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A mostrar mensagens de Outubro, 2018

Procurando por amigos

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Buscar o encontro, ainda que imaginário, parece amornar-te a alma. Olho-te! E o que sinto? Que procuras no ambiente que te rodeia, uma realidade mais próxima da tua verdade. És sábio! Neste momento, em que intuis que não poderás gozar do teu universo, suspendes a ansiedade de saltar, correr ao ar livre e procuras aquilo que mais se parece com os teus. A ansiedade seria um empecilho à tua tranquilidade. Eu gostaria que fosses sempre livre, que pudesses sair  quando te apetecesse, mas o mundo que nos rodeia tem as suas leis. Uma delas: os gatos não podem sair à rua. Se me entendesses gostaria de te contar  sobre algumas ideias ridículas que assaltam os seres humanos.  Dói-me a alma, quando te colocas de pé sobre as duas patas traseiras e com uma das tuas patinhas dianteiras chegas à minha cintura, miando, pedes-me para te seguir. Eu obedeço e deixo-me conduzir por ti, deduzindo até onde me levas. Uma vez chegados à porta da rua, olhas-me e mias de novo. Limito-me a afagar-t…

O desconhecido

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Um desconhecido com algo em comum; procurar o instante da solidão encontrar o momento superior do tão longe ainda que a poucos metros viva a gigantesca sociedade, a aparente área vencedora
O desconhecido passa e por um instante, apenas por um instante, o som dos nossos passos misturam-se Tudo o resto é o universo, sem precisar do homem
Fernanda R-Mesquita










Os meus fantasmas

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 A natureza tem o poder de transformar  as minhas fragilidades em força, levando-me a sentir  que  os fantasmas só nos perturbam enquanto os consentimos




No ar escrevem-se palavras que não ouço. Como ouvi-las? São apenas desejos que rompem o sossego desta hora. Se escrevo, propaga-se o som das teclas. Se paro, ouço o som da noite. E essa tem tantos sons, que me parecem confundir e aumentar mais a incerteza; se devo desejar a vida como a desejo. Se eu ficar quieta ninguém me toca, ninguém me sacode. Claro, também não há ninguém. Lá fora só se pronuncia o negro. Não sei se existem estradas, caminhos ou atalhos. A gatinha Maria dorme tranquilamente. Posso afirmar isso pelo movimento suave do seu lombo. Escolheu as costas do sofá. Eu escrevo para libertar as nuvens que por vezes cobrem os meus pensamentos. Ela tenta ganhar um momento de descanso e parece querer mostrar que pode escolher um lugar mais alto do que o meu. Chego a ter pena de não gozar da sua segurança.  Voltei-me de novo para…

Cristina

Portugal- 1969


            A Sra. Maria do Carmo, mulher do Carriço, ( Carriço é alcunha), tinha por hábito visitar a minha avó. Por aqui todas as famílias têm uma alcunha. Por exemplo o meu avô é conhecido por Rebocha. Ele explicou-me que a mãe dele era uma mulher muito baixinha, mas muito engraçada. Bonita, diziam alguns. Quando ele nasceu, todos diziam: - Olhem, nasceu o filho da rebochinha. Vamos ver que altura terá. E como o meu avô cresceu muito, foi chamado, não de Rebochinha, mas de Rebocha. Mas o nome era pronunciado com respeito, uma vez que todos o respeitavam. - É um homem respeitado porque ele estima toda a gente. Desde o garotinho ao mais velho- diziam. Mas voltando à Sra. Maria do Carmo. Mulher pequenina, pele corada. Segundo as vozes da aldeia, quem não a conhecesse diria que ´´bebia o seu copito``. Mas não, a senhora só bebia água e chá. Os olhos nervosos, piscavam por detrás das lentes grossas. Ela e a minha avó conversavam sobre casamentos. - Pois  o casamento é uma cart…

O José João

José João- uma das vítimas da Guerra de Ultramar, durante a ditadura Salazarista. 

         Ano 1969- Portugal. D. Maria guardava o lenço branco. Aquele que acenara no cais, enquanto via a figura do seu filho de 21 anos, perder-se com tantos outros filhos de outras mães, no barco que os levaria para longe, muito longe.  Ainda assim, pudera dizer adeus ao seu filho. Quantas outras, devido aos poucos meios, não podiam  vencer a distância, das suas terras à cidade? 
            Era fácil encontrar a D.Maria, na loja, nas ruas, na fonte e no rio, onde as mulheres lavavam a roupa da semana. Talvez ela procurasse a força, nos desabafos com os vizinhos. - Todos os dias rezo, agarrada àquele lenço. Faço dele um terço. Foi com ele que disse adeus ao meu José João...- desabafava ela, envolta no seu luto prematuro, que contagiava os seus gestos e o olhar, denunciando a auréola negra que envolvia a sua alma. Não se permitia rir. Guardava o sorriso, para quando pudesse abraçar de novo o seu filho. -…

Irritação

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De tempos a tempos sinto uma certa irritação, um cansaço que não facilita o meu encontro com um grupo de vozes.  Entrei no café como faço habitualmente. Mas nem sempre trago o cansaço e a insatisfação da rotina diária tão vivas como hoje. Como me cansa a rotina! Não sei o que acontece. Parece-me que quanto mais luto contra ela, mais ela me derrota. É como uma batalha, onde os adversários apresentam grande habilidade para me atraírem à guerra. Sinto-me enrolada por uma teia que me atira sem direção. Enrolo-me, embrulho-me. A zonzeira é tanta que para além de tornar o meu corpo dormente, altera-me a mente. Discernimento? Defesa? Não sei onde foram parar. E devido a esta mudança, a minha hora alinhou-se numa vibração inferior. Se o que senti hoje, pudesse ser visto pelos outros, eles presenciariam impulsivas energias a quererem criar um lugar apenas meu. Se eu procurava por privacidade, por que vim até um lugar público? Teriam o direito de perguntar. Por vezes, quando pensament…

A mentira é um doce nos ouvidos de alguns

- O meu marido esta noite ficou doente e a culpa foi sua.          Os olhos da jovem empregada, tremeram diante da acusação.         - Sim, vocês sabem que o meu marido só pode beber leite com zero por cento de gordura e ontem, você colocou no café dele, um leite mais gordo.         - Desculpe, mas nós aqui, não usamos leite com zero por cento de gordura- respondeu a jovem, tentando ser honesta.         - Usam, sim. As suas colegas têm sempre esse cuidado.         - Torno a repetir, nós nunca temos esse tipo de leite aqui. O máximo que elas podem fazer é misturar o leite de um por cento com o de dois por cento. E, na verdade, é o que elas costumam fazer- reafirmou a rapariga, apostando, inocentemente, na sinceridade.         - Não é nada. Foi a primeira vez que o meu marido teve problemas aqui, depois de beber o café com leite servido por si.         - Então, desejam tomar o mesmo de sempre?         - Sim, mas use, por favor o leite  sem gordura- insistiu a cliente.         - Já lhe …

Não preciso de sacos

Ele tentava mostrar que não aderia a certos modernismos que nos levam a exagerar em consumos desnecessários. A caixeira da loja do Dollarama, esperava nervosa e olhava para mim como se me pedisse desculpa pelo tempo de espera. Enquanto isso ele, repetia:                 - Não quero saco, não preciso de saco.                 Tentou enfiar um dos produtos que comprara num dos bolsos laterais das calças. mas não cabia. Tornou a afirmar:                  - Não preciso de saco.                   Experimentou colocar um outro produto em outro bolso. Repetia:                   - Não preciso de saco.                   Acabou por pagar, sem retirar as compras da passadeira. Olhou para mim, pediu desculpa e repetiu:                   - Não preciso de saco.                    Retirou as chaves do bolso. Guardou a carteira. T Shirt vermelha, calções azuis, chinelos vermelhos. Reconheci as peças facilmente. Elas estavam em exposição, dentro da loja, a dois dólares cada. Com as chaves enfiadas no…

Andorinha

- Olá Andorinha. A apresentação do meu primeiro livro de poesia é depois de amanhã. Gostaria tanto que estivesses presente.         - Não posso.         - Mas Andorinha, depois de amanhã é sábado.         - Eu sei, mas é dia de compras, limpar a casa, etc, etc...         - Mas tu gostas tanto de livros         - Gosto? Não. Adoro! São uma das minhas maiores paixões.         - Se mudares de ideia, já sabes o local e a hora.         - De qualquer modo, muito obrigado por te lembrares de mim.         -  Como poderia esquecer alguém que adora livros, ama poesia e é minha amiga? Tem uma boa noite.         - Boa noite- respondeu Isaura, desligando o telefone. Esticou as pernas e continuou a ver o filme,           No dia seguinte. Seis da tarde. Abriu a mensagem que acabara de chegar no seu email. Sorriu. Lá estava ele, o seu amigo. Enviara-lhe um pequeno vídeo. As habituais calças de ganga e camisa aos quadrados não encobriam o novo brilho no rosto. No olhar, a pressa vertiginosa d…

Preguiça de amar

Maria Clara, levantou os olhos do livro e levando a chávena do café aos lábios, sorriu e pensou:        - Que bonito! Faz-me lembrar quando os meus filhos eram pequenos. Aos domingos, entrávamos rapidamente num café, comprava um bolo para cada um e todos felizes saboreavam o doce, rumo à praia. E como eles pulavam no banco de trás, exclamando:        - Olha, mãe, o mar já tá ali. Vamos fazer castelos na areia!       E Maria Clara, continuava a sorrir, apreciando o quadro formado pelas duas jovens mães e pelas duas crianças, que tinham acabado de entrar no café. As meninas, entre os quatro e cinco anos de idade, pediram:       -Eu quero um gelado!        - Eu quero um chocolate!       As quatro, sentaram-se, não muito longe da mesa de Maria Clara. Ocuparam as quatro cadeiras de uma mesa. As duas jovens mães trocaram algumas palavras. Não por muito tempo. Rapidamente transformaram os telemóveis numa muralha entre elas e o restante ambiente. A um dado momento, partilharam um sorriso. Um…

Desculpe, não quero ser desagradável

Uma esbelta jovem de longos e escuros cabelos, que lhe emolduravam o rosto de pele clara e suave. Os olhos ligeiramente maquilhados; lápis e rímel preto. O casaco de malha azul, comprido e sem mangas deixava ver a curta camisa preta, a tocar o cós das calças de ganga azul, revelando a elegante cintura. Um belo rosto aliado a um estilo simples de vestir. No entanto, os movimentos caprichosos do corpo, denunciavam a convicta expressão: ´´ tudo posso, em tudo mando``, quebrando um pouco a beleza do seu próprio retrato. Virgínia entrou no café, acompanhada pelo seu pai. Alberto, de cinquenta e nove anos, bem conservados e com ar de quem usufruía de uma vida estável, pediu um café  para ele e um café e um gelado para a filha. Esperou no balcão pelos respetivos pedidos e ele próprio serviu a filha, já sentada numa mesa.         Quase de imediato a jovem levantou-se:         - Desculpe, pode colocar mais água no café?- perguntou ela à empregada.         A empregada sorriu e assim fez.     …

Virei limão

Sentado no balcão. Raramente se senta numa mesa. A rondar os desocupados setenta anos. Peso farto, sem atingir a obesidade. A idade tranquiliza-o em relação ao peso. Faz parte das pessoas que usam a idade para justificar muitas situações e ações.           Repetidamente, na hora de beber o meu café, assisti ao tormento de Andreia. Andreia é a empregada.               - Quero um café, um uísque e uma água. Um café longo, um uísque bem servido e água da torneira, mas filtrada,  num copo bem lavado. Limão, muito limão.                  Assim foi feito.                - Não quero este limão. Quero as rodelas do meio. São maiores.                - Mas estas rodelas são do meio- garantiu a empregada.                 - Não são nada. São muito pequenas. Você cortou da ponta do limão.                 Andreia voltou-lhe as costas. Foi até à cozinha e pouco depois regressou com um limão inteiro. Partiu-o diante do cliente. Ele esperou que ela cortasse todo o limão. Depois disso, protestou:              …

O fanfarrão

Um jovem professor de inglês, aparência extrovertida e sorriso constante. Bem vestido e um ar vaidoso. Alto, magro e um pouco musculado. Daqueles que frequentam um ginásio porque é moda. Um fanfarrão!
           - Posso?- perguntou sorrindo ao homem que conhecia de vista. Ambos frequentavam o mesmo café e quase sempre à mesma hora.
             - Claro!- respondeu Alberto. Rapaz de trinta e dois anos. Estatura média e ar de quem é apenas o que é.
             - Estás a beber café simples? Eu quero um café com chocolate. É uma bebida com classe. Aqui entre nós, as mulheres gostam quando me veem beber café com chocolate- expressou Cristiano. Ria. Por vezes dava a sensação que ria, não por vontade, mas para mostrar os dentes extremamente brancos.
           O outro não respondeu. Tagarela como era, o jovem professor, continuou a falar. Desabafou:
       - Na empresa da minha mãe existe corrupção. É uma empresa de donativos e o dinheiro das doações estão a ser desviadas pela dirigente da…