Bem me quer mal me quer- narrativas

Capítulo I
O encontro


         - Até qualquer dia- disse ele, dando-me um último abraço. 
         Eu fiquei aqui, dentro da sala, vendo-o fechar o portão do jardim. Um último aceno de mão. Um gesto com sentimento. Ele com os seus setenta e oito anos, procurava a segurança de uma bengala de madeira. Talvez mais pelo medo do que pela necessidade. Tive vontade de lhe dizer: ´´ Tenta andar sem ela``, mas não me atrevi. Talvez no próximo encontro. Sei que haverá outro, assim como sabia que aconteceria este. Apenas não sabia o dia. Eu acredito na arte pura do universo. Deixei cair a cortina, depois de ver o carro partir. Não cheguei a saber quem estava dentro do carro. O segundo encontro será mais completo. Também sei disso. Não, não sou vidente mas sou agraciada por um pressentimento positivo; o querer algo, aquele querer que vem do mais fundo de nós, funciona como um íman cheio de encantos. E com cem anos de idade, não digo isto porque o li em qualquer lugar mas porque pude saborear factos reais. Quantas vezes ao dizer não à escuridão a vida ofereceu-me um tapete ao sol!
        Fiz cem anos a semana passada. Foi sempre um desejo meu; viver mais de cem anos. Foram muitos  os que perguntaram: ´´ Mas que queres tu fazer com cem anos? Eu sempre respondi: ´´Viver``.
        Cem anos é tão pouco para quem gosta de viver e para quem teve tanta coisa para fazer e tantas lutas para vencer, como eu. Nunca menos de cem anos bastariam para eu partir tranquila e satisfeita. Quando temos cem anos, pouco nos é exigido. Muitos são os que pensam, que todos os que atingem esta idade só precisam e querem descansar. Então posso, não porque sinta que esta idade me limita ao descanso, mas sim porque aprendi a banquetear-me nas horas propícias ao silêncio. É gratificante simplesmente  usufruir do espírito do dia a benzer a lua, brincar com os dedos nos feixes de luz que o sol parece ter montado como um delicioso até amanhã e acreditar que viver é uma grande experiência. Permito-me simplesmente a esticar as pernas, repousar os braços, relaxar os ombros e deixar entrar todas as lembranças. Nem a velhice justifica o ócio. A velhice é apenas um espaço abundante de liberdade, podendo ser a altura ideal para cultivarmos a arte de nos conhecermos.


***
Louceira
Noventa dois anos antes


     Oito anos. Eu, com oito anos. Vivia em oceanos de graça. Não conhecia mudanças de ventos. Não conhecia tempestades.  
    Louriceira. Pequena aldeia entre as serras que namorava com a natureza, como se fossem almas gémeas. Lugar da freguesia de S.Pedro e Santiago do concelho de Torres Vedras. Na aldeia medravam  lendas, para apaziguar a vida dura e por vezes solitária dos  seus habitantes. As serras pareciam destinadas a guardar os segredos familiares.
    Pela história da aldeia procurei com algum afinco. Para a minha vontade de poder escrever um grande relato sobre ela, o que encontrei foi pouco.
    ´´Em 1857,  por ocasião de uma escavação, foi encontrado neste lugar,  numa terra então pertencente a Francisco Pereira, uma espécie de padrão ou marco romano com inscrições. Este encontrava-se a grande profundidade. Ao lado desta pedra, encontraram duas bocas, provavelmente de fornos com pedaços de telha em cima. Mas os pedaços de telha encontravam-se tão fundas, que o dono da terra desistiu. Pela quantidade de telha encontrada e a qualidade da terra, foi levantada a hipótese deste vestígio histórico ter sido uma olaria romana.
Por essa razão, os editores da 2ª edição de Madeira Torres, deduziram que o nome Louriceira, poderá ter nascido do termo Louceira. ``
      Nasceu então a ideia de batizar  a aldeia do nosso livro  de Louceira.``
     A única arquitetura existente neste lugar eram as veias dos caminhos de terra,  os zizagues do rio, a canção da azenha, o murmúrio dos moinhos  no cimo dos montes, os eucaliptos que se esticavam até ao céu,  os pinheiros de braços enérgicos soltando resina, a lua que escutava os diálogos dos homens que se sentavam nos bancos  das suas portas discutindo, talvez o tempo para o dia seguinte e os campos nas encostas,  gritando o suor da sua gente. Um mundo mágico de algumas crianças. Não muitas. Eu e os meus dois amigos, Joana e José Joaquim, fazíamos parte desse reduzido grupo infantil. Gargalhadas. Muitas gargalhadas.
    
***
   Diálogo breve

      - Rani, Rani- a voz da minha avó chamando- Merendar, tá na hora da merenda!
     E galgávamos, eu, José Joaquim e Joana, os degraus para a entrada da casa, perseguindo o cheiro do pão quente acabado de sair do forno. Havia um esplendoroso e inocente ambiente, onde os nossos pés gargalhavam no soalho da minha casa. Minha casa! Que certeza tranquilizadora!
     Todas as noites a almofada, os lençóis e os cobertores tinham uma voz doce, que me transportava e adormecia tranquilamente. Os meus avós eram o muro de sentimentos puros e férteis e eu a flor que nele crescia livre e feliz. Porque vivia eu com os meus avós e não com os meus pais? A história, contaram-ma apenas uma vez e deram-me a entender que não era assunto para nos lembrarmos constantemente.
      - No dia em que nasceste a tua mãe partiu. O parto foi doloroso demais e ela não aguentou. O teu pai, desgostoso, passado uma semana deixou Portugal e disse que se ia aventurar nas terras de França. No ano seguinte apareceu e levou o teu irmão e a tua irmã. Quando quiser regressar aqui estaremos todos de braços abertos.
     Depois, à toa, começaram a cantar uma canção. O ´´Atirei o pau ao gato`` misturado com o ´´Oh malhão, malhão...```Todos choramos a rir. Ainda hoje não sei se aquele ´´chorar a rir`` não foi para disfarçar as lágrimas verdadeiras. Era como se me quisessem dizer: ´´Viver não é sofrer. Se te dedicares ao sofrimento, viverás eternamente na dor.   Estabelece a tua identidade na manta quentinha da felicidade. Não te alimentes de amargura``. 
     Senti que eles queriam proteger aquilo que amavam: eu. O aconchego na minha hora de deitar era um pormenor importante nos meus dias de criança. A paz era o deleite do nosso lar. Eles traziam-me a paz. Não a buscavam. Sentiam-na, viviam-na e incluíam-me nela. Por isso a história dos meus pais foi contada quase sem sentimento. Digo quase, porque por mais que eu abrisse os olhos, não consegui ver nem uma lágrima, embora tenha notado dois queixos tensos e uma certa pressa para chegar ao fim do assunto. Apesar da idade senti a honesta resistência deles. Mas hoje eu entendo melhor. A amargura é um predador que nos caça a alma e o coração. Pode-nos levar a grandes pesadelos.
      Ainda hoje me lembro o que era estar no colo do meu avô, embrulhada no xaile de lã da minha avó. Quanta beleza naquelas mentes simples e dedicadas!
***
 O mundo era ali

         Não vivíamos distantes do mundo, pois o mundo era ali. Os dias inteiros brincávamos nas serras, nas ruas mais estreitas ou na rua principal da aldeia. Esta rua oferecia-nos os três importantes fornecimentos de água; a bica, o chafariz e a fonte mais nova, provida por uma bomba que puxava a água. Todos eles eram alimentados por puros fios líquidos, vindos das nascentes das serras. Nas noites quentes de Verão, juntavam-se os adultos. Não existam feições falsas. Havia um garrafão no centro do grupo, que se autorizava a esvaziar cada vez que a caneca de barro vinha de um compadre satisfeito e mais satisfeito dizia:
           - Agora é a sua vez compadre. Ora prove lá desta relíquia.
          Relíquias também eram as conversas das mulheres, que já de avental pronto a recolher, falavam de pães e broas.
           - Não sei o que se passou com a minha cozedura desta semana. O pão não cresceu tanto.
           - Talvez da qualidade da farinha, mulher, talvez da qualidade da farinha...
       - Deixe lá. A próxima sairá melhor. Já me aconteceu deitar fora uma remessa dele. Parecia enqueijado, o diabo do pão. Olha soube que nem bolotas aos meus porcos.
            - Por onde andarão os garotos.
            - Estou a ouvi-los. Andam a brincar em volta da oliveira...
            - Eu também estou de olho neles...
       Como era bom brincar sabendo que alguém estava de olho em nós. Este de olho em nós, significava amor, não um exercício para mostrar poder.
           Quase todas as casas eram caiadas de branco com uma barra azul rente ao chão e em volta das janelas. A maioria incluíam dois pisos. A minha casa tinha dois quartos no primeiro andar. O meu íntimo traquina levava-me a usar o chão de sobrado, tratado com cera amarela, como uma agradável pista para deslizar. Usava o tapete do quarto e lá ia eu... ria a bom rir! 
         Muitas noites, antes que os meus olhitos se fechassem, inventava histórias enquanto olhava os nós das ripas escuras do teto, sustentadas por grossos barrotes. Na penumbra pareciam imagens que se moviam. Tapava os olhos com o lençol e brincava às escondidas com elas. O rés-do-chão vivia por etapas. Dependia da hora do dia. Faziam turnos. Ora acordavam uns, ora adormeciam outros. O primeiro compartimento a acordar era a cozinha, que recebia a dona da casa com admiração. Quieta, abria os olhos à luz do candeeiro a petróleo, apreciando a delicadeza com que a minha avó a tratava. Acordava devagarinho, mas decidida, cada armário, gaveta, pegando em cada utensílio com se da família se tratasse. A panela velha, aquecia o fundo bem areado no fogão a petróleo.
         - Pronto, homem, aqui tens o teu caldo. Aquece a alma que lá fora está frio e o dia vai ser longo.
         E ele envolvia o espírito no vapor quente da sopa como quem sabe que só muitas horas depois o poderia voltar a fazer. Não o fazia com tristeza, mas com a convicção de que um homem deve governar a vida com o suor do rosto. Apenas assim poderia oferecer tranquilidade aos seus.
         - Já vou- dizia ele à minha avó- não te canses demais e tem cuidado com a pequena. Eu sei que tens. É uma maneira de falar.
          A porta abria-se e lá ia ele até à adega, que para além de guardar pipas e dornas de fazer o vinho, albergava coelhos, galinhas e o nosso João que, embora sendo ainda noite, o seguia pela voz. Era um burro que não precisava de rédeas.         
          - Oh Rebocha, esse nome do seu burro não é muito gentil para quem se chama João.
          - Oh Zé Rato, que quer, foi a minha menina que o escolheu.
          - Mas não é o nome do melhor amigo dela? Que diz ele a isso.
          - Coisas entre garotos. Eles lá se devem ter entendido, pois continuam amigos e este nosso João já vive aqui há quatro anos.
           Lembro-me da carita do João e como ele fungou, quando eu lhe disse que o meu burro iria herdar o seu nome. Depois expliquei-lhe que era uma homenagem à nossa amizade e ele sorriu. Penso que passou a ter orgulho.
            - Eh mano João- exclamava ele sempre que via o meu burrito.
             O mundo era ali.

***


O caderno esquecido

           A vontade de trabalhar, que me acompanhou a vida toda, penso que herdei deles, os meus avós. Para ser franca, por vezes, assaltou-me a vontade de ter um lacaio que me descalçasse os sapatos suados.
            Os raios de sol já se foram. Repousarei quando chegar a hora de ir dormir. Depois do encontro de hoje, penso ser necessário voltar à idade em que tudo começou a parecer inútil e ridículo. Abrir espaço às paredes oscilantes do passado. Abrir uma gaveta, encontrar um diário pode ser uma aventura. Permiti-me a essa aventura, consciente que os riscos internos poderiam ser fortes. No entanto penso que a experiência me tornou sábia. Sabedoria é o melhor escudo contra a influência dos bons ou maus jogos em que participamos.
            Suspirei. Muito devagarinho abri a tal gaveta. Tantos anos fechada. Abracei o caderno esquecido dentro dela. Uma parte de mim, tantos anos sujeita à distância do canto de um armário. Foram várias as razões que me empurraram a condicionar as minhas histórias, quer em prosa, quer em poesia a uma gaveta de um armário. Ou talvez nem houvesse razão nenhuma que justificasse tal ato. Por vezes razões não passam de desculpas. Agarrei-me ao caderno de poesia. Abracei-o. Mentalmente enchi-o de carinhos e uma parte de mim, a reprimida, explodiu diante da poesia encontrada. Ao abrir o caderno senti o quanto a escrita é emoção invulnerável ao tempo, um útero de emoções vivas. O quanto fora, e continuava a ser um pouso seguro dos meus abismos, o meu paraíso das minhas mortes lentas, mão forte que sempre equilibrou o meu pulso frágil, terra fértil que me salvara e continuava a salvar de um mundo onde se negoceiam sentimentos.
        - Ah poesia, minha amiga no bem e no mal. Entreguei-te às traças e voltas às minhas mãos soltando finas partículas de pó, cobertas de versos- atrevi-me a dizer em voz alta.
         - Psiu... sim, encontraste-me... encontraste-me.
            O que era aquilo? Alguém sussurrava?
           Cuidadosamente fechei o caderno. Tinha medo de o despertar. Em pensamento respondi:
           - Não te quero acordar completamente, apenas rever-te um pouco.
           - Mas estou aqui, não vês, cheia de pó.
           - Calma- sussurrei, tentando suavizar a minha ansiedade e o meu temor de voltar ao passado.
         Com a mão entre os cabelos, amaciando a nuca como se amaciasse os pensamentos, olhei a capa vermelha, cheirando a liberdade presa... Impulsionando os dedos à exploração das páginas, atrevi-me a folhear lembranças. Tentei lembrar em que data tinha, eu, fechado aquele caderno. 
           - Na hora em que lobo dentro de mim se soltou e estrategicamente me dominou as emoções e os pensamentos, tentando alimentar-se da minha energia levando-me à ira e à revolta. Pela altura da minha baça juventude- pensei.
          - Peço-te, ainda que não me deixes retornar, continua o que comecei. Prometo ficar bem quieta. Quero saber se valeu a pena não termos conhecido a juventude até à idade própria- pediu ela.
          De sorriso aberto, peguei numa caneta. Parecia um plano tão pequeno, aquele o de escrever na folha lisa, com linhas dividindo  capítulos de estado de espírito.

 Sem ter a certeza do que iria escrever, tentei preencher o vazio das linhas.
        ´´ Envelheci jovem e rejuvenesci durante o avanço da idade``- comecei.
       - Mas eu envelheci tanto assim?- parecia perguntar aquela a quem eu obrigara deixar a escrita a meio.
       - Velha ficarias tu rapidamente se eu não estivesse atenta. Lembro-me de ti, sim, mas não com tanta clareza como seria o normal. Foi tão dura a guerra em que te envolveste que decidi entregar-te à tranquilidade de um armário,  e deixei que uma Rani mais adulta enfrentasse este nosso percurso pela vida, estimulada pela possibilidade de descobrirmos porque estamos aqui. Para isso precisava de ti bem longe. Expunhas-te à linha feroz da raiva e já ela, muitas vezes mostrava-se dona dos teus olhos. Escrevias com sinais de queda, os mesmos sinais que te levantavam e deitavam. Já não era apenas de noite que os fantasmas te rodeavam. Começaram-te a acompanhar para a escola. Impediam-te de comer e tu tonta, desculpavas-te que estavas muito gorda. Vias-te realmente gorda. Todas as manhãs, olhavas o espelho e achavas que precisavas diminuir um pouco a barriga. Por outro lado sentias-te inferior e extremamente magoada quando te chamavam de magricela. Não te definias. Sofrias com as ´´ bocas do mundo `` e ao mesmo tempo sentias-te impelida a não comer para contrariar a opinião dos outros. Claro estavam todos tão ocupados com os seus afazeres  diários que ninguém se apercebera. Um dia o médico disse-te; tens anemia. Aí sim, o problema aumentou. Deixaste que te culpassem.As vozes dos fantasmas aumentaram. Tu não dizias nada a ninguém... escrevias.
      Lembras-te quantas vezes, a raiva te consumia e te obrigava a riscar o caderno, com tanta força ao ponto de destruíres as folhas? Deixavas que te dissessem: ´´ és tão feia`` e feia sentias-te.
     Antes que te matassem deixei nascer, prematuramente a terceira de nós. Ela pegou em todos os destroços desse palco e ofereceu-te casta, à ilha da paz. Passamos a mulher adulta antes do tempo. Éramos novas demais para desaparecer e depois lembras-te, sempre tiveste o desejo de uma longa vida, eu mantenho-o... Transformamos tudo em comédia antiga, cena imprópria. Vi a tua inocência em campo de batalha, a que tu tão inocentemente te envolveste.
    - E não sentes frio? A mim gelavam-me aquelas tempestades tão violentas. A espera para a libertação era tão angustiante, que parecia uma porta batendo, batendo... E eu sem poder passar. Tu já não sentes o mundo ferver, em completa ebulição, esperando, esperando que tu erres?
      - Tu não te escutavas
      - E eu sabia lá escutar-me!
     - Ela depois enfrentou outras guerras, diferentes das que tu enfrentaste. Mas é engraçado que não deixaram de ter elos de ligação. E isso porque ela ainda tinha medo da opinião dos outros.
     - Mas quando foi que surgiste, tu, com essa calma e segurança que demonstra? E tão cheia de amor!
     -  Foram batalhas, umas vencidas outras perdidas, que me tornaram assim. Um dia entendi a confusão em que eu vivia. Vivia a acusar os outros pelos meus infortúnios e não entendia que a maior parte da minha infelicidade era eu que a permitia. Não fiques triste; guardo comigo a nossa amada e inteligente criança, a nossa perguntadora adolescente. Sairemos vitoriosas das vagas, desaguaremos seguras numa velhice mais jovem no areal onde os sonhos não se esborracham contra rochedos interesseiros, atentos a inventar métodos para roubar o mar aos peixes. Verás que ela, nos trará respostas tranquilas a tantas perguntas inquietantes que fizeste e que eu ainda faço. Não com  tanta frequência porque tento concentrar-me, não nas inquietações, mas em viver diariamente sob a luz do sol. Lembro os teus debates noturnos com a tua almofada e os teus sonhos ludibriados por pesadelos. Não entendias a desigualdade social e questionavas muito as religiões. Algumas coisas mudaram, mas não o suficiente para que esses problemas desaparecessem.  Cada vez surgem mais religiões, crenças e dentro das próprias crenças uma enorme desordem que mostra que onde há mais do que um homem existem várias opiniões.
       Continua a haver a manipulação dos pensamentos das pessoas. Tentativa para as manter na ignorância. A procura deformada por um Deus único, continua a incentivar a matar o semelhante. Como vês nada de evolução. Alguns, usam um pouco mais de requinte mas descumprem a ordem; ama o teu próximo como a ti mesmo. Quando deitavas a cabeça na almofada à procura de paz, ela enchia-te o ouvido de gente perdida num bosque de línguas afiadas, e num universo de contrastes chegava-te o som feliz da infância. Acabaras de descobrir porque havia heróis:
        ´´Se o amor fosse um ato natural entre os homens não haveria esta necessidade de aclamar certos atos heroico. Tão natural como a presença do amor seria a inexistência de heróis.``
          - Tão sábia te tornaste.
          - Obrigado, mas se vivesse mais cem anos eu concluiria que nada sei agora.
          - Mas diz-me, explica-me. O que aconteceu comigo? Passei a esfinge na paisagem da vida?
         - Como passaste a esfinge? Não me vês? Continuaste em mim, porque eu que já existia em ti, salvei todas aquelas que fomos.
            - Então tu és o pico da pirâmide?
        - Não sei. Se morrer hoje, serei. Se viver mais uns tempos, será aquela mais adulta de nós. Somos uma obra sempre em construção. Seremos o corpo da pirâmide que crescerá rumo aos céus, até que aos céus pertençamos. Mas está aqui um outro caderno. Um diário!
           - É da nossa menina. Quando começou a sentir-se magoada. Vais ler?
           - Sim.

***
Capítulo II
O dia em que me ofereceram um diário


            Há quatro anos, um adulto, marido de uma prima, ofereceu-me um diário. Prima de terceiro grau. Era uma época,  onde todos os parentescos eram importantes, por muito afastados que fossem. Eu tinha dez anos. Aceitei o diário. Ora olhava para o presente inesperado e não desejado, ora para o presenteador. A verdade, é que eu não sabia o que fazer com um diário. Aqueles caderninhos de todos os formatos e adornos, pareciam ser um símbolo das meninas tão frivolamente infantis. Ao pegar no diário, foi como se os gritinhos, quase histéricos, de algumas colegas de escola, se infiltrassem  nos meus ouvidos. Elas partilhavam nos intervalos da escola os pensamentos mais ´´ íntimos`` que escondiam,  religiosamente,  dos pais ou de qualquer adulto. Algo que eu não entendia; como podiam partilhar o que escreviam no diário? Sim, porque segundo o que elas diziam, ele, era o amigo íntimo, aquele a quem confiavam os seus maiores segredos.
- É lá que confessamos tudo- diziam, por vezes em tom solene. Esse tom solene era, amiúde, destronado por risinhos. Risinhos atrevidos, levemente esmagados pela austera educação. Risos que agitavam os corpos pequenos, ansiosos por crescer e atingir a liberdade. ´´Quero crescer rápido para fazer tudo o que me apetece``. Sonhos intactos, secretos, esperando o tempo certo para cortar a placenta com um quotidiano asfixiante.
- Olha, é lavável, a capa- tentaram explicar, como se eu tivesse que reconhecer, que o diário não tinha sido barato.
Eu sorri:
            - Sim, é de napa- respondi, tentando demonstrar que eu conhecia o material.
- A gente perdeu um bocado de tempo pra encontrar o diário certo pra ti. A gente sabe que todas as crianças, sujam quase tudo o que tocam... foi pra te facilitar a vida...
Pronto; ali estava eu a ser chamada de criança. Sobretudo criança descuidada. Que descaramento! Ai, ai, lá estou eu, com a mania que sou grande, mas isto de ser constantemente diminuído, às vezes, produz o sentido inverso do propósito de quem faz a observação... ou tenta aconselhar. Sei lá, como é que no mundos dos adultos, isso é classificado. Por vezes, isto provoca uma vontade enorme de fazer tudo ao contrário, só para contrariar. 
No dia seguinte a minha prima queria saber se eu tinha gostado do diário. Parece que o marido queria saber, mas não tinha coragem de me perguntar. Ora aqui está, um exemplo, em como a falta de coragem não é sempre de quem é mais novo.
            Eu não gostava muito de ser politicamente correta ou educada apenas por ser, mas tive pena da pontinha de ansiedade que se fazia notar nas bolinhas pretas dos olhos da minha prima de terceiro grau. Sorri e respondi:
- Ah, gostei muito, sim. Guardei na minha mesa de cabeceira. Vou escrever muito nele. Eu gosto de escrever.
Assim que me certifiquei  que um sorriso de alegria fizera bailar as bochechas sardentas da minha prima, corri  a buscar o diário, ainda dentro do papel de embrulho. Agarrei nele e corri escada acima até ao meu quarto. Desembrulhei-o e coloquei-o na mesa de cabeceira.
- Ufa! Pronto, assim já não menti!- murmurei, respirando aliviada, como se me livrasse de uma grande responsabilidade.
            Tinha que o pôr ali. Sim, porque se não o fizesse, só estava a praticar a verdade pela metade.  Sim, porque escrever, toda a gente sabia que eu gostava de escrever. Escrever e ler, continuam a ser uns dos meus ´´vícios``. 
Mas voltando à meia verdade e meia mentira; a metade de uma verdade, acaba por ser mentira. Ou não?  Por vezes os adultos confundem-me com isto. Dizem-me sempre:
- Menina, não se mente!
 Se eu apanho um adulto a distorcer um pouco a verdade e lhe pergunto porque faz isso, ele responde-me:
- Ora, não querem ver a fedelha! A querer saber mais do que eu? Há verdades que não se podem contar, por isso a mentira, às vezes, é inofensiva.
Ninguém imagina, o que isto martela na minha cabeça. Eu queria mesmo era, ser como muitas outras crianças; viver e não pensar demais.
Voltando ao diário. Um diário? Coisa tão infantil!- pensava eu.
Achava-me mais adulta do que  as minhas colegas de escola. A verdade, é que desde muito cedo, sou impulsionada por uma vontade de ser diferente. O pior é que  sei definir isso, nem muitas vezes conviver com esse sentimento incomodativo, mas  também indispensável. Chamam-me teimosa e seca. Eu sei lá porque é que sou assim! Muitas vezes, em que a noite me obriga a não dormir como os anjos, como toda a criança deveria dormir, peço, e não sei a quem peço, que  ajudem os outros a darem-me um tempo para crescer. Não é nada bom quando algo faz parte de nós, nos incomoda e nem sequer sabemos do que se trata. Será rebeldia ou uma manifestação de personalidade distorcida? Será algum sintoma misterioso? Talvez um dia eu venha a decifrar este mistério. Mas, que este misterioso proceder, me domina, domina. O  estranho é que eu gosto. Sinto-me tão bem por ser diferente! Bem, como já disse e ainda direi muitas vezes por aqui, nem sempre ``este ser´´ diferente, me traz descanso. No entanto, sinto um certo descanso, ao conseguir entender que a  compreensão do significado da vida, é muito difícil de ser entendida  nesta idade. Bem, talvez eu o alcance quando chegar a adulta. Adulta? Mas eu vejo tantos adultos tão indecisos, com respostas tão desconexas. Balançam tanto entre a coragem e o medo, entre a mentira e a verdade. Lembrei-me agora de um episódio que se passou entre a Sra. Maria do Carmo e a minha avó.

 Cristina

´´ Um dia destes a Sra. Maria do Carmo, mulher do Carriço, ( Carriço é alcunha). Tenho que explicar, que por aqui todas as famílias têm uma alcunha. Por exemplo o meu avô é conhecido por Rebocha. Ele explicou-me que a mãe dele era uma mulher muito baixinha, mas muito engraçada. Bonita, diziam alguns. Quando ele nasceu, todos diziam:
- Olhem, nasceu o filho da rebochinha. Vamos ver que altura terá. E como o meu avô cresceu muito, foi chamado, não de Rebochinha mas de Rebocha. Mas o nome era pronunciado com respeito, uma vez que todos o respeitavam. 
- É um homem respeitado porque ele estima toda a gente. Desde o garotinho ao mais velho- diziam.
Mas voltando à Sra. Maria do Carmo. Mulher pequenina, pele corada. Quem não a conhecesse diria que ´´bebia o seu copito``, como é hábito dizer, por aqui. Mas não, a senhora só bebia água e chá. Os olhos nervosos, piscavam por detrás das lentes grossas. Ela e a minha avó conversavam sobre casamentos.
- Pois  o casamento é uma carta fechada- dizia a minha avó.
- Se é D. Celeste, se é. Eu cá tentei ensinar tudo aqui à minha Cristina. E é de principio que se começa. Um homem não precisa de saber de todos os passinhos que damos.
- Honestidade e respeito, um com o outro é o mais importante.
- Amor, muito amor. Eu sei que vai sempre ser assim- respondeu a jovem Cristina, casada há quatro meses- eu e o Rogério combinamos que entre nós  não há-de haver medo e falta de franqueza para falar. Eu não quero viver com o medo que vi a minha mãe viver; todos os dias, uma hora antes de o meu pai chegar, atacada pelos nervos... Tou casada há pouco tempo, mas sei que o meu homem não é nada como o meu pai. Trata-me com tanto  carinho... – enquanto falava, olhava para o chão como se lhe faltasse coragem de enfrentar os olhos da mãe e da minha avó. O seu modo de vestir não fugia muito ao modo de vestir da sua mãe e até da minha avó; uma saia justa, até ou um pouco por cima do joelho e uma blusa às flores, o que não condizia com o xadrez da sais.
Ao contrário da mãe era uma rapariga alta, de farto cabelo negro, mas as mesmas cores rosadas. 
- Cristina... oh Cristina- a rapariga estremeceu quando entendeu que era o seu marido que a chamava.
-Não digam a ninguém, muito menos a ele que estive aqui este tempo todo. Ou por outra, nem digam que eu estive aqui- suplicou nervosa- já vou, já vou- respondeu, pegando no alguidar da roupa.
- Andas a dar à língua ó quê- ouvimos ele gritar.
- Não homem. Tive a apanhar a roupa, no estendal de trás. Não vês o vento que faz? A roupa tava toda enrolada. Levei mais tempo a tirá-la da corda. Não queria rasgar a roupa, né.
- É,  é... - repetiu ele, num tom sarcástico. Por esta vez passa. Prá outra vez, trata de apanhar a roupa mais cedo. Quero-te em casa sempre que chegue em casa.
Sentimos a força com que a porta foi fechada. O silêncio caiu na cozinha da minha avó.
- Bem D.celeste, já vou. O meu, desde que uma trombose o afrontou, tem-se mantido calado. Que Deus me perdoe, mas que Ele o mantenha assim- pediu ela elevando os olhos e fazendo o sinal da cruz- mas oh, pela Virgem Maria, isto fica aqui entre nós.
- Claro, vá lá sossegada- assegurou a minha avó.
- Nem tu menina. Não ouviste nada, tá bem?          
Eu engoli em seco, fixando a feição perturbada da senhora.

Mais tarde, já deitada, eu pensava naquilo tudo olhando o teto. A luz da lua entrava pela janela e parecia criar um ambiente  de suspense dentro do quarto. Ela parecia trazer os gritos aflitos e soluços da casa de Cristina, a jovem noiva. Apenas um beco estreito, separava as nossas casas. Acabei por adormecer escutando um cão ladrar. Possivelmente nem o cão gostava daqueles gritos. 
No dia seguinte, Cristina apareceu na rua com um olho negro.
- Que te aconteceu rapariga?- perguntavam as pessoas.
- Levantei-me ainda meio ensonada e caí escada abaixo.
- Ah rapariga afasta-te já dessa escada. Não deixes que ela te faça cair uma segunda vez. Se deixas, isso torna-se um vício- aconselhou uma vizinha escondendo muito mal o segundo sentido do seu aviso. 
- Oh mulher mas que raio de conselho você está a dar à rapariga! Há certas coisas que temos que aguentar toda a vida.
- Pois é... e é por causa de mulheres que pensam assim, que a toda a hora, continuam a haver Cristinas e Marias caindo das escadas e acordando com os olhos negros. Os tempos estão a mudar e ainda bem.
Reparei no silêncio da minha avó. Mais tarde, perguntei-lhe por que não dissera nada.
- Porque muitos conselhos ouvirás mas só o teu seguirás. 
Diante da minha insistente interrogação, ela continuou:
- Olha, hoje ela pode até escutar, dar-nos razão, mas enquanto se julgar apaixonada, enquanto tiver medo, ela vai cair sempre nas falinhas mansas dele. Levar porrada de novo. Ficar bem de novo. Só ela pode decidir.  O  ponto final terá que ser decidido por ela. Até lá, se que falarmos corremos o risco de nos tornarmos inimigos, até dos dois. Um dia entenderás. 

Fiquei a pensar se seria comodismo, egoísmo ou precaução. Fiquei a pensar na verdade distorcida de Cristina. Fiquei a pensar no mundo distorcido de Cristina. No entanto duvido que possamos chamar Cristina de mentirosa. A mentira passara a solução. Caminho encontrado para aguentar a realidade. Por quê? Por medo? Pelos outros? Por que é mais importante a visão que os outros têm de nós, da nossa vida do que a nossa realidade? Cristina mentia sobre o seu casamento, na necessidade de omitir a infelicidade e acrescentar uma vida amorosa que de facto não existia. 























Fernanda R-Mesquita





























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