E a poesia anda de galho em galho- poesia

´´A poesia aprisionou a minha alma e o meu coração bate ao ritmo dela.``

 Lady Poesia

Tendo sido o primeiro milagre antes de tudo,
foi presa assim que provocou a primeira ranhura no cinismo,
torturada quando o homem adulterou a própria sombra,
se tornou diplomático
e a baniu dos travesseiros dos lares.

A poesia é a vitima mais inocente do mundo

Mas ela, natureza real de um todo cheio de milhões
de simplicidades e autenticidades,
vence os ombros hipotecados por discursos murchos,
recusa-se a morrer pelas mãos dos mortos,
corre apaixonada para os olhos que sabem que servem para olhar e ver
e é salva pelos que sabem sentir mais do que  o suficiente;
a memória e a alma dos loucos.

Sem palco, os próximos da vida expressam-se, em reverência a Lady Poesia!

 ***
Intimidades com uma folha em branco

Para um momento grave, leve  ou alegre, a folha abre-se 
ao sopro dos meus pensamentos, apronta-se intimidade 
a um sigilo com tendència a explodir. Antes que o abismo permaneça, 
ela pede-me voz. Hesito, mas pesam demais os discursos difusos da Ordem. 
Abro-me em viagem pelo papel, tranquila pela certeza de que a folha 
não conhece o espanto, nem o ridículo. Dou-lhe séculos de mim,
entrego-lhe segredos. Sinto que ela ( a folha de papel) gosta de mim
e que sabe guardar segredos.

Adormeci e sonhei que a folha com o poema ao segredo pretendido,
entrou numa estrada, onde na curva havia um livreiro escondido:

´´ O  livreiro assobiou,
A folha encantada por ter um segredo, nem reparou
para onde estava sendo empurrada;
as mãos do astuto livreiro 
juntaram  aquela, a muitas outras folhas
com os desabafos do poeta, e  fez um livro inteiro.
Grande alarido. Faria  o livro sentido?
Tontas as palavras, espreitavam...
As folhas brancas tremelicavam;
Uns afirmavam que o poeta entrara
pela folha branca e se encontrara,
outros asseguravam que se arruinara.``

O poeta é um confiante, evade-se do corpo, cresce no poema, derrama-se no papel e passa a ser  livro aberto para todos, mas nem todos atingem o seu infinito...
***
Instante fugaz

E porque a hora é cansaço;
o passo é pensativo
e a estrada é lenta.
A natureza  num sublime saber
dedilha nas cordas do vento
secando o suor e acalmando as veias
do homem e do animal,
que em silêncio
e de passo pensativo
pela estrada lenta
vivem
os detalhes do retorno ao lar
como quem agarra a vida
na hora do descanso...
É o instante fugaz
entre a labuta cumprida
e a que ainda está por cumprir.

***
Insaciável manifestação de existência
(foto, Portugal, Nazaré, Abril-2009)


As ondas, de intensos batimentos,
 gota a gota refrescam a boca sedenta
e possuem o corpo feminino da areia
que espera de carne trémula.

O sol brota como tinta fresca
por entre as nuvens; o tufo de algodão
que  se abre à  mariposa colorida
que como raio luminoso atiça
os sentidos do quadril forte da areia,
sem ambição de posse.

O mar é a talha de água
onde as ondas gorjeiam e dançam curvilíneas
até  ao areal que reúne uma imensidão de pequenos corpos
numa íntima e insaciável manifestação de existência.
***

Chuva de Julho

 Parte, lentamente, o por-do-sol.
 Cruza-se com ele a chuva de Julho.
Pingos grossos inclinam-se
fortemente sobre a Terra regando os jardins
dilatados pelo calor.
Enquanto a rua se inunda de água,
cria-se, no solo,  um licor eterno; a dureza do agora será
a eloquente virtude, quando o vento uivar na nuvem
e a levar para longe, deixando o solo seco.
 E água nova nascerá e correrá no coração do mar, das montanhas,
nos rios, e até nesta chávena de chá de erva cidreira,
que entrega o seu vapor aromático ao meu rosto.
     A poça de água que vejo formar-se no meio da estrada,
amanhã será aventura a explorar por uma criança.
    A boa árvore que se mostra na luz do candeeiro,
amanhã, mais viçosa, de sorriso aveludado, sombreará o banco
e num abraço perfumado partilharão a grandiosa poesia da vida.

   Daqui a pouco irei deitar-me, sentindo que a paz desta noite é feita de água,
porque ela cria carreira no solo e mantém a sua orquestra nos beirais.
Talvez amanhã, a manhã  desponte juvenil, afrodisíaca.
Talvez o sol chegue como senhor absoluto de um dia de Verão,
e termine com este bailado, recomeçando outro, onde,
diante do canto do rouxinol, o rubor subirá às faces das rosas
e as libelinhas voarão horas a fio em perseguição dos raios do sol.

   A chuva é apenas uma gota de toda a evocação da natureza.
O estranho é, sempre que ela chega, nós somos assaltados por
exclamações de espanto e um sentimento de nostalgia ou tristeza.

***
Comunhão

O sol, fogo em dança circular,
madruga despindo-se em delicados raios pelo ar,
enrosca-se na pequena semente e depois
da comunhão consumida,
ela sai vestida de lírio reluzente.
Que laço engraçado, de feição inocente,
este striptease puro entre os dois!

E ele cresce no leito-terra, agradecido
pelo bater das asas de uma ave no ouvido
e pela renovação de uma borboleta  que se faz
valsa colorida na vida deste lírio  do campo...
O sol parte, deixando uma ave e uma borboleta
beijando um lírio branco,
na dimensão da paz.

***

Na textura da noite
(foto- Ride the Wind Ranch 2016 )

Na textura da noite
o piar melancólico de uma coruja
inspira o poeta
a tocar os sonhos
com as pontas dos dedos.
Ao longe
ouço o piar melancólico de uma coruja;
na mesa, o papel converte-se a pio
e eu a ave noturna.
***

Gloriosa jornada

Um verso de amor no bico da ave
que em pequenas porções oferece a força
à pequena cria, que recebe a dádiva com alegria

É uma gloriosa jornada; do bico da mãe ao bico da cria

Felizes das aves cuja grandeza abrange
a veracidade do verbo viver, pois ainda sabem
que toda a criatura que vive tem direito a alimento

E o amor mistura-se bico abaixo; completo sustento

Imaginem o que estou vendo; Uma galinha de água alimentando o seu filhote. 
No fim do alvoroçado dia, todas as minhas aspirações e afazeres, são engolidos por esta aparente minúscula cena.
***
 Borboleteando

Borboleta bonita
beijando brisa.
Brisa brindando
borboleta;
bálsamo, bênção...

Borboleta bonita,
bela baronesa,
bailarina borboleteando,
brilhando, brincando...

Brisa brindando
borboleta bonita,
bailarina borboleteando
***
Beija-flor

Beija-flor
bem te vi no jardim
beijando a flor com frenesim,
bicando o seu mel aberto,
brincando de
beija- que- beija colocando a
beleza brava da flor a descoberto

Beija-flor
bem te vi rodeando um tesouro
batendo as asas
bebendo a água do
bebedouro

---

Glacier Nacional Park. Estados Unidos. Cimo das Montanhas














Lá bem no alto das montanhas
na face alcantilada da montanha
os contornos da vida não se falsificam,
procuram-se, dão-se...
Há o cuidado da cabra em procurar apenas o que precisa
Para ela os curiosos transeuntes são paisagem...

***

Vinte minutos

Tenho exatamente vinte minutos para escrever e não sei o quê.
Tenho vinte minutos para servir o jantar. Sim, porque daqui a vinte minutos
todos me perguntarão:
- Então, o jantar está pronto?
Apenas sei que tenho vinte minutos para escrever.
Em vinte minutos poderia varrer a varanda, despejar o lixo,
tirar a roupa que espera na máquina de lavar,
mas não me apetece.
Então, se sei o que poderia fazer e não faço, porque teimo
em tentar fazer algo que nem sei por onde começar?
Talvez uma teimosia ou o medo que a inspiração se vá após os vinte minutos
e que eu abandone esta minha queda para a poesia.
Talvez a ânsia de não ser apenas aquela de quem todos esperam um bom jantar.

Pronto, os vinte minutos acabaram. E o que fiz eu?
Nada, responderão certamente alguns. Ai fiz, fiz,
acabei por escrever o que acabaram de ler
e eu fui salva, por vinte minutos. Valeu a pena.
É loucura, mas valeu a pena; fugi à rotina. 
 ***
Um sofá velho

Um sofá velho
Pode ser uma extensão de sentimentos
Cuja fonte de lembranças nunca seca
Talvez ele descore a decoração da sala
(A maioria gosta de uma sala decorada a  gosto)
Esverdinhando-a como o musgo nas paredes de um muro
Apega os passos da noite à vida
Apaga a solidão quando ela entra
Como fera vinda dos montes das sombras
E descobre na chuva que bate nas vidraças
Palavras que nunca se entenderam
Neste sofá velho
Onde já dormiste tu, tu,tu e tu....
Floresce um canteiro no tecido usado
Nascem borboletas de asas coloridas
Que mergulham na luz
E se pronunciam nas vidraças
Vencendo a chuva que já bateu nelas

Esse sofá velho,onde dormiste tu, tu ,tu e mais tu

Vivem as asas que temos e as que inventamos
 ***
Acordes perfeitos

Hoje não me enganei na hora, nem no lugar.
O sol age como um toucador cheio de encantos;
diante dele a água do imenso lago dança
como um sedutor bailarino atraindo a sua donzela; a vida.
Numa dança bela e gentil alisa a crista das suas ondas
no pente das plantas que em movimentos sensuais
exaltam felicidade no reflexo imenso mundo aquático.
Os peixes, criaturas felizes, príncipes privilegiados
giram com bolhas liquidas e coloridas.
Este é o verdadeiro triunfo da beleza,
onde todos numa festa conquistam a igualdade.
O mundo dos escravos fica longe,
ainda que aqui ao lado more um político ditador.
Este é um mundo completo,
onde não existe misericórdia, porque a misericórdia
só existe num mundo onde a cegueira não deixa ver este pôr do sol, onde este baile pleno de valsas embriagadas, com aromas de incenso é indiferente à vaidade dos homens.
Há quem morra por títulos, grandezas e escolha a passadeira vermelha para ser lembrado como alguém que colocou a vida
à frente do cano de uma arma e abriu  o seu próprio caixão.
Aqui não existem contra-danças,
existem os acordes perfeitos do amor pleno,
que não precisa de misericórdia.
Somente um mundo que salta por cima do direito
de qualquer ser humano,
proclama ser misericordioso para parecer bom.
Aqui nada parece ser bom, tudo é bom. Tudo é belo.
O sol é cheio de brilhantes e nunca explorou vida humana
para descobrir  minas de diamantes.


Que leviandade a nossa que damos crédito a quem nos expulsa do nosso caminho, que construímos uma praça de ameaças aos nossos sonhos, à nossa liberdade e por inúmeras vezes sentamo-nos à beira de uma paisagem assim, apenas para comer ostras e embriagar a visão nos vapores do vinho, na esplanada de um restaurante. 

Também pode ser bom, mas nem só de vinho e de ostras vive o Homem...
 ***
Ninguém usa

Há uma mesa de madeira com cadeiras na varanda,
uma cadeira de balouço e duas de praia, abertas, esperando alguém.
Madrugadoras as flores medram ao sol
e os pássaros apresentam-se na mão da ternura matutina.
O chão da varanda acabou de ser lavado
mas ninguém sabe, ninguém veio ver.
A mesa ninguém usa e as cadeiras estão sempre arrumadinhas.
Nunca se escuta o  estalar de uma cadeira. Ninguém se senta nelas. Mas todos devem estar felizes; do interior da casa não saem ruídos.
... eles lá dentro e eu aqui fora vendo o gato brincar na relva....
Há um traço próprio da minha infância nos variados tons das rosas, nos malmequeres, nas folhas aromáticas das sardinheiras.
... e eles, lá dentro continuam silenciosos, acordando as suas emoções pelas avenidas da Internet...
O chão de uma varanda acabado de lavar é deslumbrante,
é um atalho sorridente até ao jardim relvado,
onde refresco os pés e concerto a alma.

O Autor do enxerto deste perfeito momento poético com o meu humilde jardim, merece um prémio Nobel
 ***
Há momentos que pesam...

Há momentos que pesam...
Por muito que alongue as asas para voar
sou empurrada pelo rigoroso relógio
das sombras que dançam na alma
dos que não se importam
chegar tarde à felicidade

Felizmente um arco-íris surge sorrindo
tornando o momento leve e sereno







De repente. voltei a ter tranças

Danço!
De repente. voltei a ter tranças,
horas crianças
e o marcador colorido da infância
venceu a distância
reconhecendo o farol
daqueles que, em prol
da arte, fazem festa, sentem prazer
em percorrer
o espaço intemporal
unidos pelo eixo cultural

Não há distância para a arte, para a alegria, para a vida.
Distância é mito, distância é área que pode ser vencida.


Tiro os chinelos
e em gestos singelos
sigo o grupo que. em território brasileiro,
dança, vive por inteiro
emanando uma luz.
que a mim, sob céu canadiano, me seduz.

De repente, voltei a ter tranças,
horas crianças

Um anoitecer afogueado
o meu gato  na erva deitado,
quebrado pelo calor do verão
sem entender a vivacidade da minha expressão.

As pegas e os corvos sempre barulhentos,
já ajeitados no galho, sonolentos
interrogam-se sobre quem está a interromper
as sagradas horas do recolher.

Danço!
De repente, voltei a ter tranças,
horas crianças

Geografia é um pormenor
um mal menor
Distância é mito, distância é área que pode ser vencida.
Não há distância para a arte, para a alegria, para a vida.

A vossa chama tocou o meu coração

Para um grupo especial de Ribeirão Preto

Parabéns a todos! Hoje dia 7 de Julho, às dez da noite, tive o privilégio de assistir a um resumo do vosso alegre Sarau, do programa Ponto & Vírgula. Então, vocês, não puderam ver, mas o contágio foi tanto que eu, no meu alpendre, tirei os chinelos e dancei também. Parabéns a esse trio musical com tanto talento! Parabéns pela vossa alegria contagiante!
 ***
...  e a poesia decidiu passear pelas
ruas  da cidade...

Fim! Enfim, o livro está pronto. Foi o que eu pensei antes de olhar para a rua; quase encostado à minha janela, um grupo de oito altivas personagens passeavam em fila, sobre a relva do meu jardim! Dei um salto da cadeira, perdi uma meia e corri em busca da máquina fotográfica. Alcancei a varanda. O chão frio obrigou-me a caminhar aos saltinhos, igual a algumas aves.  Apesar da ausência da  neve e do verdor da relva, caso raro na cidade de Edmonton no mês de Novembro, o chão estava demasiado fresco para pés descalços. Infelizmente, todo este exercício não me deu direito a fotografias. Foram eles, os simpáticos invasores do meu jardim, que o decidiram. Elegantes, calmos, de pescoço erguido e bico altivo não acharam a minha janela digna de paragem. Nem para ela olharam. Ainda emiti uns sons um pouco ridículos, na esperança de os atrair e reter um pouco na minha companhia, mas eles foram desaparecendo na esquina, completamente alheios à importância que eu dedicava ao momento. 
Entretanto a minha curiosidade não me deixou entrar em casa. Ainda sem uma das meias, calcei uns chinelos, procedimento que os meus os pés agradeceram, e rapidamente alcancei a estrada. Inspirei lenta e profundamente diante da cena ternurenta; a poesia saíra dos lagos e decidira passear a pé, pelas ruas da cidade. Silenciosamente, oito gansos pararam o trânsito, atravessaram a estrada e caminharam, rumo ao lago mais próximo para o descanso noturno. Em breve conquistariam os céus, cumprindo  o acto da migração. 

Friccionei os braços gelados, voltei para casa, arrumei a cena no livro e eternizei-a no espírito. Obrigado universo!

Fernanda R-Mesquita




























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