidade de me deitar e deixar a janela aberta. Deitei-me e fechei os olhos sentindo a pequena Maria a tentar o aconchego habitual junto ao meus pés. 
Não foram muitos os minutos que a senti sossegada. Levantei a cabeça e pude vê-la a rosnar com força, em direção ao lado oposto em que eu dormia. 
-Calma Maria, dorme- murmurei tentando acalma-la com uma carícia no seu lombo. Ela deitou-se, mas rosnando baixinho como se algo a incomodasse. 
Acabei por adormecer, tentando não pensar nos últimos acontecimentos. 
Sem conseguir calcular o tempo em que adormeci e que possivelmente devo ter entrado num estado curioso do sono, lembro da luta em que o meu subconsciente lutou entre a realidade e o sonho. 
O meu corpo, numa adaptação rígida e forçada queria lutar contra a prisão a que o sonho me prendia. Inconscientemente tentava recusar o espetáculo em que gente estranha, me tentava colocar como atriz principal. Sabia que a rede do quarto estava intacta. No entanto pressentia duas unidades diferentes de pessoas que chegavam no lado de lá da rede, em diligências barulhentas. Elas entravam no quarto sem pedir licença e eu escutava-as a discutirem entre si, sem as entender. Cada vez mais eu me sentia o alvo. Com que propósito? Não sabia. Eu queria mover-me e fugir, mas alguém de olhar irónico, fingia um ar maternal e acariciava o meu rosto, prendendo-me num abraço que me magoava a alma. Com um sorriso que eu preferia nunca ter visto, disse-me: 
-Não temas. Tu também estás assim.Sem dentes, cabelos gastos e rosto cadavérico. Só que ainda não sabes. 
- Não acredites Alice. - gritou uma voz deitada ao meu lado. Foge. Eu ajudo-te a fugir. 
Não sei ainda como fugi. Senti-me no ar, levada pela unidade de pessoas que aparentemente estavam ali para me salvar. 
- Vai, corre. A selva é tua. Mais do que isto não podemos fazer. - disse um deles.
Largaram-me numa floresta. Lá também era noite. Os meus pés descalços sentiram a dor ao pisarem o chão selvagem. A minha fina camisa de dormir não me defendia dos ataques agressivos dos ramos, sobretudo sobre as minhas queimaduras. Corria veloz mas sentia que alguém tentava ser mais veloz do que eu. Escondi-me atrás de uma árvore, mas não me consegui tornar invisível para o meu perseguidor. Parecia ser a minha irmã. Ela ria de feição pesada, desgrenhada.Parecia uma obra de arte a enaltecer o terror. Por momentos esvaziou-se o meu entendimento. Ela parecia ter a capacidade para me atacar e no entanto não me tocava. Eu queria fugir dela. E foi na tentativa de fugir dela, que entendi porque é que ela não me tocava. Senti o chão firme fugir dos meus pés ao passo que eu recuava. Tinha de decidir. Ou a enfrentava ou fugia de novo. Queria fugir daquela figura opressiva e senti-me débil a flutuar num abismo que não tinha fim. Estendi a mão ao longínquo rosto que ria com uma expressão satisfeita, como se me estivesse a estrangular. Nela, não havia compaixão e eu cada vez mais desaparecia no abismo. A meio da queda algo me tocou. Tentei agarrar o que não conhecia e senti um ramo de uma árvore. Picos finos e aguçados entravam na minha pele. Aguentei a dor e trepei no ramo disposta a encontrar uma solução. Os picos infiltravam-se no meu corpo. No final do ramo encontrei uma longa estrada. Cansada, deitei-me um pouco sobre o pó da terra que parecia ser castanha escura. Antes que eu pudesse recuperar as forças, um homem surgia naquela noite longa e lenta mas onde tudo acontecia rápido e inesperado. Vestia de negro e trazia uma bengala para se apoiar. Olhei fixamente tentando analisar se representava perigo. Senti que sim e decidi correr o mais rápido que podia. Conseguia ouvir pelo som seco da sua bengala no chão, que ele acelerava o seu passo. Tossia de um modo que me parecia um tio meu, que no passado, tivera o hábito de me aterrorizar com historias medonhas. No final daquela estrada que parecia interminável, encontrei um precipício. Espreitei e vi o mar. Atirei-me. Fechei os olhos e pude sentir a proximidade do aroma do enorme oceano e as batidas das ondas nas rochas. 
De repente, senti que estava de novo dentro do quarto. Penso que o meu subconsciente respirou aliviado e tentou salvar-me, mas os visitantes continuavam a chegar em diligências. Abri os olhos e vi aquele rosto de novo… tão perto do meu. 
- Silêncio! Escuta!- ordenou-me. 
Fiquei quieta e ouvi um grito de uma voz que me parecia íntima. À minha frente erguia-se uma campa húmida e coberta de ervas daninhas que chorava numa voz sem brilho. Não, quem chorava não era a campa. A voz vinha de dentro dela. Agora eu podia ver a campa transparente e no fundo dela o corpo morto do meu avô a rebelar-se contra a sua condição de morto, gritando que tinha sido enterrado vivo. Ele pedia ajuda e eu não podia fazer nada. 
De um lado eu tinha aquele olhar assassino. Do outro lado eu tinha aquele olhar triste que parecia implorar-me que não acreditasse no que via, mas pedia-me que eu recorresse à minha capacidade de lutar contra o absurdo. Pedia-me que eu conquistasse as minhas lembranças de criança. Das horas em que as histórias enchiam os serões de Inverno, do canto das cigarras ao luar, dos pássaros que voavam livres até eu adormecer com a alma cheia de coisas lindas. Eu não sabia se conseguiria recorrer às lembranças. Queria concentrar-me naquele momento porque as duas unidades de pessoas continuavam ali, como juízes que combinavam o acordo da sentença. E o réu era eu. 
Sofria naquele quarto gelado que já não parecia o meu. As horas pareciam ter caído também num abismo e eu sentia-me escrava delas. Eu estava cansada. Desolada continuei a sentir aquela mão gélida que maquiavelicamente continuava a acariciar o meu rosto. Fechei os olhos e caí na maior grandeza do sono ou na maior desgraça...tentando levar comigo a luz do candeeiro que alumiara as minhas primeiras letras, quando eu tinha apenas cinco anos de idade. 
No dia seguinte acordei cansada e com a luz soberana do sol fixando e magoando os meus olhos. As dores nas costas alertaram-me para as marcas da minha pele queimada. Levantei-me e acariciei a Maria que parecia não ter vontade de se levantar. Fui até à janela e olhei o pássaro que brincava na relva, perto da lebre que indiferente à sua presença saboreava tranquila a erva fresca da manhã. Uma agonia cercava-me a alma que parecia querer forçar-me a lembrar de algo que eu inconscientemente parecia não querer recordar. Resolvi ir à cozinha fazer um café. O meu coração começou a bater energicamente, retirando a energia do meu corpo. Ao entrar na cozinha deixei de saber o que pensar e o que dizer sobre a vida ou sobre a minha vida. Uma gigantesca floresta tomara posse da minha sala. À sombra de uma árvore, uma criança aparentemente inocente olhava-me com uma ironia mordaz no sorriso. Parecia uma colega de escola que se divertira a afirmar constantemente, que eu era das raparigas mais feias que ela tinha visto. Na mesa da minha cozinha estava sentada uma mulher magra, de rosto afinado, descascando maçãs. A mesma mulher que passara a noite a acariciar o meu rosto. Vista assim, sentada na mesa da cozinha, parecia ter o ar autoritário da minha avó. 
- Vai para o fogão e faz um bolo para todos. -ordenou-me a mulher. 
- Temos fome. Senão conseguires fazer o bolo serás tu a refeição de todos estes aqui. 
Senti que teria que obedecer. A tremer, clamava pela sensibilidade dos deuses. Existiriam eles… os deuses? Até àquele momento nunca tinha acreditado muito nisso. Ou tentava não acreditar. Sempre fugira de qualquer crença sobrenatural. Dirigi-me ao fogão. Acendi o forno para que aquecesse, enquanto eu reunia os ingredientes para fazer o bolo. Uma música suave vinha do ponto da floresta mais afastado. Parecia uma harpa que chorava. Não me atrevi a olhar, mas sabia que era um velho homem com um chapéu enorme a cobrir-lhe o rosto, mas que por um instante, eu tinha anteriormente captado uns olhos negros, sem brilho e da mais profunda frieza. Coloquei o bolo no forno e esperei que ele cozesse, sempre de costas voltadas para aquele público que esperava ansioso que eu errasse. Senti que algo caía sobre o balcão da cozinha. Passei a mão sobre ele e olhei. A minha mão aberta expunha um rolo de cabelos meus, que esbranquiçavam lentamente como se me avisassem que estavam a morrer. Quis gritar. Um pequeno sopro aflito ainda saiu de mim, mas reprimi a tempo. Ao pequeno sinal da minha aflição surgiram os fantasmas do lago, que até ali parecia calmo. Um uivo de um lobo ressaltou no horizonte escuro, como se sentisse dono do mundo inteiro. Instintivamente passeei a mão pelo meu cabelo e desta vez a palma da mão ficou completamente coberta de cabelos meus. Tive vontade de gritar, de lançar um grito maior do que o uivo do lobo, mas fiquei quieta. Respirei fundo e tentei sentir o aroma do bolo. O ambiente era pesado demais. Ameaçador demais. Ao encontrar-me naquele momento, no extremo perigoso de uma visão que ainda não sabia se era abstrata ou real, podia sentir o ridículo das tanta vezes em que me entregara ao desalento infinito e indefinido, em momentos em que a vida era tão branda. Procurava lutar contra a minha anterior teimosia ao vazio e a substitui-la pela vontade em vencer e reunir todas as forças para sair daquele quadro, que parecia ter eliminado qualquer possibilidade de eu encontrar a porta de saída. 
- AH!- gritei. De repente assustei-me, mas fora apenas o fogão a avisar de que o bolo estava pronto. Antes que eu conseguisse abrir a porta do forno o meu cabelo caia aos meus pés. Eu não queria olhar. Não queria entrar em pânico. No ar sobrepunham-se os gemidos de todos os que esperavam o momento em que eu me entregaria como vítima. As batidas de um tambor misturavam-se aos sussurros íntimos daquele misterioso grupo, que pareciam figuras anónimas de um filme que eu desconhecia, como quem espera e festeja antecipadamente um final feliz. Pareciam sombras ocupadas na pressa de me aterrorizarem. Agiam como senhorios prontos a requisitarem-me como inquilina, de um espaço que até ali tinha sido apenas meu. 
Umas mãos frias agarraram com firmeza a minha cabeça. Fechei os olhos para esconder o medo. 
- Abre os olhos- ordenou-me a voz. 
Vagarosamente fui levantando o olhar e deparei-com o meu próprio funeral. Eu fazia parte do mundo dos mortos. Senti vontade de matar. Matar todos. Mas talvez eles também desejassem essa reação minha. Eu sabia que não conseguiria matar ninguém, mas recusava ser possuída por aquele mundo baço, húmido, desconfortante, desajustado... 
Eu sabia o que queria. Entre a incerteza se conseguiria vencer aquele mundo e o caos garantido a que ele me destinava, decidi pela incerteza. Abri a porta do forno e com uma toalha entre as mãos, agarrei na forma do bolo e pousei-a sobre a mesa, num gesto decidido a esmagar tudo o que era indesejável ali. 
-Tomem, malvados! Comam este bolo todo ou eu mesma vos enfio pela boca abaixo, pedaço a pedaço, até fazê-los engasgar. Que se engasguem todos e morram mais e mais do que já estão... se isso for possível. Venham todos que não tenho medo. Que a morte vos possua porque eu ainda quero viver. Ouviram? Quero viver! Viver! 
Penso que perdi a noção da força com que gritava, mas senti que a minha própria voz se tinha tornado ensurdecedora para mim. Só parei quando não tinha mais voz, quando esta, de tão rouca, apenas me arranhava a garganta. O movimento dos meus olhos subiu em direção ao espelho e este mostrou-me um quadro diferente daquele espaço. Pelo espelho eu conseguia ver a minha antiga sala. Devagar dei meia volta e pude ver que tudo estava como antigamente. Corri a casa toda. Comecei a gritar e a saltar de alegria ao certificar-me que apenas eu e a Maria respirávamos ali dentro. Olhei-me no espelho e ri ao ver o meu cabelo intacto. 
Esperem! Um barulho! Barulho de teclas. Corri à sala do computador, onde podia ouvir nitidamente as teclas como se alguém escrevesse, mas não havia ninguém. Pesadelo? Imaginação? Olhei para o écran do computador e podia ler as palavras que surgiam na formação de frases que eu podia decifrar perfeitamente: 
- " Se eu ficar quieta ninguém me toca, ninguém me sacode. Existem momentos na vida em que a hesitação ou falta de vontade nos impede de darmos o passo completo." 
Estes foram alguns dos teus pensamentos antes de ires dormir. Pensamentos que abriram uma luta no submundo do teu subconsciente e que abriu uma fresta a pesadelos onde viviam os teus medos e as personagens com quem não soubeste lidar. A tua falta de determinação permitiu que eles acordassem e gerou divisão. Tentamos dominar a tua força psíquica e a física para que uma fragilizasse a outra. Tiveste momentos em que quase te deixei partir para a escuridão. Eu sou aquela de quem tiveste mais medo: a que te acariciava o rosto. O maior perigo era aquele que te parecia confortar. Aquele de aparência mansa, deitado ao teu lado e que te incentivava a fugir para te apanhar em algum lugar, onde já não pudesses escapar. Ou que recorresses ao passado para não pudesses lutar pelo presente. Não voltaremos porque mostraste coragem e determinação no momento certo. Não te refugiaste apenas nas lembranças, mas lutaste pelo que era preciso lutar. 

Respirei fundo. Desliguei o computador. Despedi-me da gata Maria com uma carícia e saí para o novo dia. Agora sim, o dia nascia definitivamente. Forcei os pés a uma corrida e pude sentir o vento delicioso que me refrescava o rosto... deixei que ele levasse consigo todos os meus fantasmas.


Conto editado em ´´Ocultos buracos``




















Fernanda R- Mesquita








Urzelina

  Ano 1968. 

As chamas do lume erguiam-se até  ao fundo da panela, que cozia o feijão.
            - Não me destapem a panela, nem deixem baixar o lume- avisava a avó, enquanto passava a roupa da semana em cima do cobertor de pelo cinzento, coberto por um lençol branco, sobre a mesa que iria servir, mais tarde, para comerem a deliciosa sopa de feijão. Naquela época, as tábuas de passar a ferro, rareavam
              Os risonhos olhos verde-acinzentados, do avô, encontraram-se  com o alegre rosto  infantil da neta. Ambos, num gesto cúmplice, sorriram traquinas.
 - Vá, essa já podes comer- disse Francisco, dando a Cinira uma maçã  assada e um montinho de favas de casca a estalar do calor das brasas.
 - E o teu toucinho avô, ainda não está?- perguntou a criança, olhando a gordura do pedaço de toucinho que derretia no pequeno braseiro, que Francisco retirara para o canto direito do lume.
- Está mesmo no ponto- respondeu com ternura, o avô.
            -Avô, tu já tiveste avô?
            -Tive.
            -Que pergunta rapariga- resmungou a avó.
- E os teus avós, tiveram avós?
            -Também.
            - Os teu avós viveram sempre aqui?
            -Não, eles vieram de um outro lugar.
 -De muito longe?
 -Sim, um pouco.
 -Como se faz para chegar lá?
 -Tens de ir de avião ou de barco.
 -Ah e como foi que chegaste aqui? Vieste de avião ou de barco?
            -Não. Eu nasci aqui. Quem veio de barco foram os meus avós. Ou seja, os meus  bisavós morreram, os meus avós vieram, e  a minha mãe nasceu aqui em Portugal Continental.
 -E porque vieram os teus avós para aqui? Não gostavam do lugar onde viviam?
            -Por medo... por medo...- murmurou Francisco.
            -Medo?-  perguntou a menina,encolhendo-se dentro do seu casaco de malha azul escuro.
 -Não faças isso ao casaco. Vai ficar todo largo- advertiu a avó.
 -Pode-se entrar?- perguntou a cigana, espreitando para dentro da casa, com uma enorme cesta redonda apoiada na cabeça.
            -Claro mulher, entre e aqueça-se- convidou Celeste, oferecendo o velho banco de madeira, pintado de azul claro.
            - Viva o descanso! Estas longas caminhadas já me custam muito- queixou-se a cigana- e ainda não vendi quase nada!
            - Pois então descanse e antes de ir, ainda come uma tigelinha da sopa de feijão que estou a fazer- respondeu Celeste.
            -Também nunca para Celeste- observou a cigana.
            -Não se pode... parar é  morrer!-
            -Avô, conta mais!  Porque tiveram medo os teus avós?
            -Mais uma história senhor Francisco? Nunca vi homem com tanta paciência para a neta como você. Nem sabes a sorte que tens menina!
-Então avô, como se chamava a terra onde moravam os teus avós?
-Açores- explicou-lhe o avô.
            - Que por sinal, dizem que são umas lindas ilhas- comentou a cigana- mas quem não vivia lá era eu... dizem que as montanhas têm alma... que às vezes aquecem tanto que cospem fogo!
            -Ah, eu sei o que é. Aprendi na escola. São vulcões- respondeu Cinira, contente por entender o assunto sobre o qual os adultos falavam.
- Aquilo são mas é almas de outro mundo- exclamou a cigana.
 -Credo mulher.. benza a boca!- desabafou Celeste, fazendo o sinal da cruz.
            -Por acaso os meus avós vieram de lá, porque os pais deles morreram num desses dias em que os montes rebentaram com tudo. A minha mãe contava vezes sem conta essa história- recordou Francisco, com se ainda ouvisse a voz da mãe:
            - Primeiro dia de Maio. Os tremores da terra eram tantos, a toda a hora, que toda a gente foi obrigada a levantar-se da cama. E mais tarde, na hora da missa, apanhou muitos dos habitantes dentro da igreja.
 -  Eu lembro-me dos antigos contarem essa história. Nem os santos vidros da igreja escaparam- interrompeu a cigana, elevando os olhos ao tecto da casa como se exaltasse os céus.
            - A destruição era tanta... era como se o diabo tivesse descido numa nuvem negra, dizia a minha pobre mãe. A freguesia de Urzelina parecia ter entregue o seu monte mais alto à desgraça. Nesse acaso tão infeliz, ficou sozinho o pobre de um vigário, José António de Barcellos. A gente de Urzelina ficou tão assustada, que fugiram sem quererem saber de mais nada. As casas foram abatidas como casinhas de brincar. Ficaram cobertas de areia. Grandes línguas de fogo aqueciam e coloriam os céus. Como alguém muito zangado, a terra lançava pedras brilhantes de oito e dezasseis palmos e onde caíssem, destruíam tudo- descreveu Francisco.
         - Credo, isso foi castigo de Deus- exclamaram Celeste e a cigana, benzendo-se simultâneamente.
            -Pois, foi o que o povo pensou- respondeu Francisco.
            - Porquê avô? Alguém se portou mal?- perguntou a neta querendo saber mais.
             - O povo dizia que sim- continuou Francisco-  a linda Ilha de S. Jorge é atravessada por uma grande cordilheira e há muitos anos, vivia no ponto mais alto, um príncipe chamado Romualdo. No seu grande castelo, ele fazia grandes festas com a sua numerosa corte. Aquelas festas ofendiam muito o povo. O pobre do povo levantava-se muito cedo para trabalhar e sustentar todas as vaidades  dos fidalgos. Um dia, como em muitas outras manhãs, muito cedo, a trombeta real tocou. Era mais um dia de grande caçada. Em frente ao palácio, os criados vestidos com os seus uniformes, organizavam tudo o que era necessário para a caça. As carruagens de duas rodas, com um único assento, puxada por dois cavalos, esperavam pelo grande toque da trombeta real, para partirem. O seu toque era tão forte que todos sabiam a hora da partida para a caça. Nessa manhã, os fidalgos partiram felizes, correndo pelos campos e assustando as aves. Viviam estes momentos, completamente indiferentes ao cansaço do povo, que já trabalhava há horas.
            Nessa corrida frenética, seguia também, Lina, a namorada do príncipe. Lina quis perseguir os pombos e sem se aperceber, afastou-se do resto do grupo.
Quando constataram que Lina não estava no meio deles, interromperam a caçada e dispuseram-se todos a procurar pela jovem. Mas foi em vão. Sem alegria voltaram para o castelo. O Príncipe desesperado, ordenou que todas as portas se mantivessem encerradas. Ramualdo proibiu qualquer tipo de festa dentro do palácio. A sua agonia era tão grande, que a sua voz ressoava pelas  paredes interiores do castelo, chamando por Lina. Todos os dias cavalgava doido pelos montes, sem escolher terreno, no desejo ardente de encontrar a sua amada. Num desses dias, no fundo de um barranco, encontrou um cavalo morto sobre o corpo de Lina. O príncipe ficou louco e correu, correu, descendo ao encontro do cadáver. Beijou loucamente a figura de Lina, já em decomposição. Cortou uma trança dos seus cabelos louros e enrolou-a num ramo de Urze.
Voltou ao castelo com tão pouca vontade de viver, que pouco tempo depois morreu de desgosto. A planta que o príncipe tinha apanhado no campo, para envolver a trança da princesa, passou a ser conhecida por Urze de Lina.  Com o passar de alguns anos, a corte esqueceu completamente o príncipe e toda a história, recomeçando com as festas e a explorar o povo. Como castigo, Deus ordenou ao vulcão, que com a sua lava encovasse toda a corte. O vulcão destruiu tudo, desde o ponto mais alto até ao mar. Mais tarde, em memória do ocorrido, a povoação passou a chamar-se Urzelina.
- Mas então, se foi castigo, por que razão morreram crianças e pessoas boas?- perguntou Cinira ao acordar da magia da história, contada pelo avô.
            - Pois, também não entendo porque paga o justo pelo pecador- comentou Francisco- não me  parece muito justo isso.
            - Deus não dorme!- exclamou Celeste enquanto retirava as cinzas quentes do pesado ferro- este ferro dá-me cabo das costas!- queixou-se ela.
 - Há por aí muita gente que vive a brincar com a vida dos outros sem respeito por nada. Eu cá acredito!- afirmou a cigana.
 - E tu avô, no que é que acreditas?
 - No que eu acredito? Acredito no que vejo e interrogo-me sobre o que não entendo. Não entendo certas explicações, essas que, vocês duas dão.
            - Tu não te ris das crenças da avó! Tens medo de algum castigo? Eu tenho uma colega na escola que  ri, daqueles que pensam de modo diferente dela- disse a neta.
            - Não. Eu respeito a tua avô e respeito as crenças dela, embora eu não comungue das mesmas ideias. A única razão pela qual não devemos rir dos outros, deve ser o respeito pelo próximo e não por medo de algum castigo- asseverou-lhe o avô.
            - Olhe Sr. Francisco, eu acredito- continuou a cigana, alisando o avental sobre as compridas saias rodadas- apesar de ser ignorante, pois o que sei foi a vida que me ensinou...
            - Todos nós aqui, D. Odete, todos nós...por isso queremos que a nossa menina aprenda e vá à escola- interrompeu Celeste.
 - Fazem muito bem! Mas sabem, apesar de não saber ler nem escrever, eu acredito que nessas histórias que o Sr. Francisco conta, existe muito da vida. Parecem apenas figuras de lendas, mas cada história tem sempre alguma coisa de verdade, nem que seja um pequeno sentimento meu, seu... desta criança aqui, que ainda nada sabe da vida.
- Pois eu acho que o príncipe Romualdo e Lina já tinham tido o seu castigo. Só faltava o resto dos fidalgos- opinou Celeste.
            - Pois eu continuo a achar que se foi castigo, que o castigo não deve atingir os inocentes- disse Francisco.
            -A minha professora, quando um aluno se porta mal ou escreve com muitos erros no ditado,  reguadas a todos. Eu fico triste com isso, porque tento ser boa aluna e acabo sempre por ser castigada também- respondeu Cinira com um ar triste.
 -Olha menina, a professora está certa- afirmou a cigana- assim quem não estuda, vai pensar que tem que o fazer, para impedir que os outros paguem também pelos erros dele. Quem estuda e se porta bem, tentará continuar assim para que os castigos acabem.
            -Desculpem, com todo o respeito, mas não concordo. E se os outros que se esforçam, caírem no desânimo? Desânimo provoca desistência. Sabe, o pensamento é traiçoeiro e pode levantar a questão: ´´ Fazer, para quê? De uma maneira ou de outra sofreremos o mesmo castigo. `` Isso é como incriminar culpados e inocentes pelos pecados do Mundo - contestou Francisco.
 - Mas senhor Francisco, e não é assim a vida? Não seremos todos culpados, por tudo o que acontece no mundo?- interrogou a cigana.
            - Então, eu tenho que me sentir culpada porque nasci num mundo com muitas coisas erradas?- perguntou a criança.
            Os três  adultos não responderam. 
 - Bem, está na hora de ir embora. Muito obrigado pela sopa e por este bocadinho- despediu-se a cigana, levantando a cesta até à  cabeça e enrolando o xaile preto nos ombros.
- Como é a flor de Urze? Ela só existe nessa terra da história?- perguntou Cinira.
-. Não. Nós temos ali no jardim. Até no muro ela nasceu... aquela planta com flores cor-de-rosa que nasceu no muro, é a flor de Urze- explicou a avó. 
            - Posso ir  ao jardim apanhar um pezinho?- pediu a menina.
- Poder, podes mas até tenho medo que  azar... depois desta história- respondeu Celeste.
- Deixa-a ir-aconselhou o marido.
 Mais tarde, Francisco olhava a neta adormecida. Sorriu ao ver o copo com água, em cima da mesa de cabeceira, com um pezinho da flor de Urze.
 - Isso traz azar homem- alertou a mulher.
            Francisco sorriu. Recusava ser supersticioso. Por muito que se sentisse inspirado a envolver a sua menina nas suas histórias, queria fazê-lo de modo inteligente. Gostava de ver o brilho nos seus olhos infantis, como se eles dissessem; sim estou lá... no lugar da tua história. Mas também não queria criar abismos demasiado grandes, entre a a realidade e a imaginação, para que os seus passinhos não caminhassem inseguros e com medo. Olhou para os três; para ele, para a mulher e para a criança. Sorriu. Eram como páginas diferentes dentro do mesmo livro; a vida. Talvez Cinira nunca viesse a saber de que muitas histórias que ele lhe contava, tinham feito parte da realidade dos seus dias passados. Episódios que arrastara para a imaginação, entre batalhas duras para que as suas esperanças não fossem derrotadas pelas deformadas ligações afectivas que o acompanharam durante o seu crescimento precoce. 
 - Homem, vamos deitar- disse Celeste.
 - Vamos mulher.
 Já deitado, puxou a mulher para o seu peito e deu-lhe um beijo na testa.
            - Tu só acreditas no que vês. Porquê?- perguntou ela a ele.
            - E tu acreditas no que não vês. Porquê?- perguntou ele a ela.
            - Sei lá! 
 - Ora no fundo é isso. Todos falamos muito. Cada um fala do que acredita... - Francisco não acabou a frase. Celeste adormecera. Sorriu e pensou:
 - " Quando falamos parecemos grandes, poderosos, mas no fundo ninguém sabe nada. A história de Urzelina pode ser inventada, mas a verdade é que, quer sejamos pobres ou príncipes, estamos todos sujeitos às leis da natureza. Não quero acreditar que um vulcão, quando lança a sua lava, escolhe o caminho para matar este ou aquele... porque este ou aquele é melhor ou pior. A natureza é bela, mas é alheia ao conceito de justiça definido pelos homens. A natureza repousa numa nobreza desconhecida por todos nós. Prendemo-nos em realidades que inventamos e esquecemos a verdadeira liberdade para as nossas almas:  amar "
 Aconchegou-se à mulher e murmurou:
- Eu continuo a amar-te, ainda que muitos anos se tenham passado. Essa é a verdade que sei. 

Fernanda R-Mesquita