A barca dos sentidos- poesia

As palavras
Brincam comigo as letras, sim,
me confundem e fazem questão
de saírem de dentro de mim,
sem que eu lhes consiga dizer não.

Aos sentimentos discretos,
elas têm uma forma especial
de os deixarem descobertos
de forma tão natural!

Quando eu penso que já está,
que já não vou mais escrever,
que mais palavras não há,
que mais nada tenho para dizer...

Vêm palavras teimosas,
querem elas assim viver,
em poemas ou em prosas
para quem as queiram ler.

Porque me confundem assim,
 porque brincam comigo,
 porque vivem em mim
    e viver sem elas não consigo?...


***

Utopia

Por vezes sinto–me velha
nos pensamentos e nos desejos,
quando sinto que o Homem
corre uma e outra vez...
tantas vezes...
a bem ou a mal
numa corrida material
que o destina a um palmo e meio de terra.
Cego,
prossegue alheio à frágil sombra,
em que se tornou a palavra humanidade.
A esta ideia triste de me sentir velha,
une-se o meu lado infantil
que sem receio
e sem freio
atreve-se a sonhar.
Fantasio e transformo as imagens
frequentemente confusas,
numa utopia.
Visualizo uma luta comum;
onde todos os Homens um dia
se distinguirão,
por finalmente entenderem
a verdade da nuvem
que esconde o sol
da alma humana.

***

Igual a mim mesma


Sou no Universo alma tão pequena,
tão pequena é e no Universo não tem espaço,
desejar demais impede-me de assentar serena,
voo alto demais e em queda grande me desfaço.

Parece ser demais querer ser assim de alguém,
parece ser demais querer ser a luz e o sorriso,
ser o ar, o sonho único... sonho que alguém tem,
ser de alguém o beijo... beijo único que eu preciso.

Mas quem no mundo assim sente necessidade,
apenas ter um amor, apenas por um amor viver?
Divago em pensamentos e não sei se é verdade,
se amor absoluto existe ou se é ilusão que quero ter!

Mas gosto de assim sentir, de ser gente assim...
de toda a gente ser diferente,
uma constante igual a mim,
pois se não fosse assim... não seria gente!

***

Lágrimas

Gotinhas húmidas e transparentes
queimam o meu rosto cansado!
Mas não são lume!
São lágrimas fortes e quentes,
são um grito silenciado
num silencioso queixume.

São um livro fechado
tão quase depois de o abrir,
são o poema inacabado
que a meio quis partir.

E nessa lágrima transparente,
nesse silencioso queixume,
morreu o sorriso inocente
numa gotinha quente

que queima sem ser lume!

***


Silêncios...


Silêncio é o momento que me grita,
é escolha minha para calar a minha palavra,
é o peito que me acolhe quando me silencio aflita,
é o poema escondido que a minha alma lavra.

Se em cada silêncio eu desse ao Mundo
as palavras que em mim se atropelam e me inquietam,
eu faria do silêncio um barulho profundo
e daria voz a silêncios que me resistem, que me cercam.

O meu silêncio é vontade que se escapa... por vezes dor,
quando nem em palavras consigo dizer,
são lágrimas e sorrisos a que não consigo dar cor,
são gestos, carinhos que não consigo fazer.

E são em tantos silêncios, o tanto que eu sou!
Ecos de tantas palavras que vivem de coração aberto,
são palavras que esperam, por momentos a que me dou
a dar-lhes voz,  liberdade de partirem no momento certo!

***


Vestígios

Sinto na tua camisa lavada,
neste tecido que abraço
a tua pele marcada,
do teu corpo que adormeceu
vencido pelo cansaço,
descansando sobre o meu.
Lanço o olhar aquela hora
em que o teu respirar se perdeu
no meu peito que agora
respira triste sem o teu.
E sobre este tecido que aperto
cai uma lágrima cansada
como um grito que cai certo
na tua camisa lavada!

***
A lágrima pode ser...


A lágrima faz parte da alma;
pode ser a ternura que há a ter
para um desabafo que acalma,
uma  dor que queremos esquecer.

A lágrima é sentimento,
a coragem que pode levantar,
alguém em dor e sofrimento
quando perde o medo de chorar.

A lágrima pode ser emoção
que às vezes cai em vão
no rosto daquele, que a alma pobre tem!

A lágrima também chora a falsidade,
daquele que com maldade
lagrimeja... rindo de alguém!

***

Apenas viver

Quero sentir no meu rosto o beijo do vento matinal,
caminhar  pelo mundo, ver o  sol nascer,
sentir que a liberdade é um direito natural,
como viajante do Mundo, o sentido da vida não perder.

Quero ver o encontro do sol com a lua,
ouvir as leis que entres eles estabelecem,
ver o sol partir numa postura tão sua,
ver a lua embelezar esperanças que amanhecem.

Fantasmas obscuros, de mim quero ver partir,
recuso as suas vozes, os seus risos como companhia!
Não quero que lágrimas, de mim vejam sair,
quero ter a paz que à noite na minha porta batia.

Quero partir os muros que me cercam e me sufocam,
para em liberdade poder correr e partir,
quero sacudir de mim os fantasmas que me tocam,
que em loucas ciladas me tentam prender para eu não fugir.

Quero apenas ter o direito que ao nascer herdei,
não quero fazer parte desta moldura incolor, sem vida!
Quero sentir que em todos os sabores da vida borbulhei

e palmilhar a estrada que para mim foi estendida!

***

O meu limite


Pensei chegar ao fim... ao fim dos meus limites!
Senti a vida num horizonte bloqueado,
pensei deixar-me adormecer nesta dormência
e permanecer flutuando sem nada sentir,
na ilusão que o vazio é doce.
Foi então que senti,
(e senti que ainda sentia)
um ligeiro formigueiro
ainda vivo dentro de mim.
Estremeceu e fez-me estremecer!
Estremeceu e fez-me estremecer!
Desapareceu depois de me dizer
que dentro de mim o limite
é apenas o começo
de alguém que eu ainda não conhecia:
-Eu mesma... para além dos limites!

***

Conhecer para vencer


Ao vestir o dia de hoje,
desenhei
uma nova estrada,
entrei na minha alma,
projetei
uma nova caminhada!
Olhei,
senti,
decidi
das lágrimas me despir,
da tristeza me despedir!
Abandonei
o meu passo,
atento e desconfiado.
Abandonei a vigília
de animal cauteloso,
que caminha em território
desconhecido e perigoso!
Cumprimentei a dor,
cantou-me poemas seus,
vivi a sua cor.
Compreendi o seu texto,
assinei o contrato da paz.
Caminhei em frente
sem olhar para trás!
À dor...
escrevi o adeus!

***

Os meus poemas


Os meus poemas são palavras que correm,
são doces sabores, por vezes doce azedume...
sentimentos que em mim nascem e não morrem,
que deslizam em mim como um queixume!

Os meus poemas são tristeza, são alegria,
são criança que brinca, chora mas que não adormece.
Sonham na noite o que querem ser de dia...
são luz, razão que me conforta e entontece!

São maré forte ou o som de um riacho a brincar,
alienação que não me deixa dormir,
uma lâmpada que não se deixa apagar,
uma mão forte que não se cansa de sentir!

***

Nota do autor- A barca dos sentidos


           Podemos chegar ao ilustre pináculo de qualquer poder, mas nunca deixaremos de ser peças de um jogo desconhecido e sempre mais poderoso do que nós. A melhor solução é tentar não sermos demasiados humanos. Se tentarmos ser demasiado humanos, a nossa imperfeição acabará por nos levar a julgar o outro, sempre inferior a nós. A flexibilidade ajudar-nos-á  a entender que somos pessoas  com horas diferentes. Que sejam um leque  vivo, as nossas emoções, sempre em movimento como uma Barca de Sentidos, que jamais vencerá a ondulação oceânica se não acomodar as suas saliências e depressões aos movimentos convulsivos e oscilatórios da água. A vida é como o mar. O horizonte parece uma linha direita, mas nem sempre o seu maior atributo é ser inteligível. Não me quis exilar na tristeza, apenas vivê-la sem  drama com a certeza que a seguir já tinha o riso preparado. Sem conflitos emocionais fui construindo esta Barca dos Sentidos, feita de uma madeira especial, de uma só coberta, de um só mastro e uma vela quadrada, sempre pronta a mostrar-se como uma concha redonda quando os ventos sopram forte. Um mastro  visível em qualquer horizonte que nunca se esconde quer à chegada, quer à partida.
         Não me entristeço com nenhum poema triste. Senti cada um deles por completo, mas venci cada um deles, com a doce certeza que navegava sobre o amor de génios... todos aqueles que me souberam amar e me ajudaram a ser tão maleável como uma barca que deseja navegar sensível, mas pronta a usar o cabo de aço, preparado para aparar as faíscas de algum raio, quando as cargas positivas e negativas dos extremos das nuvens  precisarem de encontrar um equilíbrio.
         Pronta para navegar quer em água doce ou salgada, a barca não para. O movimento permanente, cria defesas e deixa grandes espaços para que eu seja deliberadamente infantil.

***

Prefácio

O que me serve de inspiração para escrever? Tudo. O que é bom e o que é mau. O belo e o feio. A alegria e a tristeza. A felicidade e a dor. A esperança e o desânimo. Os sons e os silêncios. O perder e o ganhar. O dia e a noite. O amor e a sua ausência. O meu lado infantil e o meu lado adulto. A visão e a reflexão que a natureza me proporciona. As palavras, são testemunhos dos diferentes estados de alma pelos quais passo e que reflectem os sentimentos causados pelo meio ambiente em geral que me rodeia. A primeira necessidade das palavras é saírem de dentro de mim, para que não morram dentro de mim. Por isso nascem com a necessidade de partilhar, alertar e o desejo de sentir que alguém recebeu a mensagem e  que não ficou indiferente. No entanto existe uma palavra que consigo reconhecer como recorrente em quase tudo o que escrevo ...silêncios... por isso costumo dizer que:
   - ''Os silêncios têm horas, mas não podem agarrar todas as horas do dia.”



























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