O segredo do pinhal morto- contos

     


 Ódio cego 

        O pinheiro gemeu. A arrogância do rapaz quase que lhe partiu o braço. Quanta fúria ao lançar a corda! A ira redobrou a força dos seus pulsos quando este decidiu dar o nó de intenções maléficas. As andorinhas esconderam-se entre as folhas. A hora que deveria ser de alegre chilreada, passou a silenciosa. O sol escondeu-se envergonhado na sombra de uma nuvem. As ervas rasteiras juntaram as lágrimas às da dócil e silenciosa criatura que não reagia à brutalidade daquele que deveria ser, segundo a geração mais moderna a quem pertencia, a esperança do mundo. Estranho reino, sem limites, o reino ocupado pela raça humana.
        -  Porque és tu livre e eu não? Não sabes que a liberdade é pecado? Qual o deus mentiroso que te convenceu que podes circundar por aí como bem te apetece? Não reages?- grunhia, rouco o descontrolado rapaz.
        Nada. Nem uma queixa da vítima. O que poderia fazer contra aqueles instintos de cão raivoso? Doía? Claro que doía. A corda em volta do seu pescoço. O laço apertando cada vez mais e o seu corpo subindo, subindo no ar aumentando três ou quatro vezes mais o seu peso real. Acompanhara-o tantas vezes ao culto religioso! Nunca entendeu as regras a que todos eram sujeitos. Qual a liberdade com que sonhavam? Discursos exaltados impulsionava-os a instintos de ódio. Estariam esgotados os meios decentes para considerar o semelhante um semelhante?   
         De repente, quando pensou que estava próximo do fim, o rapaz rindo, largou a corda. O corpo da vitima caiu pesado sobre o chão. Pegando num pau iniciou uma nova tortura; como uma besta feroz praticando, disciplinadamente, o seu papel de dominador. Que deus nazista era aquele que provocava lágrimas de aparente devoção e incitava a punição sobre os mais fracos? Seria necessidade de expiar os seus próprios pecados?
        - Estúpida, nem te sabes defender- gritava ele usando uma nova arma; as suas botas grossas- sem fé o mundo seria um caos repleto de monstros. Toma, toma o remédio para a tua queda amorosa pelo inimigo. Pensavas que eu não reparava das trocas de olhar com o cão foleiro da outra igreja?
      -Fé! Será um título para os perdedores? Monstros? Apenas um derrotado, poderia construir tamanha armadilha à sua volta e cometer monstruosidades daquele género. Dissimulava fé e construía-se com alicerces de ódio- pensava a vítima- soltaste todos os cães dentro de ti, mas eu não soltarei os meus. Esse teu veneno não invadirá o meu ser. Não!
        O bom é que os inimigos também se cansam. Ofegante, mas ainda com a fúria emanando de cada poro, deixou-a sangrando. Momentos depois um cão, aproximou-se de mansinho. Farejou-a, lambeu-lhe as feridas e segredou-lhe ao ouvido:
         - Levanta-te, meu amor. Fugiremos os dois deste mundo maluco. Amaremos com alma canina. Deixemos os homens odiar com alma humana. Seremos livres.
           Devagar, entre olhares ternurentos e lambidelas os dois apaixonados entraram na floresta.
         - Quando recuperares, partiremos à procura um mundo que não reconheça esta fé que divide e destrói- garantiu.

Rudi, o menino especial

         No isolado quintal, à sombra de uma macieira, o pequeno de dez anos sentia-se esquecido pela mãe. Esta parecia viver, desde há algum tempo, para os trabalhos da casa e para a sua velha máquina que lhe costurava o sustento da família. Nos intervalos, ora se dedicava ao benjamim da casa, um menino de seis meses, ora se perdia na melancolia da janela, cujo horizonte acabava na curva da rua estreita. Comportava-se como se debaixo do seu beiral, não existisse mais uma andorinha, ele, pronto a voar para os seus braços. O sol ia caindo e a imagem da mãe, do lado de dentro da casa, devagarinho, formando-se numa sombra. Debaixo da macieira, Rudi resistia à sua natureza de menino que o enchia de perguntas. Moveu o curto pescoço, pousando o queixo sobre o ombro esquerdo. Torceu ligeiramente a orelha direita, igualmente pequena, ansiando que a mãe se lembrasse dele e o chamasse para dormir. Cansado de esperar, encostou-se à árvore e adormeceu. Sem saber quanto tempo depois, sentiu que as pernas, arrefecidas pelo nevoeiro que pulverizava o quintal, se enroscavam a uma figura quente e macia.
        - Desculpa... desculpa... por não ter vindo mais cedo. Vamos para dentro.
       Rudi, sonolento, colaborou com aquela voz doce, deixando-se levar para o interior do lar.
       Uma sombra na noite. Duas figuras unidas; uma mulher de braços confusos de tanto trabalharem, enrolando e protegendo, no seu robe de tecido grosseiro, uma criança que se ajeitava amorosamente ao corpo e ao passo da sua condutora.
        Dentro do quarto, enquanto a mãe o ajudava a deitar, o pequeno apontou para a janela:
        - A lua usa de truques
        - Palerma. Que truques?
        - Tem uma poção mágica que a faz dançar na nossa janela.
        -  Agora são horas de dormir- advertiu Idilia, carinhosamente.
       - Mãe, fala, fala comigo como se falasses com uma pessoa normal- pediu ele- eu sei porque nunca mais cantaste. Porque o pai foi embora.
      - Oh meu filho, mas tu és tão normal quanto os outros meninos- respondeu ela, enfrentando a análise dos seus olhinhos ligeiramente inclinados para cima. Beijou a face lisa e rechonchuda que se abria num belo sorriso, que falava de sua mente sã. Em troca, ele envolveu o seu pescoço com os seus braços curtos e adormeceu. Ela aconchegou as pequeninas mãos na dobra do lençol e afagou os curtinhos dedos do seu menino especial. Ele era um mistério da criação, diziam os vizinhos.
        - Eu te amo- murmurou ela.
        - A lua entra pela janela para mostrar que a noite não tem que ser sempre escura- sussurrou ele.

II

        - Eu vou.
        - Vais onde- exclamou a mãe saltando da cama- mas que fazes de pé antes de mim?
        - Eu vou.
        - Oh meu deus, mas vais onde?- perguntou de novo a mãe esfregando os olhos- Oh rapaz, ainda não há três horas que me deitei e vens-me acordar.
       - Eu vou.
       - Tá, tá bem- concordou Idília, recuperando a calma e tentando entender o filho- já entendi que queres ir a algum lugar. Espera, enquanto dou mama ao bebé, tu contas-me onde queres ir.
Rudi esperou que a mãe tomasse o irmãozinho no colo. Depois que os viu confortáveis, repetiu:
      -  Eu vou à guerra onde o pai está.
      Idília desatou a rir, levando a mão à boca, tentando abafar o riso.
      - O que te faz andar triste?
      - Ora, a falta que o teu pai nos faz!
      - Então porque temos que viver separados dele se gostamos dele? O pai foi feliz para essa guerra?
      - Claro que não, ele não queria ir. Ele nem nunca tinha tomado o peso de uma arma. 
      - E como podes tu aguentar?
      - Tendo esperança, meu filho, tendo esperança. Com esperança vamos aguentando.
      - Quer dizer que ele também aguenta a guerra por causa da esperança. Esperança de quê?
      -  Ora, que um tiro não lhe acerte, que quem fez a guerra que acabe com ela...
      - Quer dizer, ter esperança é esperar? Esperar e ir aguentando é viver?
      - E se eu não quiser esperar? Se eu não quiser que tu esperes? Esse homem que fez a guerra, porque fez a guerra?
     - Sei lá, meu filho. Não percebo nada disso. Devia querer alguma coisa de bom que outros tenham
      - E porque não pediu e não esperou que o outro lhe desse?-
      - Não devia querer esperar. Quis agir.
      - Então porque temos nós de esperar? E esperar o quê? Que a ele lhe apeteça acabar com a guerra?
      - Quem te escutar, pensará que és um entendido nesses assuntos.
       - Eu não quero viver na esperança, nem quero que tu vivas na esperança. Vou buscar o meu pai à guerra. 
      - Tás doido! És uma criança. Ainda que fosses adulto, não o podias fazer.
     - Porque? Por medo ou por esperança?
     Idília pousou o bebé no berço e voltou-se para o filho. Está bem, mas agora deita-te outra vez. Prometo que falaremos disto com muita seriedade.
     - Já viste alguma estrela chorar?
      - Já. Tu, quando nasceste- disse a mãe sorrindo.
     Mais tarde, a mãe possuída por um inexplicável entusiasmo apenas lhe pediu:
     - Então parte só amanhã. Deixa que te faça uma bolsa.
     Sem entender o que a impulsionava, costurou uma sacola, provida com duas alças.
      Rudi abraçou a mãe. Olhou-a e disse:
     - Gosto muito de ti.
     Voltou as costas. A tristeza da mãe não o poderia impedir de ir. Pior do que abrir a porta e saltar para o desconhecido era deixar que, a vontade dos outros, fosse estatuto infeliz no lar de cada um.
     Parou diante da macieira do quintal. Pegou numa maçã. Sentiu que ela seria importante  durante a sua viagem. Colocou-a na sacola.
    Entregou-se esperançoso à estrada. Esperançoso? Mas que raio de hábito! Não! Convicto!


O menino do museu

 Dez da manhã. Entre breves e intermitentes ruídos, as portas abriam-se  roçando no usado chão de madeira escura.  Como um relógio pontual o empregado do museu abria a porta ao Mundo. Pessoas de todas as idades entravam quase em silêncio. Observavam tudo como se fossem grandes mestres dispostos a descobrir grande segredos. A expressão dos seus rostos revelava a certeza que o conhecimento desses segredos os tornariam mais sábios. Os visitantes  sentiam-se como se pisassem o glorioso passado do Canadá. Todo o cenário do museu parecia verdadeiro. Pairava a sensação de que a qualquer momento as figuras ganhariam vida.  Das paredes  sobressaíam em gigantes pinturas, as Montanhas Rochosas da Nação Canadense.  Como se pertencessem a elas, figuras de índios em tamanho real,  expunham um passado.  As cópias pareciam resplandecer os tons morenos e avermelhados das suas peles e o festival de cores dos seus trajes. Era como se as verdadeiras montanhas, os verdadeiros rios, os verdadeiros animais tivessem sido mortos com a expulsão dos originais habitantes humanos: os índios,  e todos estivessem agora limitados e expostos a uma casa de madeira.  Alguém decorara esse espaço de modo a atrair os curiosos turistas. Por sua vez esses turistas deixariam nos cofres o suficiente para manter a pequena cidade a funcionar. A diversão dos bares, as portas abertas das lojas de produtos artesanais, os restaurantes, os hotéis e todo o resto do comércio servia os habitantes e a quem quer que chegasse.
Mas o museu guardava um segredo. Após a partida de todos, a alma dos prisioneiros acordava e a vida ressurgia. Uma vida  exatamente como quando os primeiros brancos a descobriram;  livre e obediente ao acordo entre os céus, os rios,  as montanhas e todo o conjunto florestal verde. À noite, após todas as tarefas concluídas, sentavam-se todos em redor da fogueira, onde o grande chefe orientava a sua tribo. A impressionante atenção do povo, quer homens, mulheres e crianças provocavam um  profundo silêncio. A voz do velho índio criava um ambiente mágico. A sua figura sentada de pernas cruzadas e mãos apoiadas nos joelhos, não diminuía a sua alta estatura, os seus ombros largos e o seu notável tórax.
 Neche, um dos meninos do museu, vítima de um dos massacres dos brancos e testemunha da morte de seus pais, era um grande admirador daquele chefe que poderia ter sido um grande governador. O seu ar solene e silencioso mostravam sempre uma grande dignidade. Mesmo calado, os seus olhos demonstravam inteligência e bondade. Ele comandava toda a tribo com suavidade e um grande amor paternal.
 - Eu gostaria muito de conhecer o mundo lá fora. Os visitantes despertam-me curiosidade e gostaria de saber se valeu a pena a morte de todos nós- falou Neche, habitualmente calado.
- A morte de alguém inocente nunca pode ser símbolo de prosperidade para outro ser humano- respondeu o chefe- mas cuidado Neche, a tua curiosidade poderá sujeitar-te a situações difíceis.
- Mesmo assim, gostaria de provar essa aventura- afirmou o menino.
- Aventura que te poderá trazer desventuras. Mas tudo bem. O nosso coração estará atento e aberto para quando quiseres voltar. No entanto seria bom que usasses outra vestimenta. Abre aquela porta e encontrarás umas caixas, onde os empregados daqui, guardam algumas roupas de meninos brancos.
 Apreensivos, todos ajudaram o menino a mudar de roupa. falta a descrição da roupa
- Podes mudar de roupa mas os teus traços de origem, denunciam-te- murmurou o velho índio, também vestido como quem se veste para um acontecimento especial.
O silêncio era absoluto. De pé, Neche sentiu a mão sábia do chefe sobre a sua cabeça. Meio aturdido devido à emoção, escutou:
- Não te esqueças que os brancos regem-se por uma cultura completamente diferente da nossa. Os seus valores em nada se parecem com os nossos, no entanto, eles teimam em fazer-nos viver segundo os conhecimentos deles. Mas os conhecimentos deles não são suficientemente sábios para os mover da crença de que podem comprar tudo. No entanto, eles nem o zumbido de uma abelha  podem comprar . Ele parece não entender que  o ar que respira é o mesmo que as árvores, os rios e os animais respiram. Levarás contigo apenas um poder; a possibilidade de viajares instantaneamente de um lado para o outro, seja qual for a distância. A tua condição espiritual não te defenderá da fome, do frio e da sede. Não correrás riscos de morrer, pois não te poderão assassinar de novo. Não deixes que os teus ouvidos adormeçam e os teus olhos se fechem perante a mentirosa confissão espiritual dos humanos.
As portas abriram-se voluntariamente para que Neche saísse. Do lado de fora conseguiu ver todo o seu povo exatamente como os visitantes os viam. Simples obras de um escultor, talvez anónimo. Sentiu que era assim que os visitantes os viam; simples estátuas sem vida e sem ação. Muitos procuravam a paz das montanhas apenas para descansar, outros para praticar desportos de, quer fosse para  onde o sangue dos inocentes parecia ecoar pelas montanhas que a rodeavam.  Olhou as estrelas e sentiu o calor das montanhas. Não queria perder muito tempo por ali. Queria ir mais longe. Queria conhecer as grandes cidades e saber com que sonhos adormeciam os Homens.



A laranja feia

           Neche parecia ter encontrado um pedaço de terra saudável. Sentou-se nas ervas frescas e orvalhadas e colheu uma laranja. Enquanto saboreava a laranja admirou os carreiros perfeitos, sombreados por elegantes laranjeiras. Devagar seguiu um som familiar; água pura a correr. Correu e maravilhou-se com o pequeno paraíso.Vários choupos, salgueiros, arbustos e uma vegetação rastejante deleitavam-se com a frescura do rio e protegiam o esplendoroso jardim. Inalou cada perfume. Explorou a beleza  de cada espécie das flores.
              - Quanto amor deve ter a pessoa que cuida de tudo isto!- pensou.
              Mal tinha acabado de pensar ouviu um soluço.
               - Pensei que aqui não havia lágrimas- murmurou, tentando encontrar o dono do soluço.
             Avistou um pedaço de terra com uma nódoa escura. Era uma lágrima! Uma lágrima de quem? Não via ninguém! Assustou-se. Uma gota morna caiu sobre a sua mão. Olhou para cima.
             - Ah! – exclamou- não sabia que as laranjas choravam- Por que choras?
           - Sou muito feia. Ninguém me quer e morrerei seca na terra, enquanto tanta gente sofre com fome.
              -  Rejeitam-te? Por quê?
             - Porque não tenho a medida e a forma certa para ser exibida na montra de uma loja. Vês esta parte?- perguntou a laranja, rodando um pouco- esta parte deveria ser tão redonda e vistosa quanto o resto do meu corpo.
            - Ah, eu não sabia que a fruta também estava sujeita a um padrão de beleza. Onde está o dono desta propriedade?
              - Partiu para outro país na esperança de recuperar o que perdeu aqui.
             Com a laranja na mão entrou na casa abandonada. Tudo arrumado e aparentemente perfeito. Como se o dono chegasse a qualquer hora. Ligou a Televisão. Recuou uns passos; corpos esqueléticos de crianças morrendo de fome, barrigas enormes escravizando pernas sem energia... imagens que sujavam o écran, alteravam-lhe os pensamentos e que por sua vez magoavam a sua sensibilidade de humano ainda crente na sua espécie. Sentiu o desequilíbrio da natureza humana desumanizando toda aquela equilibrada beleza natural do local que parecia um paraíso. O menino começava a entender em que mundo nascera.

Fernanda R-Mesquita













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