Outros cais- contos



Os meus fantasmas

No ar escrevem-se palavras que não ouço. Como ouvi-las? São apenas desejos que rompem o sossego desta hora. Se escrevo, propaga-se o som das teclas. Se paro, ouço o som da noite. E essa tem tantos sons, que me parecem confundir e aumentar mais a incerteza; se devo desejar a vida como a desejo. Se eu ficar quieta ninguém me toca, ninguém me sacode. Claro, também não há ninguém. Lá fora só se pronuncia o negro. Não sei se existem estradas, caminhos ou atalhos. A gatinha Maria dorme tranquilamente. Posso afirmar isso pelo movimento suave do seu lombo. Escolheu as costas do sofá. Eu escrevo para libertar as nuvens que por vezes cobrem os meus pensamentos. Ela tenta ganhar um momento de descanso e parece querer mostrar que pode escolher um lugar mais alto do que o meu. Chego a ter pena de não gozar da sua segurança. 
Voltei-me de novo para as teclas e escrevi: 
- Existem momentos na vida em que a hesitação ou falta de vontade nos impede de darmos o passo completo. Uma atitude que nos pode levar a pensar que encontramos o equilíbrio. No entanto apenas mantemos um pé em cada margem dos lados da vida; experimentando uma sensação de sufoco e insatisfação. É uma decisão que cabe apenas a nós, que não depende de nenhuma régua nem de nenhuma teoria escrita. São daqueles momentos em que precisamos de arriscar e dar um passo, mesmo que seja para o desconhecido, para não vivermos sempre no impasse. Ao não vencermos o medo, viveremos sempre cambaleando e seremos sempre a criança que tem medo de aprender a andar. 
Decidida a deitar-me abandonei a sala e dirigi-me ao quarto. Estava calor e abri a janela. Deixei apenas a fina rede como barreira entre esta divisão da casa e a noite que lá fora reinava como rainha do Universo. Senti necessidade de tomar um banho rápido. Depois do dia passado, quase desinteressada no mundo, senti um desejo súbito da água tépida do chuveiro. Fechei os olhos e concentrei todos os meus sentidos naquele momento. De repente a água passou a escaldar-me a pele, o que me obrigou a gritar e a saltar para longe. Olhei no espelho e pude ver as marcas visíveis de queimadura nas minhas costas. Recorri rapidamente a uma pomada e com muita dificuldade tentava chegar às zonas queimadas. Cerrei os dentes. Não queria chorar. Há muitos anos que tinha decidido não chorar mais. Vesti a camisa de dormir tentando que o fino tecido caísse leve sobre o meu corpo. Sem entender bem o que se passou, saí da casa de banho e entrei no quarto. Aqui algo me desassossegou. O cheiro forte a fumo de cigarro obrigou-me a tossir. Parecia forte demais para ser o vizinho do andar de cima a fumar na varanda. Observando a minha própria hesitação, vacilei entre fechar a janela ou mantê-la aberta. O medo que começava a nascer em mim, dobrou-se à minha necessidade de me deitar e deixar a janela aberta. Deitei-me e fechei os olhos sentindo a pequena Maria a tentar o aconchego habitual junto ao meus pés. 
Não foram muitos os minutos que a senti sossegada. Levantei a cabeça e pude vê-la a rosnar com força, em direção ao lado oposto em que eu dormia. 
-Calma Maria, dorme- murmurei tentando acalma-la com uma carícia no seu lombo. Ela deitou-se, mas rosnando baixinho como se algo a incomodasse. 
Acabei por adormecer, tentando não pensar nos últimos acontecimentos. 
Sem conseguir calcular o tempo em que adormeci e que possivelmente devo ter entrado num estado curioso do sono, lembro da luta em que o meu subconsciente lutou entre a realidade e o sonho. 
O meu corpo, numa adaptação rígida e forçada queria lutar contra a prisão a que o sonho me prendia. Inconscientemente tentava recusar o espetáculo em que gente estranha, me tentava colocar como atriz principal. Sabia que a rede do quarto estava intacta. No entanto pressentia duas unidades diferentes de pessoas que chegavam no lado de lá da rede, em diligências barulhentas. Elas entravam no quarto sem pedir licença e eu escutava-as a discutirem entre si, sem as entender. Cada vez mais eu me sentia o alvo. Com que propósito? Não sabia. Eu queria mover-me e fugir, mas alguém de olhar irónico, fingia um ar maternal e acariciava o meu rosto, prendendo-me num abraço que me magoava a alma. Com um sorriso que eu preferia nunca ter visto, disse-me: 
-Não temas. Tu também estás assim.Sem dentes, cabelos gastos e rosto cadavérico. Só que ainda não sabes. 
- Não acredites Alice. - gritou uma voz deitada ao meu lado. Foge. Eu ajudo-te a fugir. 
Não sei ainda como fugi. Senti-me no ar, levada pela unidade de pessoas que aparentemente estavam ali para me salvar. 
- Vai, corre. A selva é tua. Mais do que isto não podemos fazer. - disse um deles.
Largaram-me numa floresta. Lá também era noite. Os meus pés descalços sentiram a dor ao pisarem o chão selvagem. A minha fina camisa de dormir não me defendia dos ataques agressivos dos ramos, sobretudo sobre as minhas queimaduras. Corria veloz mas sentia que alguém tentava ser mais veloz do que eu. Escondi-me atrás de uma árvore, mas não me consegui tornar invisível para o meu perseguidor. Parecia ser a minha irmã. Ela ria de feição pesada, desgrenhada.Parecia uma obra de arte a enaltecer o terror. Por momentos esvaziou-se o meu entendimento. Ela parecia ter a capacidade para me atacar e no entanto não me tocava. Eu queria fugir dela. E foi na tentativa de fugir dela, que entendi porque é que ela não me tocava. Senti o chão firme fugir dos meus pés ao passo que eu recuava. Tinha de decidir. Ou a enfrentava ou fugia de novo. Queria fugir daquela figura opressiva e senti-me débil a flutuar num abismo que não tinha fim. Estendi a mão ao longínquo rosto que ria com uma expressão satisfeita, como se me estivesse a estrangular. Nela, não havia compaixão e eu cada vez mais desaparecia no abismo. A meio da queda algo me tocou. Tentei agarrar o que não conhecia e senti um ramo de uma árvore. Picos finos e aguçados entravam na minha pele. Aguentei a dor e trepei no ramo disposta a encontrar uma solução. Os picos infiltravam-se no meu corpo. No final do ramo encontrei uma longa estrada. Cansada, deitei-me um pouco sobre o pó da terra que parecia ser castanha escura. Antes que eu pudesse recuperar as forças, um homem surgia naquela noite longa e lenta mas onde tudo acontecia rápido e inesperado. Vestia de negro e trazia uma bengala para se apoiar. Olhei fixamente tentando analisar se representava perigo. Senti que sim e decidi correr o mais rápido que podia. Conseguia ouvir pelo som seco da sua bengala no chão, que ele acelerava o seu passo. Tossia de um modo que me parecia um tio meu, que no passado, tivera o hábito de me aterrorizar com historias medonhas. No final daquela estrada que parecia interminável, encontrei um precipício. Espreitei e vi o mar. Atirei-me. Fechei os olhos e pude sentir a proximidade do aroma do enorme oceano e as batidas das ondas nas rochas. 
De repente, senti que estava de novo dentro do quarto. Penso que o meu subconsciente respirou aliviado e tentou salvar-me, mas os visitantes continuavam a chegar em diligências. Abri os olhos e vi aquele rosto de novo… tão perto do meu. 
- Silêncio! Escuta!- ordenou-me. 
Fiquei quieta e ouvi um grito de uma voz que me parecia íntima. À minha frente erguia-se uma campa húmida e coberta de ervas daninhas que chorava numa voz sem brilho. Não, quem chorava não era a campa. A voz vinha de dentro dela. Agora eu podia ver a campa transparente e no fundo dela o corpo morto do meu avô a rebelar-se contra a sua condição de morto, gritando que tinha sido enterrado vivo. Ele pedia ajuda e eu não podia fazer nada. 
De um lado eu tinha aquele olhar assassino. Do outro lado eu tinha aquele olhar triste que parecia implorar-me que não acreditasse no que via, mas pedia-me que eu recorresse à minha capacidade de lutar contra o absurdo. Pedia-me que eu conquistasse as minhas lembranças de criança. Das horas em que as histórias enchiam os serões de Inverno, do canto das cigarras ao luar, dos pássaros que voavam livres até eu adormecer com a alma cheia de coisas lindas. Eu não sabia se conseguiria recorrer às lembranças. Queria concentrar-me naquele momento porque as duas unidades de pessoas continuavam ali, como juízes que combinavam o acordo da sentença. E o réu era eu. 
Sofria naquele quarto gelado que já não parecia o meu. As horas pareciam ter caído também num abismo e eu sentia-me escrava delas. Eu estava cansada. Desolada continuei a sentir aquela mão gélida que maquiavelicamente continuava a acariciar o meu rosto. Fechei os olhos e caí na maior grandeza do sono ou na maior desgraça...tentando levar comigo a luz do candeeiro que alumiara as minhas primeiras letras, quando eu tinha apenas cinco anos de idade. 
No dia seguinte acordei cansada e com a luz soberana do sol fixando e magoando os meus olhos. As dores nas costas alertaram-me para as marcas da minha pele queimada. Levantei-me e acariciei a Maria que parecia não ter vontade de se levantar. Fui até à janela e olhei o pássaro que brincava na relva, perto da lebre que indiferente à sua presença saboreava tranquila a erva fresca da manhã. Uma agonia cercava-me a alma que parecia querer forçar-me a lembrar de algo que eu inconscientemente parecia não querer recordar. Resolvi ir à cozinha fazer um café. O meu coração começou a bater energicamente, retirando a energia do meu corpo. Ao entrar na cozinha deixei de saber o que pensar e o que dizer sobre a vida ou sobre a minha vida. Uma gigantesca floresta tomara posse da minha sala. À sombra de uma árvore, uma criança aparentemente inocente olhava-me com uma ironia mordaz no sorriso. Parecia uma colega de escola que se divertira a afirmar constantemente, que eu era das raparigas mais feias que ela tinha visto. Na mesa da minha cozinha estava sentada uma mulher magra, de rosto afinado, descascando maçãs. A mesma mulher que passara a noite a acariciar o meu rosto. Vista assim, sentada na mesa da cozinha, parecia ter o ar autoritário da minha avó. 
- Vai para o fogão e faz um bolo para todos. -ordenou-me a mulher. 
- Temos fome. Senão conseguires fazer o bolo serás tu a refeição de todos estes aqui. 
Senti que teria que obedecer. A tremer, clamava pela sensibilidade dos deuses. Existiriam eles… os deuses? Até àquele momento nunca tinha acreditado muito nisso. Ou tentava não acreditar. Sempre fugira de qualquer crença sobrenatural. Dirigi-me ao fogão. Acendi o forno para que aquecesse, enquanto eu reunia os ingredientes para fazer o bolo. Uma música suave vinha do ponto da floresta mais afastado. Parecia uma harpa que chorava. Não me atrevi a olhar, mas sabia que era um velho homem com um chapéu enorme a cobrir-lhe o rosto, mas que por um instante, eu tinha anteriormente captado uns olhos negros, sem brilho e da mais profunda frieza. Coloquei o bolo no forno e esperei que ele cozesse, sempre de costas voltadas para aquele público que esperava ansioso que eu errasse. Senti que algo caía sobre o balcão da cozinha. Passei a mão sobre ele e olhei. A minha mão aberta expunha um rolo de cabelos meus, que esbranquiçavam lentamente como se me avisassem que estavam a morrer. Quis gritar. Um pequeno sopro aflito ainda saiu de mim, mas reprimi a tempo. Ao pequeno sinal da minha aflição surgiram os fantasmas do lago, que até ali parecia calmo. Um uivo de um lobo ressaltou no horizonte escuro, como se sentisse dono do mundo inteiro. Instintivamente passeei a mão pelo meu cabelo e desta vez a palma da mão ficou completamente coberta de cabelos meus. Tive vontade de gritar, de lançar um grito maior do que o uivo do lobo, mas fiquei quieta. Respirei fundo e tentei sentir o aroma do bolo. O ambiente era pesado demais. Ameaçador demais. Ao encontrar-me naquele momento, no extremo perigoso de uma visão que ainda não sabia se era abstrata ou real, podia sentir o ridículo das tanta vezes em que me entregara ao desalento infinito e indefinido, em momentos em que a vida era tão branda. Procurava lutar contra a minha anterior teimosia ao vazio e a substitui-la pela vontade em vencer e reunir todas as forças para sair daquele quadro, que parecia ter eliminado qualquer possibilidade de eu encontrar a porta de saída. 
- AH!- gritei. De repente assustei-me, mas fora apenas o fogão a avisar de que o bolo estava pronto. Antes que eu conseguisse abrir a porta do forno o meu cabelo caia aos meus pés. Eu não queria olhar. Não queria entrar em pânico. No ar sobrepunham-se os gemidos de todos os que esperavam o momento em que eu me entregaria como vítima. As batidas de um tambor misturavam-se aos sussurros íntimos daquele misterioso grupo, que pareciam figuras anónimas de um filme que eu desconhecia, como quem espera e festeja antecipadamente um final feliz. Pareciam sombras ocupadas na pressa de me aterrorizarem. Agiam como senhorios prontos a requisitarem-me como inquilina, de um espaço que até ali tinha sido apenas meu. 
Umas mãos frias agarraram com firmeza a minha cabeça. Fechei os olhos para esconder o medo. 
- Abre os olhos- ordenou-me a voz. 
Vagarosamente fui levantando o olhar e deparei-com o meu próprio funeral. Eu fazia parte do mundo dos mortos. Senti vontade de matar. Matar todos. Mas talvez eles também desejassem essa reação minha. Eu sabia que não conseguiria matar ninguém, mas recusava ser possuída por aquele mundo baço, húmido, desconfortante, desajustado... 
Eu sabia o que queria. Entre a incerteza se conseguiria vencer aquele mundo e o caos garantido a que ele me destinava, decidi pela incerteza. Abri a porta do forno e com uma toalha entre as mãos, agarrei na forma do bolo e pousei-a sobre a mesa, num gesto decidido a esmagar tudo o que era indesejável ali. 
-Tomem, malvados! Comam este bolo todo ou eu mesma vos enfio pela boca abaixo, pedaço a pedaço, até fazê-los engasgar. Que se engasguem todos e morram mais e mais do que já estão... se isso for possível. Venham todos que não tenho medo. Que a morte vos possua porque eu ainda quero viver. Ouviram? Quero viver! Viver! 
Penso que perdi a noção da força com que gritava, mas senti que a minha própria voz se tinha tornado ensurdecedora para mim. Só parei quando não tinha mais voz, quando esta, de tão rouca, apenas me arranhava a garganta. O movimento dos meus olhos subiu em direção ao espelho e este mostrou-me um quadro diferente daquele espaço. Pelo espelho eu conseguia ver a minha antiga sala. Devagar dei meia volta e pude ver que tudo estava como antigamente. Corri a casa toda. Comecei a gritar e a saltar de alegria ao certificar-me que apenas eu e a Maria respirávamos ali dentro. Olhei-me no espelho e ri ao ver o meu cabelo intacto. 
Esperem! Um barulho! Barulho de teclas. Corri à sala do computador, onde podia ouvir nitidamente as teclas como se alguém escrevesse, mas não havia ninguém. Pesadelo? Imaginação? Olhei para o écran do computador e podia ler as palavras que surgiam na formação de frases que eu podia decifrar perfeitamente: 
- " Se eu ficar quieta ninguém me toca, ninguém me sacode. Existem momentos na vida em que a hesitação ou falta de vontade nos impede de darmos o passo completo." 
Estes foram alguns dos teus pensamentos antes de ires dormir. Pensamentos que abriram uma luta no submundo do teu subconsciente e que abriu uma fresta a pesadelos onde viviam os teus medos e as personagens com quem não soubeste lidar. A tua falta de determinação permitiu que eles acordassem e gerou divisão. Tentamos dominar a tua força psíquica e a física para que uma fragilizasse a outra. Tiveste momentos em que quase te deixei partir para a escuridão. Eu sou aquela de quem tiveste mais medo: a que te acariciava o rosto. O maior perigo era aquele que te parecia confortar. Aquele de aparência mansa, deitado ao teu lado e que te incentivava a fugir para te apanhar em algum lugar, onde já não pudesses escapar. Ou que recorresses ao passado para não pudesses lutar pelo presente. Não voltaremos porque mostraste coragem e determinação no momento certo. Não te refugiaste apenas nas lembranças, mas lutaste pelo que era preciso lutar. 
Respirei fundo. Desliguei o computador. Despedi-me da gata Maria com uma carícia e saí para o novo dia. Agora sim, o dia nascia definitivamente. Forcei os pés a uma corrida e pude sentir o vento delicioso que me refrescava o rosto... deixei que ele levasse consigo todos os meus fantasmas.

***
Cacum
Parte I

             Tic... Tac... Tic... Tac... prosseguia o relógio friamente concentrado em levar o tempo adiante.
            Ping... Ping... resvalavam do beiral do telhado, as últimas gotas da Primavera até ao parapeito da janela do seu quarto.
            Pum...Pum...Pum... batia artisticamente o seu coração, já com algumas notas desafinadas.
E o sono tão ansiosamente procurado, na hora em que deitara o corpo cansado de nada fazer? Para onde partira o sono? Estaria a brincar com ele? Estaria perdido entre o labirinto dos fios que formavam o tecido da almofada? Tentava enfiar a orelha no rectângulo de esponja com a esperança de adormecer e esquecer o dia aborrecido e a hora em que se arreliara com a filha. O poder e o tempo daquela cápsula para dormir, tomada diariamente ao jantar, tornava-se cada vez menor. Queria dormir! Dormir! Queria atingir mais do que aquela sonolência fatigante. Mais uma vez esfregava o lóbulo da orelha na almofada. Sentia-a roçar em cada fibra longa e delgada do linho. A concha auditiva parecia querer divertir-se. Parecia querer revelar os segredos do seu ouvido. Pois qual melhor testemunha dos nossos sentimentos que o nosso ouvido? Quantas vezes por conveniência, preguiça ou cansaço o desconsentimos? Uma grande inquietude obrigou o seu corpo a expressões que estavam para além de qualquer coerência. Sentiu um vento forte
 disposto a desloca-lo sem que ele abandonasse o leito:
``Ouvia o barulho, sentindo todo o poder de um ambiente, onde homens sentados numa mesa comprida, pareciam prontos a passarem a tarde a jogar, a fumar e a beber. Estava na loja da Ema. Tarde de domingo, ocasião imperdível para descontrair, desabafar palavrões e beber uns copitos a mais. Cada «copo de três» avivava mais o jogo. Cada absorção do cigarro era seguida pela vaidade de expelir o fumo rindo e imaginando que o poder estava ali e que se poderia perpetuar, mesmo que fosse tão vão e de tão pouca duração como as nuvens de fumo que pareciam não incomodar ninguém.
            Mas no meio daquele ambiente via a sua menina, a Maria Luísa. O que fazia ela ali? Ah, lembrava-se... todos os domingos dava-lhe umas moedas para que ela pudesse comprar a sua guloseima. Era como um prémio que lhe oferecia aos domingos, talvez exatamente pela mesma razão que ele oferecia a si, aquelas tardes na loja da Ema.
            - Vá, não demores Maria Luísa! Olha que daqui a nada aparece o Cacum- avisou ele, para que a sua criança não respirasse muito tempo, aquele ar pouco educado.
   Bastava a palavra Cacum para que a menina e todas as crianças da aldeia obedecessem.
            - Cacum!- murmurou um dos homens,  num som prolongado e com  voz rouca.
   Maria Luísa e o seu amiguinho, paralisados pelo medo precipitaram-se para debaixo da mesa, tentando esconder-se entre as pernas dos homens que jogavam.
            - Ah,ah- riam-se os homens- olha o Cacum! Olha que ele vem para aqui- proferiam os homens, quase aos berros. As duas crianças tremiam assustadas. Em uníssono, os pés dos adultos pareciam ter acordado; do chão subiam até aos seus ouvidos num ritmo ensurdecedor, quase satânico. Aos olhos de Maria Luísa e do amigo todos os pés lhe pareciam os do monstro. Pareciam ameaçar que o trariam até ali.
A este brado cavernoso todas as crianças escondiam os seus pequenos corpos debaixo de alguma mesa ou atrás do primeiro esconderijo que encontrassem. Depois da ceia, se alguma criança teimasse em querer retardar a hora de ir para a cama, bastava pronunciar a palavra ´´Cacum`` para que elas corressem  para dentro das mantas; as pernas, impelidas pelo medo, tornavam-se mais ligeiras do que quando iam ao encontro de alguma brincadeira.
            Mas o homem sinistro, vestido de preto, cujo rosto nunca ninguém vira, porque ele o escondia com um enorme chapéu preto, nem entrou na loja. Ninguém se lembrava de ter visto alguma vez o seu rosto.
            Uma semana depois fora dado o grande alerta;
- Morreu o Cacum! Já estava morto há uns dias, com certeza- diziam uns.
- Foi o padeiro que deu com ele. O corpo já ´´tava`` rijo- comentavam outros.
O padeiro, todas as madrugadas, deixava um pão à porta do falecido dentro de um saco.  Um saco, que o freguês, todas as noites antes de se deitar, pendurava na maçaneta da porta. Todas as sextas feiras à noite, Cacum, enrolava num papel pardo, a quantia certa para pagar sete pães; ao domingo o padeiro não trabalhava. A verdade é que o padeiro batera na porta do falecido, não por preocupação ou qualquer outro sentimento, mas por não ter encontrado o saco do pão, nem o pagamento semanal.
            - Pai, posso ir ao funeral do monstro?- perguntou Maria Luísa.
            Na época, um funeral era um acontecimento e motivo para a aldeia se reunir e tema para longos debates.
            Manuel viu o olhar curioso e infantil da filha debruçar-se, num análise adulta, sobre o corpo do velho Cacum..
            - Mas pai, ele é tão pequenino e magrinho!
            Manuel agitou-se diante da verdade da filha e talvez tenha sido essa verdade, que expulsou o sonho e o tenha deixado agitado, como quem sofre um golpe sobrenatural. Suava... gemia agoniado e intimidado. Lentamente foi tomando consciência do sonho que tivera e sentiu o agro sabor, de que aquele pesadelo tinha sido um conflito com uma realidade aparentemente esquecida por um longo período de tempo. Deixou-se ficar quieto. Esperaria que a noite terminasse.

***

    Os Manuéis do Manuel
Parte II

  Durante as longas horas que se seguiram, Manuel não conseguiu saber qual o som que o desesperava mais, qual o despertava ou qual  o ajudava a aconchegar o rosto no pano lavado da almofada:
             - Tic... Tac... Tic... Tac- prosseguia o relógio friamente concentrado em levar o tempo adiante.
            - Ping... Ping- resvalavam do beiral do telhado, as últimas gotas da Primavera até ao parapeito da janela do seu quarto.
            - Pum...Pum...Pum- batia artisticamente o seu coração, já com algumas notas desafinadas.
            Quieto, como se dormisse, escutava atentamente cada movimento cuidadoso e quase silencioso da sua filha. Ouvira também o relógio dela despertar. Sentia o cansaço matinal de Maria Luísa, pela demora dos seus movimentos.
            - Pai, o seu leite e o pão, já estão preparados. Estão em cima da mesa da cozinha. Tenho de ir. Estou um  pouco atrasada. Tenha cuidado. Se for apanhar um pouco de ar, não vá muito para além da porta- disse Maria Luísa baixinho, sem ter a certeza se o pai  dormia ou não. 
Manuel reprimiu todos os movimentos, para não confessar que estava acordado. Sentiu a filha libertar um beijo no seu rosto, enquanto ele aprisionou a vontade de o retribuir. Ainda se sentia triste pela discussão inglória da noite anterior, que seduzira generosamente um desagradável mal estar entre os dois. Não queria diluir-se no desespero negro, que  bruto e silencioso, tentava  intimidar o final vitorioso que ele construíra para si.  Sentiu no último ruído da chave na fechadura da porta da rua, o derradeiro gesto da filha, até que a noite trouxesse exatamente o mesmo sinal do seu retorno.
            Destapou primeiro os pés e lentamente levou-os em direção ao chão. Ainda mais devagar, descolou o corpo do colchão. Enfiou os pés nos chinelos arrumados por Maria Luísa, na posição certa, para que o pai os pudesse calçar facilmente. Manuel sorriu ao olhar a bengala, também colocada pela filha, de forma que ela conseguisse ser o seu apoio, assim que se endireitasse na cama. Na vontade de querer ir até à cozinha, forçou um pé a seguir o outro, tornando assim o som do seu passo, o dono absoluto de todos os ruídos
            Parou na janela da cozinha. Sem mexer na cortina de quadrados vermelhos e brancos, assistiu por entre o intervalo do seu  folho, à entrada da filha para o carro. Contemplou com um sorriso, o adeus da jovem ao velho Pitoco, que numa preguiça própria da sua avançada idade de cão, apenas abanou a cauda e abriu um olho.
- Estás tão velho quanto eu- murmurou Manuel.
            Abriu o termo e sentiu o aroma do leite quente. Trincando a torrada ainda morna, olhou através da janela e sorriu ao apreciar a tentativa do galo, que no pátio da casa, circundava o Pitoco. Ora batia as asas e cantava intrigado, ora observava a mansidão do cão. Quase que conseguia visualizar as madrugadas em que  a sua Georgina, depois lhe preparar o farnel para o dia de trabalho, saía para o pátio para  tratar dos animais. Sentia a dificuldade que a filha tinha em manter todos os animais. O tempo não lhe sobrava, mas ela fazia questão que o pai continuasse a ter o seu mundo, pelo menos uma parte dele. A casa e o pátio eram o elo, que sentia que a filha queria manter, para que ele não se sentisse apartado do seu passado, onde viviam a sua realidade e os seus sonhos mais secretos. Depois de ter arrumado a caneca no lava louça, sentou-se na cadeira onde o repetitivo e mortal descanso o esperava.
            - Ah- exclamou, ao sentir-se finalmente acolhido pela cadeira.
            Continuou a olhar a rua e apreciou a serra que o vira crescer. O sol nascia sobre as velhas e gastas velas do silencioso moinho.
            Ainda se sentia sensível perante as lembranças da noite.
           - Tenho que me entreter com qualquer coisa durante o dia. Não quero ficar o dia todo a pensar.           Quando Maria Luísa chegar, quero que ela encontre alguém mais satisfeito do que encontrou ontem. Não sei quando cheguei a velho. Esta velhice parece ter chegado, na manhã a seguir à noite em que adormeci, sentindo-me eterno. Talvez o cansaço de não poder repudiar a situação atual o deixasse mais predisposto a não lutar ou com necessidade de algo novo.
           - Que tal jogarmos uma Bisca de Três?
           - Eh pá, pareces mesmo eu, aqui há uns anitos bons.
           - E eu sou tu, aqui há uns anitos bons. Foste tu que me chamaste.
           - Eu lembrei-me de ti, mas não te fizeste rogado, vieste logo.
           - Claro, primeiro gostaria de te perguntar como envelheceste tanto e tão rápido.
           - Nem eu sei! A minha Georgina partiu e eu senti muito a falta dela.
           - Mas tens a Maria Luísa!
       - Eu sei. Nada tenho do que me queixar em relação a ela, mas inquieta-me que eu seja um empecilho para que ela continue a viver. Mas deixa-me perguntar-te, como foi que deixaste que eu envelhecesse tanto e não fizeste nada para o impedir.
       - Pois, a tua vontade de envelhecer foi tão grande que me apanhou distraído e não tive tempo de reagir. Deveria ter ficado mais atento. É o que faz pensarmos que temos a vida na mão e que se não vivermos hoje, viveremos amanhã. Não é assim.
      - Espera, vou buscar o baralho- pediu Manuel, enquanto se levantava com dificuldade.
      - Como estás homem! Quem te viu e quem te vê!- Pois e tu podias ser mais gentil e ires buscar tu as cartas.
       - Esqueceste que eu sou apenas as tuas lembranças? Por mais que a tua memória me queira tornar real, a armação que foi destinada a aguentar-te de pé,traiu-te.
     -Traiu-nos aos dois, queres dizer. Olha, encontrei as cartas- exclamou Manuel, dirigindo-se de novo a sua cadeira, junto à janela- tu baralhas e eu corto.
          - A bisca é dama de ouros- informou Manuel Oitenta, mostrando a dama de ouros.- Começas tu.
        - Já estas a cortar, só tens trunfo?- perguntou Manuel Oitenta na primeira jogada do amigo.
         - Não, mas era a que me convinha jogar. Não tenho paus para assistir. Manuel continuava a jogar devagarinho com o seu imaginário parceiro. Pensativo, sorriu; o primeiro jogo trouxe-lhe à memória momentos antigos, avivados pelo sonho que o apoquentara. Examinou o seu parceiro, enquanto este misturava as cartas para o próximo jogo.
           - Até que tu tens pinta! És alto e vigoroso. Se eu não soubesse que tu eras eu, perguntar-te-ia onde é que arranjaste esses músculos.
          - Pois tu sabes que não foi a praticar musculação. Foi uma vida de muito trabalho. Ainda te lembras da pedreira onde trabalhávamos? Aquelas tardes de tanto calor...
            - Às vezes lembro, outras vezes parece que não tive mais nada do que esta vida. Como é fácil esquecer aquilo que já fomos.
          - Lembras-te do gaiato que fomos?
          - Sim, eu sei que ele comeu
         - Por que não chamá-lo para um jogo? Já nessa altura ele era sabido a jogar.
         - Ola pessoal!Os dois homens assustaram-se com a rapidez do rapaz. Parecia ávido por voltar à vida.
         - Isso é que foi ligeireza- Comentou Manuel Quarenta.
         - Então este senhor aqui- respondeu Manuel Rapaz, referindo-se a Manuel Oitenta- esqueceu-se completamente de mim. Se se lembrasse mais vezes, não vivia tão triste. Eu dar-lhe-ia muitos motivos para rir.
          - Ou para chorar, queres tu dizer... porque não eras osso bom de roer.- Ora coisas de rapazes. Vamos a um joguinho?- Pode ser, mas nada de trafulhices.
            - Que pena, parece que me tornei muito sério- zombou o rapaz- no meu tempo vocês eram bem mais divertidos.
              - Pois a vida ensina-nos e vamos mudando. E ainda bem. Se um de nós tivesse seguido as tuas pisadas, rapaz, teríamos passado o resto da vida na cadeia- respondeu Manuel Oitenta.
              - Olha que aqui o velhote, ainda tem memória. Que mal tinha roubar umas maçãs aqui, umas uvas ali- contrariou Manuel Rapaz, rindo e limpando o nariz na manga da camisola.
              - Paras com essa mania de limpares o nariz dessa maneira?- rezingou Manuel Oitenta.
           - Pois e já esqueceste que já andavas a roubar carteiras e maços de tabaco- recordou Manuel Quarenta.
           - Vocês esqueceram a fome que eu passei? Como meu pai bebia e batia na minha mãe? Dinheiro para casa para comermos.. esse... pouco trazia.
          - Pois, mas nada justifica roubar e passar a vida a ter problemas com a justiça. Nada como andar de cara levantada.
           - Vocês ficaram bem chatos.- Ficamos, mas não ficamos parvos- alertou Manuel Quarenta- ainda agora acabaste de ganhar o jogo e diz-me lá como é possível tu teres trunfo, se os trunfos já tinham sido todos jogados? Ora levanta lá a tua manga.
              - Não, para quê? - alterou-se o rapaz- escondendo o braço debaixo da mesa.
          - Não tenho nada na manga- respondeu de seguida, rindo e mostrando o braço.
          - Pois não, deitaste para debaixo da mesa- refutou Manuel Quarenta, trazendo de debaixo da mesa as cartas que Manuel Rapaz tinha escondido.
            - Está bem... pronto... fui apanhado, mas desculpem lá.
        - Tu não podes passar a vida a tentar enganar os outros.
           - Nunca pensei vir a tornar-me tão chato.
         - Mas falta aqui alguém- lembrou Manuel Quarenta- o Manuel Vinte.
         - Eh pá, esse não! Tive uma guerra de forças tão grande com ele que me deixou cansado. .. e o esperto conseguiu vencer-me! - resmungou o mais novo.
          - Chamaram-me? Ora boa tarde. Que fazes tu aqui Manuel Rapaz?
       - Ora, fui chamado primeiro do que tu e se soubesse que também virias, eu não teria aceite o convite. Já me causaste muitas dores de cabeça.
          - Eu a ti? Ou foi ao contrário? Lembras-te que se não fosse eu, os problemas que terias o resto da vida?
         - Pois desde o momento em que viste a Georgina, que ficaste com aquelas manias de menino bom. Eu bem tentei tornar-te um Manuel Vinte mais alegre, mas qual quê... isto quando um fulano se apaixona está tudo perdido- retorquiu o mais novo, acentuando o seu ar de gaiato travesso.
             - E havia menina mais bonita do que aquela? Quando a vi pela primeira vez, naquele vestido azul claro, airosa, com o cabelo castanho apanhado com uma fita igual ao vestido e com uns chinelos a mostrarem aqueles pés delicados- descrevia o recém-chegado, como se o passado estivesse muito presente
            - Pés delicados? Ela parecia que calçava o quarenta- respondeu Manuel Rapaz, rindo.
            - Tu não sabes apreciar a beleza de uma mulher- respondeu Manuel Vinte.
            - Eu sonhava dia e noite com o dia em que beijaria aquela pele macia e morena
          . - Morena? Era mais negra do que a ferrugem... ah ah ah!
            - Podes deixa-lo falar? - pediu Manuel Oitenta- eu também me lembro da Georgina assim.
        - Tu continuas o mesmo teimoso, com quem tive que lutar tanto, para me tornar diferente- relembrou Manuel Vinte.
            - Isso foi desde que viste a Georgina triste, porque uma amiga dela lhe tinha roubado a fita do cabelo.
          - Sim, ela chorou tanto. Ela gostava muito daquela fita e não tinha outra. Tinha economizado algum dinheiro para a comprar. A família era muito pobre, mas ela tinha garra para a vida.
          - Desde esse dia, fizeste a promessa estúpida de nunca mais tirares nada a ninguém e trabalhares honestamente para poderes dar uma fita nova e uma vida decente à tal Georgina. Que dores de cabeça isso me deu... e foi graças à Georgina que eu desapareci do mapa- queixou-se Manuel Rapaz.
           - Ainda bem, porque ele ao vencer-te, pude viver toda a vida com ela e formar uma família. Ainda me lembro bem do dia do nosso casamento, em que juramos fidelidade- respondeu Manuel Quarenta.
            - Mas isso não te impediu de lhe seres infiel- replicou Manuel Rapaz.
         - Pois, isso foi um erro que cometeste e que eu tive que tentar remediar o resto da vida- lamentou Manuel Oitenta.
          - Eu entendo e peço-te desculpa por isso- concordou Manuel Quarenta- quando penso nesse dia, em que ela soube que eu a tinha traído... o quanto ela chorou. E as vezes que eu lhe pedi perdão. Ela acabou por perdoar... felizmente.
           - Eu sei, ela tinha bom coração e gostava de nós, mas também sei que essa ferida, viveu com ela, até ao dia em que partiu- lamentou Manuel Oitenta.
           - Então se tu pudesses escolher ou rejeitar alguma parte da tua vida, qual escolherias?- perguntou o mais jovem com um ar um pouco sério.
              - Rejeitaria o momento em que fui infiel à minha Georgina e um outro que hoje o diabo de um sonho me atormentou ao lembra-lo... Cacum. Vocês lembram-se dele?
              - Vá la, não me rejeitavas a mim- exclamou trocista o jovem Manuel.
             -Não, tu foste a primeira fase controversa da minha vida, porque lutavas contra coisas que não entendias- sossegou-o Manuel Oitenta.
            - Apesar de ter que lutar muitas vezes contra ti, mais tarde entendi que tinha que continuar a lutar contra muita coisa- murmurou Manuel Vinte- eu sonhava teimosamente em nunca precisar de ninguém.
           - Olha levaste contigo esse defeito meu... eu também lutava por isso, mas até para roubar, eu precisa que houvesse outros, se não nem ladrão eu poderia ser- respondeu o rapaz, quase no mesmo tom.
            - Por vezes falha-me a memória e não me lembro bem, como é que era em criança, antes de ser esse rapaz teimoso e rebelde que tu és- disse Manuel Oitenta para Manuel Rapaz.
            - Não foi fácil. Eu era sossegado, mas depois passei a achar-me apenas um sonhador. Eu criava borboletas. Tinha casulos e passava muito tempo a cuidar deles, até nascerem borboletas. Também tinha feito um pombal, atrás da casa. Já tinha pombos a acasalar...
           - Mas como tinhas tu dinheiro para alimentar os pombos? Já não me lembro- afirmou Francisco Oitenta, num esforço para se lembrar.
            - A vizinha Joaquina, partilhava comigo o milho que comprava para os dela- explicou o Manuel Rapaz.
              - Eram tão bonitos! Todas as tardes abria-lhes a porta e eles iam e vinham! E eu gostava tanto de ver as lagartas a transformarem-se em borboletas. Mas o meu pai, um dia chegou a casa zangado, não sei porquê. Torceu o pescoço aos pombos todos... Nem os mais pequenos escaparam! E depois a rir, ainda disse que tinha sido o Cacum! Chorei tanto! Prometi que a partir daquele dia, só riria de tudo e de todos... e foi assim, que de criança passei a ser rapaz.
             - E foi assim, que passaste a roubar e a ser detestado por todos. Nem a vizinha, que partilhava contigo o milho para os teus pombos, escapou- respondeu Manuel Vinte.
            - Cada vez que lhe tirava uma moeda, pensava; "um dia destes volto a por cá a moeda", mas nunca consegui- lamentou Manuel Rapaz, como se deplorasse o único acontecimento, do qual sinceramente se arrependia.
             - E que luta tive eu que travar para me tornar honesto e respeitado. Apesar de tanto a roubares, quando eu ganhei coragem para lhe pedir desculpa e lhe prometer que nunca mais a roubaria, ela chorou de felicidade. Ela acreditou em mim- lembrou Manuel Vinte comovido.
              - Ou quis acreditar, como qualquer criatura quer crer, quando gosta de alguém - afirmou Manuel Quarenta.
                 - Eu acho que ela foi das pessoas que mais gostou de mim. Pois, se eu pudesse retirava essa fase das nossas vidas, Manuel Oitenta- concluiu Manuel Rapaz.
                   - Pois... e do Cacum, lembras-te?- perguntou Manuel Oitenta.
                - Sim, depois do meu pai me tentar convencer que fora o Cacum que tinha destruído os meus casulos e o meu pombal, quis saber como ele vivia. Queria poder dizer,´´ sim foi o monstro da aldeia que destruiu tudo o que eu fiz``. Se inventasse essa verdade, poderia fazer do meu pai uma pessoa melhor.
                 - Eu lembro-me de teres ido lá- relembrou Manuel Vinte- Quando entraste no lugar onde ele morava, esqueceste tudo e ficaste maravilhado com a azenha, com a roda que transformava a queda do rio em cascata.
                 - Devagarinho, sem fazer barulho, andei à volta das árvores. Eu esperava que saíssem delas, morcegos prontos a morderem-me mas saíam só passarinhos, que todos contentes iam beber água à fonte do Cacum. A casa dele ficava no meio de tantas árvores e de tantas flores!
                 - Tu foste para casa maravilhado e sonhaste com os peixinhos que saltavam na cascata, mas não tiveste coragem de dizer a ninguém o que tinhas visto e guardaste isso como um grande segredo- disse Manuel Vinte.
                     - Claro que tive medo! Ora se, ao contar a verdade, as pessoas me transformassem em monstro também! Eu ainda era pequeno, mas aqui o Manuel Quarenta já era grandinho e não deveria ter feito o mesmo com a filha.
                  - Tens razão. Eu nunca deveria ter esquecido aquilo que tu descobriste e o que a mãe te dissera; que fora o seu defeito na fala e sua condição humilde que marcara a diferença para ser rejeitado por toda a aldeia, mas esqueci...- lamentou Manuel Quarenta.
                  - Pois, foi mais fácil fazer parte da maioria, ainda que significasse alimentar uma mentira. E o sonho de hoje atravessou-se na minha noite e atormentou-me. Agora não posso voltar atrás e emendar os erros. Enquanto isso, eu continuo a lutar contra estes momentos, em que não sei lidar com a minha idade e não facilito a vida à minha filha. Mas é difícil viver esta solidão. Será que ela traz isso como lembrança?
            - A Maria Luísa gosta de ti, mas a vida também a obriga a deixar-te sozinho- tentou-o tranquilizar, Manuel Quarenta- não esqueças que apesar de eu ter trabalhado muito, enquanto pude, não foi o suficiente para te garantir uma boa reforma.
                - Eh pá, não sejam tão pessimistas! Não sejam chorões! O Manuel Oitenta pode ver as serras desta janela. Pode ver a luta entres os galos e se for uma ou duas horas por dia, até à porta do pátio, pode ver o rio que corre em frente à casa- discorreu Manuel Rapaz, num ar aguerrido.A figura gaiteira do rapaz fez rir os dois homens, que exclamaram
              :- Olha aquilo que já fomos!- Vamos embora... a Maria Luísa está a abrir a porta- avisou Manuel Vinte.
             - Olá pai- saudou Maria Luísa, beijando-lhe o rosto- está a jogar?- Olá
           filha. Sim, com uns parceiros novos- respondeu sorrindo- mas diz lá, como foi o teu dia?
           - Igual a todos, mas melhor agora, porque chego ao fim do dia e venho encontrá-lo bem disposto.
               - Filha, qual e a recordação mais forte que guardas de mim, enquanto eras pequena?
               - Boa ou má?
                 - Não importa... apenas a mais forte.
               - Quando o pai fez um balouço só para mim- respondeu Maria Luísa, sem hesitar. Manuel sorriu.
              Horas depois, quando já só o som do relógio, exercia grande domínio pelos cantos escuros da casa, sorriu ao lembrar as gargalhadas e as traquinices de Maria Luísa e a voz de Georgina a adverti-la com amor.Desta vez não procurou avidamente o sono. Deitou suavemente a face e aceitou uma ligeira caricia, como se alguém o aconchegasse à almofada. Não fez ouvido de mercador às vibrações do seu ouvido interno. Fechou os olhos e viu um mundo cheio de cores, onde a sua Georgina sorria feliz enquanto escrevia. Manuel viu com clareza a folha de papel azul. A caneta escrevia letras brancas:
            ´´ Meu amor, passamos tantos anos juntos que saberás com certeza que é com amor que te escrevo. Respira calmamente e sente o meu abraço carinhoso. Essa solidão, essa impotência que te traz grande desespero encara como uma nova etapa, um renascimento. Cada lembrança trata-a com amor e sem culpas. Respira e deixa-as partir e sentirás a liberdade. Não deixes que o relógio dos teus olhos te convençam que é tarde. É época de colher os sonhos; eles estão maduros.``
               Na manhã seguinte, Manuel não sentiu a filha sair. Levantou-se como se tivesse menos vinte anos e ignorando a bengala seguiu um raio de sol que sorria comovido sobre a colcha. Abriu a janela e viu uma folha de papel azul. Rapidamente dirigiu-se ao pátio e apanhou a prova viva do seu sonho. Perdera tantas; não queria perder esta. Retornou à casa e sentou-se no seu lugar habitual. Viu-se rapazinho triste e amou-se. Esse amor levou-o a perdoar-se em todas as outras etapas da vida.
            - Pai, estás a dormir ou a pensar. Seja o que for deves estar a ver algo muito bonito. Tão bonito quanto esse sorriso que nunca vi antes no teu rosto. Não obteve resposta.
             - Pai- insistiu a jovem tocando no ombro de Manuel- pai!!!!!!!!!! Maria Luísa sentou-se na cadeira ao lado e antes que o pranto rompesse, viu uma folha de papel azul. Leu-a.
              - Obrigado pai, mesmo não sabendo onde foste buscar uma caneta de tinta branca e esta não ser a tua letra, sei que as palavras são para mim. Obrigado. Este teu último sorriso enobrece toda a tua vida.
***

Papillon

O nariz longo e afilado entre os olhos  tristes e derrotados. As ossudas maçãs  do rosto  reprimindo  questões esgotadas. O medo serpenteando-lhe o cérebro. Entre a chávena do café e os cotovelos, um papel branco. A mão esquerda segurando o queixo, enquanto a direita enregelada pela rotina do trabalho fabril, desenhava um cavalo.  
De repente, viu o seu colo magro invadido por um cão de  pequeno porte. Apesar do seu isolamento na esplanada barulhenta deixou que todo aquele pelo branco se acomodasse nas suas pernas. O cão colocando uma das patas sobre o papel, saudou-o:
-Olá fantástico homem.
- Fantástico sonhador, queres dizer. O mais importante que faço na vida é olhar garrafas correndo numa passadeira; fora disso sou um ridículo. 
- Se tu te achas um ridículo, ridículo serás. Um cavalo? Por quê?
- Rocinante? Talvez como D.Quixote conquiste a Dulcineia que almejo; ela quer-me herói. Queria tanto dançar com ela, mas ela diz que fico melhor a um canto. Nem dançar sei!
-Estas grávido.
-Quê?
- De medo. Não te preocupes; é possível o aborto. Estou aqui eu.
- Um minúsculo Papillon com orelhas de borboleta.
-Cheio de vontade. Serve-te do que tens.
Francisco riu trocista. Papillon arreliado saltou para o chão, revirou os olhos, arreganhou os dentes e lançou-se ferozmente a um dos seus pés. Francisco assustado levantou-se e recuou.
- Não recues homem, reage- rosnou o cão, atacando-lhe alternadamente cada um dos pés.  Francisco aprendia a dançar. Adeus vergonha; era urgente salvar os pés.
Um acordeão aumentou a diversão. Viu, entre os espectadores, uma outra Dulcineia dançando. Aceitava-o sem disfarces. Sorriu; os medos eram moinhos de vento.
E Papillon? Aplaudia dentro de si! 


***

Há sempre uma razão para não desistir


Numa noite em que todos já se tinham deitado, ela levantou-se sorrateiramente e abriu a janela. Sem saber porquê, não conseguia dormir. Apoiou os cotovelos no parapeito e o rosto sobre as mãos. Olhou o céu e um pássaro atrevido riscou o espaço infinito, acordando algumas estrelas que sorriram e voltaram a adormecer. O pássaro ficou parado de asas abertas, saboreando o poder de poder ficar assim,  quieto no ar, sem cair. Ela sorriu um pouco triste e desejou ser uma ave. Ficaram a olhar um para o outro, indiferentes ao som regular do relógio do quarto ao lado, preparado para acordar a sua avó. O primeiro membro da família a levantar-se.
            Ela era apenas uma criança que desejava transformar o mundo e fazê-lo belo como num filme mágico. Uma lágrima caiu pelo seu rosto,  ao sentir  que na sua pouca idade já tinha a noção o quanto era frágil o seu poder. Não conseguia entender porque na escola, o menino da carteira ao lado da sua, trazia ainda no rosto,  os sonhos maus que o perseguiam no seu sono, que deveria ser tranquilo. Por que Joana, a sua colega de carteira, tinha no desenho da sua boca a marca do fraco café? Café que certamente enganava os desejos e a necessidade de um crescimento normal. O pássaro parecendo adivinhar os seus pensamentos, aproximou-se dela e perguntou-lhe:
            - Porque estás triste?
 Com um sorriso a menina respondeu:
 - Gostaria de mudar o Mundo!
 - Anda comigo!- O convite foi feito de um modo suave mas determinado.
            Abriu a porta. Descalça seguiu o pássaro que num voo baixo dirigia o seu destino.
            -Senta-te debaixo dessa árvore e escuta. - pediu-lhe o pássaro.
 Sentou-se no chão e recostou-se no tronco da árvore. Escutou choros, lamentos, sentiu corpos cansados, rostos suados e conversas tristes...
 Olhou a árvore e perguntou-lhe:
 - Quantos anos tens?
 - Não sei, talvez um século.
 - E como ainda te manténs viva com tanta tristeza que testemunhaste?- perguntou admirada.
 - Ora, escuta de novo- respondeu com ternura a árvore.
 E ela escutou. E então ouviu conversas alegres, risos de crianças e pessoas que se levantavam  um pouco mais revigoradas.
            -Agora,  olha-me com atenção. Tu sabes que sou de raízes fixas e que não posso sair daqui.
 - Eu sei, mas eu vejo-te mexer!- exclamou olhando o movimento dos seus ramos.
            - Quem será que se mexe? Eu, ou o vento que se desloca e tu não vês?
 Numa expressão admirada, esperou...
 - Eu também fico triste quando vejo que nem todos podem acordar felizes, mas por eles eu deixo que o vento transforme os meus ramos e as minhas folhas em frescos movimentos para quem estiver cansado. A coragem, não a ganho sozinha, eu deixo que o vento me ajude. Se eu desistir, quem amanhã servirá de sombra e abrigo para as amarguras daquele que precisa da minha força? Onde descansariam as aves. Também elas me encorajam com as suas aventuras.
            Gracinha abandonou silenciosamente aquele momento mágico e recolheu-se na sua cama, palco de tantas perguntas jovens sobre  desânimos e lutas que pareciam tão velhos.
            Sorriu antes de adormecer, sentindo que no dia seguinte poderia juntar o seu pão,  ao fraco café de Joana e desenhar um beijo no seu rosto sujo. Suspirou ao imaginar o seu poder de transformar o rosto cansado do menino da carteira ao lado, se ao chegar à escola, não se limitasse a ficar triste por ele, mas se lhe sorrisse com um verdadeiro bom dia e misturasse os sonhos e medos num jogo em que a amizade pode assegurar, que por vezes a vida é um jogo perigoso,  mas que nunca o jogamos sozinhos.
            No dia seguinte, antes de ir para a escola, sorriu para a árvore que parecia mover-se,  mas que na verdade era a força do vento que a movia. Sentiu a força das suas raízes cheias de boa vontade e amor, que ao invés de se desesperarem por não poderem mudar o mundo, permaneciam na coragem de dar alento ao mundo que estava ao seu alcance. Sentia que o vento  parecia beijar  o seu sorriso e empurrar o seu passo,  apressado em encontrar os seus amiguinhos para  aventuras, onde poderiam ser reis e princesas em castelos de alegria  farta.
            Ao chegar ao pátio da escola,  todos os seus sentidos foram dominados  pela paisagem impressionante que parecia um hábil contador de histórias, possuidor de papel e caneta. As brincadeiras, gargalhadas, jogos e sonhos que enchiam todo o recinto escolar eram o motivo da fantástica narrativa. Era a altura de viver num mundo colorido e saltitante, sempre a girar. Sempre a girar andava o pião do José Joaquim. E tinha tantas cores!  Ele exibia o pião como se tivesse conseguido a coisa mais valiosa do mundo!
            Quando a professora chegou, todos se puseram em fila e entraram na sala de aula.  Era o dia  depois das férias de Natal. A  professora perguntou:
            - Então, receberam muitas prendas?
            E ele, o José Joaquim, todo feliz disse:
            - Recebi um pião de uma tia, que veio visitar-nos. E com um brilho nos olhos e um sorriso de quem ia buscar um tesouro no fundo do bolso das suas calças, elevou a mão no ar para que todos pudessem admirar o seu pião. É claro que todos gostaram e alguns até sentiram tristeza por não terem um pião igual .
            No recreio, José Joaquim vivia rodeado de meninos e meninas, porque todos queriam ver o pião girar. E como girava! Quando o pião girava, as cores misturavam-se e eu não sabia distinguir nenhuma delas. Era como quando ela jogava a roda, agarrando as mãos de Joana e ambas rodavam e deixavam-se girar a olhar o ar; todas as cores e formatos se misturavam e elas não sabiam onde ficavam as casas, os telhados, as árvores ou o céu. Aqueles primeiros dias foram um pouco aborrecidos, porque o José Joaquim passou a andar um pouco afastado dela e de Joana. E antes, andavam sempre os três! Durante algumas noites antes de adormecer, ela pensava no pião do José Joaquim e imaginava porque é que aquele pião tão bonito, podia ter o poder para afastar o seu amigo e adormecia sonhando com três crianças saltando e rindo em volta de um pião.  Mas uma noite não sonhou. Não sonhou porque não conseguia dormir e foi como tantas outras vezes até à janela, quando não encontrava respostas para as suas perguntas. Abriu a janela e olhou a lua. Sorriu. Tão linda que era! Tão senhora da Terra! E na Terra todos pareciam dormir. Todos não! Porque lá em baixo, no largo da aldeia, como se fosse o senhor e dono dela, um vulto pequeno girava, porque outro mais pequeno também girava. A lua parecia sorrir e parecia guardar o segredo, escondendo nas suas sombras, as cores que ela já tinha visto brilhar à luz do dia. Mas a lua não conseguiu esconder de mim o gesto tão conhecido do seu amigo; o de levar a mão ao boné que nunca tirava, mas que o fazia rodar pela cabeça constantemente. Sem hesitar, vestiu-me rapidamente e sem fazer barulho saiu à rua. José Joaquim reconheceu-a logo e perguntou-lhe:
- Também não consegues dormir? Eu queria ver-te. Na escola todos querem brincar com o pião e tu pareces não ter gostado, porque parece que foges de mim.
- Não– respondi ela- apenas te quis deixar à vontade.
-Tá- disse ele fazendo rodar o boné- queres que te ensine a atirar o pião?- perguntou-lhe.
- Quero- respondeu Gracinha, esquecendo os dias tristes em que não brincou com ele.
- Olha, enrolas o cordel em volta do pião e agarras assim- tentava ele explicar-lhe,
agarrando uma ponta do cordão- e lanças com força o pião ao chão.
Ela tentou algumas vezes, mas não conseguiu. Riram os dois e ficaram por ali algum
tempo. Gracinha admirando a habilidade do seu amigo. Ele soltando orgulho por ser dono de um pião que sabia pôr a girar. A lua, sorria para um rapazinho que tentava ser feliz, imaginando que um dia iria ser dono do mundo, como hoje era dono de um pião! 
- Olha um dia vou casar contigo. Vou ganhar muito dinheiro. Vais ter vestido bonitos e os nossos filhos vão ter os piões mais lindos do mundo! 
Algum tempo depois, José Joaquim e Gracinha foram dormir. Despediram-se com um até amanhã que prometia a continuidade daquela amizade. Ela entrou em casa. Silenciosamente, como sempre, mas contente. Desta vez adormeceu com um sorriso. O seu sono foi coberto por léguas e léguas de sonhos, que sossegaram na certeza de ter entendido, que até na amizade é preciso saber esperar... com a certeza de que ´´ há sempre uma razão para não desistir ``! Esta frase ´´ há sempre uma razão para não desistir``, faria dela uma força para ir vencendo aquele esquisito mal estar que o mundo lhe provocava. Os dois meninos foram crescendo juntos...  Apesar da aparente paz que certas regiões da terra parecia usufruir, outros cantos do mundo eram campos de sangue. Como nesses campos de guerra, matavam muitos, os poderosos iam buscar outros inocentes. Os que viviam nas regiões de aparente paz. Um dia também vieram buscar o José Joaquim. Ele confiou o seu pião à Gracinha.



´´ A D. Maria guardava o lenço branco, que acenara no cais, enquanto via a figura do seu filho de 21 anos, perder-se entre tantos outros filhos de outras mães, muitas que provavelmente não tiveram possibilidade de dizer adeus ao barco que viajaria milhares e milhares de quilômetros. Era fácil encontrar a D.Maria, na loja, nas ruas, na fonte e no rio, onde as mulheres lavavam a roupa da semana. Talvez ela procurasse a força, nos desabafos com os vizinhos.
- Todos os dias rezo, agarrada àquele lenço. Faço dele um terço. Foi com ele que disse adeus ao meu José Joaquim- desabafava ela, envolta no seu luto prematuro, que contagiava os seus gestos e o olhar, denunciando a auréola negra que envolvia a sua alma.
Não se permitia rir. Guardava o sorriso, para quando pudesse abraçar de novo o seu filho.
- Como posso eu rir, mulher! Eu bem reparei nos queixos do meu José João a tremerem para não chorar... - respondia ela, quando alguém a aconselhava a distrair-se um pouco.
- Sr. Luís, hoje na traz nada pra mim?
- Não D.Maria- confirmava-lhe o carteiro.
Ela suspirava, não se sabia se de alívio, se de ansiedade.
Um dia ela foi à casa da D. Celeste. Queria que a neta da sua vizinha lhe lesse a carta que recebera. Envolta no seu xaile, tentando compor o cabelo dentro do lenço, perguntava ansiosa:
- É do meu José Joaquim, é menina?
A menina, que já sabia ler bem, pois estava na terceira classe, movimentando a cabeça, confirmou.
- Lê, lê...- pedia ela nervosa.
- Calma, vai ver que são boas notícias- tentava a D.Celeste, sentada ao lado da neta, acalmar as pernas trémulas da pobre mulher.


Querida mãe

Espero que esta carta a vá encontrar bem de saúde. Eu estou bem na Graça de Deus. Tenho muitas saudades e conto os dias em que vou poder voltar a abraçar a Sr. Minha mãe. Dê um abraço ao Sr. Joaquim dos bois, à D. Belmira da loja e a todos que perguntarem por mim. A Gracinha já namora? Diga a ela que espere por mim. Eu continuo a gostar muito dela.
Um grande abraço para si deste seu filho que nunca a esquece.

José Joaquim

Quando a menina levantou os olhos, encontrou o seu rosto da senhora coberto de lágrimas.
- Não chore mulher. As notícias são boas. Vai ver, saiu de cá um rapazola, vem de lá um homem- exclamou D.Celeste, usando a mesma expressão que tantos repetiam, como se isso ajudasse a justificar a ausência dos filhos, transformados em soldados,  numa terra longínqua, que Salazar teimava em chamar de ´´vizinha``.
            Um ano depois a aldeia ria, cheia de flores, vozes e movimentos agitados. Um grande arco, feito com rama de palmeira, esperava, na entrada da povoação o retorno do José Joaquim.
De repente, fez-se um silêncio solene. Todos os olhos, fixos no interior do ´´carro de praça``, preto e  verde. Lá dentro, o recém-chegado sorria tímido e inseguro.
- Graças à minha Nossa Senhora, que me entregou o meu filho de volta- clamou D.Maria aos céus.
Primeiro saiu do carro, o tio que o fora buscar. O seu ar demasiado sério, surpreendeu a alegria dos habitantes da aldeia. Seguiram em silêncio, a volta que o homem deu ao carro, abrindo a porta do lado onde se encontrava o tão esperado José Joaquim. Este, colocando uma perna do lado de fora, estendeu o braço para se apoiar no ombro do tio. As expressões de espanto foram muitas:
- Coitado! Que desgraça! E ele, que era a esperança pra´quela casa! Coitado do pai acamado há tantos anos e agora o filho, que podia ser o ganha pão deles, vem sem uma perna.
Os olhos do filho encontraram-se com o sorriso desajeitado da mãe. Era como se ela lhe dissesse ´´ deixa lá, o que interessa é que voltaste vivo``, e ele lhe respondesse ´´ pois, nas histórias que me contavas dos bichos papões, eles só me comiam a brincar. Ali os bichos papões eram mais fortes, desconhecidos e tu nunca chegaste quando, eu escondido na toca, gritava por ti.... agora eu sei que se pode morrer muitas e muitas vezes...
            A Gracinha, já mais velha, correu para ele, segurando pelo braço, garantindo-lhe que ficaria do lado dele. José João estava um pouco atordoado. Por um lado sentia-se feliz, mais protegido, mas por outro sentia dentro dele aquele burburinho esquisito, como se fossem vozes malvadas que não o largavam.
- Coitado, não voltou muito bom da cabeça. Diz que grita de noite- espalhavam alguns pela aldeia.``
Essas vozes tornaram-se a ´´verdade`` na boca das pessoas. A verdade é que Maria da Graça lutou contra a familia e casou com José Joaquim. Não seria a dita desgraça que iria apagar o grande amor que eles partilhavam desde crianças. Um pião não poderia morrer triste.

*** 

Intriga

Em uma outra aldeia, ´´onde reinava a paz` viviam alguns humanos que tentavam encontrar a glória manipulando a vida dos outros através da intriga para disfarçarem a precária situação a que voluntáriamente se tinham sujeitado; a sua sujeição a um governo contra o qual apenas, por medo, resmungavam entre dentes. Essa era também uma das formas de se lançarem na escuridão. Eram seres vocacionados para se ocuparem mais com a vida dos outros do que com a própria vida. Obreiros de gigantecas muralhas, com uma força magnética extraordinária para nos repelirem. Nem que nós perdessemos toda a nossa luz para os iluminar, só aprenderiam

A música ouvia-se, como som de fundo, na noite clara. Meia noite. A lua brilhava num quarto crescente perfeito.
             Enquanto dançava um tango atrevido, sorria feliz ao sentir a sua mão quente que acendia os movimentos frenéticos dos passos de dança.
             - Linda! - sussurrou ele com os lábios roçando o lóbulo do seu ouvido.
            Era como um segredo de amor que fervia em seus lábios. Ela ria ao observar as velhas beatas, que se benziam como que pedindo perdão, por não conseguirem deixar de olhar.
            - Queres ir ver a lua? Eu amo-te. Queres ser a minha noiva?
             - Sai e espera por mim à beira do rio.
             Linda abandonou, discretamente, o salão de baile, da sede da aldeia. Correra sôfrega à procura do amor. Ah que felicidade! Finalmente o homem dos seus sonhos, tinha-lhe declarado o seu amor.
             - Linda, demoraste!
             - Aqui estou- brincou ela confiante que encontrara o amor. Toda ela era alegria. Não sabia viver de outra forma embora os da aladeia não entendessem. Chamavam-lhe a Leviana. Tentava brincar com isso
             - Vem, agora serás minha à minha maneira.
             - Calma, calma- pediu ela, pensando que ele estava a brincar também.
             - Uma ordinária, uma mulher vulgar como tu, não precisa de carinhos...quer gozar.
            - Não! Carlos, não te estou a conhecer. Disseste que me amavas.
            - Amor? O que é isso? Todos sabem que nunca quiseste amor com todos aqueles a quem te entregaste. Porque é que comigo seria diferente? Não! Estás a fazer-te esquisita- respondeu ele, rindo e fazendo estalar a sua mão no rosto de Linda.
             Deitou-a no chão, numa linguagem corporal completamente descortês.
             - Ai, tenho as minhas costas sobre uma madeira que tem um prego.
            Ela não entendia nada. Não era aquele o seu vizinho? O bom rapaz que toda a aldeia apreciava?
             - Aguenta, eu não demoro muito.
             Longos minutos ou breves segundos depois, ela sentiu o alívio da partida do corpo dele. Não se mexeu; sentiu o prego nas costas, olhou a lua e murmurou:
            - Tu pareces tão segura aí em cima. Quem me dera encontrar um lugar assim para mim.
             Ninguém mais a vira, apenas o maquinista do comboio. Consternado com a tragédia, lamentava profundamente a morte da jovem. Suícidio que não conseguira evitar. Avistara ao longe, como uma miragem, uma mulher ajoelhada na beira da linha do comboio, com os longos cabelos louros espalhados pelo chão e tapando completamente o rosto. Quis parar o comboio. Usou, com  aflição o apito da máquina. Mas nada. A jovem mulher estava decidida a cumprir o seu objetivo.
            - Não se aflija senhor!- diziam-lhe as mulheres- Foi uma bênção. Essa aí era uma desgraçada e desgraçava os outros. Que Deus guarde a sua alma.
            - Morreu a leviana! Morreu a leviana! - anunciavam alguns espalhando a notícia.

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            Um ano depois.
            O espírito de Teresa fervia ansioso pelo eminente ``sim´´. As duas figuras que até ali tinham cumprido todos os requisitos de uma novela apaixonada, enfeitavam o altar da igreja e ofereciam a liberdade de sonhar às raparigas da aldeia ainda por casar. O amor e a paixão que crescera diariamente nos mais secretos desejos dos seus corpos, sujeitaram-se a ficar apenas nos olhares que trocavam discretamente.
            Após as palavras do padre `` Eu vos declaro marido e mulher´´, Carlos e Teresa saíram para a rua.
             Em torno das figuras dos noivos caíam pequenos e coloridos confeitos. As gargalhadas quase histéricas das raparigas solteiras, impunham à noiva, atirar o seu ramo de flor de laranjeira. Com um sorriso largo agarrou na mão do noivo e ambos arremessaram no ar, o símbolo da virgindade da noiva.
             Nem o dia longo, nem  a hora adiantada da noite  quebraram a ansiedade de Teresa.
            Enquanto despia o longo vestido branco, sentiu uma leve tristeza. Apenas leve. Teresa não deixara que fosse mais do que isso. Esperara o dia inteiro que Carlos lhe retirasse lentamente o leve tecido branco; como se nesse gesto recompensasse toda a espera pelo momento em que entregaria a ele a sua grande prova de amor... deixar o seu corpo entrar no seu. Não era no romper da sua membrana ainda casta e pura que guardava a sua maior prova de amor, mas  sim na sua disposição de se entregar. E essa prova de amor, desejava oferecer-lhe constantemente, até ao fim dos seus dias. Sorriu. Para ela, a prova física da sua virgindade era apenas uma membrana. Para sua mãe, o orgulho de poder dizer `` A minha filha casou virgem! ´´
            Pouco tempo depois, entrou no quarto com um sorriso. Não queria fingir uma inocência que não sentia. Queria que Carlos a conhecesse mulher capaz de desejar. Tinha sempre escutado os conselhos de sua mãe, calada e aparentemente submissa, sem dar a conhecer que no seu interior existia a revolta pela desigualdade. Uma revolta que não sabia quando tinha nascido,  mas que tinha crescido involuntariamente dentro dela.         
- Que camisa de dormir tão ousada- comentou Carlos- a tua mãe viu essa camisa?          
- Não- respondeu Teresa rindo- a camisa que a minha mãe aconselhou para esta noite é demasiado recatada.        
- Espero que nunca mais uses essa camisa. Certamente que prefiro a que a tua mãe escolheu. Mas está bem. Por hoje passa.  
Mais uma vez Teresa sentiu uma leve tristeza, mas engoliu-a silenciosamente sentindo uma leve dor na garganta. Sorriu. Queria sorrir e vencer todas as batalhas para ter um casamento de verdade. Não queria viver morta, ser presença formal, animal manso que reconhece o dono que a tirou do rol das solteiras.  Deitou-se no leito fresco e sorriu:  
- Amo-te. Vem. Beija-me.    
- O que é isso? Estás muito oferecida. Não te conhecia assim.       
- Esquece. Agora somos casados.    
Carlos não precisou de levantar a fina camisa vermelha. Ela era suficientemente curta e mostrava a a completa nudez da intimidade da noiva.      
 - Espera, que fazes? Não quero assim- queixou-se Teresa- preciso que me beijes. Quero sentir o teu carinho...        
Carlos não a deixou terminar. Deu-lhe um beijo rápido na face e penetrou-a com a força de uma fera selvagem. Teresa agradeceu a Deus a rapidez do noivo.       
- Pronto, gostaste? Deixa ver o lençol- ordenou ele empurrando ligeiramente o corpo dela para o lado.
Teresa olhou. Suspirou aliviada.      
 - Bom ainda bem que a forma como te ofereceste esta noite não significa que já tenhas sido usada. Se não fosses virgem devolvia-te à tua mãe.     
Minutos depois Teresa podia sentir a respiração do marido. Como ele adormecera depressa! Deixou uma lágrima deslizar. Uma lágrima que parecia cair amargamente sobre a prova vermelha que manchava o leito nupcial.            
No dia seguinte muitos dos convidados tentavam acabar com o resto do banquete. Dois homens tocavam as suas concertinas.   
- Que dancem os noivos primeiro- gritaram alguns.
O noivo erguendo o copo do vinho respondeu:       
- É para já! Senhora Gonçalo, concede-me a honra desta dança? - pediu dirigindo-se a Teresa,  
- Claro que sim- respondeu ela, sorrindo, tentando esquecer a noite que passara acordada pelas razões erradas.          
- Que sorte teve a sua Teresa, vizinha Lurdes- comentou uma mulher.      
- É verdade. O Carlos é um excelente rapaz. Que a minha Teresa não fica atrás. Ela foi para o casamento como Deus manda- respondeu Lurdes orgulhosa.     
A segunda noite chegara. Teresa estava exausta, mas não iria desistir.      
- Mau, essa camisa de dormir ainda é pior do que a de ontem- censurou Carlos.  
- Calma. Desfruta. Quero ser tua. Gostas? - perguntou ela exibindo-se audaciosa.
- Que tens? Pareces uma leviana com o cio. As esposas querem-se discretas.       
 -Eu sei que posso ser isso tudo. Discreta, leviana, amorosa, mulher, amiga...      
- Que se passa contigo? Não parecias ser assim.      
- E por que não hei-de eu ser assim? Não quis quebrar as regras e desgostar a minha mãe. Mas agora, que sou casada, quero libertar-me contigo.  
- Se ela souber que te portas assim, vais desgosta-la...        
- E porque precisa ela de saber. Ou alguém? Não somos nós apenas um?
- Queres prazer? Pois... vou dar-te prazer- respondeu Carlos saltando sobre o corpo da esposa.  
- Outra vez assim? Não, não quero.  
- E quem és tu para querer?  
Teresa sentiu-o usar o seu corpo, no mesmo momento em que reparou, que apenas estava ligada a essa pessoa, por um compromisso assumido publicamente. Aquele ``sim´´ que libertara voluntariamente, prendia-a agora a um desconhecido.     
- Agora, vais vestir uma das camisas que a tua mãe te deu e nunca mais quero ver essas- ordenou-lhe o marido.
Sim, agora reconhecia-o. Reconhecia-o nos maridos das outras mulheres.           
Em silêncio, entrou na casa de banho e trocou a peça de seda preta pela camisa de flanela. A sua alma, aceitou forçada e descontente a camisa longa, de flores miudinhas e de corte a direito.   
Após mais uma noite sem dormir, levantou-se cedo. Preparou o pequeno almoço para o marido e arrumou a casa. Depois do almoço, fechou a porta e decidida foi à casa da mãe.   - Mãe, nunca desejaste o pai de forma diferente daquele a que te ensinaram a ser? - perguntou um pouco nervosa.     
- Que conversa é essa rapariga. Olha se alguém te ouve. As paredes podem ter ouvidos- advertiu-a Lurdes.          
Disposta a enfrentar todos os avisos que já conhecia, Teresa contou tudo o que acontecera desde o momento em que se casara. Restava-lhe a esperança que a mãe a entendesse, ainda que fosse a primeira vez.   
-Rapariga, tu deves estar possuída pela alma da Leviana. Dizem que ela anda a tentar certas mulheres, santas devotas da igreja e que as tem transformado. Tenho que te levar à bruxa... ai valha-me o meu Santo Cristo.
- Mãe, já viu o que está a dizer? Agora as paredes já não tem ouvidos? Eu sempre so- nhei com um casamento diferente do seu e das outras mulheres.  
 - Esta rapariga não é deste mundo! Onde já se viu? Amanhã mesmo, vamos à bruxa. Vamos ao Bombarral. Vamos de manhã cedo, depois do teu marido sair. Ninguém precisa de saber.          
- Mãe, eu não vou a bruxa nenhuma. Eu sei o que quero.   
- Não vais tu, vou eu e levo uma peça de roupa tua.
Enquanto Lurdes destinava a viagem do dia seguinte, alguém de ouvido encostado à parede da casa dela, escutava atentamente.
- Que se passa vizinha?- perguntou uma viúva que por ali passava.           
 - Não faça barulho, vamos embora antes que nos vejam. Já lhe conto. Nem vai acreditar- segredou Albertina que nos seus quarentas ano, aparentava quase sessenta.
- Meu bom Deus, a D. Celeste até me assusta...mas conte, conte- pediu a recém-chegada, limpando as mãos ao avental remendado.
- Parece que a alma da Leviana anda a tentar a Teresa.      
- Credo, temos que fazer umas rezas por ela. Quantas vezes já lhe apareceu?       
 - Não sei, mas parece que algumas. Mas vamos guardar segredo. 
- Claro mulher. Até logo- despediu-se Joaquina, dirigindo-se apressadamente para a loja da Ema.         
 - Mulher parece que viste o diabo- reparou a dona da loja.
- Ai D. Ema não lhe digo, nem lhe conto.    
- Desembuche, conte, conte...          
- A filha da Lurdes está a ser apoquentada pela alma da Leviana.  
- Há quanto tempo?   
- Oh, já há muito tempo! A família tem mantido em segredo. Já viu, se o noivo soubesse, não casava e lá ficava a pobre rapariga solteira.    
- Mas assim fica o pobre do Carlos em problemas.
- Estão a falar em mim?- perguntou Carlos ao entrar na loja- Quero uma cerveja D. Ema, se faz favor.
- Sempre tão bem educado este rapaz. Merecias melhor sorte- lamentou Joaquina.          
- Mas afinal o que falavam de mim?
- Mas, então tu ainda não sabes da desgraça que bateu na tua porta?- perguntou-lhe Ema.          
- Tens que ter paciência, meu filho- recomendou-lhe a outra.        
 - E fé, muita fé. As coisas do diabo só se resolvem com fé em Deus- recomendaram as duas mulheres, quase ao mesmo tempo.        
- A alma da Leviana entrou na tua mulher. Parece que a mãe a quer levar à bruxa, mas a Teresa não quer.   
- Eu bem me parecia que alguma coisa estranha se passava- desabafou Carlos, saindo apressadamente da loja.           
- Olha a tua cerveja rapaz- gritou Ema sem obter resposta.
 - Coitado, ficou preocupado e com razão- concordaram entre si as duas mulheres.
            - Amanhã vais a essa bruxa com a tua mãe- gritou ele assim que entrou em casa. 
- Já falaste com a minha mãe?          
- Não. Contaram-me na loja da Ema.             
- Mas como? Como souberam?        
- Tudo de se sabe. Não há mentira nenhuma, nem segredo nenhum que não se descubra.            
Teresa manteve-se silenciosa e silenciosamente serviu o jantar ao marido.Mais tarde, quando se deitou sentiu que a dor da alma se tinha apoderado do seu corpo. Tudo lhe doía. Caiu no sono...           
`` Como a via bem! Ela libertava-se da vida supérflua e parecia contemplar o Universo. Parecia feliz. Flutuava e parecia querer levar a sua alma. Parecia querer contar-lhe um segredo. Foi. Sentiu-se flutuar e sorriu do mesmo modo que a via sorrir. Ouviu música ao longe. Parecia-lhe um som familiar. Entraram pela porta do salão e sentaram-se num dos barrotes que sustentavam o telhado da sede. Ninguém as via, mas elas viam tudo e todos. Reparou em si, lá em baixo, feliz a dançar com Carlos. Depois viu-se a dizer adeus a todos os conhecidos e a ir embora. De repente assustou-se; Carlos dançava com ela, aquela que a conduzira até ali. Olhou para ela sem entender. A outra sorria-lhe e pediu-lhe que se acalmasse. Abandonaram a sala de baile e pararam numa azenha. A sua enorme roda movia-se na força do rio, que parecia enamorado e rendido aos seus encantos. De repente ouviu um grito. Olhou-a perplexa. De onde viria o grito? Ela estava serena. Seguiu o dedo indicador dela e viu-a de cabelos longos, ajoelhada na linha do comboio. Tremeu ao escutar o apito de alerta do comboio. Reparou que uma lágrima muito transparente, quase inexistente, humedecia o seu sorriso. Deram meia volta e afastaram-se do local. Ao longe, sentaram-se nas velas de um moinho e Teresa seguiu com o olhar a direcção que ela lhe indicava; uma casa no meio da encosta de uma das serras da aldeia da Louriceira.... ´´          
Acordou ao sentir que o marido se levantava. Saiu da cama e dirigiu-se à cozinha.         
Enquanto lhe servia o pequeno almoço perguntou a Carlos:          
- Tu conheceste bem a essa, a quem chamam de Leviana? 
 - Só de dizer bom dia e boa tarde.  
- Eu não vou à bruxa- informou decidida.   
- Pois considera-te descasada.- respondeu ele friamente- e quando eu chegar logo à tarde não te quero ver aqui.          
Deixou-o partir sem responder. Colocou alguma roupa dentro de uma mala, o dinheiro que lhe tinham oferecido pelo casamento e fechou a porta da casa que nunca lhe pertencera.       Em poucos dias Teresa ganhara uma feição adulta e sombria, onde se misturava uma certa insegurança infantil, que parecia ter voltado para implorar, que pelo menos a sua mãe a entendesse.          
- Então resolveste ir comigo ao Bombarral?
 - Não. O Carlos não me quer em casa se eu não for.          
 - E mesmo assim não queres ir?      
 - Não. Como eu gostaria que a mãe me entendesse. Deixe-me voltar para casa, por favor.         
- Estás doida rapariga... o que não diria a vizinhança.         
 - O que os outros disserem não me vai fazer feliz, nem mais infeliz.       
O rosto redondo de Lurdes, atrofiou-se um pouco, confessando uma certa angústia. Passou a mão pela testa, suspirou e finalmente disse:
- Está bem, então façamos assim; amanhã vais comigo à mulher do Bombarral. Veremos o que ela nos diz. Só te peço isso.  
- E o pai?       
- Ele concordará com tudo. Ele gosta mais de ti do que qualquer outra coisa. Tens a sorte de ter um bom homem como pai.   
- Sorte? Porquê mãe? Não fiz nada de mal. 
Teresa deixava o rosto pálido, outrora alegre e resplandecente, sentir o vidro frio da janela do comboio, enquanto o seu olhar se perdia na paisagem que parecia apressada em desaparecer. Não a incomodava o som monótono do comboio. Pior do que isso, tinham sido as batidas nocturnas do relógio. Discretamente olhou a sua mãe. Olhou-a pela primeira vez, como mulher. Sabia que ela gostaria de usar o cabelo curto, mas  que nunca o cortaria. Aquele carrapito preso com ganchos, seria sempre o seu único penteado. Não que lhe ficasse mal, mas porque a tradição mandava assim. Sabia que a mãe sentia calor com aquelas meias grossas, mas jamais as tiraria. Suspirou. Viveria aquele dia como um feriado na sua vida.   
- Chegámos- avisou a mãe.   
Aparentemente, Teresa seguiu aquela que a criara e a quem devia todo o respeito, como uma criança obediente. O que ninguém adivinhava era que aquele aparente ar submisso e dócil não esmagava a sua determinação, em procurar tudo o que sonhara até ali, tão secretamente. Acreditava que a maioria das pessoas também sonhavam ou sonharam, nem que fosse apenas por um instante. O que acontecia, é que a maioria tinha medo e assumia uma valentia e satisfação tão amargas, quanto os seus sorrisos e as suas figuras. Queria triunfar dentro de si, mesmo que a desassociassem daquele mundo tão religiosamente fiel ao medo. Antes viver desassociada do que morta.        Da estação do comboio da vila de Bombarral à casa daquela, que para a sua mãe iria resolver a sua vida, tiveram que andar apenas duas ruas estreitas.      
- É ali- apontou Lurdes para uma casa baixihinha e amarela. As janelas mostravam um ar abandonado. A ausência de alguns vidros, davam-lhe um ar fantasmagórico.       
Empurraram a porta. Esta estava apenas encostada. Entraram numa salinha, onde umas quatro ou cinco pessoas, esperavam sentadas em cadeiras velhas.  Teresa sentou-se por indicação da mãe.      
- Esta mulher trabalha muito bem- afirmou uma mulher de uns sessenta anos- Tem curado e ajudado muita gente com problemas.           
- Dizem que o guia dela é muito bom- afirmou uma outra. Cerca de duas horas depois, Lurdes e Teresa entraram no refúgio dos espirítos. Uma sala escura, de móveis velhos a servirem de altar a várias imagens de santos e de crucifixos.   
- O que traz as minhas irmãs por cá?- perguntou a mulher sentada e sem abrir os olhos. 
- Minha senhora, a minha filha...- e Teresa ouviu a mãe contar toda a história. Toda a história? Não! A mãe contava o que acreditava e não a verdade.      
A mulher escutou e começou a tremer. Estremecia o corpo sem nunca abrir os olhos. De repente, Teresa assustou-se; a curandeira começou a falar num tom grave, que parecia um homem.         
Não memorizou quanto tempo durou a sessão. Apenas guardou desse tempo, uma enorme dormência física e psíquica e um pequeno momento em que a mulher, sempre de olhos fechados, ordenou que ela descruzasse as pernas.       
Voltaram para casa em silêncio. Quase não falaram a viagem toda. Ao chegarem à estação da vila, iniciaram o percurso a pé, até à aldeia. Teriam que andar cerca de duas horas. Teresa estava cansada, mas seguiu a mãe. Prosseguiram por toda a linha do comboio e atravessaram os três túneis.       
Ao saírem do terceiro túnel atravessaram a ponte que passava por cima do rio que alimentava a azenha.          
- Foi aqui que se suicidou a Leviana- murmurou Lurdes.   
Teresa não respondeu. Sentiu algo enrolar-se na sua garganta. Não soube definir o quê. Talvez o mal estar do dia inteiro.     
- Então- perguntou-lhes o pai- que disse a mulher? 
- Disse aquilo que eu sempre pensei. A nossa filha está possuída pelo espiríto da Leviana.         
- Mãe! A mulher apenas repetiu o que a mãe lhe disse.      
- Olha que esta rapariga é mesmo descrente.           
- Deixa a nossa filha seguir o rumo dela. Quem te garante que ela não esteja certa? - respondeu o marido.       
Instalou-se a sensação de que nada mais havia por dizer, apesar de nada de concreto ter sido dito. Parecia que a verdade ficava presa por uma vidraça translúcida, disposta a mostrar nada mais do um pouco da verdade, como a hora do luso-fusco, que não mostra claramente nem o dia, nem a noite. Durante a noite, nos seus lençóis de solteira mergulhou num sono atribulado; a Leviana achegava-se de mansinho e com ternura levava-a aos mesmos lugares e mesmas situações.         
Na manhã seguinte, impulsionada pelo sonho, saiu de casa. A mãe advertira-a que a sua passagem pelas ruas da aldeia poderia ser alvo para cochichos. Teresa ignorou o aviso da mãe.
O calor já se sentia, apesar da hora. Enquanto seguia pela estrada poeirenta, procurando a sombra das árvores, saboreava as amoras que nasciam nas silvas. Ergueu o olhar e avistou a casa no meio da serra. Sentiu o aumento do ritmo do seu coração; a sua curiosidade ganhara garras de animal aguerrido.            
Toda a natureza que a rodeava parecia acompanhá-la na subida. Não sabia se isso a cansava, se a empurrava. Uns dez minutos depois, parou ofegante perto de uma nascente, onde apenas se ouvia o murmurejo das árvores, das aves e da água cristalina que saia da terra. Maravilhou-se com a gigantesca, fresca e majestosa avenca, que abrigava a sua fragilidade na alma da serra e cuja beleza das folhas brotava da rocha húmida. Arrepiou-se; uma figura de mulher idosa, cujo luto deixava apenas ver o seu rosto magro, olhava-a silenciosamente.        
 - Bom dia- gaguejou Teresa.
- Bom dia- respondeu a mulher com ar interrogador.
- Desculpe, cheguei até aqui empurrada por um sonho. Era aqui que morava a... - não terminou. Teve receio de pronunciar o nome.  
            - A Leviana, queres dizer...   
Teresa moveu a cabeça num gesto afirmativo. Calada, obedeceu à ordem gestual da desconhecida, para que a seguisse. A curiosidade substituíra o medo inicial.        Entrou na casa tão esquecida de cuidados quanto a sua habitante. Sempre em silêncio, aceitou o convite para conhecer um dos compartimentos da moradia. Entrou. Sentiu a porta fechar-se. O quarto cheirava a recordações de uma vida interrompida. Apenas um ramo de rosas brancas, numa jarra fora de moda, transmitia o aroma da vida. Olhou a cama feita. Sobre a colcha cor-de-rosa... uma carta. Enquanto era absorvida pela dúvida se a lia ou não, ouviu:
- Lê!   
Olhou para a porta. A dona da casa não lhe pedia... ordenava.      
Teresa sentou-se sobre a cama e começou a ler:      
 -“ Nasci com vontade de sorrir, rir, amar... viver! No entanto, o que encontrei foi um exílio, perante a condenação de leis mal esclarecidas. Amei-te sim. Não como uma leviana, mas na mais pura forma de amar. O que eu não sabia, é que guardavas dentro de ti, todo o lixo que caracteriza o tipo de homem que eu nunca aceitaria para mim. Queria entregar-me a ti por amor e não por leviandade. Infelizmente não sou suficientemente forte, para enfrentar a vergonha, da forma como violaste toda a minha dignidade. Sobretudo não conseguiria conviver dia a dia, com o sofrimento da minha mãe, ao vê-la terminar na língua daqueles, que moram constantemente num certo lar de mordacidade. Sabes, aquela virgindade física, que todos os noivos aguardam com ansiedade, foste tu que a rompeste. Nem notaste.  A tua brutalidade de másculo afectado, cegou a sensibilidade que deveria existir em ti ou em qualquer ser humano. Parto apenas com a pena, de que outra mulher possa ser vítima do teu titulo de bom rapaz. Tu sentes-te aquele que coloca no lugar levianas como eu, e que pratica a caridade, oferecendo-se como marido para alguma moça por casar. Não és mais feliz do que eu. Ninguém é feliz a viver fingindo ser o que não é. A não ser que a ilusão seja tão grande, que o aacabe por convencer que a mentira é a verdade. Acredita Carlos Gonçalo! À minha mãe peço perdão por não saber viver neste mundo. À pessoa que ler esta carta, que tenha mais coragem do que eu. O mundo revela-se constantemente com uma novidade... novidade que se repete contínuamente. Cabe a cada um de nós melhorá-la no que for necessário, sem medo de nos confessarmos diferentes. É preciso a coragem que eu não tenho. Estou cansada. Tu que me lês, não desistas. Não deixes que o dedo indicador do mundo viva sempre virado para ti. ``          
Teresa tremia quando acabou a leitura. Olhou a lágrima que fazia estremecer o queixo da mãe da autora da carta e saiu em silêncio.            Levava consigo a carta.         
 - “ Tudo de se sabe. Não há mentira nenhuma, nem segredo nenhum que não se descubra. “ Parece que o feitiço se virou contra o feiticeiro. Pena que os verdadeiros criminosos sejam defendidos pelas negras convicções das almas pobres, que se regem pela aparência- pensou.
Duas horas depois:
- E apenas a conhecias de dizer bom dia e boa tarde?- perguntou Teresa calmamente.     
- O que vais fazer com essa carta?- perguntou Carlos receoso.      
- Nada. Quero apenas viver. Faz o mesmo, se conseguires.           
Falou com os pais sobre o acontecido e leu-lhes a carta.    
- O melhor é rasgares isso. Ainda passarás por louca- aconselhou a mãe. 
- Guardarei segredo do que for preciso guardar. Essa decisão será da mãe da vitima. Apenas ela sabe até que ponto precisa calar ou desabafar o sofrimento que a acompanhou.
Há noite, da janela do seu quarto olhou o céu e sorriu para as estrelas. Mais do que ao desgosto, recordaria aquele episódio como o dia da sua libertação; vinte e quatro de Junho de mil novecentos e sessenta e quatro. Uma súbita brisa fresca levou-a a fechar a janela. Olhou a sua cama. A carta que tinha deixado inteira, em cima da almofada, estava agora rasgadas em quarto pedaços...         
Sentiu um pouco a sua segurança abalada, mas decidida abriu a janela, rasgou os quatro bocados de papel em partes mais pequenas e lançou -as para a rua, num movimento que determinava... ponto final!  
Dois anos depois.
- Filha, O João parece tão bom rapaz. Parece gostar de ti, ter boas intenções...
- Mãe, eu não o conheço bem.
- Mas filha, quem vai querer-te agora? Uma rapariga usada. Nem te podes divorciar.
- Se eu tivesse medo disso, não me tinha separado- respondeu Teresa, saltando da cama, cansada do diálogo forçado.   
No dia seguinte, Teresa partiu para um lugar desconhecido. Partiu com a esperança de que tudo aquilo que a condenava, um dia não passasse de histórias.

***

 Urzelina

As chamas do lume erguiam-se até  ao fundo da panela que cozia o feijão.
         - Não me destapem a panela, nem deixem baixar o lume- avisava a avó, enquanto passava a roupa da semana em cima do cobertor de pelo cinzento, coberto por um lençol branco, em cima da mesa que mais tarde, na hora da ceia, iria servir para eles comerem a deliciosa sopa de feijão.
  O avô, dirigiu os risonhos olhos verde-acinzentados,  sobre o alegre rosto  infantil, esboçando um sorriso, quase tão traquina como o da neta. Era um gesto cúmplice entre ambos.
         - Vá, essa já podes comer- dizia Francisco, dando-lhe uma maçã  assada e um montinho de favas de casca a estalar do calor das brasas.
 - E o teu toucinho avô, ainda não está?- perguntou a pequena Rita olhando a gordura do pedaço de toucinho que derretia no pequeno braseiro, que Francisco retirara para o canto direito do lume.
- Está mesmo no ponto- respondeu com ternura, o avô.
 -Avô, tu já tiveste avô?
 -Tive.
         -Que pergunta rapariga- resmungou a avó.
- E os teus avós, tiveram avós?
 -Também.
 - Os teu avós viveram sempre aqui?
 -Não, eles vieram de um outro lugar.
 -De muito longe?
         -Sim, um pouco.
         -Como se faz para chegar lá?
 -Tens de ir de avião ou de barco.
 -Ah e como foi que chegaste aqui? Vieste de avião ou de barco?
 -Não. Eu nasci aqui. Quem veio de barco foram os meus avós. Ou seja, os meus  bisavós morreram, os meus avós vieram, e  a minha mãe nasceu aqui em Portugal Continental.
         -E porque vieram os teus avós para aqui? Não gostavam do lugar onde viviam?
 -Por medo... por medo...- murmurou Francisco.
 -Medo?-  perguntou a menina,encolhendo-se dentro do seu casaco de malha azul escuro.
 -Não faças isso ao casaco. Vai ficar todo largo- advertiu a avó. 
 -Pode-se entrar?- perguntou a cigana, espreitando para dentro da casa, com uma enorme cesta redonda apoiada na cabeça.
 -Claro mulher, entre e aqueça-se- convidou Celeste, oferecendo o velho banco de madeira, pintado de azul claro.
 - Viva o descanso! Estas longas caminhadas já me custam muito- queixou-se a cigana- e ainda não vendi quase nada!
         - Pois então descanse e antes de ir, ainda come uma tigelinha da sopa de feijão que estou a fazer- respondeu Celeste.
 -Também nunca para Celeste- observou a cigana.
 -Não se pode... parar é  morrer!- 
         -Avô, conta mais!  Porque tiveram medo os teus avós?
         -Mais uma história senhor Francisco? Nunca vi homem com tanta paciência para a neta como você. Nem sabes a sorte que tens menina! 
-Então avô, como se chamava a terra onde moravam os teus avós?
-Açores- explicou-lhe o avô.
 - Que por sinal, dizem que são umas lindas ilhas- comentou a cigana- mas quem não vivia lá era eu... dizem que as montanhas têm alma... que às vezes aquecem tanto que cospem fogo!
 -Ah, eu sei o que é. Aprendi na escola. São vulcões- respondeu Rita, contente por entender o assunto sobre o qual os adultos falavam.
- Aquilo são mas é almas de outro mundo- exclamou a cigana.
 -Credo mulher.. benza a boca!- desabafou Celeste, fazendo o sinal da cruz.
 -Por acaso os meus avós vieram de lá, porque os pais deles morreram num desses dias em que os montes rebentaram com tudo. A minha mãe contava vezes sem conta essa história- recordou Francisco, com se ainda ouvisse a voz da mãe:
 - Primeiro dia de Maio. Os tremores da terra eram tantos, a toda a hora, que toda a gente foi obrigada a levantar-se da cama. E mais tarde, na hora da missa, apanhou muitos dos habitantes dentro da igreja.
 -  Eu lembro-me dos antigos contarem essa história. Nem os santos vidros da igreja escaparam- interrompeu a cigana, elevando os olhos ao teto da casa como se exaltasse os céus.
         - A destruição era tanta... era como se o diabo tivesse descido numa nuvem negra, dizia a minha pobre mãe. A freguesia de Urzelina parecia ter entregue o seu monte mais alto à desgraça. Nesse acaso tão infeliz, ficou sozinho o pobre de um vigário, José António de Barcellos. A gente de Urzelina ficou tão assustada, que fugiram sem quererem saber de mais nada. As casas foram abatidas como casinhas de brincar. Ficaram cobertas de areia. Grandes línguas de fogo aqueciam e coloriam os céus. Como alguém muito zangado, a terra lançava pedras brilhantes de oito e dezasseis palmos e onde caíssem, destruíam tudo- descreveu Francisco.
 - Credo, isso foi castigo de Deus- exclamaram Celeste e a cigana, benzendo-se simultaneamente.
         -Pois, foi o que o povo pensou- respondeu Francisco.
 - Porquê avô? Alguém se portou mal?- perguntou a neta querendo saber mais.
         - O povo dizia que sim- continuou Francisco-  a linda Ilha de S. Jorge é atravessada por uma grande cordilheira e há muitos anos, vivia no ponto mais alto, um príncipe chamado Romualdo. No seu grande castelo, ele fazia grandes festas com a sua numerosa corte. Aquelas festas ofendiam muito o povo. O pobre do povo levantava-se muito cedo para trabalhar e sustentar todas as vaidades  dos fidalgos. Um dia, como em muitas outras manhãs, muito cedo, a trombeta real tocou. Era mais um dia de grande caçada. Em frente ao palácio, os criados vestidos com os seus uniformes, organizavam tudo o que era necessário para a caça. As carruagem de duas rodas, com um único assento, puxada por dois cavalos esperavam pelo grande toque da trombeta real, para partirem. O seu toque era tão forte que todos sabiam a hora da partida para a caça. Os fidalgos partiram felizes, correndo pelos campos e assustando as aves. Viviam estes momentos, completamente indiferentes ao cansaço do povo, que já trabalhava há horas.
         Nessa corrida frenética, seguia também, Lina, a namorada do príncipe. Lina quis perseguir os pombos e sem se aperceber, afastou-se do resto do grupo.
Quando constataram que Lina não estava no meio deles, interromperam a caçada e dispuseram-se todos a procurar pela jovem. Mas foi em vão. Sem alegria voltaram para o castelo. O Príncipe desesperado, ordenou que todas as portas se mantivessem encerradas. Ramualdo proibiu qualquer tipo de festa dentro do palácio. A sua agonia era tão grande, que a sua voz ressoava pelas  paredes interiores do castelo, chamando por Lina. Todos os dias cavalgava doido pelos montes, sem escolher terreno, no desejo ardente de encontrar a sua amada. Num desses dias, no fundo de um barranco, encontrou um cavalo morto sobre o corpo de Lina. O príncipe ficou louco e correu, correu, descendo ao encontro do cadáver. Beijou loucamente a figura de Lina, já em decomposição. Cortou uma trança dos seus cabelos louros e enrolou-a num ramo de Urze.
Voltou ao castelo com tão pouca vontade de viver, que pouco tempo depois morreu de desgosto. A planta que o príncipe tinha apanhado no campo, para envolver a trança da princesa, passou a ser conhecida por Urze de Lina.  Com o passar de alguns anos, a corte esqueceu completamente o príncipe e toda a história, recomeçando com as festas e a explorar o povo. Como castigo, Deus ordenou ao vulcão, que com a sua lava encovasse toda a corte. O vulcão destruiu tudo, desde o ponto mais alto até ao mar. Mais tarde, em memória do ocorrido, a povoação passou a chamar-se Urzelina.
- Mas então, se foi castigo porque morreram crianças e pessoas boas?- perguntou Ritinha ao acordar da magia da história, contada pelo avô.
         - Pois, também não entendo porque paga o justo pelo pecador- comentou Francisco- não me  parece muito justo isso.
         - Deus não dorme!- exclamou Celeste enquanto retirava as cinzas quentes do pesado ferro- este ferro da-me cabo das costas!- queixou-se ela.
         - Há por aí muita gente que vive a brincar com a vida dos outros sem respeito por nada. Eu cá acredito!- afirmou a cigana.
 - E tu avô, no que é que acreditas?
 - No que eu acredito, não posso garantir se é a verdade ou não, mas é assim que quero viver.
  - E porque não te ris das crenças da avó? Por medo de algum castigo? Eu tenho uma colega na escola que  ri, daqueles que pensam de modo diferente dela- disse a neta.
 - Não. Eu respeito a tua avô e respeito as crenças dela, embora eu não comungue das mesmas ideias. A única razão pela qual não devemos rir dos outros, deve ser o respeito pelo próximo e não por medo de algum castigo- asseverou-lhe o avô.
 - Olhe Sr. Francisco, eu acredito- continuou a cigana, alisando o avental sobre as compridas saias rodadas- apesar de ser ignorante, pois o que sei foi a vida que me ensinou...
 - Todos nós aqui, D. Odete, todos nós...por isso queremos que a nossa menina aprenda e vá à escola- interrompeu Celeste. 
         - Fazem muito bem! Mas sabem, apesar de não saber ler nem escrever, eu acredito que nessas histórias que o Sr. Francisco conta, existe muito da vida. Parecem apenas figuras de lendas, mas cada história tem sempre alguma coisa de verdade, nem que seja um pequeno sentimento meu, seu... desta criança aqui, que ainda nada sabe da vida. 
- Pois eu acho que o príncipe Romualdo e Lina já tinham tido o seu castigo. Só faltava o resto dos fidalgos- opinou Celeste.
         -Pois eu continuo a achar que se foi castigo, que o castigo não deve atingir os inocentes- disse Francisco.
         -A minha professora, quando um aluno se porta mal ou escreve com muitos erros no ditado, dá reguadas a todos. Eu fico triste com isso, porque tento ser boa aluna e acabo sempre por ser castigada também- respondeu Rita com um ar triste. 
 -Olha menina, a professora está certa- afirmou a cigana- assim quem não estuda, vai pensar que tem que o fazer, para impedir que os outros paguem também pelos erros dele. Quem estuda e se porta bem, tentará continuar assim para que os castigos acabem.
 -Desculpem, com todo o respeito, mas não concordo. E se os outros que se esforçam, caírem no desanimo e deixarem de o fazer, pensando que quer lutem ou não por serem exemplares, sofrerão sempre o mesmo castigo daquele que não quer saber? Isso é como incriminar culpados e inocentes pelos pecados do Mundo - contestou Francisco.
 - Mas senhor Francisco, e não é assim a vida? Não seremos todos culpados, por tudo o que acontece no mundo?- interrogou a cigana.
 - Então, eu tenho que me sentir culpada porque nasci num mundo com muitas coisas erradas?- perguntou a criança.
 Os três  adultos não responderam. 
         - Bem, está na hora de ir embora. Muito obrigado pela sopa e por este bocadinho- despediu-se a cigana, levantando a cesta até à  cabeça e enrolando o xaile preto nos ombros.
- Como é a flor de Urze? Ela só existe nessa terra da história?- perguntou Rita.
         . Não. Nós temos ali no jardim. Até no muro ela nasceu... aquela planta com flores cor-de-rosa que nasceu no muro, é a flor de Urze- explicou a avó.  
 - Posso ir  ao jardim apanhar um pezinho?- pediu a menina.
- Poder, podes mas até tenho medo que dê azar... depois desta história- respondeu Celeste. 
- Deixa-a ir-aconselhou o marido.
 Mais tarde, Francisco olhava a neta adormecida. Sorriu ao ver o copo com água, em cima da mesa de cabeceira, com um pezinho da flor de Urze.
 - Isso traz azar homem- alertou a mulher.
         Francisco sorriu. Recusava ser supersticioso.
Por muito que se sentisse inspirado a envolver a sua menina nas suas histórias, queria fazê-lo de modo inteligente. Gostava de ver o brilho nos seus olhos infantis, como se eles dissessem; sim estou lá... no lugar da tua história. Mas também não queria criar abismos demasiado grandes, entre a a realidade e a imaginação, para que os seus passinhos não caminhassem no medo das sombras. Olhou para eles; para ele mesmo, para a mulher e para a criança. Sorriu. Eram como páginas diferentes dentro do mesmo livro; a vida. Talvez Rita nunca viesse a saber que muitas das histórias que ele lhe contava, tinham feito parte da realidade dos seus dias passados. Episódios que arrastara para a imaginação, entre batalhas duras para que as suas esperanças não fossem derrotadas pelas deformadas ligações afetivas que o acompanharam durante o seu crescimento precoce. 
         - Homem, vamos deitar- disse Celeste.
         - Vamos mulher.
         Já deitado, puxou a mulher para o seu peito e deu-lhe um beijo na testa.
         - Porque é que tu só acreditas no que vês?- perguntou ela a ele.
 - E porque é que tu acreditas no que não vês?- perguntou ele a ela.
 - Sei lá! 
 - Ora no fundo é isso. Todos falamos muito. Cada um fala do que acredita... - Francisco não acabou a frase. Sorriu ao sentir que Celeste adormecera.
Ele ficou a pensar, enquanto metade da mente ficava meia desperta para a reflexão e a outra parte  liberta para a chegada do sono:
         - " Quando falamos parecemos grandes, poderosos, mas no fundo ninguém sabe nada. A história de Urzelina pode ser inventada, mas a verdade é que, quer sejamos pobres ou príncipes, estamos todos sujeitos às leis da natureza. Não quero acreditar que um vulcão, quando lança a sua lava, escolhe o caminho para matar este ou aquele... porque este ou aquele é melhor ou pior. A natureza é bela mas é alheia ao conceito de justiça definido pelos homens. A natureza repousa numa nobreza desconhecida por todos nós, que nem gigantes somos no dedo mindinho dela... apenas um sopro mais forte, sem precisar de dizer quem é ou porque vem... e desaparece toda a nossa superioridade decorativa. Ora isto é o que eu acredito... "

***


Uma história do avô de sua mãe

         -Mãe que história me vais contar hoje? - perguntou o Martim saltando para o colo da mãe num gesto tão ágil quanto a vontade ávida de viajar nas palavras que soltavam imagens vivas na sua imaginação.
         - Hoje.Hum... deixa pensar. Que dia é hoje?- perguntou Cármen.
         - Não sei- respondeu prontamente o menino Martim, encolhendo os ombros enquanto balançava os pés no ar.
         - Hoje é um dia muito especial para o avô. Ele faz oitenta e quatro anos.
         - O avô gosta de histórias?
          - Gosta e como prenda de anos porque  é que não lhe contas tu uma história?
           - Mas eu não sei muito bem contar histórias!- respondeu o pequeno Martim com um olhar triste.
         - Calma- riu a mãe, tranquilizando-o.
          - Quando eu era criança o meu avô contava-me muitas histórias dele.
        - E como era o teu avô?- perguntou o menino procurando os olhos da mãe, como se quisesse encontrar neles as histórias com que ela crescera.
       - O meu avô não foi muito diferente do teu,  embora tenham nascido e vivido em épocas diferentes. O meu avô...
        Ao escutar a mãe repetir a palavra ´´avô``, Martim procurou de novo o seu  olhar como se quisesse encontrar a  emoção que fazia os seus lábios tremerem.
         -O meu avô nasceu num ano em que foi eleito o primeiro Presidente da República, um senhor chamado Manuel de Arriaga.
         - Porquê o primeiro? Antes ninguém mandava nas pessoas mãe?
        - Mandava sim. Reis e Rainhas. As pessoas pobres viviam com muitos problemas.
        - Em que ano foi isso?- perguntou o menino, empolgado por ouvir falar em Reis e Rainhas.
         - Em 1911.
         - Então o teu avô nasceu num ano bom, porque já não havia Reis e as Rainhas.
          - Sabes, a História do mundo foi mudando ao longo dos anos. Foram mudando os governos, as pessoas e as suas lutas,   mas ainda ninguém encontrou o modo certo de acabar com a desigualdade.            Por isso, embora os que lutaram pela Republica quisessem mudar o modo de viver em Portugal, depois continuaram com outros erros e o povo continuou a ter problemas. O meu avô nunca foi à escola e começou a trabalhar com a tua idade. Com sete anos tomava conta de um moinho sozinho.
         - Ele nunca brincou?- perguntou Martim, de olhar vago imaginando o que seria da sua vida se não brincasse e tivesse de trabalhar.
         - Muito pouco. Na verdade ele não teve tempo para ser criança.- respondeu a mãe. Por isso ele teve muitas aventuras para me contar. Histórias que ele imaginava  nas noites em que dormia sozinho no moinho ,  umas provocadas pelo medo e outras que inventava para não ter tanto medo.
        Martim fez uma careta demonstrando um esforço para entender algo que lhe parecia tão irreal.             Aconchegou os seus medos no colo de sua mãe e a ansiedade apertou- lhe os joelhos, como se esse gesto o protegesse do mundo gigantesco que parecia surgir na história que a sua protetora iniciava:
        - `` Uma noite o vento não quis dormir e fez tanto barulho, tanto que também não o deixou dormir. A lua também parecia brincar às escondidas com ele. O moinho, ah o moinho! Nessa noite o moinho deixou as suas velas rodarem em tanta liberdade que pareciam falar de fantasmas e fadas más. O menino Francisco tentava rir de si mesmo  e pensava:
         - Então pá, que homem és tu? Toca a ter coragem. Amanhã o milho e o  trigo têm de estar moídos.
         Mas o seu corpo pequeno  reagia à sua alma ainda infantil e não havia dentro dele parte adulta que o convencesse de que o melhor seria pegar na lanterna e vigiar o trabalho. Escondeu-se na manta velha e quanto mais se escondia, mais sentia os fantasmas ganharem formas nas sombras da noite.
        - Francisco! Francisco!- parecia que o chamavam.
         Francisco tremia e  tremeu com mais força quando sentiu que algo entrava velozmente pela janela do moinho e pousava nas suas costas. E agora?  Encheu a mente de coragem e decidiu enfrentar o inimigo com peito de soldado valente. Libertou-se da manta como quem arremessa a espada pronta a combater mas caiu no chão,  olhando boquiaberto aquele que imaginara o seu grande inimigo; um pássaro pequeno que curioso voava  e cantava ao seu redor . Rindo de si mesmo, fez uma ronda pelo moinho e como tudo estava a funcionar decidiu descansar um pouco sobre a a manta.
         Acordou umas horas depois, já o sol entrava pela pequena janela do moinho e a pequena ave cantava empoleirada.
        Enquanto esfregava os olhos, olhou de soslaio o pássaro e perguntou-lhe:
       - Olha lá, ou eu sonhei ou estou a ficar maluco?  Enquanto eu dormia senti que tu, com o teu bico puxaste uma ponta da manta e me tapaste.
         O pássaro pareceu rir e voou para a rua.
         Na noite seguinte o vento soprava apenas o suficiente para fazer rodar as velas do moinho.                  Francisco estava tranquilo mas sentia-se sozinho. De repente ouviu uma batida na porta.
        - Quem é?- perguntou indeciso se devia abrir ou não. Esperou mais um pouco. De novo a batida.
         - Quem é?- perguntou de novo. Esperou uns segundos e resolveu ver quem era, sentindo que as suas pernas já tremiam de novo.
         Abriu e recuou admirado com os seus visitantes. Ao nível dos seus olhos via a ave da noite anterior e ao baixar o olhar podia nitidamente distinguir um cão e um gato junto aos seus pés. Os três não esperaram o convite de Francisco para entrar. Este subiu as escadas atrás deles.  Sem conseguir dizer mais nada, decidiu como na noite antes,  descansar sobre a manta. Adormeceu tranquilamente.
         No dia seguinte quando acordou  viu o cão deitado aos seus pés, o gato ao seu lado e o pássaro perto da sua cabeça. Permaneceu quieto, saboreando a doce certeza de que alguém o tinha coberto com a manta e sorriu como toda a criança sorri quando recebe um carinho. Os três amigos acordaram e ficaram a olhar para Francisco, cuja expressão denunciava  que ele acabara de se lembrar de algum acontecimento importante.
        - Já sei! - gritou vitorioso.- Tu és o pássaro que estava preso numa rede e eu libertei-te dela. Tu és o cão que encontrei atropelado e que ficou comigo até ficar bom. Cheguei a pensar que eras um cão ingrato, mas vá lá voltaste. E tu, o gatinho que eu escondi quando nasceste,  para que a D. Maria não te matasse, porque ela não queria mais gatos.
  Todos festejaram alegres e Francisco nunca mais se sentiu sozinho.''
Martim, que tinha seguido a narrativa da mãe quase sem respirar, suspirou de alivio ao escutar o final feliz.
         - Mas mãe, o avô já é tão grande e às vezes,  parece que ele só quer descansar!
        - Sabes o corpo do avô, ficou um pouco cansado por tantos anos de trabalho e preocupações mas dentro dele, mesmo quando o vês de olhos fechados correm livros de  histórias, umas que viveu e outras que imaginou ou que gostaria de ter vivido. Quando ele fecha os olhos, talvez ele sinta a tranquilidade de um soldado que volta para casa porque a guerra acabou. As lutas foram muitas. Vitorias e derrotas, mas dentro dele existe uma criança sempre à espera de um momento de carinho e atenção.
         Cármen abraçou Martim com carinho e murmurou:
         - Vai. Conta por palavras tuas o que ouviste. Mistura a tua irrequieta imaginação  com a  experiência dele e irás sentir que têm muita coisa para partilhar. Os dois misturarão a certeza de que a melhor forma de viver é não perder o cantinho mágico que existe dentro de todos os Homens...
 O menino saltou do colo da mãe, correu até à sala onde estava o avô. Deu-lhe um beijo e um abraço e ganhou o mais belo sorriso que alguém de 84 anos pode dar. Entrelaçada nesse sorriso, a voz infantil de Martim  ajardinou o ar da sala, transformando-o num campo fértil de contos adornados por harpas e violinos. De repente...  alguém cantava de verdade. Junto à porta aberta,  um pequeno pássaro cantava a pureza do mundo e emprestava a sua melodia como música de fundo, às palavras encantadas da criança  que contava  ao seu avô,   uma história do avô de sua mãe.

        ... Esta história foi inspirada  em quatro pessoas reais e é  dedicada a elas. Ao pai da Cármen que fez 84 anos e que sempre gostou de animais. À Cármen que tem o privilégio e a sensibilidade de olhar nos olhos do pai e neles encontrar histórias de  vida e que, quem sabe um dia as poderá contar a um filho seu. Ao Martim que esta semana começou tantas histórias nos seus primeiros passos e que um dia poderá contar ao seu avô, quando a  caminhada deste já não for tão ágil como a de hoje. Ao meu avô, que em todos os serões esquecia o cansaço do dia e viajava comigo na mistura da realidade e fantasia.

***

A sabedoria de um professor

               Olhou a plateia. 
              - Para me despedir destes meus 50 anos dedicados ao ensino; trouxe um sonho que me visitou há 40 anos. Experiências científicas têm demonstrado que o nosso ADN muda com as frequências produzidas pelos nossos sentimentos e emoções. Eu mudei, após este sonho.
           Imaginem uma figura austera; eu, caminhando como se carregasse algo penoso. Eu era inteligente, mas as sombras que me encolhiam o pescoço nos ombros dobrados, falavam de medo. Numa terra inóspita em obediência a uma estratégia, trinta alunos sentados, separados de mim, por altas e perigosas escarpas. Envolvido na luta pelo sucesso, eu, professor monótono, aposentado no meu comportamento inflexível, acabara numa ilha de acesso complicado, onde imperavam hábitos rotineiros. Tentava atingir os meus alunos com a minha figura de poder. O poder disfarçava o medo de não ser respeitado; passara a ser temido. Da musculatura rígida dos trinta alunos surgiu uma criança:
                 -Nunca foste pequenino?- perguntou-me.
                 -Porquê?
                 - Porque parece que foste sempre grande.
                 - Porquê?
             - Não brincas, não ris. Gosto de ti, mas falta-te qualquer coisa. Não nos vês... és uma muralha; não nos vês...- repetia, desaparecendo lentamente.
             - Acordei aflito. Eu, inteligência vaidosa e insensível esquecera a humildade e o amor. Fizera-me santuário, construído a partir da ilusão que um título significava distância. Tornara-me um inteligente solitário cego e arrogante. Passara a ser apenas um bom orador, provocando a indiferença e o cansaço. Tinha-me como admirador, e a alguns que não queriam pensar. Felizmente ganhei coragem. Perdi o medo de ser visto.
            O sábio sabe fazer uso do que sabe, a favor da vida e dos outros. O Mundo está repleto de seres inteligentes, mas pouco sábios. Por isso o Mundo é frívolo e impiedoso. Sejamos todos sábios. A sabedoria de um professor está na dedicação com que escutamos um aluno. O aluno é a disciplina que nunca tivemos em todos os anos de estudo. 


***


Escravos por conveniência

             Tinha conquistado o direito de entrar num mundo novo. Então, porque se sentia assim; tonto e fraco? Ou tudo seria apenas uma estranha vontade de ficar doente? A palavra ´´praxe`` parecia ser rainha de todo aquele patamar recentemente conquistado. Essa palavra parecia lançar todas as suas ambições para a forca.
            - Toc, toc- alguém batia à porta do seu quarto.
            - Estou mal disposto. Devo ter comido alguma coisa que me fez mal. Tenho vontade de vomitar- respondeu, mostrando apenas um pouco do rosto, através da estreita fresta da porta que abrira. O seu semblante certamente confirmava as suas palavras, porque o seu inquiridor, com um olhar compreensivo, desejou-lhe as melhoras e afastou-se sem mais perguntas.
            Fechou as cortinas. Precisava de ficar às escuras; isolar o quarto do resto do mundo. Sentiu frio. Puxou os cobertores e encolheu-se debaixo deles. Necessitava desativar aquela depressão que parecia um relógio inquieto, cujo alarme tinha o dom de o atirar para o desespero. Fechou os olhos, desejando que o mundo debaixo das mantas, ficasse ainda mais escuro. A pouco e pouco, quase sem se aperceber a sombra tão ansiosamente procurada, transformou-se num espelho. Estavam lá todos. Ele também. Sorriu. Reconheceu a criança; era ele. Com os lençóis puxados até ao pescoço, pedia à mãe que lhe contasse uma história real, mas que fosse  bonita. Dela, conseguia ver os seus cabelos castanhos, pelos ombros, o seu sorriso alvo e o seu olhar cansado, mas ternurento. Ela, com a ponta dos dedos, acariciava-lhe suavemente a testa; hábito para o fazer adormecer mais rápido. Sorriu de novo; ela começava a história com o tão conhecido, ´´Era uma vez``. As palavras da história tinham vida. Ele, criança, pressionou o rosto entre os ombros, entalou as mãos entre os joelhos, encolheu as pernas e abriu muito os olhos; os cravos prendiam os tiranos, invasores e ladrões da liberdade de algumas gerações. Ah, os tiranos, esses responsáveis por quebrarem a intimidade  das telhas e das vidraças dos lares do povo. Ah, era o 25 de Abril em Portugal! Cânticos de esperança brotavam das ruas e sombras baças ganhavam rostos sorridentes.
            De repente, aquela parte do espelho estalou e dividiu as imagens da história em fragmentos, arrumando-as a um canto e distanciando a criança do jovem. Tossiu, movendo-se instintivamente, para um canto da cama. Precisava de um esconderijo. Agarrou na almofada e apertou-a contra o peito, escondendo o rosto. Um cheiro a bafio empestou o mundo debaixo dos cobertores. Como um animal cauteloso, espreitou por um dos cantos da almofada; feras carregando torturas humilhantes atacavam a liberdade de indivíduos como ele, que estavam ali com um objetivo honesto. Ele apenas queria ser médico. As feras ocupavam o espelho todo, dançando como lobos poderosos, envenenando e estrangulando o dia dos cravos. Sentiu a roupa da cama mais pesada. Quem estava em cima dele?  Tentou mover-se, mas não conseguiu. Puxando a ponta da almofada, tapou o olho esquerdo, reduzindo o espaço por onde espreitava, como se isso o defendesse. Reforçou a atenção do olho direito; trémulo, viu pelo espelho, as feras quase sentadas em cima dele obrigando-o  a assinar um acordo sujo por leis excêntricas. O que era aquilo de batismo de estudante?  Sentiu náuseas; o edifício mudava progressivamente de cor, tão diferente da primeira vez que o olhara, convertendo-se numa mancha abstrata! Tornava-se impostor e traidor! Tremeu; as mantas gelavam, enquanto um ruído de paredes pareciam desabar. Sentiu-se indefeso perante a metamorfose das paredes do quarto. Sentia-as como um muro frágil sujeito à voracidade da fera cruel. Protegeu a cabeça com o braço para se defender das balas das feras,  que projetavam constantes humilhações e atos racistas. Suja e obscura mentalidade...
            Angustiado procurou nos pequenos pedaços do espelho algumas imagens da justiça e paz da sua casa. De repente, tinha mais sabedoria e sentido de justiça o avó, cuja instrução vinha do contacto com a terra e os animais, do que aqueles que supostamente deveriam ser seus colegas. Eles tornaram sombrias as horas ali dentro e impediam outros de se dedicarem a coisas mais úteis e mais interessantes. Eles estrangulavam-lhe a vontade.
        - Não entendo, não entendo!- gemia, quase soluçando- não foram durante o século XX as universidades portuguesas, centros de grande luta contra o Salazarismo e a Guerra Colonial? Como fazer para não me  sujeitar aos castigos, nem pertencer  a esta laia? Muitos quando visitam os seus pais e amigos mostram-se fortes, os maiores...  depois aqui,  sujeitam-se  ao líder e a estas ridículas leis da praxe, cegos por um delírio esquisito de servirem, a quem os leva a provar duras provas, como se este pertencesse a uma raça superior à sua. Agora entendo o que são escravos de conveniência.
Para ser médico,  precisaria passar por tudo aquilo? Uma voz dentro dele dizia que tinha que lutar pela democracia.
         - Democracia? Ela sóexiste até onde os poderosos permitem. Democracia ensinou-me a minha mãe, quando colocava a mesa e tão bem sabia dividir um tacho de comida por tantas pessoas. Esse Abril de temperatura morna e que resplandeceu com cravos, parece-me que apenas roubou um pouco a força às pernas velhas da ditadura, porque esta, deixou alguns filhos com saúde e robustez suficiente para viverem por um tempo escondidos e ressurgirem no tempo oportuno. 
          -Nasceste num mundo torto. Tens de andar nele com cautela... – respondia-lhe a voz.
       - Cala-te voz palerma! Andar com cautela significa calar e ignorar, fingir que não vejo? Não quero sentir-me morto e ver a vida trajada de negro a chorar por mim... A liberdade envelheceu e abortou a democracia. Ambas não aguentaram a viagem violenta e com tantos solavancos, a que a obrigámos. Se por um lado a história da humanidade é repleta de lutas pela liberdade do indivíduo, também é verdade que parece existir um acordo social, que secretamente permite, que cada um puxe a brasa à sua sardinha.Ah, como queria descansar, mas debaixo dos cobertores sentia a presença deles, passeando pelos corredores da Universidade. Passavam calados, com o olhar ameaçador. Com as mãos, comprimiu os ouvidos para não ouvir o som dos seus movimentos que pareciam trazer chocalhos, tocando como sinetas ameaçadoras. Feras, eram feras prontas a mostrar os dentes! Tremia; medo e sede de vingança faziam-no tremer. A voz dizia-lhe `` não deves lutar com as mesmas armas deles. A beleza dos cravos murchou entre os tiroteios de palavras e ideais envenenados. Esse líder da Praxe e quem os segue, se pudessem governar uma nação, não seriam diferentes de um ditador. ``Continuando a tremer, arriscou colocar a mão do lado de fora da roupa. Tateando procurou o computador e encontrou-o em cima da mesa de cabeceira. Ligou-o e tentou escrever, sem ousar destapar a cabeça. Procurou um filme de História. Parou num título `` Hannah Arendt.´´Aconchegou o lençol debaixo do queixo e deixou a face sobre as mãos… Hannah Arendt fora convidada a assistir ao julgamento de Adolf Eichmann. Adolf Eichmann fora julgado em Israel, num processo que começara a 11 de Abril de 1961. Pensou na mãe; por essa altura, ela deveria ter uns dois meses de idade. Hannah Arendt via Adolf Eichmann, como alguém que não amedrontava ninguém, isolado numa prisão de vidro. Foi a única que entendeu que ele não passava de um burocrata. Apenas cumpria ordens: colocar os judeus nos comboios e enviá-los para a morte. Tudo isso fazia parte de um juramento. A parte do julgamento era apresentado com imagens reais. Ele afirmava que não se sentia culpado pelas inúmeras mortes, apenas responsável por uma pequena etapa de todo o processo. E quando lhe perguntaram se nunca tinha sentido nenhum conflito entre o dever e a consciência? Ele chamou a isso ``dualidade consciente´´, em que se navega de um extremo para o outro, apenas com o objetivo de cumprir uma lei.
      - Será que a burocracia é razão para explicar a completa ausência de sentimentos pelo semelhante? Não, não pode ser! Mais um escravo por conveniência. Talvez ele tivesse razão numa coisa; se foi possível matar tantos judeus, foi porque o sistema judaico não se mostrou suficientemente forte. Esticou as pernas e continuou a pensar: ``se o chefe da Praxe, um dia, for a julgamento, ele vai argumentar que todos nós prestamos juramento por livre vontade, porque não vai dar relevo ao jogo psicológico que usou. Por outro lado os escravos por conveniência, que o seguiram por medo ou por protagonismo, vão alegar que se ouve vítimas, foi porque não existiu uma defesa forte e unida. Se por medo, não existir quem se oponha, nascerá dessas praxes verdadeiros clãs, cujo chefe terá uma voz imperativa, e os seguidores serão como funcionários prontos a obedecer a qualquer ordem, incapazes de refletir sobre a justiça dos seus atos. Muitas são as noites em que acordo com um pequeno grito, ( não sei se é real, se é um sonho)... depois, sinto-o a ser abafado. Abafado, certamente, por uma mão ditadora. Como posso ficar calado? Tremem-me as pernas, mas entre elas tremerem por me sujeitar ou por ter que os enfrentar, que me tremam elas por lutar. Parece-me que não vou ter medo de quebrar o juramento que fiz num momento de fraqueza... e momentos de fraqueza, quem os não tem? O mais importante é decidir- concluiu, levantando-se determinado e destemido da cama, a que até ali se tinha prendido, à procura de segurança.Da janela, olhou o pátio do recreio. De um lado estava um pobre sozinho, encolhido debaixo de uma árvore. Do outro lado encontrava-se um grupo de rapazes falando, sabe-se lá do quê, às raparigas que se desfaziam em gritinhos tresloucados. Ele ali, na janela do quarto, encontrava-se numa paragem obrigatoriamente temporária.
        - Porque é que o lado aparentemente mais atractivo me cheira a estrebaria? Olha, agora sentaram-se. Olha, pegaram nas guitarras e chega aqui um canto que parece lançar fogo, atiçado pela maldade feroz que os dominam. Música, não é uma arte? E arte, não deveria transmitir apenas beleza? Bom, Hitler também fora pintor na juventude... Sinto o desejo da vingança crescer... ela faz-me respirar mais rápido. Sinto-me suar. Penso que até estou a ficar vermelho...
             - Não, não!  Vingança traz ódio e o ódio corrompe- dizia-lhe a voz.
         - Parecem um punhado de demónios servindo o diabo, que os  olha com desprezo e lhes promete poder, mas  no fundo só goza com eles. Porque é que ninguém vê o que eu vejo? Eu vejo Hitler escrevendo com a mão esquerda, talvez um programa ideológico para destruir os últimos vestígios da democracia, criando teses racistas e anti-semitas. Vejo Salazar, fazendo jus à sua célebre frase "Sei muito bem o que quero e para onde vou" isolando Portugal e recusando conceder a liberdade aos povos das regiões colonizadas e jovens modernos sentados sem respeito algum, sobre os cravos de Abril. Não tenho outra solução... vou-me atirar ao precipício... é a única maneira de me salvar.
           ´´ Afinal, o espectáculo dos fenómenos sociais poderiam ser comparados à corrida do ágil rato pelo queijo, perseguido pelo manhoso gato. A diferença é que ambos correm instintivamente para não morrerem de fome enquanto o Homem, mais consciente torna a sua perseguição mais racional e mais traiçoeira; é igual ao lobo astuto que espera que a vítima se deleite primeiro com  a iguaria, para a devorar mais gordinha``- pensava, enquanto alcançava vitorioso o primeiro resultado do salto; o sorriso daquele que estava sozinho no pátio da escola. Também sorriu... ambos sabiam que os esperava uma corrida desigual. Escravos por conveniência ou medo? Não!






Fernanda R-Mesquita


































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