Liberdade- contos








O amor enriquece uma mesa pobre


 Cinco da manhã. Um tosco raio de luz parecia querer acordar o seu quarto. O sono que ainda restava, rendeu-se ao canto do galo que vivia no quintal da casa e que sem falhar um dia, cumpria a missão de anunciar que eram horas de acordar para a vida. Manuel abriu o espírito para o que o rodeava. Na cama ao lado dormiam, José de sete anos e Isabelinha de dois anos. Sorriu com o descanso deles, como se os seus quatorze anos se dobrassem a vinte e oito e o tornassem homem feito, capaz de proteger os irmãos. Nascera com aquele instinto protector. Instinto estranho aos homens daquela época. Mas cada época não marcará apenas os grandes acontecimentos, certas peculiaridades na vida social ou individual? E a substância humana? Não viverá soterrada, camuflada numa conveniente adaptação universal? Não serão sempre as mesmas razões que levam o ser humano a odiar, a destruir e a afirmar que tudo é feito em nome do progresso ou do amor ao próximo? Vestiu a roupa da semana, atando o cordel dos calções castanhos, já um pouco remendados pela mão cuidadosa da mãe  e entrou na humilde cozinha, onde Beatriz lhe cortava um pedaço de pão-de-ló, feito à base de mel.
 - Não demores. O teu pai já está na oficina- pediu-lhe a mãe com ternura.
 - Vou agora mesmo- respondeu Manuel,  sem sequer se ter sentado e enfiando na boca o ovo cozido que a mãe lhe oferecia.
 Beatriz sorriu ao ver o filho, que saiu quase a correr, como se a energia dele  cumprimentasse o dia ainda mal acordado.
 Manuel depressa chegara à oficina do pai,  enchendo o ar com um bem disposto bom dia. Bastava sair e entrar na porta ao lado.
O pai olhou-o e cumprimentou-o com um aceno de cabeça. Sinal para Manuel,  que a hora era para trabalhar. Sentou- se e concentrou-se no trabalho,  que  no dia anterior tinha deixado inacabado, mas quase pronto. Naquela pequena oficina de calçado,  nada era estranho para Manuel. Conhecia cada cheiro e textura dos materiais. Aquela pequena oficina era todo o meio de sustento da sua família.
 -  Passa bem o fio de linho nessas solas- disse Sebastião ao filho, enquanto trabalhava numas botas curtas e de forte cabedal.
O diálogo existia na cumplicidade dos gestos e na vontade de enfrentar a vida. A manhã corria ao som da união entre o martelo e a bigorna; transformar o couro em calçado. Seria assim satisfeita a vontade daquele que tivesse necessidade de protejer os pés. ``Bem, necessidade, todos têm, mas nem todos o podem fazer. Quem não poder pagar... andará descalço``’ pensava Manuel.
 Pensamentos  interrompidos, pela figura frágil e o olhar traquina do pequeno José. Eram onze horas. Hora do jantar.
 - A mãe chamou para comer- disse a sorrir e abraçando o pescoço do pai. O pai levantou-se e libertou-se de toda a concentração do trabalho, pegando no pequeno ao colo. Fechar a oficina para comer era um gesto estranho para os clientes, mas o qual,  Sebastião não dispensava. O amor enriquecia a mesa do pobre.  Manuel sorriu. Gostaria que os irmãos não tivessem que crescer tão cedo quanto ele. Fechou  a porta num gesto adulto, como quem sabe que aquele mundo também era o seu. Entraram na porta ao lado, onde a pequena Isabelinha,  brincava com a manta velha,  estendida no chão. Todos se sentaram e Beatriz serviu a cada um,  um pedaço de carne de porco, toucinho, grão de bico e couves. Depois, acomodou a caçula da família no seu colo e sentou-se. Deu-lhe a beber um pouco do caldo e alguns pedacinhos de carne. Sebastião serviu-se do vinho tinto e deu um pouco ao filho mais velho. Falaram e riram das graças ainda desajeitadas  da pequenina figura, a quem a esperança se enaltecia no seu  rosto redondinho.
  - Hoje preciso da tua ajuda José - disse o pai ao filho do meio. Este inchou o peito,  numa ampla prontidão a servir.
- E com isso já passo a ser homem,  pai?- perguntou, interrompendo a respiração, cheio de interesse pela resposta do pai.
 Os olhares do pai e da mãe encontraram-se numa generosidade sem limites e numa quase visível  preocupação. Ambos riram. Se o pequeno José soubesse ler para além dos olhares, viria a emoção abrilhantar os espaços invisíveis dos rostos dos seus pais.
 A mãe, disfarçando,  levantou-se e deu como terminada a refeição. Entrou no quarto e deitou a pequena Isabelinha que adormecera no seu colo. Sebastião seguiu-a.  Acariciou o ombro da mulher e despediu-se com um suave até logo.
 - Até logo- murmurou-lhe a esposa. 


Frações de uma tarde

Abriram a porta da oficina, para mais umas horas de trabalho, até à noite. 
 Cheio de orgulho, José ajudava a organizar as encomendas. 
 - Pronto. Agora menino José,  já que queres ser um homem, vais portar-te como tal. Não é muita coisa, mas vais-te habituando e aprendendo como o Manuel faz- recomendou-lhe  o pai- vais estar sempre perto do teu irmão e fazer tudo como ele te disser.
 - Está bem pai- prometeu o pequeno, olhando ora para o pai, ora para o  irmão, como se quisesse garantir que ninguém poderia ter melhor comportamento do que ele.
 - As contas serão feitas  comigo, como sempre, apenas precisam entregar- explicou Sebastião.
 - Pai, depois de fazermos  as entregas podemos ir até ao cais, olhar os barcos? -perguntou Manuel.
  -Podem- consentiu o pai- mas cuidado com os marginais, que se passeiam por todo o lado.
 Sebastião deu uma  palmadas nas costas do filho mais novo e mandou-os ir. Como homem experiente,  sabia que naquela cidade, a segurança  da sua família,  dependia exclusivamente da sua força e da sua capacidade em saber viver na época em que vivia. Neste caso sempre tentara usar a segurança e a paz da sua casa com inteligência, fugindo de problemas, demonstrando por todos o respeito que exigia para si mesmo.
José seguia, o passo largo do irmão sem se queixar. Não queria dizer-lhe que ele andava muito depressa. Manuel, sorria ao aperceber-se do esforço do irmão e diminuiu o passo. José, suspirou aliviado. Suspiro que provou uma gargalhada no irmão mais velho.
 - De que ris?- perguntou o pequeno.
 -Nada. Não te canses a falar. Temos de subir até ao Monte do Castelo. 
 José seguia o irmão, um pouco ofegante, mas sem deixar de admirar o castelo, o Paço Real e a Igreja de Santa Cruz. Fazia-lhe confusão como os homens conseguiam fazer casas tão grandes. A sua era tão pequena!
 Depois de entregues duas encomendas, ainda faltava uma.
 - Falta uma- disse o pequeno ao irmão, como se quisesse demonstrar que estava atento ao trabalho.
 - Pois, temos de ir procurar a Rua da Achada. Sei que fica na freguesia  de S. Cristóvão- explicou Manuel, como se falasse consigo mesmo.
 O pequeno José olhava o irmão, como quem admira um herói e respirou fundo de novo, orgulhoso por ele ser seu irmão.
 Ao entrarem na Rua da Achada, Manuel puxou o irmão para si, como que querendo  protege-lo de algo. O seu pai ensinara-o a ser cauteloso. A preocupação durou uma fracção de segundos e começou a rir, quando se apercebeu, o que na realidade acontecia. 
 Um foreiro, gritava proclamando e reclamando:
- Que me baixem a renda que pago! Que porcos!
 Um seu vizinho, livrava-se de todos os despejos, atirando-os para a  frente da sua casa.
- Porque tenho eu, que viver todos os dias, com este enorme monte de esterco?  Isto parece um curral!
Os garotos riam. O homem dava voltas gritando para as janelas, na esperança que alguém lhe desse razão. Dois cães correram ladrando aos seus pés.
- Não é para vós que falo, seus idiotas- vociferou o homem arremessando um pontapé vigoroso aos animais, que fugiram ganindo.
- Cale-se ó seu espantalho sem cérebro- gritou o vizinho acusado, lançando-lhe um penico cheio das suas imundícies pessoais.
Os dois irmãos abandonaram o local. Apressaram-se a cumprir o resto da tarefa.
 Depois de entregue a última encomenda, andaram por algumas ruas estreitas até ao Rossio. Ali sim, suspiraram os dois irmãos, quase ao mesmo tempo.  Ao entrarem no Rossio, naquele largo grande e de forma irregular, os seus olhos perderam-se no movimento de tanta gente diferente. Aqui,  o Manuel agarrou a mão de José e nunca a largou. José não resmungou, pois gostava de mostrar a toda a gente, o irmão mais alto e mais forte do que ele. Assim também assegurava protecção contra os vadios.
 Naquela tarde,  Lisboa parecia estar toda ali. Ela era vida e alma do reino. Mesmo com a impossibilidade de todas as pessoas se conhecerem, todos os seus passos, as suas vidas pareciam rodopiar no orgulho do seu gigante e acessível porto... o líder nacional em acolher e enviar as aventureiras e destemidas embarcações. Algumas mulheres gritavam, rodopiando nas suas saias redondas e compridas,  tentando vender o famoso cuscuz e a tripa cozida.
 Os dois irmãos aproximaram- se do cais para verem mais de perto a chegada e partida das naus, das caravelas e dos navios. Os movimentos do Rio Tejo pareciam dirigir as intenções dos barcos, mas a construção dos barcos conhecia os truques do rio. Parecia um jogo em que o barco usava o rio para viver e o rio usava o barco para se divertir.
 - São tão grandes aqui e tão pequenos ao longe- quase sussurrou José, num ar tão admirado.
  - Vieram cheirar o mar?
 Manuel e José, viraram-se e puderam ver o ar malandreco do Luís, conhecido pelo Pisca-pisca.
 - E tu que fazes aqui?- perguntou-lhe Manuel.
 - Ando sempre por aqui. Sabem, negócios- explicou vagamente, piscando  para o horizonte.
 As suas feições falavam de um rapaz  mais velho do que realmente era. Pareciam não querer confessar o desgosto que sentia por tter deixado partir a criança de 13 anos. Patira por não se reconhecer no personagem do Pisca-pisca.  Perdera a figura infantil. Deixara de ser o semi-homem que virava o sonho do avesso. Fingia que o beco estreito  e sujo onde residia não , era a morada onde podia crescer na caricia da mãe que já tinha partido.
  - Vocês nunca pensaram que os barcos que desaparecem naquela linha, lá longe, onde eles já só se vêm pela parte detrás... podem cair? - perguntou aos amigos.
  - Não sei. Acho que não, porque se caíssem, não voltavam e eles voltam quase todos- respondeu Manuel.
  - Pois, mas não voltam todos. Tenho uma sede de burro!- queixou-se o recém-chegado.
  - E se o burro não tiver sede?- perguntou-lhe Manuel a rir. 
O pequeno José imitou o irmão.
 -  Ah ah- riu o Pisca-pisca- boa. Passo a ter sede de cavalo, se o cavalo tiver sede, claro. 
  Misturou-se ao som das suas gargalhada, o grito de uma vendedora de fruta. Voltaram-se e reconheceram a Tia da Fruta. Era assim que eles chamavam a vizinha D. Maria. 
  -  O vosso pai sabe que vocês estão aqui?- perguntou aos dois irmãos. 
  - Sabe sim. 
  - Tomem e dividam pelos três. Apenas tenho estas duas- e deu-lhes duas maçãs.   
  - Muito obrigado- agradeceram os três à Tia das Frutas, que se afastava no seu corpo pesado,  mas ainda voluntário  para continuar a vender a sua vida,  que residia na cesta das maçãs.  Manuel ofereceu uma ao amigo.
   - Já temos petisco!- exclamou Luís, esfregando as mãos e trincando a maçã avidamente.
Parou a meio da dentada, ao reparar que Manuel guardava a maçã deles nas mãos.
  - Então, não comem?
  - Não. Vamos guardar e comer todos juntos, lá em casa- explicou Manuel.
Pisca-pisca com um ar, como quem pensava no assunto, rolou  a maçã na mão, como se estudasse a sua forma e a sua cor. Depois, encolheu os ombros e exclamou:
  - Eu como-a mas é toda agora, antes que o meu pai a coma ou a venda!
Manuel, ao escutar o amigo, quase que jurava que a dor ou o desencantamento tinham falado em voz alta.

Sonhos e fantasmas do Pisca-pisca


Voltando as costas ao Tejo, os três rapazes deixaram o cais. Ao deixarem o Rossio, entraram logo na Praça da Palma. O movimento também era muito. 
 - Porque é que entra e sai tanta gente daquela casa? - perguntou o pequeno José.
  - É a Estalagem da Égua.- explicou Manuel - Muitos visitantes escolhem aquela estalagem quando vêm cá, para conhecerem isto. Dizem que é a melhor. Por falta de estalagens aqui em Lisboa, é que não é! Mas eles preferem esta. Diz que é de qualidade.
-Vão para aí- explicava Pisca-pisca, parando em frente à porta da Estalagem da Égua e piscando os olhos para as janelas do edifício- franceses, ingleses e muitos mais de outros lugares. Um dia, ainda vou passar uma noite aqui e vai ser com uma dessas damas da corte. Hei-de oferecer-lhe um lenço de seda. 
  - O melhor é oferecer-lhe um par de luvas. Assim evitas que os dedos fiquem marcados na tua cara- brincou Manuel.
  - Tá bem! Um dia vais ver. Quando a barba me crescer vou apará-la, como alguns soldados já aparam- e passou a mão pelo rosto de pele morena. Não quero ser barbudo e cabeludo, como a maioria dos que andam por aí.
  Os dois irmãos olhavam o Pisca-pisca em silêncio. Parecia liberto da sua infância descolorida. Sonhava em pleno dia, diante da Estalagem da Égua, como sonhava nas noites escuras do seu quarto. O sonho era o pulmão da sua vida. Era o fantasma bom, que o capturava dos jogos à beira do cais, onde as pessoas, eram sombras que tinham garras, como as águias das lezíria do Tejo. Regressou aos ruídos da cidade, pelo toque do prudente Manuel.
  - Vamos, está a ficar tarde. A minha mãe já deve ter a comida pronta. 
  - Ah pois, tu tens mãe- murmurou Luís, piscando. 
  Manuel tentou entrar na órbita dos olhos do amigo, mas ele escondia-a naquele maldito piscar de olhos. Parecia que fazia de propósito. Será que o Pisca-pisca tentava engolir a raiva, a desilusão e até as lágrimas, naquela contracção convulsiva dos músculos da cara... tique ridículo para alguns e incômodo para outros?   Entraram na Rua do Tesouro Velho, onde Luís morava. As ruas eram estreitas e o calor da tarde intensificava o cheiro da sujidade, sinal do pobre conceito e das poucas preocupações das pessoas, sobre a higiene. Os olhos dos pequenos sentiam a rua como um beco a estreitar ao longe, onde a figura do pai do Pisca-pisca, sentado na porta, exibia  a malandrice que lhe fazia crescer o sorriso sarcástico e o ar de gente da classe de raia miúda. O pai levantara-se mal avistara os pequenos ao longe. Ao chegarem perto dele, Manuel ficou atento ao seu amigo. Parecia que o olhar erguido no ar, diante da Estalagem da Égua, não se despegava, agora do chão. E Manuel adivinhava porquê. Ele sentia o mesmo. Após uns minutos, Pisca-pisca ganhou a coragem de olhar lentamente o pai debaixo para cima , com a sensação de que os seus olhos nunca chegariam aos dele. 
 Havia dias em que Luís chegava primeiro a casa. Nesses dias, ele pressentia que o pai estava a chegar, porque a sombra do seu andar e o som dos seus passos, tinham o poder de paralisar todos os sentidos do angustiado rapaz, que conhecia todas as infelizes surpresas do portador daqueles pés enormes, que não sabiam andar direitos. Ambos os pés formavam um V, o que amedrontava o pequeno Luís, pois tinha a sensação de que os seus passos, tinham o temeroso poder de se dirigir para todos os lados em simultâneo. Mesmo que por vezes, ele não ousasse enfrentar o seu olhar, poderia adivinhar, pelo tom da sua voz, o sorriso sarcástico, acompanhado por aquela pose tão austera e direita. Pose, que ele parecia equilibrar no tamanho dos sapatos extremamente bicudos. Sapatos que alguém da sua classe não usaria, mas que ele talvez tivesse adquirido naqueles negócios, a que Pisca-pisca se referira à beira do cais. Manuel teve a sensação que o amigo estava diante do seu pior fantasma. 

Os devaneios de Sebastião

Os dois irmãos correram até entrarem  no Largo do Corpo Santo.  Lá estava a casinha deles, com a oficina ao lado! Branca  como as outras, pobre no interior como muitas, mas diferente no carinho que envolvia toda a família. E os pequenos sentiam isso. Entraram e fecharam a porta. O sol que ainda brilhava lá fora, não conseguia entrar dentro da cozinha, onde a sua mãe, remexia o caldeirão e o seu pai brincava com a pequena Isabelinha.
 -  São sete horas. Demoraram, porquê? - perguntaram-lhes quase ao mesmo tempo,  o pai e a mãe.
 - O Pisca-pisca apareceu no Tejo e fomos com ele,  até à porta da casa dele- explicou Manuel. 
  -Temos aqui uma maçã, que a Tia Maria das Maçãs nos deu.- disse ele, colocando a maçã em cima da mesa.
 - Não gosto muito do pai dele!- exclamou o pequeno José.
 - Pobre rapaz! É um infeliz, desde que morreu a mãe, a Maria das Dores- lamentou Beatriz, recomendando logo a seguir,  que lavassem  as mãos e a cara.
   - Porque preciso lavar sempre as mãos e a cara?- perguntou José- O Pisca- pisca tem as mãos e a cara sempre sujas.
 - Pois- explicava a mãe- por isso é que a peste anda por aí a matar tanta gente. E os Sr.doutores, coitados,  bem tentam que as pessoas se lavem e tenham  mais cuidado com o asseio das ruas,  mas nada. Parece que ninguém gosta de água. Sentem-se. Está na hora da ceia.
 Beatriz servia a sopa a cada um. O pai já mordiscava o pão, dando pequenas quantidades de miolo à filha. 
  Depois de todos terem comido a sopa, Beatriz cortou a maçã em quatro pedaços pequenos, que puderam saborear naquele momento, deliciosamente grande.
 - Amanhã preciso de comprar um alqueire de farinha de milho. Preciso de fazer mais pão- disse Beatriz para o marido.
  Sebastião não chegou a responder à mulher. Ouviam-se vozes alteradas, vindas da rua. Os pequenos, curiosos, fizeram um gesto como quem pretendia espreitar para saberem o que se passava. O pai apenas com um curto gesto facial, acompanhado de um som  vindo da garganta e sem precisar de abrir a boca, impediu que eles se levantassem do banco de madeira.
 Sebastião sabia que eram frequentes as contendas entre o povo e  que este, não se deixava dobrar  à disciplina. Ninguém pensava em encobrir acontecimentos, fossem eles quais fossem, desde que se tornassem públicos. A piedade não existia, quando decidiam  castigar alguém. Sebastião não era insensível à dor dos outros. A emoção  muitas vezes parecia traí-lo, por isso distanciava-se com orgulho, daqueles momentos negros que envolviam a cidade de Lisboa . Sentia repugnância pelos espectáculos públicos, que muitas vezes acabavam em  agressões e mortes. O que o mais chocava,  era saber que todos pareciam viver preparados para castigar e serem castigados. Parecia que ninguém dava importância à dor fisíca. Era como se todos  preparassem psicologicamente o organismo para não sentir dor. Ao fim ao cabo, na mente deles, todos estavam sujeitos ao mesmo.
  Diariamente, Sebastião escrevia na sua mente, sem saber escrever, a determinação de viver em liberdade,  quando entrasse e fechasse a porta da sua casa, embora durante o dia, lá fora, não conseguisse fugir da sua condição de escravo da sociedade,.  Talvez fosse um homem romântico, mas não ria de si mesmo, nem se sentia ridículo, aceitava-se assim. Não era célebre, era apenas um simples sapateiro, mas sabia escutar. Ouvia atentamente, através dos seus fregueses, alguns até importantes, as histórias que faziam crescer o país.  Sebastião não se iludia. Acreditava que seria bom  conhecer  outros povos, outras culturas. Acreditava na trocas de bens, de conhecimentos, mas não acreditava no método. O ouro brilharia realmente como ouro, se na troca,  não se substituísse o respeito pela ganância. Uma especiaria, teria o verdadeiro aroma de uma especiaria, se a cor e a origem dos homens fosse toda igual, mesmo sendo diferente.  Não acreditava, nem aceitava que o resultados das vitórias de uns, pudessem ser o sacrifício de outros. Não podia aceitar a ideia de que um homem pudesse ser escravo de outro. Via chegar a Portugal, navios carregados de tantas riquezas, mas junto com elas, desembarcavam escravos, mais bocas para experimentar a pobreza em que o país vivia. Na verdade, muitos acabavam  por não comer muito tempo dessa pobreza, pois morriam prematuramente à fome e de maus tratos. O ser humano aguenta viver algum tempo apenas de pão e água, mas não aguenta sempre. Ele vivia numa constante aprendizagem em duas faces diferentes da vida. Aquela,que naquela hora, apenas as vozes dos cinco se faziam ouvir no Universo. Universo que crescia ali dentro e viajava por  serras, montes, rios azuis e transparentes, por um céu cheio de estrelas e que venciam os monstros dos mares desconhecidos, tão temidos por tantos.  E aquela outra hora, em que antes do galo cantar, tinha de abrir a porta da oficina e deixar trabalhar  a arte de ganhar dinheiro. Apenas o suficiente  para que a sua família vivesse com dignidade. Mas a luta por essa sobrevivência,  era suficiente para o obrigar a viver no mundo, em que todos supõem que possuem alguma coisa. Que cegueira!  Cegueira eterna, incapaz de combater a realidade de que é o mundo material que dispõe de nós. Seria tão bom que a vida fosse tão simples e natural, como o peixe que surge no rio, como a laranja que se oferece na laranjeira, e como as águas que cantam nos nascentes. Gostaria de um dia ver o rio Tejo, desnudado de navios, para poder sentir a sua verdadeira cor e o seu cheiro real. Vivia na esperança de semear no coração dos filhos a vontade de contribuírem para um mundo diferente, quem sabe onde apenas os seus netos ou bisnetos, poderiam vir a sentir. Talvez muitas gerações, tivessem que  passar, mas que alguém não tivesse vergonha de ser o primeiro ou a cobardia de ter medo de pertencer a um número minúsculo de pessoas,  que não aceitavam a vida, apenas porque ela já era assim quando nasceram.
  Entregue às sensações do seu devaneio, nem se apercebeu, que seguira a mulher e os filhos até ao quarto deles e que já se encontrava  sentado à beira da cama dos filhos mais novos.
Sorriu ternamente ao aperceber-se de que  esquecia, muitas vezes, a cor dos cabelos dos seus filhos. Na memória dos seus olhos, ficava a cor da touca que constantemente lhes cobria a cabeça. Porque usavam eles uma touca?  Passou a mão pela sua cabeça, olhou para a cabeça de Beatriz e sorriu. Sentiu que uma simples touca os prendia a uma sociedade de costumes e que esfacelava um pouco,  o seu nobre sonho de seguir um caminho diferente, onde os seus  passos ainda tremiam entre o querer e a realidade.
 - Pai, hoje vais contar-nos uma história?- perguntou o pequeno José.
 - Vou, mas vamos combinar uma coisa. Vamos todos dormir sem touca.
 - Viva!- gritaram os pequenos.
Sebastião olhou Beatriz. Esta,  entendeu o pedido do marido no seu olhar  e sorrindo soltou os belos cabelos.
 - A mãe  fica tão bonita, assim- exclamou Manuel, como se também não se lembrasse dos cabelos lisos e castanhos claros da mãe. Talvez  nunca os tivesse realmente visto.
 Sebastião olhou a mulher e apenas com o olhar falou-lhe de amor. Beatriz descalçara as sandálias e sentara-se na cama dos filhos mais novos, escondendo os joelhos na camisa comprida e de mangas largas. Sebastião sorriu. A sua mulher, seria sempre uma mulher com o ar eterno de uma criança.
 - E a história chama-se: A Princesa Santa Joana.
O ar solene de Sebastião foi perturbado pelas gargalhadas animadas dos filhos. Seguiu a direcção que parecia atrair e provocar o riso deles e desatou também a rir. Na pequena janela voltada para o quintal da casa, espreitava  o Porquinho Brincalhão, que parecia pedir para ouvir também a história de Sebastião. Beatriz, levantou-se, entreabriu a janela. Brincalhão, pousou o focinho sobre o parapeito, esperando respeitosamente que Sebastião começasse. Mas mexeu-se ainda um pouco e revirou os olhos pequeninos para ver quem pousara na sua cabeça. Era a galinha Pitadinha.
 Todos se riram de novo, respiraram e em silêncio esperaram...

 A Princesa Santa Joana

   Sebastião começou a história :
 - Um dia,  nasceu em Sintra, um menino que se iria tornar rei aos seis anos de idade.  Esse menino,  cresceu junto com a sua prima e entre os dois nasceu uma grande paixão. E assim casaram o Rei D.Afonso V e a D. Isabel de Avis. Os dois tiveram três filhos. Primeiro um menino chamado João, que morreu em criança.  O povo desgostoso com a  morte do príncipe, rejubilou com o nascimento de Joana. O terceiro foi mais um menino a quem também chamaram de  João, o  rei que nos reina agora. Mas aconteceu, que a mãe dos dois meninos morreu muito cedo e João e Joana foram criados e educados por uma dama da corte.
 Um dia, o rei teve de partir para um lugar muito longe, uma terra chamada França. A princesa teve de ir morar para os Paços de S. Cristóvão, onde morava a sua tia D. Filipa, filha do Infante D. Pedro e onde recebeu uma  esmerada educação. Sobre essa educação, teve  grande influência, um grande mestre italiano. Com o nascimento do irmão, ela seria apenas infanta, mas por vontade do povo ela continuou a ser princesa.
 Anos mais tarde, já com vinte e cinco anos ela teve que  tomar conta de Portugal,  porque o pai e o irmão partiram para conquistar a cidade de Tânger. E foi uma grande vitória! O  povo ficou tão contente que esqueceu as suas próprias tristezas. Então eles começaram a  proclamar publicamente:
  -  Devemos o sucesso desta conquista,  às orações da nossa Princesa!
 Mas a filha do rei e  irmã do príncipe, não queria ser princesa nem ser rica. A pouco e pouco foi rejeitando as suas riquezas. As cidades, as vilas, as jóias e os vestidos,  não eram importantes para a princesa do povo. O povo vivia triste e preocupado, porque o seu irmão ainda não tinha casado e não havia mais ninguém para suceder ao trono. Mais preocupado ficou, quando o rei D. Afonso V faleceu.
Aumentaram os pedidos, quase ordens,  para que a Princesa Joana não fizesse os seus votos e não entrasse para a vida religiosa. A princesa que gostava de paz, guerreou num silêncio determinado e preparou muito bem o seu noviciado no Mosteiro de São Dinis,  em Odivelas.  Os procuradores reuniram-se nas cortes de Évora com um documento preparado, pronto a reclamar contra a  vontade da princesa, em tomar os votos.
  Joana,  refugiou-se bem longe daqueles protestos.  Precisava do silêncio do convento e procurou a Vila de Aveiro. Sentia o sabor doce das imponentes paredes do convento e deixava que os seus sentidos caminhassem na meditação dos escritos da bíblia, revigorados pela fresca canção das águas do rio Vouga.
   Numa manhã, em que as cores do dia ainda viviam desmaiadas, vestidas  pela cinzenta neblina matinal,  João recebeu a notícia de que a sua irmã Joana, decidira definitivamente, tornar-se reclusa de um voto divino. Uma ânsia inquietante e fria, invadiu o temperamento forte e decidido do príncipe. Ele gostava da sua família; seu pai e sua irmã. Cavalgou veloz de Lisboa até Aveiro, na esperança de dissuadir Joana daquela triste vontade de entrar para um convento. Os seus olhos castanhos, entregavam-se audaciosos aos palmos de  terra,  que se rendiam e davam vida ao galope veloz do cavalo. O cavalo entendia a pressa do seu dono, através do toque das  suas botas altas. Elas faziam-se sentir, no seu  corpo luzente e  negro. Uma coruja abriu um dos olhos, escondidos debaixo da asa, e correu para alertar quem ainda dormia:
- Não se assustem com  aquela névoa castanha que acorda a floresta de verde intenso, pois são os cascos do cavalo do príncipe. 
De longe, como se proclamasse cada segundo como fatal, tocava o sino de uma igreja, lento, implacavelmente preciso, avisando alguém mais preguiçoso,  que a noite já se perdera no oriente e lembrando que o dia poderia passar rápido demais. Um urso, arredou as folhas das árvores e espreitou com o seu olhar vivo,  mas sossegou o seu corpo grande, mantendo-se escondido para que nada perturbasse o cavaleiro destemido e o seu cavalo veloz. Uma águia viu o chapéu do príncipe ser expulso pela velocidade e num voo rápido e certeiro, agarrou-o no ar com uma das suas  garras. Por cima das árvores, seguia o príncipe, seguindo o raio de luz que o sol projectava nos bordados de ouro da sua capa preta, onde caíam os seus cabelos castanhos e lisos.
 Ao chegar ao convento, o  príncipe  João ofereceu muitas riquezas a Joana, as quais ela aceitou,  não para ela, mas para o convento,  para que este pudesse ampliar os meios de ajuda aos carenciados. João partiu triste  para Lisboa. Restou-lhe um sorriso, quando a fiel águia lhe entregou o chapéu perdido.
  De muitos lugares longínquos, chegaram altos pretendentes, querendo casar com a princesa e até levá-la para  os seus reinos.  A princesa nada quis. Ela sabia o que desejava e nada a removia de viver como queria, mesmo que isso fosse uma estranha forma de viver aos olhos de muitos.
  Cerca três anos depois, a menina que nascera filha de um rei, despia lentamente um vestido  de veludo azul,  bordado a ouro, deixando-o deslizar pelo seu corpo alto e direito,   até cair aos seus pés,  enquanto um rouxinol cantava na janela do convento. Os olhos verdes da princesa sorriram para o pássaro. No seu rosto gracioso resplandecia a calma. Respirava os movimentos frescos das folhas de uma árvore curiosa, que tal como o rouxinol vivia aquele momento deslumbrante. Vestiu o hábito das freiras dominicanas, cobrindo os seus sonhos de  azul e branco, dispensando as belas roupas que exigiam arte e grande despesa, a que Joana como princesa,  tinha direito. Retirou a sua tiara de ouro e cobriu as suas tranças com uma touca de linho branco. As paredes do convento pareciam cantar um hino profundo, onde apenas  criaturas de um universo diferente, cuja direcção diverge tanto da compreensão e da sensibilidade humana, conseguiriam entender.
 As gargalhadas de Isabelinha e de José, interromperam  a história. O Porquinho Brincalhão, grunhiu devido ao efeito de uma bicada da Galinha Pitadinha, como se o avisasse que estava na hora de dormir. Brincalhão,  já cansado da posição,  não se fez rogado e afastou-se grunhindo,  levando a Pitadinha sobre a cabeça. Beatriz fechou a janela e todos voltaram a estar atentos à história:
 -  Para que o reino  não ficasse sem descendente,  o nosso rei teve de casar- continuou Sebastião.
  Mais tarde, por volta do ano 1479, a peste tomou posse da vida das pessoas. Por essa razão, Joana desistiu da posse do seu voto de clausura e incansavelmente percorria hospitais e  ruas,  tentando estar presente para quem precisasse. Era como se ela declarasse,  que a soberania dos fidalgos não existia apenas para olhar ou ser vista de longe, mas que poderiam ser  gente real. Ela levou tão longe o sofrimento do povo,  ao ponto de o sentir, como o seu próprio sofrimento. Por vezes numa lágrima triste, lamentava os suspiros que  transbordavam nas horas de tédio das damas da corte, que lamentavam não ter o que fazer, ocupando as mãos enluvadas, em gestos  enfadados e perdidos nos leques coloridos.  Bastaria abrir um pouco o coração,  e as horas do dia e da noite seriam insuficientes para ajudar aqueles,  que de olhar morto, suspiravam de dor.  Pediu aos médicos e enfermeiros de Mortágua que viessem ajudar. Talvez ela procurasse um sentido mais saudável para a origem do seu berço, renunciando a toda a riqueza em que nascera, e abraçando a miséria que rodeava os infelizes doentes.
 A princesa, de quem tanto o povo gostava, começou  a ser conhecida como santa.
 Seis anos depois, a peste voltou a atacar e de novo Joana abandonou o silêncio do convento para visitar os doentes, levando-lhes comida e remédios. O tempo era escasso e insuficientes os voluntários. As damas da corte continuavam a suspirar nas suas horas de tédio! Ela não deixou que o convento fosse apenas uma construção de paredes grossas, indiferentes à vida exterior. Ela quebrou o silêncio do convento, trazendo os doentes para dentro dele. De terra em terra,  corria o rumor da sua santidade e de que todos aqueles em que tocava ou por quem orava, ficavam curados. Tornara-se incalculável, o número de quantos teriam sido curados por ela. Falavam de milhares. Ela lutava por espalhar a esperança, tentando construir um intervalo entre a vida e a morte.  E assim nasceu o nome perpétuo de Santa Joana.
 A epidemia repetiu-se uma terceira vez e Joana de novo mostrou o seu amor às pessoas e o desprendimento de si mesma. Ela procurava cuidar dos mais doentes... dos que mais desespero exprimiam. Mas Joana era humana e o corpo humano nem sempre acompanha a vontade da alma. A alma dela era  maior, queria ir mais longe, mas o corpo ficou cansado e ela partiu, depois de ter sofrido por uns meses. Na manhã de 12 de Maio, em 1490, os sinos  choraram em uníssono com as paredes do convento. O rouxinol não cantou e a  árvore lamentou-se,  nas águas do rio Vouga.
Foi sepultada no próprio convento. O seu irmão mandou construir um túmulo real,  para que todos pudessem ver .
  - E as damas da corte?- perguntou Manuel.
  - E as damas, continuaram a suspirar nas suas horas de tédio!
 - Ah, que triste!- murmurou Manuel, pois os irmãos já dormiam.
  Ainda  pensativo perguntou:
  -  O pai e a mãe acreditam  em santos?
  - Eu acredito- afirmou prontamente a mãe.
  - Não sei filho- respondeu o pai.
  - Então porque achas que Santa Joana foi considerada santa por todos?- perguntou-lhe a mulher.
  - Eu não questiono a sua bondade, o seu desapego aos bens materiais, quando podia ter tanta coisa- declarou Sebastião-  mas muitas vezes, o povo precisa de acreditar em alguma coisa para ter forças para continuar a lutar. Quando surge alguém diferente, com atitudes diferentes da maioria do povo, é normal que chamem de santo. O que acaba por ser verdade,  devido à conduta da pessoa no meio deste mundo quase selvagem.
- Morreu sem nada- murmurou Beatriz.
 O marido olhou-a pensativo e perguntou:
 - Já viste alguém morrer e continuar a ter alguma coisa?
Os três deitaram-se em silêncio.



Entre o sono e o sonho

 Enquanto os seus amigos dormiam no aconchego familiar, Pisca-pisca tentava pertencer a um lugar onde os laços afectivos, eram uma consequência da relação mal formada entre ele e aquele a quem a vida o obrigara a chamar de pai. Na penumbra da casa, a sombra do pai fechava a porta e saía para a noite, deixando-o só... finalmente! Tinha a alma mais dorida do que os lábios que sangravam devido à força com que os cerrara, para não gritar nem chorar, enquanto o pai lhe batia e o culpava da sua vida desgraçada. Jogou um sopro no ar, na esperança que desaparecesse o cheiro a vinho que o seu pai tinha bebido. Pelo menos, nesta noite ele não o tinha mandado ferver, tinha-o bebido natural. Odiava o cheiro do vinho fervido. Felizmente a Tia das Maçãs, tinha-lhe dado aquela maçã. Assim não dormia com a barriga a roncar. Tentou tapar a cabeça, debaixo da manta que tinha um cheiro mau. Ainda não sabia definir aquele cheiro, mas sabia que não gostava. Uma lágrima, lavou o rosto sujo do pequeno homem, ao lembrar a mãe. Debatia-se na incerteza de não saber definir o tempo em que alguém deixava de ser criança e passava a ser homem. Era esquisito. Por vezes, a vida exigia dele atitudes adultas e outras vezes ria-se dele, por  desejar ser mais crescido. Com força apertava o velho colchão. A mesma força que gostaria  de ter para enfrentar o pai. Gostaria de ser como a maioria dos outros homens,  mas sentia que apenas o conseguia ser pela metade. Sabia que tinha muita imaginação e que gostava de mistérios, mas não sabia ser independente, nem agitado o suficiente para  acabar com  o poder injusto do pai . Um não sabia ser homem, apesar da idade.  O outro pouco tempo teve para ser criança e que por mais que tentasse,  não  conseguia entender a vida.
Uma lágrima lavava-lhe o seu rosto. Uns pingos de chuva de verão, cantavam nas telhas velhas da casa. O som caía facilmente no ouvido. O teto não tinha forro. Assustou-se um pouco. Um barulho no telhado. Talvez um gato. Sem saber porquê lembrou-se das histórias que ouvia sobre o rei. Sim, sabia porquê; adorava parar nas ruas para escutar as histórias do povo. Sobretudo as que falavam das aventuras de El-Rei, D. Joáo Segundo! Contavam que em jovem, ainda príncipe, traía a lei do recolher obrigatório. Quando o sino anunciava as oito horas da noite durante o inverno ou pelas dez da noite no verão,  o ousado príncipe saía à procurar  do imprevisto. O pequeno estremeceu ao sentir quanta coragem seria precisa  para  desafiar  o perigo  noturno da cidade.
- Eu nunca me atreveria- pensou, arrepiando-se.
Bastaria abrir a porta. Do lado de lá, perambulavam figuras anónimas, escondidas nas misteriosas capas negras. Eram como sombras  que circundavam pelas ruas estreitas de Lisboa.
  Para não se sentir tão pobre, tão frágil e para fugir às ruas amargas da vida, Pisca-pisca recorreu ao sono. Este, ainda leve, tomou atalhos para chegar rápido aos sonhos.
 O infinito. Uma névoa mágica. O som do cavalo do rei D. João II. O passo de outro cavalo...  sem cavaleiro. Sentiu a porta abrir, sem que alguém tocasse para avisar ou pedir licença. Os cavalos e o cavaleiro pararam perto da sua cama. O rei desceu do cavalo e convidou Pisca- pisca a levantar-se. O cavalo que não trazia cavaleiro, dobrou as patas,  oferecendo a capa preta sem dono, que trazia sobre o seu dorso. O  rei  pegou na capa e colocou-a sobre os ombros do pequeno herói e com simples palavras declarou-o cavaleiro, colocando a espada sobre o seu ombro e em seguida, prendendo-a a uma correia a tiracolo. O cavalo ajoelhou-se completamente, convidando o jovem rapaz a subir. Pisca-pisca acomodou-se. Sentiu o movimento do cavalo, levantando-se paulatinamente, elevando-o conjuntamente no ar . Os dois cavalos saíram um atrás do outro. Pisca-pisca olhou para trás, despedindo-se da casa sombria, onde apenas o rato Ratu, estava ali para lhe dizer adeus. Sorriu para o pequeno gatuno roedor. Nos pequeninos olhinhos dele, parecia haver uma pontinha de tristeza.
-A quem irei assustar durante a noite? – pensou o pequeno rato.
De repente, um ruído enorme! Parecia um grito! Algo turbulento desabou do telhado. Um gato aterrou sobre as quatro patas, no sujo sobrado da casa. Miando assanhado, olhou e correu em perseguição da minúscula figura. Ratu também parecia divertido. Adorava  aquela tão conhecida brincadeira, do gato e do rato. A porta fechou-se com um ruído, que parecia demonstrar, que o momento era solene.
 Os cavaleiros não falavam e talvez por isso o som do trote dos cavalos soassem na noite, convivendo com o silêncio do luar. A chuva parara, mas os vestígios dela ainda persistiam em pingar dos beirais e em refrescar as ruas desertas de Lisboa. Pisca-pisca, perdera a noção por quanto tempo cavalgaram. Só se apercebeu de que já estava na moradia do rei, quando um vassalo deste, ajudava D.João a descer. Pisca-pisca coçou o pescoço e pensou: " E agora? Como salto deste cavalo tão alto?" Parecendo adivinhar os seus pensamentos, viu com espanto, o rei elevar os braços para o retirar do cavalo. O pobre rapaz, sem saber o que fazer, sentiu uma vontade enorme de deitar a cabeça no ombro do seu protector. Seria tão bom, poder sentir a glória de  ser filho de alguém!
- Por aqui- indicou-lhe o rei. 
 Passaram umas salas tão grandes, que João ficou tonto apenas de olhar e tentar contar quantas pessoas poderiam viver ali. Pararam numa varanda. D.João convidou-o a sentar. 
  - Hum, isto parece material fino- pensou o rapaz, enquanto via o rei sentar-se a seu lado. 
 - Vês a lua?- perguntou figura soberana ao pobre rapaz, que passava solenemente o rosto pelo capa negra, como se estivesse coberto pela bandeira da pátria. 
 - Gostas de viajar? 
 - Gosto. É um dos meus grandes sonhos. E são os sonhos que me têm mantido vivo.- divagou o pequeno herói. 
  -Preciso que viajes por mim, para um lugar na terra, mas que fica quase tão longe quanto a lua. Portugal precisa que viajes por ele. Não tenho mais ninguém a quem confiar essa tarefa. Preciso que navegues até a um reino distante. Eu mesmo não te posso dizer onde fica esse lugar, porque quem eu quero que encontres, parece viajar com o sol e a lua. Parece brincar com quem o procura. Existe um homem virtuoso,  um generoso governante  que possui uma fonte de juventude, onde qualquer homem que se banhe nela, volta a ter trinta  anos. Esse governante tem por volta de  quinhentos e sessenta anos e mantém-se vigoroso por usar essa água milagrosa. É Preste João,  quem eu quero que vás procurar. Quero que o encontres, para que ele se transforme em meu aliado, contra os muçulmanos. Terás uma embarcação e alguns ajudantes. Receberás uma soma boa de dinheiro. Levarás um planisfério para marcares o local exacto do reino misterioso. 
  Luís vivia encantado, aquele glorioso momento nocturno. Teve que passar a mão pela testa, para se assegurar de que não estava a ser atacado por alguma febre embriagadora. 
  -Mas porque não consegues tu encontrá-lo? Tu também és rei. Eu pensava que os réis podiam tudo! - atreveu-se o pequeno Luís a dizer. 
 - Posso contar-te um segredo?- perguntou-lhe aquele, a quem o rapaz sentia como quase seu igual.
Pisca-pisca acenou com a cabeça afirmativamente. 
  -O rei é o mais escravo de todos os homens. A liberdade do rei fica presa nas grandezas dos castelos e nos campos de batalhas que ele tem que vencer. A própria opressão que exerce sobre os outros, transforma-o em escravo do medo que o acompanha dia e noite...  o medo  de que o matem à traição.
  O sussurro do rei, exposto na penumbra da noite, voava até à imaginação de Pisca-pisca de um modo um pouco louco, mas o rapaz tentava entender que o rei deveria ter as suas razões para dizer o que dizia. Alguém que testemunhasse ao longe este momento, poderia apreciar o alinhamento quase perfeito do perfil dos dois rostos, onde a lua brilhava entre ambos, disposta a guardar os segredos misteriosos, entre um rei e um rapaz do povo. Num momento de reflexão por parte do rei, o rapaz que ainda sonhava, viu a sua celebridade navegar e crescer nas águas dos Oceanos até encontrar Preste João. Viu as ondas, abrindo caminho para o seu navio em formosas vénias e alguém que o acompanhava naquela aventura, tocando trompete, anunciando a glória do único rapaz que encontrara o tão procurado rei, dono de um reino mágico.  
 O rei adormeceu e Pisca-pisca, teve vontade de levantar a mão num gesto de carinho, e acariciar o rosto de D. João, como um filho que acalenta o rosto do pai cansado. Afinal a sua maior aventura era a desventura que partilhava com o rei naquele momento; onde nem o império de um, nem o quarto do outro habitado pelo rato Tatu, lhes traziam a certeza que o amor vivia perto.


Novo rumo

De repente o sonho estilhaçou-se. A realidade voltara com todos os seus recantos pobres e indesejáveis. Aquela realidade que Pisca-pisca, pensara que tinha desaparecido. Olhou o rato Tatu. Sorriu e resolveu acreditar no sonho que tivera.
   - Hoje quero ser feliz- pensou.
  Levantou-se, alisou as roupas, o cabelo sujo e saiu para a rua. Iria até ao cais do Tejo. Queria partilhar o seu sonho com os seus amigos.
  Ao entrar no Rossio não os encontrou. Resolveu aproximar-se mais das caravelas e das naus. Com os olhos na paisagem e os ouvidos nas conversas das pessoas que iam desembarcando, imaginava um dia cumprir a promessa feita ao rei D.João Segundo.
  -Ah, fervo todo por dentro só de me  imaginar a viajar por esse mar afora e encontrar esse rei que ninguém encontra! Bem podes esperar por mim, Prestes João- prometeu a si e a tudo o que via, naquele momento. Já se imaginava célebre.
  Enquanto pensava, não deixava de escutar o que os outros diziam. Não gostou da conversa de dois estrangeiros, que passeavam por ali:
  - Realmente também não percebo como é que um país tão pequeno, com uma escola naval que mais parece uma caixa de fósforos, tem capacidade para descobrir tantos mares e tantas terras.
  - Olha não querem lá ver os figurões! Quem é que pensam eles que são?- pensou descontente.
  Olhando sempre em frente, passou pelos dois homens e propositadamente, querendo parecer distraído, tentou passar-lhes uma rasteira.
  - Ora, não querem ver o rapazinho. Armado em herói- resmungou um dos homens, enquanto o agarrava pelo braço.
  -Ai senhor, deixe-me- pediu Pisca-pisca.
  - Não tens nada para fazer? Eu vou-te dar trabalho- respondeu o outro homem.
Levaram-no para dentro de um barco e perguntaram a outro homem:
  - Tu conheces este figurão aqui?
  - Sim, conheço.
  Ao ouvir a resposta do homem português, Pisca-pisca suspirou de alivio.
  - Finalmente alguém que eu conheço- riu para o homem, sem sequer querer saber quem era. O que importava isso?
  - É o filho do Zé- Boa Vida. Ainda bem que mo trouxeram. Ontem o pai dele falou comigo. Quer dar uma ocupação ao rapaz. Deixem-no comigo.
- Não percebo o que é que se passa, mas acho que não é coisa boa. Com mil diabos! Ainda por cima, coisa do meu pai- pensou o pobre rapaz, coçando a cabeça.
 - Anda comigo- ordenou-lhe o homem.
 - Calma senhor. Eu vou, mas como se chama o senhor?
 - Eu não tenho nome. Aqui o que interessa é que saibas qual é o teu lugar e o que tens que fazer. Se te portares bem, não terás problemas- explicou-lhe o homem, sem intenção de explicar nada, apenas ordenar.
  - Ok Sr.Sem Nome- pensou Pisca-pisca, sem se atrever a deixar transparecer, o que estava a pensar.
  Seguiu o Sr.Sem Nome. O rio falava de mansinho como se o quisesse acolher  e acalmar. Aquele mundo novo, já tinha feito parte dos seus sonhos, mas  agora que estava a acontecer, parecia que a aventura não lhe parecia tão  mágica como imaginara. Sabia que muitos rapazinhos eram apanhados no cais e levados nas embarcações.
 Ao invés de fazer da humilhação uma razão para se lamentar, soltaria o riso e faria dele a glória, que talvez apenas nos seus sonhos, conseguisse conquistar. Sabia que todos os Homens sonhavam, por mais que o negassem. Talvez nos seus sonhos, viesse a ganhar a força para enfrentar o seu destino. Destino? Não sabia se acreditava no destino. Sabia que era uma palavra que vivia constante na boca das pessoas. Talvez através dos seus sonhos, encontrasse a sua própria natureza humana.  Talvez.  A que saberia a vitória , se conseguisse seduzir ,aqueles que ridiculamente, pensam que têm nas suas mãos o destino dos outros?
  E embrenhado em tão profundos sentimentos, aceitou a cama que lhe tinham destinado para descansar... as tábuas da nau, que flutuava calmamente nas águas do rio. Olhando a lua e as estrelas, parecia que aquela embarcação à vela, de alto bordo, guardava apenas histórias de embalar.

A Águia-marinha

Um som muito forte, abafava qualquer outro som do Universo. Não soava a  um tom harmonioso. Pareciam trombetas. No sonho, Pisca- pisca, apurou o seu sentido auditivo. O som ressoava a um pedido, a uma ordem ou a um aviso? Para saber melhor, levantou-se do chão onde dormia e achegou-se á beira do barco. Piscou os olhos, esfregou-os e abriu-os, mas sabia que não tinha acordado. No entanto, continuar a dormir, não parecia obstáculo, para que todo o seu ser aplaudisse o cenário como algo profícuo, fosse qual fosse a fantasia ou a ilusão.
 Lá longe, naquele espaço que a sua vista abrangia, onde a terra e o céu se encontravam, embalava-se uma cidade, cheia de velas acesas e homens que a cercavam tocando trombetas.
 Um movimento requintado e desconhecido, obrigou-o a desviar o olhar. A luz da lua pareceu mover-se. Talvez para lhe mostrar quem ou o quê. Quem se deslocava no ar? Assustou-se, mas não deixou de tentar conhecer o atrevido.
  -Hei- gritou este- quem és tu?- gritou novamente para a figura de asas longas e estreitas que descia em voo picado na direção da água.
 Ao invés de piscar os olhos, arredondou o olhar, ao notar a rapidez da ave. A noite e a distância que o separavam do intruso, apenas lhe permitiam inferir que este, era dono de uma grande velocidade.
  - Hei- gritou outa vez- és uma gaivota?- mal terminara a pergunta, sentiu um enorme movimento; o bater das asas da ave, no leito do rio. Pelo ruído, Pisca-pisca deduziu que dissera alguma coisa que desagradara ao visitante.
  - Não sabes distinguir um elefante de uma formiga?- perguntou a ave, depois de ter pousado  na proa do navio o peixe  que trazia enganchado no bico preto.
  - Eh pá, cuidado!- assustaste-me- queixou-se o pobre, ao sentir o quão duras eram as tábuas da nau, ao cair com o rabiosque no chão.
Enquanto, aprisionava o peixe, que dava os últimos sinais de vida, com as patas  cinzento-azuladas, olhou o rapaz e disse:
   - Sou a Águia-marinha.
   -  És uma ave de rapina?- perguntou o rapaz ainda assustado.
   - Uma espécie disso. Que importa? Mas tenho a certeza de que não sou uma gaivota- respondeu um pouco trocista.
    -Tu sabes que terra é aquela lá longe, de onde vem aquele barulho?
   - Sei, é o reino do Rei Silves.
   - E porque tocam as trombetas  a esta hora da noite?- quis saber o pequeno.
   - Há um ano que as trombetas tocam dia e noite- explicou a ave- o rei quer casar a sua filha e precisa de encontrar um marido para ela.
  - Que coisa! É tão difícil arranjar uma marido para a princesa? Não existem muitos príncipes?
  - O rei não exige que seja príncipe. Nem todos os príncipes querem casar com a princesa.
   - Porquê?
   - Porque esta princesa é diferente e o rei, o seu pai, está um pouco desesperado- respondeu a águia- mas porque não respondes tu ao som da trombeta? Porque não  te propões como possível noivo?
  - Eu? Estás a delirar! Eu não tenho onde cair morto. Uma princesa nunca olharia para mim e para te dizer a verdade, também não casaria sem gostar dela.
  - Pois- sussurrou a Águia-marinha, coçando o bico com a a asa- mas não estás curioso? Ofereço-te uma viagem até lá.
 - Como assim? Como vou?
  - Como eu vou? Como vou eu?- respondeu a ave a brincar- deixa de choramingar e sobe aqui. Segura-te bem. Irei buscar-te. Basta avisares que queres regressar.
  - Como te aviso eu?
   -Assobias. Eu saberei que és tu.
 Sem saber porquê, ao subir no corpo pardo-anegrado da Águia-marinha, sentiu vontade de deitar a face na sua cabeça  branca. Tão branca, quanto as penas do seu robusto peito.
 Foi igual à vontade que sentira, quando desejou deitar a cabeça no ombro do Rei D.João Segundo.

A princesa sem rosto

Pisca-pisca sentiu que subia uma grande escadaria. No topo desta, brilhava a coroa do rei. À sua frente, uma grande fila de jovens, vindos de todas as partes do mundo, suspiravam impacientes por lá chegar. Todos pareciam apresentar as mesmas razões; a sede de um dia usar aquela coroa, que parecia exibir-se no limite das suas ambições.
  - Que importa que a princesa não tenha rosto?- diziam alguns- o que importa, é que por ela não o ter, podemos estar aqui.
  - Claro- concordava outro- se ela fosse normal,  o rei não estaria tão ansioso por encontrar um genro.
  Pisca-pisca, nada dizia, apenas observava. Reparou que todos tinham consigo uma flauta.
  -Porque é que trazem todos uma flauta?- perguntou ao rapaz que estava à sua frente.
   - Então não sabes? A única exigência que o rei faz é que todos saibam tocar flauta, porque a princesa não consegue passar um dia, sem ouvir o som de uma flauta.
    - Mau- pensou- agora é que estou em maus lençóis! Sei tocar, mas não o suficiente para agradar a um rei ou a uma princesa.
Encolheu os ombros e resolveu esperar.
 A noite começava a cair e chegara a vez do nosso herói.
  - Boa noite rapaz- saudou o rei.
Pisca-pisca fez uma vénia e retribuiu o cumprimento.
  - O que te traz aqui?- perguntou o rei.
  - Que pergunta tão palerma- pensou o jovem.
  - Conhecer a vossa filha, alteza- respondeu sentindo-se um pouco ridículo.
  - E porque a queres conhecer?- perguntou de novo o rei.
  - Outra pergunta sem sentido- pensou de novo, cansado pelas longas horas de espera.
  - Talvez a curiosidade. Vossa alteza, tem de concordar que não é normal, uma jovem sem rosto.
 - E quais são as tuas ambições?
 - Neste momento, apenas conhecer a sua filha. Depois, poderei acrescentar mais alguma coisa, à resposta para a sua pergunta.
  - Hum- pensou o rei- pareces um pouco atrevido, mas diferente de todos os outros- mas reparo que não trazes uma flauta contigo. Não sabes tocar?
   - Sei um pouco, senhor- respondeu um pouco inseguro.
  Um pouco trémulo, pegou no instrumento musical, que um dos vassalos do rei lhe ofereceu. Colocou a flauta entre os lábios e sem saber como, o som saía melodioso.
  - Levem-no até à princesa- ordenou o rei- e cancelem as visitas  até amanhã.
 Pisca-pisca, foi conduzido  a um jardim, que lhe parecia tão grande como o mar que o tinha trazido até ali. Aproximou-se de um grupo de mulheres, que formavam um círculo em volta de algo, como se guardassem um tesouro.
 O criado que o acompanhava, tocou uma campainha e as mulheres rapidamente desapareceram.
  - Podes ir- disse-lhe o homem- a princesa está ali sentada naquele banco.
  O comprido vestido e de longas rendas brancas, pareciam confessar uma virgindade que não se expunha a ninguém.
  O rapaz suspirou e aproximou-se.
  A princesa sem se voltar, levantou-se e dirigiu-se até ao campo relvado, onde as árvores pareciam abrigar uma vida tão diferente. Ele seguiu-a.
  - Como te chamas?- perguntou a jovem, numa voz tão suave e tão bela, que obrigou o rapaz a hesitar em responder. 
  - Pis... Luís- respondeu, rectificando a tempo a resposta. Sem saber porquê, a alcunha que sempre o acompanhara desde pequeno, naquele momento, parecia-lhe desajustada.
  - E tu? Tens nome?- indagou ele.
  - Queres saber se me chamo apenas princesa sem rosto? - perguntou ela, enquanto pela primeira vez se virava para Luís- Tenho nome sim. Chamo-me Helena.
 Luís, sentiu que voltava a dar glória à alcunha de Pisca-pisca, de tanto que piscava os olhos, para não fugir assustado.
  - Assustei-te? Porque não foges como todos os outros?
  Luís não precisou de ver os olhos dela, para saber que ela chorava. Decidiu de uma vez por todas ser Luís, o possível homem que nascia dentro dele.
  - E vim eu de tão longe para fugir?  Queres sentar-te um pouco? Podemos conversar- convidou ele.
  - Ali, naquele banco, perto daquela fonte- indicou ela.
 Sentaram-se. Luís, olhou de frente, para o lugar onde a Princesa Sem Rosto, deveria ter o rosto e perguntou:
  - Alguma vez tiveste rosto ou foste sempre assim?
  - Nasci como qualquer outra criança e fui eu que decidi não ter rosto- a resposta rápida da rapariga, parecia trazer uma certeza que não lamentava.
  - Luís teve um sobressalto e pensou:
  - Mau, será doida?
 - Não, não sou doida- respondeu ela, adivinhando os pensamentos do seu visitante.
 - Então queres explicar melhor- solicitou ele.
 - Como filha única do rei, ao fazer 18 anos teria que casar, para que o meu pai pudesse descansar e o nosso reino não ficasse sem rei e rainha. Quando fiz 15 anos, o meu pai queria que eu casasse com um príncipe de um outro reino.
 - Mas pelo que sei, é assim  que  fazem em todos os reinos- exclamou o rapaz, sem entender- qual a ligação disso para não quereres ter cara?
 - Eu sou princesa, por que nasci princesa. Não pedi para o ser. Também não pedi um príncipe como meu marido.
 -Mas o objectivo de todos os reis que têm uma filha, é que ela case com um príncipe e que suba ao trono como rainha.
 - Eu entendo que o meu pai tenha objectivos, mas ele tem de entender que eu tenho os meus também. Que para ele obter os deles,  pode ter que passar por cima dos meus.
 - Hum, estou a entender. Mas não será exagerado, viveres assim... sem cara? Por que és tu que vives desse modo e não os outros!
 - E como achas que eu viveria? Seria apenas  mais um rosto. Seria apenas mais uma expressão fabricada pela sociedade. Eu quero ser muito mais do que as linhas de um rosto, com uma coroa a brilhar na minha cabeça. As minhas feições exprimiriam as regras do mundo e seria o mesmo que viver sem face. Seria apenas uma face comum a todos aqueles que religiosamente, se sujeitam a uma crença, sem questionarem porquê. A verdadeira expressão, ninguém a conseguiria ver, nem ninguém se importaria por a procurar.  Não quero ser um produto da imaginação do povo.
  Luís escutava, maravilhado. 
  - Estou tonto. Não esperava por essa explicação- balbuciou o rapaz.
  - Não gostaste? Pois lamento, porque não te poderei dizer outra coisa. Se vieste aqui, com a mesma intenção dos outros, podes ir embora. Recuso-me a ser aquilo que não quero ser.
  - Não, não- exclamou Luís, apressadamente, temendo que ela fugisse.
  - Continua- pediu, colocando a sua mão sobre a da princesa.
Helena não retirou a mão.
  - Estás cansada?- perguntou o jovem
  - Um pouco, sim. Este aparato de tantos à procura de um título, obriga-me a viver os dias debaixo de um céu tão silencioso... sinto-me como uma sonâmbula, que vive em constante esforço para guardar uma intimidade, que até agora desejei que fosse apenas minha. 
 - Nunca te sentiste tentada a desistir e a ceder?- perguntou Luís.
 - Não. Pior do que tudo isso, seria ceder e abandonar o meu dever como ser humano; o dever de ser eu mesma. Seria mentir a mim e ao mundo. Os teus passos, quando te aproximavas de mim, ressoaram no meu íntimo como uma luz. Estarei enganada?- perguntou ela, procurando saber a verdade.
  - Quando soube da tua história, pareceu-me esquisita e vim curioso. Quando entrei no jardim e as tuas aias se afastaram, senti na postura da tua silhueta algo que me tocou. Agora entendo o quê- explicou ele.
  - Casarias comigo, mesmo sem conhecer o meu rosto?
  - Sim- respondeu Luís, apertando com mais força a mão da jovem.
  - Mesmo com a certeza de que nunca chegarás a ser rei?
   -Sim- continuou ele- também tenho os meus objectivos- até te conhecer aspirava a vir ser alguém importante na vida. Agora quero apenas ser importante para ti- respondeu Luís, que sorrio ao sentir a cabeça de Helena sobre o seu ombro. Elevou a mão para acariciar o seu rosto, mas esta parou no ar, ao lembrar que não havia rosto.
  - Já mo acariciaste. Senti o teu toque na minha face, pelo sopro dos teus lábios. Eles suspiraram o amor que vem da tua alma. Obrigado.
 - Vamos enfrentar o teu pai- convidou Luís, colocando-se de pé, sem largar a mão da mulher que já amava.
 - Achas que estás preparado?
 - Adiar não adianta nada- respondeu seguro.
 A noite já ia avançada. O luar fulgurava. Cada passo que davam, era uma nova frase que escreviam na história que começava a nascer dentro das duas almas, que partilhavam o mesmo desvio, ao renunciarem a uma  vulgar existência humana. 
     Helena e Luís foram informados que o Rei descansava.
  Decidiram esperar juntos que o dia nascesse. Ambos sentiram as horas passar muito vagamente. O toque das suas mãos pareciam entretidos a conhecerem-se, num diálogo contínuo e silencioso. A pedra fria que os acolhera toda noite, parecia um lençol quente, profetizando que a hora da felicidade chegaria veloz e inabalável. Uma felicidade, onde os personagens, não seriam uma rainha e um rei, mas apenas ela e ele.
  -  Sua Alteza, seu pai, está pronto para os receber- avisou-os um criado.
  - Muito obrigado, meu bom amigo César- agradeceu a princesa.
  - Tu sabes o nome dele?- ficou admirado o rapaz, habituado a ser chamado apenas por ''rapaz''. Porque por Pisca-pisca, apenas os seus amigos o chamavam assim. O nome verdadeiro, Luís, ninguém conhecia ou simplesmente tinham esquecido.
  - Evidentemente. Sei o nome de todos eles. Todos eles têm uma história.
 O Rei recebeu-os com um grande sorriso.
  -Será hoje o fim do Inverno longo que se apoderou deste reino?- perguntou este.
  - Não sei, meu pai. Depende apenas se o Sr. aceita ou não a nossa decisão.
  - Mau, aí vem coisa!- queixou-se o rei- mas falem.
  -Meu pai, eu e Luís decidimos que queremos casar.
  - Ora, então isso é uma boa notícia- exclamou o Rei.
  - Mas não quero ser rainha- respondeu Helena.
 Diante desta resposta, o rei levantou-se furioso e gritou:
  - Não aceito isso. O meu objectivo, desde que nasceste, foi que casasses e te tornasses rainha. Todos sabem, que eu não paro, não temo, nem medito sobre as dificuldades para alcançar os meus objectivos.
    - Eu o admiro por ser um homem que não gosta de desistir dos seus objectivos. Mas enquanto lutamos por eles, não deveremos pensar primeiro se estamos a acorrentar os objectivos de mais alguém? Poderá transformar-se em teimosia.  Perigosamente poderá ofuscar a razão e obscurecer a consciência.
   -Mas a quem entreguei eu a educação desta rapariga? Onde ela aprendeu tudo isto?
  - O meu pai. Quando eu nasci, ele desejou que eu crescesse no meio de pessoas dignas- afirmou Helena.
  -E o que queres que eu diga ao povo? Que quando eu morrer, não haverá quem me substitua?- questionou o rei cansado.
  - Calma. Primeiro explique-me o que é isso de não meditar na distância que o separa do objectivo? Está a querer dizer-me que os fins justificam os meios?- inquiriu a jovem princesa.
  - Nem todos os meios- balbuciou o Rei.
  - Então, deixe que a sua filha volte a ter rosto. Permita a si, meu pai, ver de novo o meu sorriso e sentir o meu beijo- pediu a princesa.
  -E tens tu uma solução?- perguntou o rei.
  - Já lhe tentei falar dela várias.
 -  Fala- autorizou o pai.
 - Que melhor rei, para o nosso reino, senão aquele que o serve lealmente, todos os dias?
 - Quem?- perguntou o Rei, sem entender.
  - O meu primo Augusto- respondeu a princesa.
  - Estás a delirar! Ele não tem direito ao trono.
  - Mas tenho eu e eu concedo o meu trono ao meu primo, que servirá o reino muito melhor, do que eu alguma vez serviria. Eu serei feliz e ele também. Pai, eu não lhe estou a pedir que desista do seu objectivo em deixar um sucessor, mas que encontre outro caminho, de modo que todos possamos ser felizes.
  - E tu rapaz- dirigiu-se o Rei para Luís- não aspiras tu a ser rei?
  - Agora, eu poderei completar a minha resposta, à sua pergunta, quando me viu pela primeira vez. Eu apenas quero  viver a vida com a sua filha.
  - Louco- clamou o Rei- nem a cara lhe viste.
  - Mas conheço-a melhor do que a Vossa Alteza, a quem estou olhando, olhos nos olhos. Conheci-lhe a alma. Garanto-lhe que não existe alma mais grandiosa do que a da sua filha. É com essa, com quem eu quero casar e  não apenas com uma rainha.
  - Perguntemos a opinião do povo- decidiu definitivamente o rei.
 Após horas de consultas ao povo, o Rei chorou. Como pudera ser tão egoísta? Como passou tanto tempo insensível ao sofrimento de tantas pessoas? E porque razão? Por um objectivo que ele pensava certo e o único caminho? O povo também sofrera com a decisão da princesa, quando esta passou a viver sem rosto, mas demonstraram que preferiam tê-la como princesa sempre feliz, do que como rainha desgostosa. Aceitaram de boa vontade o sobrinho do rei, como  futuro monarca.
  O reino inteiro, que vivia cansado das trombetas que tocavam para atrair possíveis noivos, festejou com grande alegria o casamento daquela que apenas desejava ser mulher.
  Luís aguardava a sua prometida, no altar do castelo.
 As grandes portas abriram-se e todos se levantaram para ver a noiva.No ar, dançavam as notas musicais que a flauta arrancava da alma do noivo.
 A noiva entrou vestida de azul e branco. Sorria feliz o lindo rosto da princesa. Luís sorriu de júbilo diante de tanta beleza. O povo chorava de emoção e vaidade.
  A primavera, tinha surgido como a estação certa para convalescer e florir o reino, que vivera um inverno tão demorado. O coro cantava o cântico certo. O cântico de uma princesa que mostrou, que viver fingindo ser o que não somos, é como viver sem rosto, sem uma identidade certa.
 

Acordando para a realidade

Sentiu um toque nas suas costas. Abriu os seus olhos ainda despreparados para precisar quem era aquela figura. Apenas conseguiu ver as pernas altas de alguém. Deduziu que pelo modo um pouco brusco do cumprimento, aquela pessoa, não estava ali com boa intenção.
. Mais um pouco e abriu melhor os olhos e pensou:
 - Tinha de ser, este Sr.Sem Nome a acordar-me do meu belo sonho!
 - Então rapaz, pensas que vieste para aqui de férias... toca a levantar que a noite já acabou.
 - Mas ainda é  noite...
 - Cala-te grumete! Porque dormiste aqui no  convés? Náo vês que isto está a abarrotar de gente? Para a próxima dormes no porão- ordenou-lhe o homem- agora podes ir comer alguma coisa, depois tenho trabalho para ti.
 Meio entontecido e um pouco desconfiado, sem saber o que era um porão ou onde ficava, dirigiu-se na direcção que o Sr. Sem Nome lhe indicara. Avistou a um dos cantos da caravela um amontoado de pessoas. Procuravam avidamente algo por comer. O rapaz aproximou-se, sem ter a certeza se chegaria a alcançar algum género alimentício.
 Perante aquele grupo barulhento,  o seu ar de moleque atrevido, escondera-se acanhado. A  sociedade  ali concentrada,  parecia pior do que aquela que ele vivera em Lisboa. Talvez as pessoas tivessem os mesmos costumes e o mesmo porte, mas disposta a revelar as piores qualidades, como se estivessem no auge de uma batalha. Encolheu-se e esperou.
 - Oh rapaz, se não tu não te afoitas, passas o dia com a barriga a gritar miséria.
O actual Pisca-pisa, piscou os olhos e olhou para o autor daquela frase, sem saber se seria um novo inimigo ou não.
 Quase como quem avista uma miragem, viu o sorriso e pressentiu-o como uma dádiva.
  -Anda, avança comigo- convidou-o o recém conhecido.
Quanto mais se aproximavam maior era a barafunda, mas aquele novo personagem, a quem o pobre rapaz olhava de soslaio, parecia-lhe ter qualquer coisa de diferente. Parecia quase tão fino como o rei D. João Segundo, ou seja sentia-o como um possível pai. 
 - Um fogão na ponta do barco- exclamou o pequeno.
 - Sim e na outra ponta tem outro- explicou-lhe o homem, do qual ainda não sabia o nome-  Vamos ver se conseguimos apanhar algumas bolachas e um pouco de água.
 Atrás do seu protector, Pisca-pisca podia observar a luta de todos, para conseguirem um pouco de comida.
  - Toma duas bolachas e este figo seco. Bebe um pouco de água, vai-te fazer falta durante o dia. Ela não abunda por aqui- lamentou o homem.
 Depois de terem em sua posse a pequena refeição matinal, o rapaz seguiu o homem até à beira do barco. 
 - Como te chamas?-perguntou-lhe o homem.
  - Luís.
  - Ah, eu sou João, o escrivão do barco.
   - E o que é   um escrivão?
   - Sou eu que  asseguro a redacção do diário a bordo, registo de ocorrências, inventários, escrituras e testamentos, rol de cargos aplicação imposta na compra e venda de bens.
- Hum?- foi um som baixo mas prolongado, denunciando a vergonha de não entender nada, do que o novo amigo lhe tentava explicar.
 - Não entendeste?  Tá bem... então eu sou só o João para ti, aquele que escreve. Está bem assim? Tu sabes escrever?
 - Não.
 - Gostarias de aprender?
 - Não sei se sou capaz.
O olhar do escrivão parecia perder-se na grandeza infinita do mar, enquanto o do rapaz acabava mesmo ali, naquela figura real. Ela parecia guardar tantos segredos... tantos quantos o Universo guardava!
 - Senhor, tenho de ir! Vem aí o Sr. Sem Nome. Ele está sempre mal disposto comigo.
 - Aquele?
 - Sim.
 - Então não sabes? Aquele é o teu guardião. É ele que vai  andar sempre a ver o que andas  a fazer e que decide as tuas tarefas, aqui no barco.
  - Não gosto dele- desabafou o rapaz.
  - Ninguém gosta, mas é melhor obedecer. Evitarás problemas.
 Luís foi ao encontro do guardião, cuja figura, continuava inimiga da simpatia e que parecia sofrer de uma glória  que lhe proporcionava um ar agressivo.
 -Toma, pega neste balde e molha o chão do convés.  A madeira não pode secar. Junta-te àqueles  garotos.
Os outros dois rapazes olharam para Luís, mas não disseram nada. Dispuseram-se a carregar os baldes de água e a molhar o convés. O nosso jovem herói seguiu o ritmo deles. Era um pouco cansativo. As pessoas tropeçavam nos baldes, sem se importarem e sem olharem para os rapazinhos.
 Em repetitivos movimentos, baldes e baldes enchiam os sentidos dos pobres grumetes. Pareciam rapazinhos anónimos e  nascidos do nada. Sentiam-se incapazes de responder quem eram. Isto se alguém se importasse, por perguntar a um deles qual a origem do seu berço... Voluntariamente tinham adormecido a capacidade de se distinguirem de qualquer outro animal. Que estranha realidade!
 De repente, Luís foi surpreendido por um som, no qual ainda não tinha reparado.
  -  Hei, porque e que estão a tocar o sino?- perguntou a um dos grumetes mais próximo de si.
  - Então ainda não tinhas escutado? É para as pessoas saberem as horas. Toca de meia em meia hora.
 - Ah, e como sabem eles, quando é  que já passou meia hora?
 - Não sei.  É uma coisa esquisita. Tem dois balões de vidro e com areia dentro. A areia cai e quando ela está toda de um lado, alguém vira aquilo ao contrário. Quando acabarmos aqui, vamos espreitar?  
 - Se pudermos, sim. Olha o guardião. Enche o balde- advertiu Luís, ao reparar no olhar atento, daquele que já sabia que era o seu chefe.
 Marcou a hora bendita do dia, a chegada do seu amigo João, o escrivão. 
 - Então Luís, já comeste mais alguma coisa?
 - Não senhor- respondeu Luís, passando a mão pela fronte- o meu guardião ainda não me deu ordem para isso.
 - Nem nunca te vai dar. O teu trabalho nunca tem hora para parar. Terás de ser tu, se quiseres sobreviver tens de impor as tuas necessidades- explicou-lhe o escrivão.
 - Espera- pediu-lhe este.
Curioso, o olhar do rapaz seguiu o seu passo e sentiu a boca estremecer, quando adivinhou a quem ele se dirigia. Receava um pouco a reação do guardião. Já sabia do seu humor insuficiente, para enfrentar fosse o que fosse, com alguma graça.
 Pouco depois, viu o escrivão regressar.
 - Pronto, vamos. Vou fazer algo para comermos os dois.
 - E os outros que estavam comigo?- perguntou |Luis, sabendo que os colegas não tinham comido. 
  - Trazes-lhes depois qualquer coisa , caso eles não se desenrasquem.
O despenseiro presenteou-os com  um pouco de   peixe, que João cozinhou, após ter esperado por um lugar no fogão. O tempo da refeição correu rápido. 
 Luís alegrou as faces cansadas dos amigos, com alguns frutos secos e umas bolachas, que eles engoliram rápido.

            A noite chegou. Os três rapazinhos, desceram  ao porão para encontrarem um espaço, onde se pudessem encostar para dormir. A confusão era muita. Os animais soltavam sons e movimentos inquietos, devido à agitação das pessoas. 
 - Venham por aqui- disse um deles- é onde me escondo para conseguir descansar. Aqui quase ninguém vem, porque os adultos não cabem. Isto são barris de sal. Nós cabemos atrás deles. Ora experimentem. 
  Cada um deles, tentou encolher as pernas e o tronco.
 - Eu caibo melhor do que vocês- sussurrou contente o mais pequeno.
 -Também és um minorca- riu-se o outro.
 - Como se chamam vocês?
 - Eu sou o Casemiro. O minorca parece que se chama Dinis.
 - Chamo sim- confirmou ele- a minha vizinha, pôs-me esse nome. A minha mãe morreu com a lepra e não teve tempo de me dar um nome, nem de dizer a ninguém em que dia nasci.
 - Ah, eu também não tenho mãe- respondeu Pisca-pisca. Também não sei em que dia nasci. O meu pai nunca me disse.
 - Ei, toca a dormir. Não tarda chega alguém à nossa procura para trabalharmos- disse Casimiro, quase a dormir.
 - Ele ressona- riu baixinho, Dinis.
 - Como vieste aqui parar?- perguntou Luís ao mais pequeno.
 - Não sei. Penso que a minha vizinha me vendeu, Ela gostava de mim, mas precisava de dinheiro. E tu?
 - Ah, foi o meu pai. Ele sempre gostou mais de dinheiro do que de mim.
 - Tens medo do mar?- perguntou Dinis.
 -Não quero ter. Se tiver medo morro. É melhor nem pensarmos onde estamos. Vamos fingir que tudo é um sonho que logo vai passar .
 - Como aprendeste a ser forte?
 - Nas noites em que ficava sozinho.  Para conseguir dormir, começava a sonhar antes de adormecer e depois o sonho vinha como continuação do sono. Tenta. Fazes assim: fechas os olhos e começas a imaginar coisas boas, que nunca tenham acontecido, mas que gostarias que acontecessem. No dia seguinte, acordas com mais coragem e enfrentas o dia, como se fosse um intervalo do teu sonho. Olha uma vez eu sonhei que era amigo do rei. Às vezes não sei se foi real ou só um sonho...
 Luís interrompeu o seu monólogo, quando reparou que o pequeno Dinis tinha adormecido.
 Tentou aconchegar-se no seu canto, mas já sentia as pernas dormentes. Tentou esticá-las. No pouco espaço que lhe era permitido, apenas conseguia aliviar um pouco a posição do corpo. Sentiu algo debaixo de si. Tacteou na escuridão e encontrou o que o incomodara. 
 - Ora, parece uma noz- murmurou satisfeito. 
 Com os dentes, conseguiu partir a noz, que pelo sabor já deveria estar um pouco madura demais.
  - Não faz mal- pensou- pena é que tenho sede. 
 Enquanto levava a noz à boca, para a saborear, sentiu que algo novo o incomodava.
 - Mau, que é isto agora? Não me parece outra noz.  Isto mexe-se.
 Reconheceu o vulto e o ruído.
 - Então, tambem gostas de viajar
Pela agitação do seu novo companheiro, deduziu a sua insatisfação.
 - Ah não me conheces? Ora desculpa o meu abuso,  por te tratar como se te conhecesse. E se te tratasse como primo do rato Tatu? Afinal vocês parecem todos iguais.
 Ao pressentir que o rato queria ficar por ali, Luís consentiu:
 - Está bem. Arranja la o teu canto. Afinal não ocupas tanto espaço assim. Mas ficas avisado; não podes trazer mais família atrás.   


Dois momentos diferentes

 Passado umas horas, sem  precisar quantas, os três amigos, acordaram com alguém a mexer nas barricas de sal. Deveria ser o despenseiro. Isso talvez significasse que era altura para levantar e enfrentar um novo dia. 
- Tenho sede- queixou-se Dinis.
 - Vamos- respondeu Casimiro- vamos ver ser conseguimos água para ti.
Os rapazes sacudiram a roupa e sairam do esconderijo.
 - Isto aqui, não tem o melhor dos cheiros- murmurou Dinis, tapando o nariz.
 - Onde e que ias encontrar melhor mistura de cheiros? Aqui encontras de tudo- riu Casimiro.
 - Lavar isto tudo está nos nossos deveres. 
  - E aqui, o que é que não faz parte dos nossos deveres? Eu nao sei se vou aguentar. Sinto-me cansado- desbafou Dinis.
 - Não vais desistir. Estamos todos no mesmo barco- brincou Casemiro.
 A brincar não estava o guardião.
 - Tu, hoje tomas contas da ampulheta- ordenou ele a Luís- e voces dois venham comigo. Há muito que fazer.
Luís não sabia se tinha ficado feliz ou não. O pequenito Dinis parecia-lhe pálido.
 - Vês isto aqui? Quando a areia passar de um lado para o outro viras e tocas aquele sino que esta além.
 - Sim senhor- respondeu obedientemente o rapaz.
 Ficou a olhar  a areia. Tão fininha! Deslizava de um lado para o outro. Tentou contar para saber a que número chegava a queda do último grão de areia . 
 - Hum, mas não sei contar muito bem- lamentou-se.   
 - Está quase... está quase. Vou-te virar e coorrrooo- exclamou apressando-se para o sino.
 Que engraçado! Até parecia que estava em um dos seus sonhos. As suas mãos comandavam o sino e o sino obedecia.
 - Tlim- tlão, tlim- tlão- repetia Luís rindo.
 As ondas salpicavam-lhe o rosto. Hum, era bom sentir a água, ainda que salgada e fria. Aquele cheiro a mar, era um bálsamo depois dos cheiros do porão.   
 - A vida até que tem coisas boas- pensou.
 Olhou para o centro do convés. Vários homens riam em volta de qualquer coisa.
 - O que será?- 
 Reparou nos seus amigos encostados as tábuas do barco e correu até eles. 
 - Que se passa?
 - Os homens estão a jogar- respondeu Casemiro.
 -A jogar ao quê?
 -O jogo das tintureiras.
 - Mas eles não estão a jogar. Estão a matar à paulada,  o coitado do peixe.
 -  Pois, eles pescam a tintureira e batem nela até ela cair morta.
 - Voces viram o escrivão?
 - Não, deve estar nos aposentos dele. Ali em cima- indicou Casemiro para o castelo da popa. 
 Luis subiu as escadas a cambalear até ao quarto do escrivão.
 - Que tens rapaz? Pareces amarelo- exclamou João, ajudando-o a sentar.
 - Que raio de jogo é aquele que inventaram? O capitão deixa?
 - O capitão está aqui mesmo ao lado. No aposento dele e certamente está a ver. Não é autorizado. Nem isto nem outros tipos de jogos, mas o capitão sabe que não pode impedir, senão os homens endoidecem e tornam-se ainda mais selvagens.
 - Estou mal disposto- queixou-se o rapaz.
 - Queres vomitar? Anda, chega-te aqui e vomita para o mar. 
Ao debruçar-se sobre o barco, olhou outra criatura, talvez a mesma que os homens ainda há pouco tentavam matar à paulada no barco. Ela agonizava, presa a objectos flutuantes, sem conseguir mergulhar.
 Olhou para os homens. Eles riam a bom rir. Como riam! Luís vomitava. Sentia raiva por ser tão fraco e não conseguir acabar com aquilo. Se ao menos pudesse ajudar a tintureira!   
 - Tens de te habituar rapaz. O mundo é assim.
 Os dois sentados na beira do barco, olhavam o Oceano.
 - Eles gostam destas touradas. Mas vá, acalma-te. Eles já sossegaram. Queres comer alguma coisa?
 - Quero sim, senhor.
 -Se quiseres podes guardar os teus mantimentos do mês  aqui. Ficam mais seguros.
 - Quero, sim senhor. 
Mal acabar de dizer " quero sim, senhor", sentiu de novo o estômago às voltas .
 - Que é isto?- gritou Luis?
            - Mau, vem aí tempestade- alertou o escrivão, olhando o mar.
As ondas pareciam vultos de gigantes geniais  que sacudiam as velas, obrigando-as a gritarem ao vento por clemência.  Mirrado atrás da figura do escrivão, conseguia entrever as figuras do capitão e do piloto,tentando orientar a navegação. Pareciam figurinhas despidas de qualquer de qualquer orgulho humano.
 - Calma, está a começar a acalmar. Esta não foi das maiores- tranquilzou-o o escrivão.
 Recolheram ao quarto. Luís olhou atentamente para a mesa de João enquanto sacudia a roupa molhada.
- Tanto que escreve!  Um dia gostava de ler isso tudo.
            - Ainda vais aprender.
Foram interrompidos por um som melodioso. 
            - O que é isto?- perguntou o rapaz.
 - Vamos ver. 
Ficaram na popa do barco a apreciar. Alguém que tocava  uma gaitinha. 
            - Que lindo! Parece mágico! Parece-se com os meus sonhos- murmurou o rapaz.
            - Sabes tocar alguma instrumento?
 - Não. No outro dia, sonhei que sabia tocar flauta e acordei a pensar que se tentasse... - falava como se falasse sozinho, como se de repente a Princesa Sem  Rosto, ganhasse feições. O som da gaitinha  parecia falar aos céus ou pelo menos a uma realidade ainda por descobrir...  não a realidade da vida de todos os presentes. Todos eles se tinham aventurado ou foram obrigados a serem personagens de um romance entre aquela embarcação e o mar. Pairava a incerteza,  se a rota escolhida os abrigaria da desgraça ou os atiraria a ela.
 - Toma, experimenta- o escrivão arrebatava-o dos seus pensamentos, ao entregar-lhe uma flauta.
 Luís mirou o instrumento musical. E se a princesa se tornasse real?
            - Experimenta- insistiu João- Só sabemos que conseguimos ou não fazer alguma coisa, se tentarmos.
 Luís fechou os olhos e dedicou todos os sentidos ao som que o gaiteiro emitia. Tentou entrar no momento certo. O mar acalmou e a lua pasmou. Muitos encostaram-se e dispuseram-se a escutar.
            Pouco depois mais alguém emprestava a voz à gaitinha e à flauta.


Aqui não existem barcos em movimento
o azul  eterniza o meu olhar molhado
distraído na ave solitária que ao sabor do vento
brinca num raio de sol que parece abandonado.

Lembra-me o menino da minha verde aldeia
que, sonhava, acreditava...  após o dia duro
que as leis do mundo, jamais seriam a cadeia
mas sim o templo iluminado do seu futuro.

Desse menino, resto eu, aqui atormentado
olhando o mar e o céu com um gemido
onde nenhum outro  barco, contraria este aqui parado
que revela  tão feios segredos no meu ouvido.

Que manhoso  este calmo vaivém
que não teme deste mar, a sua imensidade
com o ar igual àquele que finge vir por bem
quebrando os meus sonhos sem piedade.

Por um momento a gaitinha e a flauta calaram-se, seduzidas pela voz tão refrescante para a alma, como as gotinhas do mar para a pele. Foram apenas uns segundos. De novo o trio oferecia um momento de descanso e paz. Passado o momento musical o escrivão perguntou a Luis:
 - Onde tens dormido?
            - No porão.
            - Tenta dormir cá em cima. É menos perigoso e um pouco mais saudável.
            - Está bem. Vou procurar os meus amigos. Boa noite senhor.
 - Até amanhã rapaz. Descansa.

A partida do Dinis


Luís encontrou os amigos. Estes já tinham decidido dormir no convés.
 - O Dinis não está bem- alertou Casemiro - temos que encontrar o médico.
  -E onde estará ele? Espera vou chamar o escrivão.
 Pouco depois o escrivão chegou, acompanhado por um outro homem. Este abeirou-se do corpo frágil. O pequeno doente  gemia e delirava.
 - Mas eu ontem vi o senhor a fazer a barba a alguém- exclamou Luís, piscando os olhos incrédulo.
            -Ele é o barbeiro cirurgião. Não tem muita cultura mas é habilidoso.  Faz a barba, trata das das cabeleiras... mas também sangra e trata feridas. Ah, também arranca dentes- segredou  o escrivão a Luís, tentando quebrar um pouco a sua alfição.
            - O rapaz está muito fraquinho. Falta de alimentação adequada e água fresca. 
            -Que podemos fazer por ele?- perguntou João.
            - Não sei. Se fica aqui no convés, as noites são frias e os dias muito quentes. Se o levamos para o porão, fica misturado com toda a carga e todos os animais.  Isso só vai piorar o seu estado. E ainda por mais, com aquele  amontoado de gente doente. Morrem como bandos de gafanhotos, sem que possamos fazer alguma coisa.
            - Sei. Quando entramos a bordo nem imaginamos o que nos espera. Vou levar o rapazinho para os  meus aposentos.
            -Sr, isso é um perigo! O rapaz tem muitos tremores e febre, Nao é bom sinal. Muitos têm partido com cólera e peste. A cólera e a peste são duas malvadas. Mais fortes e mais sabidas do que nós, que ficamos para cuidar dos que ficam doentes. Que Deus nos ajude!- rogou o barbeiro-cirurgião.
            Levaram Dinis para o quarto do escrivão. Deitaram-no e ele nada sentiu. Apenas gemia.
            - Se eu lhe der água ele não norre?- perguntou Luís.
            - Podes ir dando um pouco de cada vez, mas não muito. Os outros também precisam.
            - Vão os dois descansar. Eu fico aqui com ele-  disse João.
            Casemiro e Luís desceram até ao convés e deixaram-se ficar a olhar o mar que se confundia na noite escura. Luís deitou- se sobre as tábuas da nau e tentou contar as estrelas. ``Conseguirei eu escapar desta para encontrar,  Prestes João e a Princesa Sem rosto?  Sentiu uma náusea na alma.
``De que serve os homens ganharem numa luta contra uma tintureira se não conseguem vencer  bichinhos invisíveis que lhes minam o corpo?``


 Sentiu um raio de sol. Talvez o primeiro do dia. Parecia que tinha tido um pesadelo. Não, não. Dinis estava mesmo mal. Levantou-se e correu para o ver.
 - Não Luís- avisou-o o escrivão- já se foi.  
Luís engoliu em seco. Olhou o céu. Parecia que ia chover. Talvez o céu também quisesse chorar.  Olhou para as acomodações próprias do comandante. Viu mais adiante o capitão-mor e o piloto orientando a navegação. Os  carpinteiros... restaurando alguma parte  da nau. Os Tanoeiros fabricando pipas. Num outro lugar estavam os dois Trinqueiros a repararem as velas dos navios e os marinheiros assegurando a navegação da embarcação que continuava de velas erguidas à procura de lugares desconhecidos e prováveis tesouros. Enquanto tudo isso, o pequeno corpo  de Dinis era lançado ao mar. Seria tragado pelas águas que escondiam grandes mistérios. Talvez fosse comido por uma algum peixe vingador . Talvez uma tintureira, que desconhecia que Dinis era inocente pela tortura dos seus semelhantes. Queria chorar, gritar.  Piscou os olhos. A alma dorida, dobrou-lhe a boca num gesto amargo. O queixo tremia quando olhou o escrivão, mas não chorou.

            - Rapaz, chega de choradeira. Há trabalho a dobrar com a falta daquele, que já os peixes o têm. Mas hoje podes assistir à missa.
 Na hora da missa, muitos paravam para assistir.
 - Sabes rezar?- perguntou Casemiro.
            Não- nunca aprendi. A minha mãe não teve tempo para me ensinar.
            - Pois se queres aprender a orar, entra no mar. Então, aproveita- segredou-lhe alguém, que certamente tinha escutado o diálogo dos dois jovens- aqui, mesmo que não acredites em Deus, a aflição leva-te a rogar por ajuda, a alguém doutro mundo.
 No castelo da proa exibia-se o aparato religioso.
- Aqui também quem quer, faz confissões. Vais confessar-te alguma vez?
 - Eu não? Para quê ? Para ser castigado?
            - Castigado, porquê?
 - Ora, se eu for confessar a fruta e algumas coisas mais que roubei para matar a fome e outras obrigado pelo meu pai... não sei,  não...
            -Estás parvo... que castigo maior podes tu ter, do que este? Preso neste casco de madeira, que quis trazer quase o mundo inteiro?
            - É verdade o que se diz por aí?- perguntou Luís.
            - O quê?
            - Que muitos fizeram doações para as casas religiosas,  em troca da ajuda de Deus, durante a viagem.
            - Dizem que sim, mas parece que não valeu de muito. Quem fica a esfregar as mãos, são as instituições... muitos não voltam a terra.


O horizonte

Numa  dquelas noites em que o sono não chega nem com o cansaço, Luís descansava os cotovelos na beira da nau . Fixava o mar e tocava flauta, como se quisesse embalar todas as criaturas do mar.  Veio quebrar este momento de encanto um homem que ria à sua frente e dançava como que querendo desafiar  o rapaz. 
            - Ei senhor,  não vê que estou a tocar? Quero ficar sozinho.
            - Eh eheh, estás a tocar.... lá, lá, lá. Tu tocas e eu danço. Assim... oh... oh...
E o homem dançava aos zizagues em frente a Luís. Este tentou ir embora, mas o intruso aproximou a sua cara da dele, rindo e mostrando um conjunto de dentes podres.
            - Por onde andaste pérola minha, que não te vi?
E dançava, dançava, tentando agarrar o pobre rapaz assustado.
            - Queres ir para o porão? Lá, os  homens como eu, contamos histórias lindas a rapazinhos como tu. Lá, lá... vá toca e dança comigo!
            - Hei, deixa o rapaz- gritou alguém.
 - Mau quem é este jeitoso?
 - Recolhe-te ou eu mesmo te levarei ao capitão- gritou o escrivão.
 - Falou sua alteza. Tem dito- respondeu o barbudo rindo. Depois virando-se para Luís estalou os dedos e falou num tom abafado- não me escapas, beldade.
 - Anda, hoje dormes nos meus aposentos. Tens que te manter longe de homens como estes. Alguns deles são prisioneiros.
- Mas se são prisioneiros, porque estão aqui?
 - Porque são precisos braços para trabalharem na cana do açúcar,  na terra para onde vamos.
            - E para onde vamos?
            -Para a Ilha da Madeira. 
            -Porque se chama lIha da Madeira?
            - Porque quando ali chegaram, todo o palminho de terra, encontrava-se coberto por árvores muito grandes.
- Quem lhe deu o nome de Ilha da Madeira?
 - Foi o Infante D. Henrique que  ordenou.  E assim fizeram.  Batizaram-na  como Ilha da Madeira.
            - Como fizeram para ficarem morar nela?
 - Tiveram que lhe deitar fogo.
            - Xhiii... não deve ter sido muito bonito. E é isso o que eu vou fazer também? Tabalhar na cana do açúcar?
 - Não sei. É bem capaz. Vá, hoje dormes aí. Eu não vou dormir. Tenho muito que fazer. Depois descanso mesmo aqui sentado.
 Luís deitou-se. Naquele espacinho de tempo muito pequenino, de quem sabe que ainda está um pouco acordado, mas que vai rapidamente adormecer, pensou:
 - " Que bom, adormecer, assim, ao lado de alguém que nos dá atenção."  

 
O adeus ( O mundo da lua)

 Os dias passaram. Todos cheios de luta.
            - Olha, estão a dizer que já se avista o lugar para onde vamos- exclamou Casemiro.
- A Ilha da Madeira?- perguntou Luís, enquanto levantava a cabeça para ver. Limpou a testa suada, enquanto  afirmava o olhar no vasto horizonte. Através dos fortes raios solares, visualizou algo que lhe parecia uma mancha verde no meio do oceano.
            - Parece bonito- disse Luís, num tom pouco seguro.
            - Ei, mais alegria nesse " parece bonito". Parece um paraíso- exclamou Casemiro, maravilhado.
  - Às vezes, eu acredito que o paraíso só existe nos meus sonhos.
Casemiro voltou as costas ao ar lunático do amigo, desencantando  um resmungo entre dentes: ´´ Estás sempre no Mundo da Lua.´´
 Luís, subiu as escadas e foi ter com o seu amigo escrivão.
 - Entra Luís.
 - Senhor,  é verdade que aquilo que vemos,  é a Ilha para onde vamos?
 - É sim, mas eu não vou ficar. Eu vou seguir viagem para outras bandas. Faz parte do meu trabalho.
- E eu, não posso ficar com o senhor?
            - Não, tu pertences a quem te comprou e o teu destino deve ser ficar ali mesmo- respondeu o escrivão, levantando-se da mesa e indo até à beira da nau. 
 - E o senhor não me pode comprar?- pediu ele olhando para cima, como se quisesse encontrar a resposta no olhar  do homem.
            O escrivão, pousando a mão sobre o ombro do rapaz respondeu, sem coragem para o olhar:
 - Não, não posso.
 - Eu prometo que farei tudo o que o senhor desejar.
            - Não posso ter encargos desses. Nem sei se mo permitiriam.
            - Se o senhor encontrasse, só uma pequenina lei ou uma pequenina oportunidade, o senhor faria isso?
 O escrivão engoliu em seco, sem responder, olhou a ilha ao longe e disse:
            - Vês aquela grande rocha que entra no mar? Aquilo ali,  chama-se a Ponta do Sol. Será ali, que atracaremos. Em 1420, cerca de setenta e cinco anos atrás, quando João Gonçalves Zarco rondava a costa da ilha deu com aquela grande ponta, que entrava mar adentro. Pareceu-lhes que essa  grande e arredondada rocha, era iluminada pelo raios de sol e por isso ficou com esse nome. É muito bonito esse lugar. O sol brilha durante muitas e muitas horas. E tu, tenta disfarçar esse mundo da lua que trazes no fundo dos teus olhos. Nos teus treze anos tens de aprender a viver. Já és um homem e estás a navegar por estes mares, em pleno sec.xv. Anima-te!
            O rapaz tentou não aprofundar demasiado as palavras do escrivão. Se as interpretasse, teria que perguntar;  " A beleza do lugar onde vivemos, tem tanta importância para sermos felizes?  Porque é que à beira do grande Tejo, tive sempre que inventar, para poder sonhar que um dia seria indispensável na vida de alguém?
 Escondendo o olhar brilhante, provocado pela vontade de chorar, virou as costas e saiu à procura de algo para fazer. Agora sim,  precisava de trabalhar.
            Depois de tanta lida, sentiu que atracavam definitivamente. A azáfama era muita. Muitos festejavam o fim da viagem.
            - Vem cá rapaz. A tua viagem acabou aqui- informou-ou o guardião- ficas entregue a este senhor. Agora porta-te bem. Não te esqueças que ele te dará cama e mesa.
            Pisca-pisca, olhou de soslaio, piscando os olhos para que ninguém reparasse, que ele tentava ver quem era o seu novo dono. Pareceu-lhe apenas mais um homem. Para quê iludir-se? Tanto que se iludira pensando que o escrivão nunca o deixaria e... olhou para uns metros à frente e viu a figura daquele, que pensara ser seu amigo. Só agora reparava o quanto era alto. O escrivão olhava-o indeciso. Não sabia se deveria despedir-se dele. Reparando nisso, Pisca-pisca voltou-lhe as costas, sem mais olhar para trás. Que interessava? O amor e a felicidade só deveriam abundar no Mundo da Lua!
 Irónicamente ouviu a critica do seu novo dono:
 - Embora rapaz. Isto não há tempo para viver no Mundo da Lua!

Na Ilha do Sol


Não reparava muito na paisagem da ilha que todos diziam ser linda. Sabia que tinha muitas árvores, mas não mais do que isso. Sabia que apenas teria que obedecer. Há noite deram-lhe um caldo quente
            "Vá lá, muito melhor do que a comida da nau." - pensou.
            Procurou um canto para dormir na grande casa, que albergava tanta gente diferente.
"Tudo gente para trabalhar na cana do açúcar- tinha escutado"
 Tentou dormir mas não conseguiu. Levantou-se de mansinho e foi até à rua. Ouvia o barulho das ondas. 
 -" Parece áspero o mar!"- pensou.
  Olhou a lua e sorriu: 
            -"  Tu, sentes-te vaidosa por viver aí em cima? Eu sinto-me tão pequenino!" - falou para a lua. 
Pouco depois sentiu o sono chegar. Encostou a cabeça numa pedra e assim ficou até que, ouviu os primeiros rumores de gente a acordar.
            Tal como o escrivão lhe dissera; o sol brilhava sobre a grande rocha. Pessoas muito diferentes umas das outras, desfilavam em direção à cultura da cana do acúçar. 
            Com o decorrer do dia, verificou que todos trabalhavam rápido. Não sabia se conseguiria acompanhá-los, mas tentaria.  Pediu água a alguém. Enquanto bebia, uma ruga formou-se na sua testa. O  escravo que trabalhava ao seu lado movimentava-se rápido.
            - Que faz voçê? Se o chefe dá por isso, estou feito.
            - Deixa-me ajudar-te, senão não vais conseguir e será pior. Eu estou habituado ao trabalho duro. Eu consigo fazer o tabalho dos dois.
 Luis, sem se querer iludir, consentiu agradecendo sem nada dizer. Não sabia o ques se passava com ele. Sentia  que uma dormência tomava conta dele,  como se o convidasse sempre a deitar. As horas passaram e o rapaz sentia-se um pobre diabo.  Sem forças para enfrentar o resto do dia, que parecia ir desmaiando com ele.
 - Sem dares muito nas vistas tenta seguir-me- pediu-lhe o escravo.

Pairava o luar, mas o calor também. Já deitado sobre um pouco de palha, Luís percebeu que o homem o novo conhecido tentava dar-lhe um caldo. Sentiu mais tarde um pano fresco sobre a testa.
            No dia seguinte foi acordado por um pontapé nas pernas. Abriu um pouco os olhos pensando que ainda estava no barco. Mas não, o barco era outro. Sabia o que o esperava.  Dentro da sua cabeça tudo girava. Girava, girava... Girava Lisboa, o cais, os seus amigos, o seu pai, o escrivão, Dinis, a tintureira aos saltos. Não sabia o que seria mais seguro; se o vaivém da nau ao sabor das ondas se todo aquele império da cana do açúcar que lhe assaltavam os pés descalços.
            - Levanto-me já senhor- respondeu levantando a cabeça. Não foi por muito o tempo. Exausto, rapidamente foi obrigado a obdecer à vontade de permanecer deitado.
 - Senhor ele não vai aguentar. Deixe-o ficar , eu trabalharei por ele.
- Está doente? Mau! Logo trataremos disso. O trabalho não pode esperar. Se a colheita da cana se atrasa, terei grandes prejuízos.
 Luís deitou a cabeça. Tudo o resto desapareceu,  como se caísse num poço sem fundo.
Mais tarde, sem saber quando, sentiu de novo aquele pano molhado sobre a testa.
            - Temos de sair daqui rapaz,  senão eles deixam-te morrer.
O calor era insuportável. 
 - Que diabos- exclamou Luís, ao perder o olhar turvo, por aquela pequena cabana que não conhecia. 
            - Calma rapaz. Estás doente e eu trouxe-te para aqui para te tratar. Vá, bebe isto- ordenou-lhe a voz rouca do seu novo amigo. Seriam? Amigos? 
            - Há quanto tempo estou aqui?
 - Há quatro dias. Tiveste muita febre e estás muito fraco, mas vejo que estás a melhorar.
            - Como cuidaste de mim?- perguntou o rapaz ao homem que o olhava, com um sorriso de um deus, consciente do seu pequeno poder.
            - Agora somos dois fugitivos-riu-se o escravo.
            - Porque ris? Não tens medo?
 - Se eu tivesse medo já tinha morrido há muito tempo. Tens de ficar melhor e arranjarmos um plano para saírmos desta ilha.


            De repente alguém bateu à porta da velha cabana.  Trocaram um olhar. Luís seguiu os passos do seu protector. Pela primeira vez conseguiu definir a sua silhueta. Parecia alto, não demasiado

(continua)


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João Imitador


Sonhava em ser estrela do seu próprio sonho e por isso fugia da sombra,  a que a sociedade onde nascera e crescera  o tentara transformar. Ansioso por chegar às Índias,  tornou-se espírito, ainda que despercebido,  da  frota de treze navios com mais de mil  homens a bordo, comandada pelo nobre Pedro Álvares Cabral no inicio de Março do ano de 1500.
 Conforme a armada vencia os mares e os ventos,  ia dizendo adeus à lembrança da despedida, marcada  pela realização de uma missa solene na ermida do Restelo, à qual compareceu o Rei D Manuel I e toda a Corte. Perdia o olhar no  horizonte onde o mar e o céu se encontravam. Viajava seduzido pelo mistério do que haveria para além do que os seus olhos alcançavam, sem se sentir apavorado diante daquele universo azul.

 Trazia no coração os conflitos de uma alma lusa, de um país  onde a sociedade  contrariava a igualdade entre os Homens.  João Imitador,   assim conhecido por todos, porque desde muito jovem,  desenvolvia a habilidade de imitar o som de vários animais. Quando passava por uma moça, na falta de ter outro assunto, limitava- se em tom brincalhão a imitar o grasnar de um pato rouco, o piar de um mocho, o chilrear de um pássaro ou o sibilar de uma serpente como forma de galanteio. Algumas achavam-no engraçado, outras olhavam-no como uma forma pobre de cultura e espírito. Não era por mal que o fazia, mas a sua coragem corava e tecia-se de uma timidez, que disfarçava brincando. 

 -Ah, mas agora- pensava meneando a cabeça sobre o ombro esquerdo- não estarei muito longe  de tornar realidade, o sonho de um menino descalço brincando no cais, enquanto esperava crescer e viajar em um dos navios  que tantas vezes via chegar e partir.
 -Agora- repetia para si, com um sorriso que brindava à sua ousadia, em se aventurar num rumo ao paraíso ou às trevas. -Agora serei livre, livre!- gritava o seu espírito, não resistindo a lançar no ar o uivo de um lobo. Riu-se. Alguns tripulantes tentaram descobrir de onde vinha o som e não conseguira.

 Liberdade,  era mesmo a aventura que procurava para viver. Na terra onde nascera, não nascera escravo. Mas também não seria  escravidão, aquela  opressão que caíra sobre a classe do povo, mesmo que não tivesse nascido escravo?  
 O importante não era saber se chegaria vivo a algum ponto da terra, mas sim que se tinha feito um homem livre  ao  pagar uma viagem sem regresso com o seu trabalho como grumete. Temeria as horas, que passaria a lavar os pratos onde comiam os grandes senhores?  Não. Nem o incomodaria  a água suja e fria, que lhe desbotariam os pés  quando com um balde na mão lavasse o  chão, já que sapatos apenas os tinha visto nos pés dos mais afortunados. Era apenas um bilhete para a liberdade. Olhava todos os tripulantes, todos humanos, mas todos tão diferentes. Era do povo, mas não se intitulava de tolo. Sabia ver para além  do que muitos outros viam. Sabia que o  rei procurava fama, prestígio e rendimentos para a coroa. Os clérigos e os nobres usavam a cristiniazação e a conquista para servir a Deus e ao Rei, mas não o faziam desinteressadamente, pois almejavam sobretudo o lucro material. Também os mercadores corriam atrás de bons negócios. Sorriu, meneando de novo a cabeça sobre o ombro esquerdo. Entre trabalho e sonhos aguentou a viagem,  mais longa do que ele imaginara.  Foram muitos os  dias, uns calmos,  outros de grandes lutas contra os ventos e os mares,  que por vezes pareciam filhos  de deuses zangados. Às vezes, João Imitador,   ria para o mar e dizia: 
 -Afinal acabas por ser como o Rei, queres o poder absoluto. Quando estamos tranquilos, admirando a tua beleza, tu...  traz! - exclamou, acompanhando a expressão com um bater de palmas.
 - Reviras tudo e ruges como um leão!
  Além do trabalho,  ainda tinha algum tempo para espreitar os registos do escrivão Pero Vaz de Caminha, quando lhe ia limpar o quarto. 
 -Bom homem, este!- pensava João, sempre que tentava entender o que o escrivão tanto escrevia. Acontecia às vezes, que alguém lhe interrompia esses momentos em que tentava decifrar os papeis do escrivão. Era a voz irritante do papagaio, a ave companheira do capitão. 
  - És burro, és burro!- palrava, batendo as asas. 
 - Hum, mais respeitinho! Tu sabes voar, mas vais estar sempre preso nos ombros do teu capitão. Eu, quando pisar terra nova, serei livre, livre, ouviste! - gritou, meneando a cabeça com força sobre o ombro. O papagaio, indiferente  voou para fora, gritando também: 
 - És burro! És burro!
Livrou- se o papagaio da resposta, pois o sentido auditivo de João,  ficou retido  nos gritos que vinham do convés. Gritos que o fizeram correr escada acima. 
 - Terra à vista! Terra à vista!- gritavam. 
 - São as Índias? - perguntou João avistando um monte alto e redondo com serras mais baixas a sul.
 - Não- alguém lhe respondeu. Dizem que é o Monte Pascoal, porque estamos em tempo de Páscoa.
 -Querias Índias? Querias Índias?- parecia rir o papagaio. 
 - Cala-te pássaro palerma. Para mim tanto faz. 
 João corria o convés de boca aberta,  sentindo toda a frota como um rumor abstracto,  engolido pelo mistério da terra da liberdade. Mas teve de esperar dois longos dias, até encontrarem o ancoradouro Porto Seguro.

  João não dizia nada. Olhava para a praia,  onde um desfile de gente que nunca tinha visto,  nem sequer imaginado que poderiam existir,  subiam a bordo curiosos. Alguns  provavam a comida e o vinho que os navegadores portugueses lhes ofereciam, mas deitavam fora, com a expressão de quem não gostava.

 - Também, porque precisariam eles da comida dos brancos? Eram mais fortes e bonitos do que eles- pensou João.

 Reparou também que aquelas pessoas  a quem ouvira chamar de indígenas, não deram importância à vestimenta e adornos de Pedro Álvares Cabral, próprias de um capitão-mor.

 - Gostei- sorriu, sussurrando  entre dentes. Sorriso que se apagou,  quando reparou  que  os indígenas reconheceram o palerma do papagaio como animal, o inimigo da sua viagem, enquanto ignoravam todos os outros animais que lhes iam sendo apresentados. Depressa esqueceu este episódio,  arregalando a vista  naqueles personagens completamente nus, todos rapados e pintados,  que desfilavam perante o mundo novo que acabara de invadir o seu paraíso. João depressa esqueceu toda a tripulação. Tudo o que aprendera sobre  o mundo, agora parecia mentira  diante de tanta inocência livre. 
 - Que liberdade será esta?- perguntou-se, retendo o olhar em  uma das mulheres de cabelos  longos e negros, que  sorria numa nudez exposta que não causava vergonha.  João coçou a orelha, pendendo a cabeça mais do que nunca e exclamou: 
 - Lá se foi a minha liberdade!- sentindo vontade de balir como um cordeiro.
 Perdendo a timidez, colou o olhar à jovem moça que lhe respondeu com o sorriso mais belo que tinha visto,  estendendo-lhe a mão com naturalidade. Ambos sorriram e perderam-se  entre a vegetação. Que linguagem usaram,  ninguém sabe.  
 No domingo, 26 de Abril, todos assistiram à primeira missa, dirigida por Frei Henrique de Coimbra. Enquanto ouvia o discurso do Frei, João Imitador pensava que não iria ser muito fácil evangelizar aquele povo, mas era assunto que não o preocupava.   
 Depois da missa, a frota de Pedro Álvares Cabral,  rumou para as Índias. Alguns  não quiseram partir,  atraídos  pela vida sem obrigações que os indígenas levavam. João  foi um dos que decidiu não ir mais longe, porque ao chegar à Terra de Vera Cruz, sentiu que tinha encontrado o  lugar  ideal para viver e amar em liberdade.  Era um Novo Mundo, como todos já lhe chamavam,  que um dia pertenceria a um país que  viria a ser chamado: Brasil. 
 Desta vez,  João Imitador, não largando a mão da sua amada, ficou a olhar a transformação da frota  que o tinha trazido, em  figurinhas oscilantes de barcos de papel,  que se afastavam e desapareciam  no universo azul. Olhou Estrela, o nome com que baptizara a sua companheira, sorriu e não resistiu a  imitar,  o relinchar  de um cavalo imponente e senhor da sua vida. 



O casamento

João Imitador olhava  o firmamento, enquanto a sua amada dormia calmamente nos seus braços, numa rede que supunha ter sido usada por outros índios. O sono ainda não conseguia vencer todas as emoções causadas pela sua aventura. Sentia que nem todos dormiam, pressentindo  na densidade da noite,  alguns movimentos secretos, respirações e olhares  escondidos, espalhados por toda aquela grande extensão de terra, que parecia desaguar do mar e recolher-se na enorme vegetação que falava secretamente de vida... de vida desconhecida,  mas intensa e que parecia viver ali há séculos.  Todo o ar misterioso daquele real reino, trazia-lhe de muito longe, o  burburinho que em Lisboa se fazia sentir em relação aos descobrimentos. Descobrimentos? Eles apenas tinham encontrado um belo pedaço do mundo,  já habitado por seres diferentes, mas humanos. Ainda não tinha a certeza se alguém vigiava a noite para que outros pudessem dormir. Talvez essa sensação  fosse apenas causada pelas lendas que ouvia desde criança,  de que uma grande floresta pode ser guarida de fantasmas nocturnos. Adormeceu no descanso de que estava bem longe de um mundo para o qual não queria voltar.
  A aurora despontou após algumas horas e acordou João de um sono misturado com sonhos e realidades.  João abriu com dificuldade os olhos, sem saber se a bola de luz  que nascia ao longe, era o sol ou outro mundo novo. Pensava que ainda estava no navio, mas suspirou de alivio  ao ver Estrela deitada ao seu lado. Afagou-lhe os cabelos. Nunca antes tinha tocado nos cabelos de uma mulher. Suspirou sorrindo, ao lembrar que nunca tinha sido homem com nenhuma outra mulher. Estrela acordou. Acordavam ambos para a realidade. Não havia nenhuma  palavra em comum que pudesse ser trocada entre os dois. Apenas o sentimento podia falar através do olhar, dos gestos e das acções. E isso sentiam. Ainda não tinham noção dos obstáculos que teriam que enfrentar, mas inexplicavelmente sabiam que os enfrentariam juntos. Sorriram e  de olhar fixo  levantaram-se, passeando pela praia,  acordando as calmas ondas do grande mar agraciado pela  Mata Atlântica, com árvores altas e tão verdes. O clima,  a terra , as plantas e os animais eram certezas nítidas, apesar de tão  diferentes da paisagem que perfumava o irrequieto e pequeno Portugal.
 Depois de um mergulho nas águas frescas do Oceano Atlântico do Sul, dispuseram-se a deixar a praia. João tinha curiosidade em saber o que haveria para além de todas aquelas árvores. Antes de entrar na  floresta , viu que alguém corria ao encontro deles. Um jovem índio, de aparência robusta e ar alegre falou para Estrela algo que João não entendeu. Não devia ser noticia má, pois Estrela olhou João e sorriu, aconchegando a  mão entre as suas. Aqui estava um problema que teria que resolver. A língua dele, trazida de Entre Douro e  Minho, a sua terra natal e desenvolvida em Lisboa nos últimos dois anos que lá viveu, não o ajudavam em nada, perante tantos índios que falavam uma língua que ele não entendia. Mas confiando nos dois, seguiu-os e embrenharam-se os três por entre a vegetação. Para seu espanto, chegaram a uma aldeia, onde havia algumas casas compridas feitas de madeira e cobertas de palha. Não eram demasiado altas , mas de altura suficiente. O jovem índio, indicou-lhe que entrasse numa delas. Entrou por uma das duas portas existentes na casa. Ao entrar viu que não existiam divisões, mas sim vários esteios aos quais balouçavam presas,  redes altas que certamente aconchegavam o sono de quem nelas se deitasse. Apesar da hora do dia ser aproveitada para andar na rua, João reparou que aquela casa albergava várias famílias. No canto direito, encontrava-se um índio, sentado na sua rede,  com uma fogueira já apagada, mas que certamente tinha servido para aquecer a noite. João não sentiu medo quando o homem  o mandou sentar. O assunto deveria ser sério, pois tinha  diante de si o Cacique da aldeia, ou seja aquele que desempenhava a função de chefe daquela tribo. Gostou dele. Ele tinha um ar simpático e cortês. O índio que os fora chamar à praia, saiu e ficaram apenas os três.
 - Homem  amigo- eu sou , Caué ( homem sábio e bom), quero aceitar-te, em nome de toda a tribo, como um dos nossos dando-te Estrela como esposa.
 João sorriu feliz. Não entendia as palavras,  mas entendia a intenção. Parecia que Caué se esforçava por falar uma linguagem mais fácil  com ele. Sentiu a mão de Estrela apertando a sua e riram os três como se tivessem sempre pertencido ao mesmo mundo. Veio uma índia e levou a sua companheira.  Caué, reparando na breve tristeza que marcou o semblante de João,  sossegou-o  oferecendo-lhe uma cobertura de penas vermelhas e verdes, para cobrir a cabeça .
 - As cores de Portugal- pensou João.
 O chefe colocou-lhe nas mãos, um arco preto e comprido e uma seta  também comprida e feita de uma cana aparada. João reparou no olhar de Caué que parecia zombar de algo que havia nele. Ansioso por querer saber o que provocava aquela expressão irónica do índio, passou um rápido olhar por si mesmo e concluiu que era o trajo português que ainda trazia vestido. Esboçou um sorriso que traduzia embaraço. Coçando o queixo, pensou:
  -Ai, ai! Agora é que são elas! Acho que posso habituar-me a tudo, menos a andar nu. O índio pareceu adivinhar os seus pensamentos e riu, oferecendo-lhe uma cobertura de penas e fazendo-lhe um sinal de que podia cobrir as suas intimidades. Batendo com as pontas dos dedos na cabeça, dispôs-se a fazer a vontade ao chefe. Depois disso, Caué pintou-lhe metade do tronco e uma perna de preto e vermelho.
 -Ainda bem que não tenho nenhum espelho-  pensou sentindo um estranho conforto.
 -Viva a aventura!- exclamou em silêncio.
Quase em sentido, como um soldado, esperou que o chefe também se preparasse. Estremeceu quando o viu colocar na boca, um osso enorme como enfeite.
 - Isso não. Cá furarem-me os beiços, é que não!
 Saíram os dois para a rua. João ficou admirado como em tão pouco tempo a aldeia se tinha transformado num pátio de festa.. Por indicação dirigiu-se ao Pajé, do qual já tinha ouvido falar. Pelo que tinha entendido, era o responsável pela transmissão da cultura e do conhecimento,  cuidando da parte religiosa e medicinal, através da cura com ervas, plantas e rituais religiosos. Enquanto esperava a noiva, olhou todos os que faziam parte daquela festa. No ar voavam algumas pombas,  que   pareciam maiores do que aquelas a que estava habituado a ver em Portugal. Também papagaios,  uns pardos e outros verdes,
espreitavam curiosos entre as árvores.  Parecia um festival de cores. Todos se enfeitavam com penas de aves amarelas, vermelhas e verdes. Todos traziam a simpatia no rosto. Os homens pareciam ainda mais fortes ao sustentarem um ar solene, deixando adivinhar que o momento era importante. A graciosidade das mulheres,  acumulava vitorias em relação à das mulheres que passeavam pelas ruas de Lisboa.
 _ Se aquelas damas todas vestidas e enfeitadas pudessem ver a beleza natural destas mulheres, morreriam de desgosto e certamente a vaidade delas cairia no ridículo- pensou João- ah, mas a minha Estrela é a mais bela de todas!
 Interrompeu os seus pensamentos,  o toque de um tamborim e de uma gaitinha, certamente uma das trocas que eles tinham feito com os navegadores portugueses. Dois  índios  mais velhos tocavam alegremente, enquanto os outros acompanhavam o ritmo do instrumento musical com o som de palmas organizadas. João  olhou para trás e o seu rosto rasgou-se num sorriso,  para a imagem de sonho que se dirigia a si! A sua amada trazia o negro e farto cabelo,  caído pelos ombros, cobrindo os seios, que sabia serem magníficos. Uma flor branca despontava na perfeita  negrura do seu cabelo. O seu andar lento e atraente exibia a pintura em uma das pernas, realçando a cor natural da outra perna. A sua nudez estava pintada como se usasse uma tanga. Não existiam olhares maliciosos. João sentia que a mulher era respeitada naquela pequena sociedade, tão ignorada no mundo de onde vinha. Atiara, o pajé,  dispunha-se iniciar a cerimonia,  quando de repente  algo  sacudiu fortemente o movimento quase parado de uma  árvore.  Acontecimento que obrigou a todos a desviarem a atenção para o local de onde partira o ruído. João cerrou os olhos tentando ver melhor a criatura que escondia a cabeça debaixo da verde asa. Debaixo da asa desse ser, saia uma voz um pouco envergonhada:
 -Querias Índias! Querias Índias!
 João recusava-se a acreditar. Avançou até à árvore onde se encontrava o papagaio que parecia gozar com ele, com a esperança de que não fosse quem ele pensava que era. Mas era! Rugiu como um leão enfurecido, mas num rugido que expressava admiração e emoção.
 - Papagaio palerma, que fazes tu aqui? Onde esta o teu capitão?
 - Capitão quer Índias! Quer Índias! Papagaio quer liberdade, liberdade!- exclamou ainda envergonhado e imitando o balir de um cordeiro.
 - Ah papagaio espertinho, aprendeste as minhas habilidades!- respondeu João que não resistiu  a esquecer  o papagaio chato,  que o tinha aborrecido durante toda a viagem, aceitando-o como amigo. Afinal ele também procurou a mudança. Inclinou a cabeça sobre o ombro esquerdo e  ofereceu o ombro direito ao papagaio, que prontamente aceitou  aquele  lugar de honra e assistiu orgulhoso ao casamento,  talvez saboreando a mesma liberdade de João. A cerimonia terminou com aplausos e musica. Era um novo homem, sem saudade daquele que fora antes. Ali sentia a igualdade e pela primeira vez, era tratado como alguém que merecia respeito.
  O  papagaio corou quando Estrela o olhou sorrindo e não resistiu a dizer:
  - És bonita, és bonita! João é feio!  João é feio!
 O noivo conseguiu conter o impulso de replicar à provocação,  prometendo que o papagaio teria a resposta mais tarde. Estrela sorriu, pressentindo de  que viria a ser testemunha de muitas brigas entre aqueles dois.


Integração

João imitador estava cada vez mais apaixonado pela terra grande, onde não existiam classes sociais como na do homem branco.  Habituado à desigualdade social em que cresceu, regozijava-se ao verificar que ali  todos tinham os mesmos direitos e recebiam o mesmo tratamento.
 Uma manhã, bem cedo, partiu com um grupo de índios para irem à caça.  João seguia um pouco receoso aqueles heróis da terra mágica. Seria a primeira vez que participaria de uma caçada. O papagaio pendurado no seu ombro, como sempre tinha a capacidade de o pôr mais nervoso.
 - Vais a caça?- atiçava-o o papagaio.
João fez sinal que se calasse. O papagaio pareceu entender o recado.
Aqueles homens fortes, tornavam-se verdadeiros plumas ao pisarem o chão da densa  floresta. Como sombras ágeis, venciam  caminhos a que eles já estavam habituados, mas nos quais tentavam que a sua passagem não deixasse danos. João admirava o respeito dos índios pela natureza. Usavam-na apenas para sobreviverem. Apesar de precisar de algum esforço para acompanhar todas as tarefas que competiam aos homens da tribo, era um prazer concretizá-las e lutar por melhorar em cada uma delas. Gostava de cortar madeira, de pescar, mas para caçar não tinha muita habilidade. Ia embrenhado nos seus pensamentos e seguindo atentamente o passo dos seus amigos, quando lhe chamou a atenção um pequeno ruído. Parou e fez sinal aos companheiros que escutassem. Todos pararam em silêncio. Os índios entenderam rapidamente o ruído e sorriram. Num sinal silencioso João deu a atender aos companheiros que o deixassem a ele avançar. O papagaio imaginando o desastre que poderia sair dali, voou para uma árvore e escondeu a cabeça debaixo da asa. Os índios ficaram estáticos e apreensivos. João queria mostrar que conseguia domesticar um porco do mato. Porque era um porco do mato que passeava sozinho pela mata e cortava o silêncio com o seu grunhido. João avançou devagar imitando um grunhido igual ao do porco, como se tentasse comunicar através da mesma língua. O porco olhou de frente mas não se convenceu e virou costas a João. Este impaciente correu atrás do porco, grunhindo também:
 - hag,hag,hagi,gui,gui,guiiii.
Mas o porco fugia gritando:
- hag,hag,hagi,gui,gui,guiiii.
João não sabia se o porco tinha medo ou  se estava a brincar com ele. Por um curto instante conseguiu agarrar o seu  rabo,mas logo  o rabo do porco se escapou entre as suas mãos. Os índios já riam e o papagaio espreitava entre a asa já grunhindo também. Mas João não se dava por vencido. Queria chegar  à aldeia com um porco domesticado por ele. O animal não parava e numa das voltas que deu, João atirou-se sobre ele, mas caiu no chão porque o porco correu mais rápido. Os índios riam a bom rir e o papagaio também imitava o riso deles. Ofegante e quase desanimado, sentou-se um pouco. Com a cabeça entre as mãos planeava uma forma de apanhar o porco. A pouco e pouco foi levantando o rosto ao pressentir algo perto dele. O porco olhava-o grunhindo, como se lhe dissesse:
 - Não precisas de te cansar tanto. Tens-me aqui.
João querendo ter bem a certeza, olhou-o e estendeu a mão até ao focinho do porco, que lhe respondeu novamente com um grunhido. Todos já pareciam saber grunhir. 
Nesse dia a viagem pela floresta não durou muito tempo e voltaram cedo ao acampamento. João estava ansioso por mostrar a sua conquista a toda a aldeia, mas sobretudo à sua Estrela.
 Quando chegaram à aldeia, as mulheres ocupavam-se nas suas tarefas, sobretudo a cuidar da alimentação da tribo. Procurou Estrela, mas não a viu  entre as outras mulheres. Entrou dentro da casa e encontrou-a deitada na rede.A sua mãe  acompanhava-a. Aflito tentou saber o que se passava. A mãe de Estrela sorriu e tocou no ventre de Estrela, indicando de que ela estava grávida. Estrela, apesar do seu rosto pálido, sorria e puxou João para si, tentando secar uma lágrima que ele deixava correr livremente sem se sentir envergonhado. Ajudou a sua mulher a levantar-se e saíram para a rua, onde todos já pareciam saber da novidade. 
 Todos comeram, cantaram e dançaram.
A noite chegou calma e morna. João ainda emocionado, conduziu a sua companheira pela mão até à beira do rio,  cujas águas cantavam num som puro como o cristal. Era como se sentisse o império da natureza a crescer no ventre da sua amada. Olhou o céu, disparou o olhar nas incontáveis estrelas, sentiu o perfume da floresta  adormecida e agradeceu aos deuses. Não sabia em que Deus deveria acreditar, mas agradecia aquele que fosse real. Não lhe importava se fosse o Deus do Frei Henrique de Coimbra, se  os Deuses dos  indígenas que os faziam acreditar nos espíritos dos seus  antepassados e nas forças da natureza. Prometia sim, diante de todo aquele poder silencioso,  que educaria o seu filho na prática daquele povo que o tinha acolhido. Treiná-lo-ia desde criança, deixando que o acompanhasse na caça e na pesca. Ensiná-lo-ia a fazer os seus próprios instrumentos de trabalho  desde o machado, arcos, flechas e arpões, para que quando atingisse os seus 13 ou 14 anos pudesse estar preparado para ser homem. Se fosse uma menina, sorria na certeza de que aquela que escolhera para partilhar a vida, seria uma boa e meiga mestra nas tarefas que competiam às mulheres da tribo.
 Nessa noite, João e Estrela dormiram debaixo do céu, cobertos por uma pele de animal, numa rede feita de algodão.


O nascimento de José
  

Enquanto o ventre de Estrela crescia, tornaram-se habituais os momentos  em que ela se sentava sobre a terra quente, brincando com os cabelos e afagando a barriga, como se dissesse ao pequeno ser que guardava   no conforto do seu corpo:- o teu pai está ali! Olhava o seu marido embevecida ao sentir que a amizade  entre ele e a tribo  cada vez se tornava mais forte. A sua cor anterior de um moreno pálido, reluzia agora pela constante exposição ao ar livre. Enchiam o ar, as vozes alegres do grupo que vigorosamente desenvolviam braçadas no mar forte.  Um certo momento Estrela notou que João apontava para longe e que a seu conselho todos voltaram para a praia. O jovem que tocava gaitinha ao seu lado deixou de tocar. João correu para Estrela e pegando–lhe na mão, fez-lhe sinal de que se afastassem da praia. Os índios ainda não entendiam muito bem a preocupação de João sempre que avistava uma caravana ao longe, mas como o respeitavam também o seguiram. Ficaram escondidos entre as árvores como sombras, olhando o barco que ao invés de se aproximar seguia outro rumo.  Por vezes João vivia um pouco preocupado, pois sabia de algumas  visitas e rondas de estrangeiros e até de piratas, por causa do Pau-Brasil que abundava  naquela terra gigante.
 Quando entraram na aldeia sentiram a azafama conjunta na preparação da ceia, como em Portugal lhe chamaria. Embora por vezes em Portugal ``a ceia fizesse cara feia``como ele costumava dizer sempre que não havia nada para comer. Sentaram-se no chão e foram comendo o peixe que tinham pescado há umas horas atrás. João e Estrela comeram um pouco de mandioca, enquanto alguns escolhiam a batata doce.  A um dado momento João engasgou-se, o que ia começar a provocar risos nos outros, quando repararam que ele estava assustado porque Estrela deu um sinal de dor. As mulheres mais velhas sorrindo,  acalmaram-no e levaram a jovem mãe para uma das casas. João também queria ir, mas esperou cá fora rodeado pelos outros. O silêncio era grande. Até o papagaio não falava. João olhava todos por olhar. Não via ninguém. A sua alma passava por tantos estados que o deixavam confuso. Não sabia se havia de rir ou de chorar. Se devia ficar de pé quieto ou  correr. Finalmente uma mulher saiu. Buscava no seu olhar a confirmação através de um brilho ou uma expressão. Mas parecia que a mulher demorava demais a compreender que ele precisava saber. Ela parecia não lhe ligar e viu-a dizer qualquer coisa que não entendeu, aos dois velhos índios que costumavam tocar. João entendeu quando viu o sorriso dos músicos que se dispunham a usar os seus instrumentos musicais para festejar algo de bom.
 -Ah! Ah! Ah!- João ria possuído pelo ritmo da música e da dança que a tribo iniciou, agarrando em João e rodando com ele, festejando o nascimento do seu filho.
 -Meu filho! Meu filho! Ah,ah,ah- Ria  e agia como um palerma. 
Quando o deixaram entrar,  correu e beijou Estrela olhando o pequeno ser que chorava. João cheio de um olhar terno, onde não cabia tudo o que sentia naquele momento, falou para a criança:
 - Estavas melhor lá dentro não era? Mas já estava na hora de saíres malandreco.
 Calou-se ao dizer isto, porque ainda nem sabia se tinha um filho ou uma filha. Estrela entendeu e com um sinal revelou-lhe que era igual a ele.
 - Ah, ah- ria de novo- um menino? E como se vai chamar?
 Estrela mostrou a vontade de que fosse ele a escolher. João lembrou-se do pai. Por muito que se fugisse,  haveria sempre momentos em que a voz das raízes não se calavam.
 - Pode ser José? - perguntou à sua companheira. Ela tentou pronunciar o nome, não saiu correcto, o que provocou uma gargalhada emocionada entre ambos, mas ele entendeu que ela concordou. Depois do bebé bem cuidado e amamentado, João deitou-se na rede mais próxima com o filho deitado sobre o seu peito. Estrela adormeceu sorrindo. João tentou lançar um paralelo entre este momento e com algum da sua infância, mas não conseguiu. As lembranças que tinha,  estavam  marcadas pela vida árdua que os seus pais tinham tido para criar  nove filhos. O tempo não chegava para dar muito amor, porque na hora do  descanso eles estavam sempre demasiado cansados. Por isso teve muitos momentos livres para imaginar uma vida diferente. Deixou os seus pais aos dezoito anos e viajou até Lisboa. A grande cidade depressa engoliu os sonhos que o tinham feito ir até lá. Fez alguns amigos. Tão pobres quanto ele.  Quando começou a frequentar o cais do Rio Tejo,  os seus sonhos voltaram-se para terras mais longínquas. E aqui estava. Passado dois anos, com vinte e dois anos de idade, com o seu filho dormindo sobre a pele do seu peito, sem saber sonhar ainda, mas João já sonhava por ele.



A partida

José completara dois meses. Estrela ainda não participava nas colheitas ou nas plantações, mas já ajudava a preparar as refeições. Para o pequenino José, arranjaram um suporte de pano para se manter aconchegado à sua mãe. Maria conseguiu entender o que um dia o marido lhe pedira:
 - Gostaria que usasses um pano comprido, apenas um e que o atasses sobre o teu peito. Não quero que penses que é por desacato aos vossos costumes mas para te proteger. És demasiado bela para os intrusos estrangeiros que às vezes nos visitam. E eu  quero viver muitos anos contigo.
 João não soube se ela entendeu tudo o que ele falou mas viu que entendeu o suficiente, talvez através dos  gestos com que acompanhou as palavras. Viu-a falar com a sua mãe, a  qual olhou o genro e sorriu. Parece ter entendido, porque rápido trouxe um tecido e o atou no peito de Estrela apertando-o com um simples nó. 
 Mais uns meses se passaram e  com a tribo organizada tudo decorria normalmente.Todos cumpriam as respectivas tarefas consoante o sexo e a idade. João estava completamente adaptado.
 Um dia tinha chegado um pouco mais tarde à aldeia,  porque tinha ido  com o grupo encarregado de uma derrubada de árvores, o que eles sempre faziam com cuidado porque respeitavam a natureza. Quando chegou, achou tudo muito quieto. Apenas algumas mulheres se entretinham com alguns objectos de cerâmica. Respirou aliviado porque viu Estrela a ajudar duas mulheres a cozinhar. Dirigiu-se a ela e perguntou onde estavam todos. Fizeram um sinal  em direcção à praia.João indicou à mulher que ficasse ali e que ia ver o que se passava. O papagaio seguiu-o pousado no seu ombro. Agora dividia o seu tempo entre João e Estrela.
 Ágil como um índio foi seguido pelos outros até à praia. Viram uma caravana. Viu os indígenas prontos a receber os navegadores. Eram portugueses. Aproximou-se e reconheceu um deles entres os recém chegados.
 -Marquês?- exclamou atónito. O nome dele verdadeiro não era Marquês. Era Francisco, mas ganhara essa alcunha porque desde muito novo dizia que um dia seria Marquês.

 - Olha o João Imitador- exclamou o outro, dando-se  a conhecer e pedindo um abraço.
João também o abraçou mas ainda não sabia o que dizer.
 -Eh pá, não fiques assim- exclamou vendo o ar ainda admirado do amigo. Sim, o Marquês tinha sido um dos amigos que arranjara em Lisboa.
 Os índios iam  recebendo, curiosos alguns objectos. Estes continuavam  amistosos e bons anfitriões para os portugueses. Entretanto João levou o amigo até à aldeia. Apresentou-lhe a mulher e o filho. Todos lhe ofereceram comida e outros ficaram encarregados de levar alimentos e água fresca ao resto da tripulação que tinha ficado na praia.
 Após tudo sossegado, João quis saber novidades e ficaram ambos pela noite dentro conversando.
 - Mas a vossa frota não é apenas esta nau. Onde está o resto? - perguntou João.
 - Ficaram por ai a reconhecer o território. São mais duas naus. A corte portuguesa queria saber se haveria por aqui alguma riqueza de metal, prata ou ouro. Mas parece que não. O que encontraram muito, foi   o Pau-Brasil,  essas árvores de  madeira avermelhada.
 - Hum!- murmurou João pensativo inclinado  cabeça sobre o ombro esquerdo.
 - Eh, eh! Ainda não perdeste essa mania pá! Mas porquê esse olhar preocupado? Olha eu vim ver se vale a pena ficar aqui contigo. Sabes que éramos amigos e desde que partiste aquilo para mim nunca mais foi o mesmo. - afirmou Marquês com um olhar agora menos alegre.
 - Mas e as tuas  pretensões de enriquecer e chegar a Marquês?
 - Isso, sonhar é muito bonito, mas aquilo tá mau amigo... tá mau! Eu ainda pensava andar assim, em viagens mesmo fazendo trabalho duro. Mas amigo, estava a ver que não chegava cá. Tratam-nos quase como escravos. A comida e a água acabamos por a comer e beber já quase podre. Alguns ficam doentes. Vá la que isto aqui- e apontou para a barriga-  aguentou. Ainda é forte, apesar da fomezinha que passamos lá por Lisboa.  
 - Mas continuaste a aprender a ler e a escrever  com aquela dama? - perguntou-lhe João.
 - Pois, aprendi tudo o que pude. Ah, ah!- riu com ar malandro-mas um dia o marido descobriu e olha tive de andar fugido, senão- e passou a mão pelo pescoço- ele cortava-me as goelas.
 - Sempre metido em problemas. Quando ganhas juízo?
 - Eh pá, agora! Quero ficar aqui contigo!
 - E achas que consegues? Quem comanda esta frota em que vieste?- perguntou João.
 _ Olha é um Gaspar de Lemos. Não tenho a certeza mas deve ser de família fidalga.
 - E Pedro Álvares Cabral?- perguntou João
 - Não sei, mas está por lá,  em Portugal. Parece que tem umas desavenças com alguém e com o rei. Mas olha, sabes quem morreu?- perguntou ao amigo.
 - Quem?
  - O Pero Vaz de Caminha
  - Como?- quis saber João.
 - Eh pá, ainda bem que ficaste por aqui. Fiquei contente quando tentei saber de ti e me disseram que não quiseste ir com eles.  O Vaz de Caminha morreu em Calecut, na Índia.  Talvez  assassinado pelos Mouros. Tu nem sabes! Pedro Álvares de Cabral chegou a Portugal com muitas especiarias valiosas que deu cá um dinheirão a Coroa Portuguesa!  Mas aquilo pelas Índias não correu da melhor maneira. Os mouros atacaram e Pedro Álvares Cabral vingou-se e bombardeou a cidade. Mas muitos dos que vieram contigo morreram.
 João ouvia tudo com atenção e com tristeza. 
 - Tá. Vamos descansar. Podes dormir dentro da casa ou aqui fora. Temos algumas redes por aí e podes cobrir-te com uma pele. Até amanhã. 
Despediu-se do amigo que preferiu dormir ao ar livre.
 No dia seguinte, João esperava sentado ao lado de Estrela, esperando que ela acordasse. Quase não tinha dormido. Estava preocupado. Estrela notou algo de diferente mas tentou animá-lo com carinho. Partiu para a pesca mas teve de regressar cedo. Um dos companheiros estava doente. Quando chegaram à aldeia,  mais alguns também estavam doentes. Falou com o Marquês e perguntou o que tinham dado aos índios para comer.
 -Não sei. Estive aqui contigo. Mas se eles comeram alguma coisa do barco é bem provável que estivesse estragado.
 O dia passou com todos tentando socorrer quem não estava bem, mas pela noite dentro alguns morreram e começou a sangrar pelos ares o desgosto da tribo. O Pajé junto com todos os outros,  invocaram os deuses da natureza e enterraram os corpos em grandes vasos de cerâmica, colocando dentro deles objectos pessoais dos falecidos, porque acreditavam na vida após a morte. João não sabia se acreditava mas respeitava. 
 João passou mais uma noite sem dormir e esperou que a mulher acordasse. Assim que ela acordou, pediu-lhe que o acompanhasse até ao rio. De mãos dadas com o pequeno José, chegaram à beira do rio.  O pequeno ficou a brincar, enquanto João tentava explicar a Estrela que queria ir para longe e que se mais alguém da tribo os quisesse seguir que poderiam acompanhá-los. Estrela pareceu entender e como sinal que concordava deu-lhe um longo beijo no rosto. João abraçou a mulher e o filho, disposto a fazer de tudo para defender a sua família.
 Estrela transmitiu a Caué  a decisão deles. Eles não se opuseram e numa reunião geral alguns ficaram livres para seguir o casal. Não levaram muita coisa. Teriam de sobreviver pela floresta. O Marquês e mais cinco famílias foram os que os acompanharam.
 João viajava de novo à procura da liberdade, na esperança de que em algum canto mais escondido, os portugueses  talvez nunca conseguissem chegar. João sabia que iriam tentar fazer dos indígenas,  escravos. Sabia que mais tarde os índios iriam lutar, quando se vissem verdadeiramente ameaçados, mas João não queria participar em guerra nenhuma,  Temia pelos índios. As flechas e os arcos deles tinham tão pouco poder diante da armas de fogo dos brancos. Queria apenas ser feliz, escutar as gargalhadas do pequeno José e perder-se na beleza da sua Estrela.
 O papagaio em ar solene, dizia baixinho:
 - Liberdade! Liberdade!











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