Outras leituras



Leituras de Fernanda R-Mesquita


Abrir o livro ´´ Cartas a Cassandra `` e embrenhar-me na leitura de cada história, foi como entrar num salão de espelhos, onde a realidade camuflada de diferentes camadas sociais, está exposta sem ´´mas`` nem ´´ porquês``.  E porque a autora acredita em verdades  insofismáveis, assim ela aborda e desmascara, de modo destemido, a ´´face oculta`` de muitos personagens. Cada página é um espelho impressionante e comum a muitos de nós. Imagino uma careta por parte do leitor enquanto pensa: não, nada nesse livro me diz respeito. Por outro lado, talvez admita que, apesar de tudo, em alguma parte do livro, você está lá. Eu estou. E é muito bom, lermos um livro, que nos encontra, antes de nos reconhecermos em determinada página. Quando falo que todos nós estamos lá, em algum espelho do livro, não significa que sejamos ladrões ou assassinos, mas que tudo isso vive mesmo ao nosso lado e tentamos ignorar. Normal. Cada ser humano segue o seu percurso. Em cada etapa todos nós passamos por angústias, sentimos medo e fugimos de sombras. Uns mais rápidos, outros mais lentos. Cabe aos mais fortes não julgar os mais fracos. E talvez aí, os personagens de Ely, aqueles que dão vida às trevas, possam derrubar o espelho e entrar num mundo de luz. Mesmo não sendo ladrão, assassino, pedófilo, violador, quem já não sofreu de traumas, de solidão? Quem já não se irritou? Quem já não sentiu a vida como um labirinto sem saída? Para mim, Cartas a Cassandra é um alerta, um convite para atravessarmos a porta e reconhecermos que a vida é feita de dúvidas, lacunas, fraquezas e forças. Que todos nós não somos apenas isto ou aquilo. Somos a reunião de vários sintomas, construídos pelo meio ambiente onde crescemos e, o mais grave, frequentemente permitidos e alimentados pelo nosso ´´ Síndrome de Estocolmo ``. Se tivermos a coragem para nos analisarmos, decerto nos encontraremos refletidos nos espelhos deste salão, denominado ´´ Cartas a Cassandra``. 
                   Este livro não é um livro para ser lido apenas uma vez, mas para ´´ estar à mão `` para que cada história viva, para nos lembrarmos do mundo que nos rodeia. Lembrar, ter conhecimento, pode provocar ação; influenciar a melhorar a sociedade. E num possível mundo melhor, quem sabe, um dia a autora encontre razões para escrever sobre os mesmos personagens, inseridos numa dimensão superior. Mais feliz. Mais aberta. 

Verdadeiramente agradecida pelo seu livro Ely

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Saramago

     
              Se os que  atacam Saramago, pretendem despertar olhares e sentimentos para que cresça o número de inimigos de Saramago, em mim despertaram algo diferente. Se eu já lia Saramago e gostava de o ler, porque a sua escrita me fazia pensar, mesmo que eu não concordasse em certos pontos de vista, passei a ler e a "investigar" mais sobre ele, não apenas como escritor, mas como pessoa.De salientar que esses pontos não eram em grande número.  Ouvi com muita atenção algumas entrevistas dele, inclusive  com o padre, Joaquim Carreira das Neves, biblista, professor de teologia da Universidade Católica. Joaquim Carreira, mostrou-se pouco convincente nos argumentos que apresentava, contrariando-se em alguns pontos. Ao contrário de Saramago, que como qualquer humano imperfeito admitiu o excesso que cometeu em uma ou duas expressões, mas nunca balançou no que acreditava. Afinal que crime cometeu Saramago? Mais uma vez eu pergunto. O de ter tido a coragem de pensar e mostrar publicamente o que achava de forças que manipulam o mundo e o fazem andar em sentido contrário aos interesses dos mais frágeis?  Se isso é um crime, o que faremos com todos os que foram cometidos ao longo de toda a História, muitas vezes  e muitas vezes justificadas pelo nome de Deus. E quanto à manipulação de sentimentos que muitas instituições exercem, sobre sentimentos e a vida das pessoas? Pessoas convertidas ao medo, transformadas ao que nunca seriam, se não crescessem com a falta de coragem de dizer não. Não questionar, dizer sempre Amém é e sempre foi a regra. Saramago, foi intitulado de desumano e convencido. Desumano? Existe maior desumanidade  do que agarrar em milhões, transformá-lo em armas e matar inocentes? A esses que matam ainda lhes é atribuído um título: heróis! Saramago acusado de convencido?  Quais são os convencidos que devemos temer? Eu pessoalmente temo aqueles, que enquanto durmo podem mudar o mundo como bem entendem, convencidos de um poder que lhes é dado pelas próprias massas humanas por eles sufocadas.
          Há uma história interessante sobre a a aceitação dele aqui em Edmonton, na comunidade portuguesa. Há uns anos atrás ele visitou esta cidade. Apesar de não ter sido convidado a conhecer o salão cultural português, ele fez-se convidado. Ficou desiludido, pois claro, eu quando visitei a comunidade pela primeira vez, também fiquei. Triste que a cultura portuguesa aqui se resuma a religião, jantares, algum folclore e pouco mais. Literatura, o que será isso? Livros? Não há tempo para ler. Tempo é dinheiro. E assim, pouco valor se vai dando à língua portuguesa.
              Há dois anos atrás veio aqui a cantora Ana Malhoa. Pessoalmente não tenho nada contra ela. Não sou sua fã mas também não me incomoda. O que me incomodou foi a festa que lhe fizeram aqui, enquanto que a foto do nosso Nobel de Literatura de 1998, foi excluída do salão cultural português de Edmonton. ´´ E esta, hein? ``. exclamaria o nosso famoso jornalista Fernando Pessa.


Texto escrito logo após a morte de Saramago

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O Pandemónio                          

Leitura de

Fernanda R. Mesquita



`` Sou como um assassino que não mata e um ladrão que não rouba... Só eu sei o que passei e o que tive que me humilhar para poder estar vivo hoje, contando como as coisas aconteceram. ´´
( Zeca Fonseca )


               Este livro viajou do Brasil até aqui a Edmonton, Canadá. Oferta do autor do livro; Zeca Fonseca. Quando abri este livro `` O Pandemónio´´, senti de imediato que a leitura me obrigaria a conviver com certas circunstâncias previstas e imprevistas de um mortal que ultrapassa os limites comuns do território humano. Ele é como um prisioneiro louco sempre pronto a derrubar as grades da sociedade procurando a liberdade  nas várias  celas do alcóol e da droga, que o recebem de portas abertas   e com ardilosas algemas. O livro, escrito na primeira pessoa, pela inspiração de Zeca leva-nos a um diário íntimo,  onde o foco central são os constantes desafios à resistência física e mental. Por vezes, atinge um tão grande estado de infelicidade que o leva a querer tornar eternas as necessidades mais íntimas e básicas do seu corpo, como se com isso impedisse o suícido da sua continuidade. Afinal, a sua vida é compelida por constantes hábitos suicidas na esperança de ressuscitar como outro indivíduo. Sim, porque o que pode levar um ser humano a desgastar os seus dias de vida, se não a esperança de encontrar coerência na incoerência do modelo formado pela sociedade humana, aparentemente lúcida.  O autor livrou-se de limites para se libertar em expressões, provavelmente consideradas por muitos como exageradas e menos agradáveis de se lerem. Mas o que será mais desagradável; a verdade contada apenas como verdade ou as mentiras com que nos iludimos diariamente?  É como se essas expressões  tentassem trazer ruído às mais silenciosas perturbações do herói da história; um jovem jornalista drogado e  alcoólico que parece querer condensar a sua vida numa obra, onde  a atração pelo sexo feminino se realça como pseuda-salvadora, oferecendo-lhe o sexo quase como ofício, levando-o  a possuir quase todas as mulheres, quem sabe, na esperança de não ser possuído pela sociedade. Talvez seja um livro duro de ler mas não mais duro do que acordar todos os dias ligado a um mundo que gira em sentido contrário à paz e à dignidade humana.  A sensação que me dominou foi que este seu livro foi escrito ininterruptamente, de tão forte que é a sua mensagem e de tal modo que nos obriga a uma leitura  de espiríto atento e curioso.
Zeca, já lhe disse  e torno a afirmar: você teve que ter muita coragem para escrever deste modo.
  Por entre toda essa liberdade de expressão encontrei muitas  passagens que me fizeram parar para pensar. Deixo uma delas:

´´ Existe um subconsciente coletivo em uma subcidade: um Rio de Janeiro submerso, ora em lama, ora em sangue; cada bairro obriga seu submundo próprio, uma espécie de filial de violência generalizada que tem como matriz a vitalícia falta de educação. Caminhamos para uma guerra civil estadual; até os cegos podem ver. Pessoas morrem todos os dias nesta guerra não declarada.`` ( Zeca Fonseca ) 

Fernanda R-Mesquita


















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