Pássaros em viagem- poesia


Que o vínculo entre dois seres
não exista apenas
porque o destino o ditou.
Amor e respeito
é a conexão certa entre
dois seres
sejam eles, mães, filhos, pais, avós, amigos, conhecidos...

Feliz do louco

Feliz do louco que inicia uma nova jornada e se concentra 
na arquitetura do presente, onde as sombras, 
embora apareçam, não sendo edificadas, descem a um mundo 
inferior, esquecidas do seu propósito de sombras.

Feliz do louco que descobre alegria em paisagens verdes e floridas,
que encontra tempo para se satisfazer com o centeio 
e o trigo no mundo dos vivos. 
Feliz do louco que reencarna de um poema triste, 
salva o seu mundo e o enche de mel e frutos sadios.

O poeta alienado, que por ser alienado o chamam de louco,
e que por ser louco, sabe aproveitar  a lágrima 
de um poema triste para tonificar as raízes.
E ainda por que é louco desce ao rio do esquecimento, 
banha-se e descobre que o poema triste já não lhe cabe na boca, 
nos olhos, nas mãos. Deixou de caber no presente. 
Não há culpas, nem saudades. Há vida para viver.
O louco é atrevido e por isso atreve-se a perder a pressa 
de arder na vontade de ser infeliz.
Ele, o poema triste, entre sonos leves e descansos profundos
passa  a pontuação sujeita à  reflexão de cada um. 

De vez em quando é lembrança do autor, só de vez em quando...


Rainha Vitoria















Cinco de Julho de 2016

No interior da Legislatura da cidade de Victoria
uma jovem representava a Rainha Victoria.















Um longo vestido azul marinho delineando um corpo,
definido pela  graça de quem tem vinte anos.
Uma coroa brilhando, relembrando poder.
´´ -Porque vivi tão triste? Porque me tornei uma mulher,
de postura tão séria, esquecendo quão é belo sorrir?
Porque me tornei como quase todos  os adultos
que pensam que para crescer
é necessário deixar de ser criança?``

Um olhar jovem fixo na assistência, um traço teatral
nas palavras estudadas, pretendendo ecoar a verdade,
como se trouxessem dentro de si as searas semeadas pela dama lembrada,
e como se todo o conjunto de sinais, reunisse a linguagem dos espíritos 
com poder de trazer a mesma luz da alma
da rainha recordada, ao espaço presente.
Como se as relíquias da história, deixassem de ser pó,
purificassem a lacuna do tempo  e levantasse a rainha, 
pura e livre das manchas morais.

Sim, porque a morte limpa muitos pântanos...

Eternizamos a lembrança das almas
como se a vida das pessoas fosse apenas um gráfico,
com espaços vazios entre os pontos julgados essenciais.
E é isso apenas o que as pessoas memorizam.
Quando alguém quer saber de um antepassado pergunta:
- Como era?
- Era assim, assim e assim.
Então e ninguém pergunta;
- E entre o assim, assim e assim não havia mais nada?``

***





























Admirei os vitrais, os mosaicos e as cúpulas
Quanta beleza!
Parei defronte a uma escada… ´´a escada prisioneira``
resolvi chamá-la assim.
A escada prisioneira, apenas usada para a visita da rainha
de Inglaterra.
Quantas vezes seria, a ilha, agraciada
com presença da rainha
para que uma escada fosse sujeita a tal lei?
Quebrou o silêncio da escada, a invasão
de um pardal. Cantava vida, desfilava liberdade!
Ignorava completamente as correntes fortes
e o enorme cadeado que impedia, quem quer que fosse,
de pisar os degraus.
Depressa procurou a luz do sol.
Usufruindo da luz do sol, do lado de fora
do portão da escada prisioneira
estava um morador de rua.
O contraste não esmagava a história
mas a história também não apagava
a irónica desigualdade social.

O olhar dele refletia indiferença
pelo evangelho histórico da glória dos reis e das rainhas.
A salvação dele aparentava estar na sua posição;
sem cerimónias, deitado na relva usando a mesma liberdade
que o pardal invasor das frias escadas.



























Abandonei o edifício e passeei um pouco pelo jardim.
Perdi-me entre os inúmeros e animados turistas.
Parei diante da tua estátua de rainha, cuja história
eu tinha escutado dentro da Legislatura e os meus pensamentos
viajaram dentro do meu ser
tentando encontrar a tua alma, no mundo imenso da minha.
Aventurei-me a decifrar, através dos teus olhos de pedra,
voltados para o Oceano Pacífico,
as corridas, as metas alcançadas e as desistências.
Vitória, rainha esculpida,
rainha tão cedo...
Nas mãos o perfume do amor poético, único na tua vida.
Amor que, quando partiu, te levou a um luto profundo.
Tentei escutar os hinos ocultos da melancolia da tua infância,
vítima do "Sistema Kensington",
nas raízes da gigante árvore que acompanham a tua estátua.
Ousei ofuscar a existência dos transeuntes
e isolar-me nos poemas declamados na criança solitária que foste,
através do perfume das pétalas das rosas e das hortênsias por ali tão vivas...
Como o medo das mães pode levar ao zelo exagerado!
Como mãe que foste, como mãe que sou, tropeço na dúvida;
será zelo, será egoísmo, estes laços protetores
que amarramos na vida dos nossos filhos?

Tiveste a coragem de mudar a cultura e os costumes,
no entanto, não foi por isso que não deixaste de ser injusta
quando a barriga de Lady Flora Hastings,
uma das damas de companhia de tua mãe,
começou a crescer. Acreditaste nas vozes maldosas.
Foi mais fácil acreditar que ela teria cometido adultério.
Os elegantes rumores vieram ao encontro do teu ódio.
Acreditaste levianamente e acusaste levianamente.
Sim, porque não deixa de ser leviano acusar antes das provas,
ainda que essa liberdade venha de uma rainha.
Um passo em falso que te tornou vítima dos assobios do povo
e alcunhada de ´´Sra. Melbourn``
O que terás sentido quando após a comprovação da sua virgindade
e do seu tumor no fígado?
Tão fácil, quando não gostamos de alguém
acreditar nas palavras dos conspiradores...

Já dizia Hesíodo, poeta grego da Idade Arcaica:
`` Se fores maldizente, em breve dirão mal de ti``



 Pouco mudou

















Homem estátua, de traços escondidos
alguém a distrair
uns quantos distraídos
Cada cêntimo que cai no chapéu
é motivo de festa
que lhe apaga a ruga da testa
Não se mostra, a alguém imita;
avigora  a alma
com a cena que acredita

As ruas em Victoria, apinhavam-se de gente;
turistas.
E para os turistas, estava o artesão, o malabarista, o palhaço;
Artistas porque amam a liberdade, outros por falta de oportunidade
ou ainda por falta de vontade.

 Se transportasse a paisagem para tempos antigos
 veria carruagens escondendo conspirações,
damas escondendo ofertas debaixo dos vestidos longos,
confundido-se com o farfalhar dos tecidos
e senhores acumulando truques
nos seus retesados e altos chapéus.
Pouco mudou;
de carruagens passamos a usar carros mais velozes
que não deixam para trás
os frutos podres (acumulam-nos como tesouros)
e é neste mundo de corvos que comem a larva
produzida pelo bicho da seda
que cai o primeiro choro dos nossos filhos...``

Talvez seja bom ter consciência do mundo em que se vive,
pode ajudar-nos a partir a casca da aparência
e a saltar a linha que nos escraviza...
Será que com o passar dos séculos, atingimos a liberdade?
Ah, mas esta questão do tempo, cheio de nós cegos e esquinas com pontos de interrogação...















São muitas, as carruagens, que vemos passam por ali.
Recreiam adultos e crianças. O número delas que transitam pela ilha,
dita a quantidade de bolsas que se podem abrir à avultada tarifa
cobrada para passear. Turismo.
Os cavalos, ora esperam, ora conduzem os humanos
sem contrapor as regras dos sinais dos respectivos condutores.

Aprendemos, aceitamos e devoramo-nos

Aprendemos a chamar à resignação de amor,
ao ódio de paixão,
polimo-nos, até sufocar, nas aparências
e os senhores poderosos, ainda que mundanos,
exigem-nos mansidão
e silêncio às nossas questões.
E o mais grave, o mais grave,
ainda que em desespero,
acabamos todos por viver no reflexo de cada um
como se fôssemos modelos de trapo nas mãos
de costureiros, que zombando da nossa feiura,
escondem os defeitos dos seus pontos.

Vivemos exilados na máquina infernal do mundo
e sorrimos...
Sorrimos como patetas que lutam por um futuro
que nos prende mais e mais.
Somos mercadoria enviada a leilão
sem nos importarmos com a exata proporção do que somos.
Quase nada é mais importante do que o fulgor do imposto
que nem sempre nos abriga em tempos frágeis,
mas que não faltam para comprar armas para
matar o nosso semelhante, quem sabe, até os nossos filhos.

Mas o mundo esconde muitas guerras.
Vivemos em constante rutura com a nossa verdade
e inventamos histórias que nos impossibilitam
à verdadeira comunicação.
Aprendemos, aceitamos e devoramo-nos.


Queremos possuir tudo;
possuir o desconhecido bem vestido que passa
para possuirmos a vida dele.
Possuir a bela mulher modelo
para possuirmos as suas linhas perfeitas.
Corremos, à pressa às lojas,
para comprarmos e possuir o shampoo ou o creme
que como milagre, em poucos dias,
nos transformarão iguais a quem foi pago
para nos induzir a possuir.
Queremos possuir as lojas de roupa
para as trazer para casa
É necessário possuir para nos sentirmos importantes
e acabamos envergonhados do que temos.
E por vergonha continuamos a correr em busca da posse
e acabamos por aprender a roubar
sem o perigo de sermos presos;
não existe prisão para quem rouba a identidade
do pai, da mãe, do irmão...

A modéstia é um suplício,
a nossa alegria é poder dizer que somos filhos
de doutores, nunca de um analfabeto.
O nosso irmão é um príncipe
porque o nosso equilíbrio está na inveja que provocamos nos outros.
E tudo isso porque aprendemos a dar primazia à aparência janota
do boneco que somos.
O boneco que somos
só pode ser dono de um palácio,
só pode ser descendente de um rei e de uma rainha.
Por isso, mãe, pai, irmão
só apareces onde eu decidir
e só abres a boca se eu decidir:
- Não venhas a ser a minha vergonha
.. E devoramos o outro,
sem punição...


Falsa aplicação da herança

``Uma inteligência hereditária
paira sobre o planeta da humanidade
 vinda dos outros universos.
Pena a falsa aplicação dessa herança
desprezando as vantagens desse magnetismo.``

Nesta pequena aldeia do universo
o homem teima em ser uma molécula isolada
que o leva a correr atrás de uma riqueza
que obriga a viver miseravelmente.
Não porque a riqueza seja errada,
todos têm direito a ela,
mas porque erramos no exercício;
adicionamos ganância e subtraímos o amor.
Nesta pequena aldeia do universo,
num movimento acelerado ao suicídio,
um grupo de vida progride avançando em direções instáveis,
guiadas por leis que mentem sobre a igualdade e liberdade.

Há vírus humano;
uma certa Impaciência
que gera frutos falsos

O sucesso dos biocombustíveis
enchem bolsas a alguns;
rapinam cereais
e provocam barrigas vazias

A circulação do dinheiro
provoca pobreza
porque as mãos de alguns
são grandes demais

Como vês, sempre os mesmos erros...

Tranquilizamos a nossa alma com a ideia
de que os erros não são exatamente os mesmos;
os métodos ficam mais requintados
e adoçamos tudo com a desculpa de que
 somos todos vítimas de uma negra sina...
e é na repetição dos mesmos erros que nos perdemos.
 
O teu amor

Entre ti, Victoria, e o teu Alberto,
uniu-vos um amor verdadeiro; caso raro
numa união real.
O teu Alberto, a quem tantas vezes chamaste de querido,
não te exigiu a obdiência que muitos machos exigem a uma fêmea
(sim, porque no leito conjugal, muitos homens não passam de machos)

Por isso, evidencio as tuas palavras, sobre a tua noite de núpcias, onde uma dor de cabeça colocou à prova o amor do teu homem:
"NUNCA, NUNCA passei uma noite assim!!! O MEU QUERIDO, QUERIDO, QUERIDO Alberto (...) o seu grande amor e afecto fizeram-me sentir num paraíso de amor e felicidade que nunca pensei alguma vez sentir! Segurou-me nos seus braços e beijamo-nos uma e outra e outra vez! A sua beleza, a sua doçura e gentileza - como posso agradecer vezes suficientes ter um marido assim! (...) ser chamada por nomes ternurentos, que nunca me chamaram antes - foi uma bênção inacreditável! Oh! Este foi o dia mais feliz da minha vida!
Na tua época tiveste a coragem de casar por amor.
Hoje, nos povos que já conquistaram essa liberdade,
ainda existe a coragem de se fingir amar,
a crueldade voluntária de, em nome do amor,
amputarmos a palavra amor e depois queixarmo-nos da dor.
Com a preguiça de explorarmos a profundidade
do outro
arrancamos falsos lingotes da superfície e negociamos
explorando palmo a palmo os interesses materiais,
a boa apresentação fisica e enchemos as redes sociais
afirmando que é amor, para que todos creiam que é amor.
Enfim, melindrosas e raquíticas relações humanas.

Tu foste Maria chamada de rainha
mas sabes quantas rainhas existem
chamadas apenas de Marias?
No entanto,
acredita, reis ou não, todos somos alvos de batalhas,
do apetite de certas feras humanas,
donas de matadouros, que se deixarmos,
nos estoiram como uma bomba estoira uma rocha.
Tentemos pois, ser ágeis no desvio
e acreditar na luz que nos rodeia, da qual
nos afastamos por não acreditar na sua existência
ou por nos considerarmos pouco dignos dela.
Quando duvidamos do possível,
afirmando que é impossível,
estamos alimentando um desejo absurdo de sofrer,
dores que causam dores incuráveis
e passamos a considerar a vida como um maquiavélico alimento.

E no século XIX cumpriu-se um dos maiores reinados do Reino Unido. Sessenta e três anos. Era vitoriana, e junho de 1837 a janeiro de 1901.


 Plantar o amor numa terra de verdade é como sentir o sopro de um anjo com quem a paz vive sem pressa de partir


















Encontrei amoras selvagens
ao longo da ilha, alimentadas pelo aroma
do Oceano Pacífico.
Sorri e quase gritei de entusiasmo
Lembrei-me das mesmas amoras
que eu apanhava em criança e que tão gulosamente
comia, envoltas em açúcar amarelo

 Dependência













A Sabedoria  Inata do Universo
criou a dependência
para gerar vida
mas logo,
assim que cumprido
o ato gerar, a dependência
numa forma de igualdade oferece-se
na evolução de outra vida
e depois outra e mais outra e mais outra...
Entre o gerar e o nascer
ajeita-lhe apenas o ninho
e abre-lhe o caminho
rumo à liberdade.
Transborda-se no equilíbrio,
não lhe perfura as entranhas,
não o afasta do seu percurso.
Vai ao ventre da mulher
abre o mundo ao filho
mas deixa que ele
se projete na sua própria razão.
Soletra-lhe amor
embala-o no seu peito
mas não o intimida com regras estranhas;
deixa que ele descubra e escolha.
Lembra-se que é dependência
qualidade do instante
apenas para gerar vida:
É abrigo e não masmorra.
É como a lagarta
que dá asas à borboleta
mas não lhe escolhe os jardins.

***
Sentei-me no muro de pedra
para admirar a chegada e a partida dos barcos.
Mas o meu olhar caiu sobre uma jovem que se movia
entre a multidão tentando atrair 
os  olhares masculinos.
Coloquei dentro de um poema
a vida que lhe imaginei;
rosa sorridente
em terreno pedregoso,
pisando o deserto 
que lhe sugaria a juventude.
















Uma mulher sonhadora

Numa rua da cidade
 igual a seiva em libertação,
um resto de infância numa linguagem diferente,
jovem mulher em transformação;
um coração juvenil, ávido, inconsequente.

Numa rua da cidade
expondo a sua beleza;
se não fosse o primeiro
 o segundo chegaria com certeza,
pronto para amar.

Numa rua da cidade
 Ria-se por cima do ombro ao encontrar
a figura do Zé, comendo-lhe a pele
só com o olhar.
Mas o riso enfraqueceu quando o João mais insolente,
lhe sujou a boca, a deixou só e saiu contente.
E a frescura partiu quando
numa rua da cidade
o Pedro caiu-lhe no corpo, saiu de um salto,
atiçando a dor no seu ventre já tão exausto.

No jardim de uma rua da cidade
já sem cisnes a sorrir,
dançava uma saia ao vento mostrando as coxas,
onde um estranho qualquer,
com gestos medievais deixara nódoas roxas.

Numa rua da cidade
passeava uma moça sem idade
com uma fome de amar
 que lhe trazia naufrágios com fartura;
sujos dedos, bichos que a usavam sem ternura.

Numa rua da cidade
usada como peça de xadrez,
vez após vez
jogava uma moça sem idade
um jogo de cintura
com a sua elegante figura;
julgava-se rainha
com a tática que tinha.

Numa rua da cidade,
igual a uma cela,
uma moça sem idade
julgava-se livre dentro dela;
era peça de xadrez
usada vez após vez...
Era uma mulher sonhadora
que jogava um jogo de cintura
usando a sua figura;
com a tática que tinha
sonhava-se rainha!

Quando se recolhia
pela noite tardia
quando ninguém a via
sonhava-se Cinderela

***


No hotel, depois de jantar, admirando a bela vista do hotel, eu penso numa mulher. Quase todos os dias em que passeio pela cidade, eu a procuro com o olhar. E em determinada rua, lá está ela. Uma rua que desce até ao mar, convertida em mercado artesanal. Ela vende artesanato. A rua é poética, mas a poesia daquela figura feminina não cabe naquela rua. Entre um e outro eventual cliente, dedica o tempo a dar forma a pequenas imagens. Trabalha o arame com a força de um pequeno alicate. Junto a ela, o filho. Talvez catorze anos. Durante os primeiros dias, sempre a vi como mãe de apenas um filho, mas hoje, eu  a vi com mais duas crianças. Uma com quatro anos e outra com cinco. Mulher de rosto bonito. Simples, mas traços fortes, dentro de uma fragilidade feminina que amadureceu à força das contrariedades da vida. O nome dela? Não sei. Maria? Que importa?  O nome não modifica a vida da pessoa. Que seja Maria. A minha viagem imaginária pela vida dessa mulher, daria um livro, ou por outra, muitos livros. Faço de um caderno que trago comigo, sempre que viajo, a minha oficina de notas. Cada apontamento é valioso. A memória pode atraiçoar-me. Preciso confessar, que muitas vezes esta oficina é um pouco escura. Nem sempre o carvão escreve exatamente  a verdade. A verdade é um enigma. A luta para decifrar a verdade é, frequentemente, a fórmula para nos afastarmos dela. A verdade é uma paisagem de tonalidades passageiras. O aspecto externo do mar que olho, não é a sua verdade interior. 

Molda-se o arame 
nas mãos cansadas da mulher
moldada pelas circunstâncias
Será verdade absoluta?
E se a mulher moldasse as circunstâncias?


Há quem pesque tempestades durante a noite
para dificultar os dias a quem tão arduamente procura a paz
Quem se afogue em castelos de auto piedade
e mate campos de girassóis
com bebedeiras perpétuas;
o vício de usar o destino para justificar todas as derrotas

O conformismo e o fatalismo
são tumores aparentemente benignos
que ocupam o espaço da luz

Que repouse a luz nas sombras de árvores vivas
para que os seus raios sejam somente afiados pela lei das suas raízes; 
desenham-se tronco, galho, fruto e folha, sem se queixarem da vida




Maria

Enquanto ninguém inventar a vida numa outra ordem:
toda a natureza humana está sujeita ao ventre da mulher.
Enquanto que não seja criado outro tipo de útero humano,
Maria, tem direito a muitas primeiras páginas de muitos livros.
Que se desbrave um pouco o terreno de Maria. Terreno nem sempre
compassivo, onde ela acorda e lavra rochas e derrama a própria seiva
para que o primeiro raio de sol escreva aos homens o seu nome:
Maria!

´´Ah Maria que tantas vezes te dão outro nome...
São tantos o que te julgam conhecer e não te viram,
nem uma só vez.
Quantas palavras absurdas te tentam construir o futuro
e tu na dureza do enredo humano tentas cinzelar as tuas asas.``
Ah Maria guerreira que aprendeu a exorcizar de si as mágoas
afagando com o seu sorriso
o mundo que não a entende.



Entrega

Foi numa tarde quente
que sentiu o coração dormente
e acreditou...
De pernas bambas, olhos arregalados
entregou-se crente
que o amor se abrira como um rio.
Mãos subtis
desordenaram-lhe a pele
e um corcel vigoroso e húmido
entranhou-se dentro dela
igual a centelha acesa.
Ofegante trincou os lábios
enquanto o mel lhe rasgava a selva.
Depois da paixão consumada
de Maria desonrada
mulher emersa na desgraça

Ah Maria, Maria  tão bela, perdeu toda a graça...

O casamento

Maria deslizou para o altar
como uma flor que pensava vir a  brilhar
 eternamente,
para aquele que dentro do seu ventre
lhe desenhara o destino da sua estrada.

Maria depois da festa,
já entre lençóis com o seu amado;
de tanta sede de amor que levava
olha o teto desconcertada;
o homem com quem tinha casado
usara de desrespeito
deixara-lhe o corpo amassado
confuso, sozinho no leito
depois tão rapidamente
sem uma palavra de carinho
caíra para o lado, adormecido
como se tivesse sucumbido.
e naquele altar que ninguém via
nada de novo, um grande engano
sonhos de noiva perdidos
num bosque humano.

Nada de novo!

Mas como todos os dias persistem em renascer
Maria procura nas veias de cada segundo presente
o sustento do seu horizonte, fio de prata e de ouro
que das raízes da terra
lhe trazem ao peito um secreto tesouro;
a crisálida que a sustenta e se abre
e lhe permite a saída com uma dignidade assombrosa.
Ah Maria valente!
Ah, Maria vitoriosa!



No vagar do verão

O espírito e o corpo do vagar do verão
abriam-lhe certas páginas íntimas:
textos e textos...  criações de histórias
compunham-se dentro dela como espíritos vivos,
caminhos por escolher,  memórias,
renúncias, ilusões a que dissera e ia dizendo, não;
tudo gemendo silenciosamente...

As andorinhas saltitando nos raminhos silvestres
falando docemente de amor
e voando no puro ritmo campestre...
A tarde  adormecendo, tão lenta no vagar do verão
e ela ali com a preocupação
e a esperança recolhidas no regaço,
na varanda pintada de portas por abrir,
com os eucaliptos murmurando espaços sem precipícios
e  de  muralhas que caem em favor da vida
e da ´´palavra`` que não precisa de assinatura.

Que bom a vida assim;
As andorinhas caçando insetos, voando
e escrevendo um longo poema
no sol quase posto...
E ela sentindo no ventre, um coração batendo
e crescendo à luz de uma lua, que igual a um cais tranquilo,
pelo crepúsculo, reúne fadas que transformam piratas
em medidores de justiça, levando navios de especiarias
a terras, onde comandantes enlouquecidos escravizam o semelhante.

´´Que se limpem os convés da ciência dos governos da Terra.``

 Beleza de mulher grávida

I

Na tarde serena e quente
a natureza
aprecia a beleza
da mulher sensual,
que segue o voo silente
da mariposa
que esvoaça graciosa.

Na tarde serena e quente
sobre as pernas da mulher
descansa o seu ventre.

É beleza de mulher grávida!

A natureza calada
sente-se agraciada
pelo carinho infinito
da mulher,
que carregada de emoção,
com a sua mão
afaga o seu ventre tão bonito:
um filho pula lá dentro...
Tanta graça que pula lá,
e a mulher...  a sorrir do lado de cá.

É beleza de mulher grávida!

II

Mas beleza de mulher grávida
é apenas necessária distinguir
para os homens que não sabem
achar nela essa beleza.
Bela é toda a mulher que prateando,
entrega o pranto ao rio
e desliza feliz nas suas margens
reconhecendo que vida é navegar,
ainda que o casco dos barcos oferecidos
estejam velhos e rotos.
São aquelas que reconhecem
a tábua de salvação na sua própria destreza
que apanha a luz dentro de um nevoeiro denso
a que enfrenta ameaças, quebra algemas
e que retirada a mordaça
devolve um beijo aos seus próprios lábios.
A que se ampara a si mesma para amar
e se rejeita à pequenez, ao medo...
Que se entrega à liberdade para se encontrar
e fluir nos seus desejos mais profundos;
chegar à sua verdadeira essência
quer seja mãe ou não.
A que acredita, que após lhe ter sido exigido
que fosse todas as coisas,
que realmente é todas as coisas...
Além de mãe, cozinheira, enfermeira, esposa,
brinquedo sexual( por vezes mal usado)
Não como sobrevivente mas como
pássaro livre em todas as estações.


Era a hora

I

O ar tranquilo da primavera conduzia ao amor...
A morna e  pura mão primaveril
purificava o ar amaciando a veloz embriaguez da vida
e oferecendo-se como quarto  hospedeiro...
O deslumbrante perfume das macieiras em flor
revelavam-se no ar rosado da aurora.
Era a hora,
era a hora escolhida para nascer.
Elegeu os sons do Universo para abrandar a dor,
para de dor não falecer,
enquanto as cigarras, os grilos, os pássaros e as rãs
 cantavam às estrelas...
O grito dela abrandou para abraçar o choro do seu rebento
e o lugar solitário da sua alma
encheu-se de uma esperança;
``o meu menino vai ser tão feliz!´´
Era tão fácil acreditar em milagres!
Para acreditar em milagres tinha que afastar aquela dor
que lhe apertava a garganta;
tanta tristeza, tanta,
não haver ninguém para partilhar
o milagre do choro do seu filho.
De repente os seus braços apertavam uma nova vida
que não pensou, apenas sentiu e nasceu.
Sozinhos, os dois agarraram-se à única semente
que assistiu ao processo do parto;
o amor!

II

 O calor da vida em suas mãos,
a esperança assobiando na sua alma
alimentando-lhe os pensamentos...
Aquele corpo frágil, forte luz nos seus dedos
libertava poesia num mundo tão amargo,
empurrando-lhe os sentimentos do coração
ao olhos, dos olhos ao coração,
igual à brisa leve que fazia oscilar a nuvem.
Pura vida que tinha vindo à terra,
pousando quente e pura na sua mão
como um sopro fresco abrindo uma janela
numa manhã de verão;
janela por onde caíam flores como sonetos ao vento,
como se em cada pétala morasse alguém lá dentro.
E o calor da vida em suas mãos
e esperança assobiando na sua alma...

Ele, irrequieto, lançou o seu primeiro queixume
procurando no peito da mulher
um conhecido perfume.
Ela, pingo a pingo ofereceu o liquido
na boca do inocente ser,
como se isso purificasse
tudo ao redor e acalmasse
o agitar dos bracitos daquele que acabara de nascer.


III

Lentamente o farol matutino espreguiçava-se
pelos cumes dos montes,
espreitando e despertando os ninhos,
o galo cantava pela última vez
e as galinhas começavam a descer dos poleiros
a criança calava o choro
ao vencer triunfante, a luta pela posse
do seio da mãe,
que de olhar ternurento segurava
a natural  fonte de vida do seu rebento.
Seduzia o seu olhar trauteando suavemente
cantigas que lhe tinham cantado em criança,
orvalhando o rosto de lembranças
como se visse à sua frente
um homem de feições amorenadas pelo sol,
de olhar azulado traquina e bondoso
cortando um naco de pão,
trincando uma e outra azeitona
para entreter o estômago enquanto não chegava a ceia
e espalhando histórias pela sua imaginação,
aumentando-lhe a faculdade de inventar...

Havia um galo que vadiara toda a noite
perdido no desfile de outras galinhas
e nem soube a que horas a galinha que galara
dera à luz um ovo especial.

Mas a verdade é que a galinha nunca sentira tanto medo
e amarrou a boca  e a alma ao nome de Deus
e o pedido de ajuda, espalhou-o a brisa, pelo universo
e o seu menino nasceu de asas inteiras

E o lugar solitário da sua alma
encheu-se de uma esperança;
o meu menino vai ser tão feliz!
Era tão fácil acreditar em milagres...
Talvez o único milagre fosse a lealdade à vida.
Seria isso fé?


*A todas as mães que enfrentam a hora do parto sozinhas

A hora é só?
É
Não interessa perguntar
não interessa responder
a hora é de lutar
porque dentro do meu ventre
alguém quer viver.
O sol tomba?
Por vezes sim.
Porquê?
Não interesa perguntar,
não interessa responder
Houve um homem e uma mulher
a mulher engravidou e o homem não quis saber.
 Essa porta é para fechar
a ela não me quero prender
há alguém que quer nascer
e eu quero viver!

Momento de ternura
Lentamente enrubesciam os cumes dos montes,
os ninhos despertavam,
a criança calava o choro
ao vencer triunfante, a luta pela posse
do seio da mãe,
que de olhar ternurento segurava
a natural  fonte de vida do seu rebento.
Seduzia o seu olhar trauteando suavemente
cantigas que lhe tinham cantado em criança,
orvalhando o rosto de lembranças
como se visse à sua frente
um homem de feições amorenadas pelo sol,
de olhar azulado traquina e bondoso
cortando um naco de pão,
trincando uma e outra azeitona
para entreter o estômago enquanto não chegava a ceia
e espalhando histórias pela sua imaginação,
aumentando-lhe a faculdade de inventar...

E o lugar solitário da sua alma
encheu-se de uma esperança;
o meu menino vai ser tão feliz!
Era tão fácil acreditar em milagres...
Talvez o único milagre fosse a lealdade à vida.
Seria isso fé?

Sejamos eternos pássaros vivos

Os rebentos sentados;  as pernas cruzadas
e os calções de cores viva, alegravam a varanda,
outrora pintada de vermelho triste
( apenas eles tinham a capacidade de mudar o espírito de qualquer coisa).
Ela, distribuindo o lanche a cada um
e entusiasmando as suas ´´  vozinhas ``.
O zumbido harmonioso das asas de uma abelha
entrando lentamente naquele mundo sedutor
que sublimava a autenticidade.
A videira apoiada na parede velha
dispunha a sombra na tarde quente de verão,
protegendo-os com um fluxo de ar sereno e fresco.
- Quero mais- pedia um.
- Eu também- repetiam os outros.
E ela sorria feliz pelo apetite das suas crias,
um sorriso que enfeitiçava
até o zumbido harmonioso das asas da abelha.
Mãe conta-nos uma história das tuas.
Ela sorriu; dentro dos olhos deles dançava a videira,
 igual a folhedo emoldurado pela inocência.
O gato pardo, brincava preguiçosamente com uma folha seca...

Ela, num ato solene, ajeitou as pernas no degrau e perdeu-se,
encontrando-se  num mundo mágico,
onde ela e os seus rebentos
eram todos da mesma idade;
pássaros em viagem rumo ao sonho...
oxalá ela nunca substituísse aquela paisagem
por torres de cimento e por fins de semana em centros comerciais,


O jarro de água verde

Um jarro de água.
Um jarro  verde.
Com esse jarro, ora cheio, ora vazio,
a menina subia e descia a ladeira,
da casa à fonte e da fonte à casa...
Muitas vezes e muitas vezes
a menina subia e descia a ladeira,
de casa à fonte e da fonte à casa,
até que aquela bilha gigante de barro, com uma torneira,
exposta no canto da cozinha de mil histórias,
ficasse cheia.
Mas ela podia passar o dia inteiro indo e vindo
porque não sabia apenas carregar o jarro de água;
(também brincava com as pedras e empoeirava os pés e as chinelas de plástico,
às vezes também verdes)
para  encontrar uma maneira de usar a fonte,
não apenas para o jarro verde de plástico
mas para lavar os pés e rir, rir...
Era tão bom rir...

A fonte era uma casa quadrada,
com um tecto sem telhado.
Tinha telhado mas não tinha telhas,
tinha só cimento.
De lado tinha uma roda grande.
Era bonito;
para encher o jarro tinha de encher a barriga de vento
e imaginar que o vento pesava muito
 e obrigava a grande roda girar.

- Na água existe um virtude-
dizia o avô à menina.
- Homem é em Deus que existe a virtude-
dizia a avó ao avô.
Na água existe uma virtude- continuou o avô-
ela dá-se sem se negar a nenhum homem que tenha sede. A água é de todos
pois assim a dá, de graça a terra, que é de todos também.
- Homem, é Deus quem nos dá essa graça- replicava a avó.
A criança de olhos muito abertos,
perguntou:
- Tem escadas para o céu?
- Tem- respondeu a avó- mas precisas de rezar muito.
- Tem escadas para o fundo da Terra, onde nasce a água?
- Tem- respondeu o avô- mas tens de saber brincar de imaginar.
A criança brincou muito de imaginar
e continuou a sujar os pés de poeira para ouvir a água nos seus pés.
Depois a criança não conseguiu ficar sempre pequenina
nem a fonte conseguiu dar, para sempre, água gratuitamente.
Todos os meses chega uma carta chamada factura,
de uma fonte que já não corre livre.
A mulher para não chorar, tenta brincar de imaginar;

 Como era bom brincar de partilhar memórias com os seus rebentos
Ela reavivava as suas e fabricava as deles.

Ela apercebia-se disso pela luz que emanava dos seus olhitos.


Sejamos eternos pássaros vivos
com a capacidade de transformar gaiolas em galhos livres
onde a palavra evolução seja justificada
por um mundo onde a igualdade permite
a qualquer homem, de qualquer raça
os mesmos prados, os mesmos mares, os mesmos rios, as mesmas fontes...

Os meninos dormindo na exatidão da inocência,
com as raízes do sono plantadas
num mundo puro.
Ela, sombra armazenando noite...
Um pouco à deriva, acordou o armário da sala
e sem querer ferir o sossego noturno do lar,
cuidadosamente, rodou a pequena chave
acordando sombras que esperavam pelo primeiro sinal.
Tateou na escuridão do armário
disposta a virar o silêncio de pernas para o ar;
encontrou um velho caderno,
a entrada secreta para a época
em que cada folha  era o fio silencioso
com a capacidade de ocupar o coração triste
com  borboletas livres.



Os soldados da vida de faz de conta


Com a alma cravada de indicadores assassinos
meditava no atraso da felicidade.
Quando ganharia ela as graças da paz?
Quem dera não ter a alma com o ouvido tão apurado...
Os seus sonhos secretos atiçavam as velas da liberdade
mas os seus sonhos ainda não tinham encontrado um lar,
continuavam a ser emigrantes no mundo da guerra;
uma guerra real feita por pessoas que viviam de faz de conta.

Ela tentava plantar um campo de malmequeres
mas sempre que entrava em campo para cultivar,
vinham os soldados da vida do faz de conta
e arrasavam o campo animado à alegria
porque faziam de conta que o mundo
não precisava de um campo de malmequeres.
 Ela ainda não se apercebera
que ela mesma oferecia esse campo,
deixando-o aberto e coberto de energias
que atraíam os soldados da vida do faz de conta.



O tolo


Rei do discurso, ladrão de belas palavras.
Dos bem intencionados era apenas um imitador,
falso imitador.
Dentro dos discursos
que distribuía pelos que ainda lhe dispensavam algum tempo
deixava evidentes intervalos,
onde a falsa publicidade que fazia de si mesmo
se fazia sentir...

A hora de ansiedade mais grave
surgia quando o tolo se atirava
gulosamente ao prato de comida;
 não fosse a comida estar quente ou fria demais,
para que o prato não dançasse bruscamente sobre a mesa.
No meio da escuridão olhava as casas
E a chuva que encharcava os telhados.

Gostaria de ver surgir por entre os pingos grossos
um anjo galopando, vencendo as armadilhas
dos galhos da vegetação selvagem
lutando contra o coração negro da tempestade...
 Não queria beber em copos de cristal,
mas também não queria agasalhar-se na miséria
em que o tolo
teimava prendê-la.


Posição para receber dor

Ele enrodilhava-lhe o ventre, as ancas, os seios
e ela aceitava, cerrando os maxilares
obrigando-se a ser duas metades,
duas metades que não se ajustavam,
em que uma das metades passava pela maldição de sentir
os dentes morderem-lhe o cérebro;
 ferrava os dentes e deixava de ser coração de gente.
(porque coração de gente não sabe lidar
com a opressão...)
Uma,  desconformada mas não o suficiente
pois embora revoltada cedia ao medo da outra e ambas
a tornavam assim; submissa a medos e crenças nas quais não acreditava
mas que rangiam na sua mente como rodas de canhões.
Tudo, ou quase tudo ficava bem ao homem, não era?
Por isso ele podia enrodilhar-lhe o ventre, as ancas e os seios
e ela só tinha que calar cerrando os maxilares...
Depois ele sairia com aquela expressão suada de felicidade de macho satisfeito.
É assim que deixamos de ser gente sem nos apercebermos-
porque a escravidão é  a base da sociedade que chamamos livre.
Porque devemos ceder ao hábito de cerrar os dentes
quando nos violam o corpo, as vontades?
Cerrar os dentes é permitir...
Ao procurarmos esse impulso para não sentirmos a dor
não estaremos a oferecer posição para que nos causem dor?
Cerrar os dentes é uma posição para receber a dor...

Porque deveria chorar se era ela que permitia a autonomia

Fragrância meiga

Embriagava-se no seio maternal,
da tela educada e delicada,
do escultural contorno das serras
e da brisa sussurrando nos trigais.
Misturava-se na brisa sussurrante
sentindo encantada
o sonho murmurante
do ventre da natureza  teimando
 em memorizar a felicidade
 como se na terra não houvesse ais.
Embriagava-se no seio maternal do Universo
que seguia o seu caminho a um ritmo
 aparentemente inconsciente
dos básicos instintos da humanidade;
o ódio, a ganância...
(problemas novos que não passam de problemas velhos)
um tipo de ação doente
que nos enche e nos faz explodir.
Com que tipo de certidão teríamos sido enviados à Terra?
Em que mente infeliz teria sido assassinada a felicidade?
Melhor não pensar, melhor sentir
e beber toda aquela fragrância meiga
com que a embriagava o seio maternal
 da tela educada e delicada 
do escultural contorno das serras
e da brisa sussurrando nos trigais
como que erguendo o sonho
 do ventre da natureza que teimava
 em memorizar a felicidade
como se na terra não houvesse ais.


Aquele segundo coração

 I

As noites solitárias não lhe traziam
promessas vindas das estrelas
 no leito lotado de desconfortos.
travava, heroicamente, lutas invisíveis aos olhos do mundo
Guerreava
usando sorrisos vindos de um mundo inocente,
prontos a cruzarem alguns sentidos estranhos da vida
e a combaterem o aspeto grisalho
 que a experiência dura teimava em costurar na sua alma.
O milagre que crescia dentro de si,
um segundo coração que batia com maiores exigências,
exigia mais do que ela.
Ela, se não fosse por aquele segundo coração
em certos momentos deixaria de exigir...
E nascia uma outra luta;
deveria viver apenas pela existência daquele minúsculo coração?
Se o fizesse tornar-se-ia vida estéril
e obrigaria aquele segundo coração
a herdar a obrigação  de lutar por ela.
Tornar-se-ia, ela, a tecelã de uma teia,
onde o minúsculo coração
teria que labutar pela vida da sua progenitora
ainda antes de nascer?
(Que missão pesada oferecemos aos nossos filhos
quando dizemos que vivemos apenas por eles...)

II

A mente perdia-se em divagações,
 em incertezas perdidas na  desilusão
por não ter encontrado a certeza no ombro certo.
Existiriam certezas em algum ombro?
A insegurança e o medo palpitavam,
Obrigando-a a pensar
 que apenas vivia pela existência  do seu filho.
Sim, lutaria por ele até à exaustão
mas mais uma vez questionava;
seria justo viver apenas por ele?
Passou a mão na madeira castanha escura,
fechou a gaveta e voltou-lhe as costas.
Espreitou pela pequena janela,
encostou o coração à lua
e fixou-a... tão dependente da luz do sol!
Afagou o ventre sobre o vestido largo
e sentiu-se crescer em cada contorno do seu corpo dilatado.
Sentiu um pontapé...
´´não me deixes nascer velho``.
Questionou de novo:
- Dar à luz parece uma prova de amor tão grande.
Será por puro amor que um ser humano deseja ter um filho
ou será  uma tentativa para minimizar o nosso vínculo permanente
  com esta imperfeição crónica?
Afagou o ventre sobre o vestido largo
e sentiu-se crescer em cada contorno do seu corpo dilatado.
Sentiu um pontapé...
O pedido repetiu-se ´´Não me deixes nascer velho``.

III

O seu corpo fiel às linhas da maternidade,
(senhora de toda a magia)  crescia indiferente,
 sobrevivendo às transformações do seu estado psicológico
que se dividia entre pactos de fidelidade
aos artigos de fé tradicionais
e ao atributo solto e livre que esperava pela sua permissão
para a levar a um nível alto de liberdade,
 mesmo que isso a levasse à solidão,
mas certamente uma solidão mais saudável;
 um comportamento mais íntimo com ela mesmo.
Suspirava esperançosa cada vez que abria as gavetas
e fantasiava a realidade de que o volume de roupas minúsculas
eram também fruto do amor paterno.
Achava-se uma mentirosa compulsiva,
ao obrigar-se a acreditar que ele iria mudar.
Todos diziam `` tem fé, ele vai mudar...´´
Sentia-se partida em bocados;
Havia uma voz que se ria loucamente.
Vinha dentro de si, mas ela não a encontrava.

No meio da escuridão olhava
Ela sentia-os;
eram pensamentos, sentimentos distintos
que passeavam pelos espaços indistintos
do quarto quase escuro,
amedrontando-a com o assustador tinir do silêncio
que parecia atrair ladrões do sossego.

Afagava o ventre...
Tinha ao alcance da mão, a gaveta
que se ia enchendo de azul e amarelo
e sorriu, como sempre sorria quando abria a gaveta.
Sempre que a fechava, guardava lá dentro esse sorriso.
Sabia que precisaria de muitos sorrisos guardados
para que engolissem  o teimoso liquido salgado,
para que o seu rebento não o chegasse a conhecer ;
porque ele, dentro do seu ventre
continuava a pedir:
´´- Não me deixes nascer velho!``

Tão mais fácil manter o seu filho no ninho do que ser mãe- ave e empurra-lo para fora dele.



Secreto luxo

Que todos os dias são cheios de labutas domésticas, quase todos o sabem;
as crianças crescem a olhos vistos. Quase todos, sim, porque alguns só sabem
ver que as crianças crescem a olhos vistos. Arruma o último talher,
coloca o ´´naperon` na mesa``e ajeita as maçãs na fruteira de inox.
As crianças, depois de tanta brincadeira e de uma história contada,
abrandam a energia infantil no sono que promete tranquilidade.

Mais uma vez, vencera a luta na cozinha. Olha em volta; tudo em ordem,
tudo preparado. Poderia cair na cama, que ela mesma arrumara,
antes do dia ter clareado, mas não.
Permite-se a um secreto luxo; viajar  até à varanda.
Senta-se na beira do muro, e faz o que ninguém sabe que ela sabe fazer: sonhar.
Parece que no catecismo das mulheres domésticas, não existe o sonho.
Antes de se entregar completamente ao culto, ajeita os fios de cabelo,
soltos do fatigado carrapito.

Silhueta  pequena no enorme silêncio universal, entrega-se ao doce fluxo
e encontra o escudo que a protege das lâminas  que lhe almejam, não a carne,
mas a alma.
Admira as estrelas e a lua. Elas não temem as alturas e não têm medo de sair à noite.
De mansinho, inventa-se hera, sobe até ao universo que nunca se gasta,
senta-se na lua, mostra-lhe o lado que nunca mostra a ninguém.
O decote respirando calmo e a testa expulsando as rugas;
sente-se pedra preciosa que fugiu ao lapidário.
Vem visita-la um anjo poeta que traz na sua mão uma gota do oceano.
Ela, envolta em sonhos de lã branca, refresca-se para fazer jus ao verbo viver.

O sonho do menino


O menino adormeceu e aos seus sonhos
chegou uma fada que tinha
os mesmos olhos de amor que a sua mãe
 e a mesma boca que falava palavras de segurança.
Viu-a parada a pensar.
 conseguiu ler os seus pensamentos;
ela desejava colocar os seus meninos dentro do seu ventre,
para os proteger,  mas não podia.
Uma vez saídos do ventre da mãe não poderiam voltar mais.
Então o menino pediu para que fugissem dali.
(Os meninos também desejam a liberdade e a paz)
- Mãe, mãe... vamos, vamos! Leva-nos, leva-nos!
Ele sentia a mão da sua mãe a levá-lo para a salvação.

Mas...  e existe sempre um mas nas histórias dos meninos tristes,
quando o menino acordou escutou a sua mãe... ela falava sozinha: 
(Ela tinha suas mãos engelhadas pela água quente com que lavara a louça)
 Também as lágrimas lhe engelhavam as faces.
O peito explodia de tanto querer a liberdade para os seus meninos e para si.
-Não, não posso. A biblia não permite que o homem separe aquilo Deus juntou.
O menino jurou a si mesmo nunca mais chorar.
Não sabia se era coragem ou fraqueza,
apenas sabia o que a célula da desilusão
 reforçava um mau sentimento
e por isso nada mais via do que
esse mau sentimento  lho permitia.

Os adultos teimavam em pensar que os meninos não enxergavam para além do que era visível.
Ou por outra teimavam em acreditar que conseguiam esconder





A porta do sol

Era uma casa que como em  muitas outras casas
 vivia um tolo
e como os tolos sofrem de um certo destempero
 e onde as paredes eram muito frias,
ela abriu uma porta do sol.
Fizeram outra casa dentro da mesma casa.
O quarto era o mesmo,
a sala era a mesma,
a cozinha era a mesma
mas havia um quarto especial;
um quarto com uma porta especial,
a porta do sol.
Esta tinha uns grandes olhos, sempre a vigiarem,
contentes pela alegria que se vivia dentro do quarto.

A imaginação crescia em liberdade,
as paredes brincavam com as folhas de papel
que ela ia colocando enquanto os rebentos
coloriam mais e mais folhas com flocos de nuvens do céu,
com anjos descendo como pombas,
pousando no arco-íris das flores.
Desenhavam a chuva e o vento
mas nunca as árvores com os galhos partidos.
Depois, sem ânimo para fugir ao sono,
escutavam atentos,
 aconchegadinhos às histórias e cantigas que ela mesmo escutara em criança.
A magia era tanta que até os pijaminhas nos seus corpos pequenos
se embalavam na voz serena dela...
O tolo não interrompia esta hora mágica,
porque nem sabia a que horas
 era a hora mágica para além da porta do sol.
Esta tinha grandes olhos sempre a vigiarem.
Embora alegre, por vezes, atacava-a uma pergunta;
como é possivel ser-se vivo e não reparar que dentro da casa
existe uma porta do sol?
Que tolo era o tolo!








Ventre de silêncio
Há algo que sobressalta e transforma
o ideal poético que rodeia a ideia do casamento.
Há algo que  altera  em estilhaços o quotidiano;
a distracção que nasce do descuido,
da descontínua vontade de continuar a amar o amor como no inicio
e que provoca uma fuga de emoções em direcções erradas,
tornando o lar um ventre de silêncio... ou de guerras.
Mesmo quando perdura a guerra
é no silêncio que fica a verdade.
As alíneas  que no inicio parecem ter tudo para a união
tornam-se erros que acendem o rastilho
que arrasa o nó matrimonial, mas ninguém vê.
Montam o circo
e entregam a vida para serem infelizes...

Em troco de quê?
Ele, o tolo, a troco de comida feita, roupa lavada...
E ela? O que a prendia durante tantos anos?
Os filhos? Deus? A opinião alheia?
Os dois faziam de conta; ele fazia de conta que era marido e pai
e ela fazia de conta que precisava dele.
Ele parecia adquirir a refeição completa
e ela?
´´Tu não tens nada mulher! Não passas de uma escrava!
Enfeita-lhe a testa. Ele faz-te isso, sempre que pode.
Ela não tinha nada?
Olhou os seus rebentos e sorriu.
Eles eram os abraços que lhe aliviavam os braços cansados
e com eles vivia fantasias que destruíam os seus medos.














``Enfeitar a testa``

Não é uma expressão bonita,  mas é uma expressão.
Mas mais feio do que a expressão é o acto concluído impulsionado pelo desejo da vingança.
Ora da vingança ao efeito produzido pela acção quem realmente é penalizado?
Porque deveria ela enfeitar a testa a um tolo
se isso traria uma feição tão feia à sua?
Sem amor,  já ela permitia que alguém a usasse...





A realidade

Revoltava-se contra a sua própria indecisão,
contra aquele gostar de
  confundir  a verdade
e escolher a ilusão de que viver não era urgente
Revoltar-me ou escolher a ilusão
Enche o espaço todo



Ela nunca sabia se ele sabia o caminho do regresso.
Ele chegaria embriagado pela sombra do vicio nocturno;
a expressão diabólica da vitória ou derrota numa mesa de jogo qualquer
e a promessa febril que falsamente prometia que não voltaria lá.

A mesma febre que o impulsionava  a mentir
 empurra-lo-ia, até ao fim dos seus dia,  para o silvo da serpente nocturna.
E ela, o que faria até ao fim dos seus dias?
Continuaria a enroscar-se no corpo da solidão?

Teimar numa relação onde há apenas um
É como repetir um doce que antes de o trincar
Já sabemos que nos vai fazer mal ou enjoar.


´´Cada civilização é como uma nuvem que passa,
cada uma destruindo a outra em nome da igualdade.
Mata -se em nome do combate à escravidão
e viola-se a liberdade,
quebrando o verdadeiro laço moral entre os homens.
Inventam-se novos nomes
mas o equilibrio do maior é sempre o desiquilibrio do menor.``

Enquanto pensava, os filhos brincavam na terra.
Iventavam jogos que os ajudariam a ser a civilização futura,
mas os governos faziam leis como se a sociedade fosse outra coisa;
os homens ignoravam aquele perfume a terra remexida pelas mãos
das suas crianças.

Ela tinha uma janela onde cresciam flores para os seus meninos,
assim como o planeta humanidade tinha a lua áquela hora.
Ela sentia a comunicação magnética. Invisivel, mas sentia-a.
Ela pedia-lhe que o seu espirito procurasse o equilibrio.
Sentia que para além do seu limite fisico havia o poder absoluto
da inteligência, da sabedoria da alma
com um  olfacto apurado para a sensibilidade;
a sensibilidade dizia-lhe que aquela terra
 remexida pelas mãos dos seus rebentos
 era muito mais pura do que qualquer lei,

inventada numa sala, com cheiro a perfume fabricado.
  
Cansaço


Vou assim, tão cansada;
procuro-me,
busco o silêncio,
gastei-me na multidão...

Das horas a fio que inutilizei por aí
trouxe este vazio existencial e esta ansiedade,
fruto da apressada multidão que traz nos passos
o tédio, tornando o ar tão pesado
confundindo o voo às gaivotas.

Os homens correm, correm mas continuam tão atrasados
ao derrube do muro das máscaras;
vivem numa orgia de cumprimentos, sorrisos e olhares
sem questionarem os sentimentos,
carregando o olhar com desculpas à vida
por ignorarem o seu poema.

Gastei-me na multidão...

Trago os gemidos da terra debaixo da calçada
e a atitude de alguns homens que ofenderam
o voo dos pássaros.

Busco o silêncio...

Preciso da brisa virgem
para curar a ferida sem deixar cicatriz,
preciso abastecer-me onde a vida é insubstituível...

Procuro-me...
Preciso de continuar...  sem este cansaço...

Da minha janela vejo

Um carrossel de carros
engolindo  árvores

calando andorinhas

No mundo da lua

 Um dia descobri que pretendiam roubar-me a liberdade
apagar aquele meu ar de alegre criança
mas não sabia ao certo quando, na realidade,
surgira aquela intenção a exigir a minha mudança.

`` A idade de brincares com bonecas, passou´´
Atordoou-me essa frase... porém,
o que escutei a seguir, foi o que mais me marcou:
- Mas isso não basta, tens de ser como toda a gente, também.

Uma tristeza tão grande surgiu no meu coração
comecei a acreditar que a vida era um filme de mau enredo,
mas ao invés de chorar com a gigantesca desilusão,
 criei um espaço especial, apenas meu, o meu segredo.

 Eu não queria ser carne sem emoção,
não queria ser no mundo espírito perdido,
queria ser  asas, mar em turbilhão
e viver a vida inteira com sentido.

Percorria longas distâncias, sem sair do lugar
aventurava-me por estradas sem sair para a rua
e só voltava naquele palco a entrar
quando me perguntavam: menina estás no mundo da lua?

Do lado de lá do meu muro

Por vezes, em certas noites,
Uma sombra vinculada à minha almofada, morde-me;
A sua boca absorve os meus pensamentos, os meus sonhos...
Age como se eu não existisse e programa-me
Sombra de corredores sem morada,
Onde os ecos dizem tudo o que não quero ouvir,
Imita vozes de pretensos amigos, repete deles, frases rudes
De acontecimentos passados e castiga-me...
Castiga-me o descanso, castiga-me o sono,
Castiga-me com culpas...
Tem expressão de doente,
Olhar masoquista,
E postura pessimista.
Descobri quem é; é a minha mente.
Salva-me a morada secreta do subconsciente
Que me envia correntes de sentimentos frescos
E mostra-me o lado de lá do meu muro
Onde o sol matinal 
Aviva o vermelho outonal
Das folhas das árvores
Que dizem bom dia à vida.
Do lado de cá do meu muro, 
Eu quero que o sol me atice e me faça dizer,
Bom dia à vida...
... Mas... o sol continua do lado de lá do meu muro.
Eu vou mudar de morada; vou saltar para o lado de lá do meu muro,
Onde a vida se fertiliza e  fecunda sentimentos
Numa simples rosa que dança airosa
Sem marcas de sombras que mordem...

Sim, porque em todos nós habita um muro
Apenas temos que descobrir de lado mora o sol.



Também me fiz ilha e ainda faço, por vezes... convinha. Para que não retornasse a ti. Ainda derramo, raramente, aquelas gotinhas húmidas e transparentes. Agora descansa. Deixa que no teu repouso eu produza para todas nós
deixa que a caneta acompanhe tranquila os meus sobressaltos. Deixa-me ir às sombras apanhar as correntes de ar fresco que nos levarão à paz.



     
 Deitou o corpo cansado. A mente ainda rodopiava no louco carrossel das mil e tantas tarefas. Algo a incentivou a parar. Era como se alguém lhe dissesse:
        - Vai descansar que amanhã também é dia.
         Quem diz que corpo deitado alma quieta? Os braços procuravam descontrair, mas era intensa a luta com os lençóis.Teimosos, insistiam em pensar que continuavam escravos das mãos que labutaram com os tachos, os pratos, o pó, a vassoura, a roupa suja...
        O vulto que ressonava ao seu lado, antes de cair no sono, lançou-lhe uma coluna de pedra sobre a cabeça:
        - Mulher em casa não tem oficio. Ridículo. Cansada de quê?
Aconselhava-a uma voz, a dormir,  enquanto procurava arrumar as mãos na almofada, numa posição qualquer que lhe fizesse desaparecer as dores nos pulsos. Suspirou fundo e encorajou-se:
         - Vá, tu consegues.
          E lá foi ela. Deixou todos a dormir. Riu sozinha, fugindo na escuridão. Riu da própria sombra que parecia mais tímida do que ela. Soltou todos os sorrisos e travessuras que escondera o dia inteiro. Os pés trincando os raminhos secos, e ela rindo. Correu até ao mar. Apossou-se de um barquinho que se ondeava docemente e fugiu oceano afora. Ria e remava. remava e ria. Lá longe o farol, Ela remava, remava. Lá longe o farol. Queria aquela luz. E via-se igual a criança perseguindo pirilampos. Horas depois sentiu a indelicadeza da rotina. Voltara sombra pontual. A alma ficara lá. Não quis voltar. Prometeu todas as noites brilhar com o farol.  Lá longe, o farol... lá longe o farol... e ela prostituindo-se no colo do medo.
           Lá longe, o farol... lá longe, o farol...



Existe na alma de uma mãe um campo frutifero, pleno de amor
Por um filho
Onde um plantio e uma colheita se dão a uma velocidade vertiginosa
Que lhe consome as entranhas do corpo e de todos os sentidos
é como um poema que cria um labirinto, um abismo
entre a realidade e o que sonhamos para eles.
Entre os erros deles e as desculpas que construimos
Para justificar os seus erros
( com todos os seus erros não deixam de ser os nossos meninos)
Entre essa luta, luta também a pergunta; onde foi que errei?
É uma pergunta amarga que fere, que consome
Desunamiza os anos árduos dedicados a fazer de um filho um homem.
Será que todos os pais são mentirosos quando afirmam orgulhosamente:
- O meu filho é um verdadeiro homem!
O que será um verdadeiro homem?
Aquele que engole os sonhos e segue mecanicamente
As normas seguidas por uma grande maioria ou aquele que se revolta
E nessa revolta acaba por errar tanto que cai num abismo solitário,
Cárcere dos incompreendidos?
E a mãe? Ela que tem consciência do mundo escuro do filho como o pode ajudar?
Quem irá acusá-la?
Ela que tantas noites não dormiu, deitando-se e levantando-se cansada
Sempre o mesmo cansaço.... prosas sem poesia, sem nome
Tantas vezes ela se confundiu com uma multidão misteriosa
Que se deitava e levantava a horas estranhas
Para cumprir um ritual de tarefas
Em quantos abismos caíra o seu cerebro
Abismos de contas sem resultados justos para as suas finanças?
Tudo isso era uma não poesia que feria, que amargava
Um campo infrutifero a versos de alegria
Onde vive a justiça de uma mãe?
Ajudar o seu filho a escapar da lei por um pequeno furto, por um pequeno deslize
Porque ele não entendera a falta de abundância de um amigo
E lhe comprara um artigo roubado
Ou lança-lo ao julgamento daqueles que a roubavam diariamente
Sem nunca se terem preocupada se a sua tarefa como mãe seria suficiente
Para dar felicidade aos seus filhos?
Durante os seus curtos  sonos
Atropelavam-se as angústias, os medos, as incertezas e o desejo de proteger
O seu filho
Sonhava com uma casinha â beira de um rio na encosta de uma montanha
Onde ele pudesse desenvolver as suas habilidades e viver em paz.
Ela sentia-o tão cansado
Sonhava com um mundo onde ninguém precisasse de indentificação a não ser o próprio
Sorriso, o próprio talento
O que sabiam os juízes de leis humanas?
Como calculavam eles o desânimo de um jovem quando comete um crime?
Como sabem os juízes humanos do quanto está arrependido o pretenso criminoso?
Como sabem os juízes como sentem o mundo estes jovens que não sabem até onde vai a honestidade dos proprios fazedores de leis?
Ela escrevia tudo isto enquanto olhava ainda os seus rebentos pequenos, temendo igual futuro
Temendo passar pela mesma situação da sua vizinha São.
No dia seguinte levantou-se e discretamente foi até ao jardim da entrada da casa. Enquanto fingia arrancar as ervas daninhas de um canteiro escutava as noticias:
- Ele fugiu. Parece que a mãe o ajudou. Fica a mãe em maus lençois.
Por  uma lágrima, uma margarida recebeu uma rega matinal despropositada, pois costumava sentir a rega sempre pela tardinha.
Ela olhou as janelas fechadas da casa da jovem mãe e imaginou-a em pânico no seu interior.
Sentou vontade de quebrar a sua boa imagem na vizinhança e ir bater-lhe à porta. Entrou de novo em casa. Entreteu-se a preparar a primeira refeição para os seus pequeninos. Iria lá à notinha. Quando a aldeia se encontrasse recolhida.




As luzes das janelas da aldeia iam-se apagando
E as dores das duas mulheres quase se tocando
A distância das duas casas permitia um espelho
Onde os seus rebentos brincaram juntos como flores de primavera
As horas anunciavam limites no esforço que ambas

Como maes faziam para vencer a ingratidão dos que compravam privilégios



Sombra da noite


Levantou-se, não conseguia dormir;
colou o rosto na janela e o seu olhar à noite se deu;
piscou os olhos e pode sentir
que o silêncio da noite não era só seu!
Viu outra sombra ao fundo da rua,
Cambaleando na noite fria,
marcando na estrada vazia
a irregular linha dos vacilantes passos
da sua alma em pedaços,
Num desenho estranho sem alegria...
Quem teria sido na noite a sua companheira?
Com quem deitaria o seu sonho?
Com  amiga traiçoeira!
Que caminhar inseguro...  que traço tristonho!
Olhou o tempo que levava,
a estranha sombra a rua a percorrer...
Reparou que o tempo  não lhe interessava;
vagarosa, a sua própria sombra parecia esquecer!

Apertou o seu rosto na vidraça,
alongou com força o olhar
e viu que aquela sombra baça,
com alguém vinha a falar.
O rosto escondido na madrugada escura,
o olhar perdido sem saber para onde olhar
e a garrafa que na mão trazia segura,
com ela falava, ora num queixume... ora a gritar.
Inventava um caminho,
como quem sentia que nada tinha a perder.
Sombra que na rua procurava
esconder-se antes do amanhecer,
como se teimasse não mais do que uma sombra ser.

Quem seria a sombra ao fundo da rua?
Vulto sombrio de indefinidos traços,
que se alimentava de raiva crua,
que se perdia em cambaleantes passos?
Que estranho não consiguia esquecer,
dessa hora que se achegara à janela.
Apenas a rua queria ver
mas viu mais, viu a sombra que se mexia nela.

Que estranha sombra pode testemunhar!
Sombra que enchia aquela rua
num hesitante e incerto caminhar,
numa postura de mais ninguém, apenas sua.
Desejou caminhar lado a lado
e com essa sombra conversar
mas a sua companhia já tinha dado
ao cálice da vida que o ajudava a cambalear.
E da sua silenciosa janela,
apenas ficou a ver,
a sombra que se afastava dela
Para na sombra se perder!


  
Como mostrar-lhe?


Ah, se ele conseguisse sentir o suor dela sangrando 
e procurando, procurando
a infância dentro do seu olhar,
ele passaria a viver, a viver sem descansar!

Porque estranha floresta entra por vezes um filho
que os pais perdem-se lá dentro?
Que anormal organismo desorganiza a harmonia
da linha da vida e lhe oferece um mar morto no centro?
Que estranha velhice afadiga tão rápido a energia a um filho,
que azeda a busca dos pais em acompanhar a sua juventude?
Como estender-lhe a mão se ele entrega a alma a um afago falso
num sulco de pólvora, violento rastilho?
Ela não entendia nada de dependência
apenas entendia que o filho crescera depressa demais,
servo de uma ardilosa consciência,
raquítica sede que definhava debaixo de uma laje
decorada com um paraíso falso,
escondendo um fúnebre traje.
.
Como mostrar-lhe o coveiro escondido, pronto a enterrá-lo?
O coveiro plantava, plantava
e vendia, vendia.
A quem consumia, 
ele enterrava, enterrava.

Ah, se ele conseguisse sentir o suor dela sangrando 
e procurando, procurando
a infância dentro do seu olhar,
ele passaria a viver, a viver sem descansar!






Como explicar?

Como explicar a um filho que  as horas de natureza má
são  uma posição oposta ao que é normal,
que não é punição pelos seus erros?
Que nasceu numa comunidade onde a diversão plena é a
crueldade do mais forte contra o mais fraco,
que os homens sentem-se deuses
ao fazerem da miséria alheia um espectáculo?
A ausência de certeza era a versão mais perfeita do seu olhar triste;
a sua alegria desrespeitada por aquilo que dizia ser amor.
Os seus olhos dilatados pareciam ser o fruto do cansaço
dele tanto orar ao Universo que lhe trouxesse aquela que quis partir.
Mas como explicar-lhe que rezar não basta,
que ela teria que absorver e entender no sofrimento em que o deixou.
Como o poderia ela entender, se ela apenas entendia da marcha trágica do abismo,
onde o movimento da luz da vida não alcança.
O amor é alegria e não a energia negra que ela trazia no olhar e nas palavras.
Sim, caso contrário ela teria cumprido as juras de amor
que o aprisionaram...
Ela queria dizer-te tanta coisa ao seu rebento crescido,
menos a típica frase; a vida é assim!
Queria dizer-lhe  que o amor é uma arte natural,
que se resolve naturalmente no coração dos humanos...

Uma mãe que tenha um filho homem sabe que os homens também são alvos de sofrimento amoroso... que a















Também eu mãe sofredora, também eu
Estou agora enrolada entre o dever, a razão e o amor.
Exponho a ferida ao coração e vence o amor, sempre o amor
O dever é tão comodista
a razão tão impura, o amor é tão casto
(por muito loucas que sejam as suas razões)
Também eu vejo a incerteza no seu cabelo desalinhado pelos dedos trémulos
Também eu vejo uma sombra nos seus ombros caídos
Onde a esperança se encontra com a dúvida
e duvida se deve ter esperança
Também eu mãe sofredora lhe queria construir uma ilha
Onde desabitassem as linhas misteriosas da vida
Seria bom, não seria? Seria bom se ambas pudessemos cicatrizar as feridas deles
Como quando eram pequenos usando um penso rápido

































Qual o limite para uma mãe ter o direito de dizer que está cansada?
Tu mãe que me lês já sentiste também a vontade de dizer:
Não posso mais, estou cansada?
Mas nós somos tão teimosas não somos?
Pensamos sempre, juramos sempre
So mais esta vez, é so mais esta vez
Alguém tem a receita para nos desprendermos da recordação daquele sorriso infantil do nosso filho?
Quando nas úliimas brisas da tarde
Ele gastava as últimas energias
Até que chegassemos à porta e lhe dissessemos
Está na hora
Do rostinho dele, inocente deitado na almofada cuidadosamente arrumada
No nosso canto de embalar?
E quando os nossos lábios se encontravam na inocente testa
Enquanto suavemente diziamos
Boa noite


Nem lágrimas, nem soluços, nem os gritos silenciosos
Rompem com aquilo que apenas nós mães conseguimos ver
Quando olhamos o teu comportamento desajustado na sociedade
Mas digam-me qual o ajuste da lei que obriga familias a viverem separadas?

No outono o vento leva as folhas
Despe a árvore
Aos nossos olhos ela está despida mas
E as raízes?

No meio de uma régua alguém faz uma lei
Define quem viverá em cada parte
Mas no meio, bem no meio
Existem lá uns bonecos que perderam a alegria até para serem bonecos
Partiram-lhes as pernas, racharam, bem ao meio, o peito, as entranhas
E os braços e as pernas ficaram confusos
Nao sabiam que gestos, tarefas fazer
Quem os estava a comandar?
Qual das duas partes tinha alma, em que solo ficaram as raízes?











Um dia comprarei uma casinha pequenina
Num lugar sossegado
E viveremos nela os dois
Em paz, para sempre
-pois é um sonho lindo é- respondes tu
Sabes nos sonhos das mães todos os sonhos são possiveis


Na infância lutaste para seres criança
Lutaste contra aqueles que cravavam os dedos na tua inocencia
E te obrigavam a sentir que o céu era um veneno azul




Vencendo Chegadas e partidas



Enquanto os raios do sol iam adormecendo
por entre as nuvens que deslizavam de mansinho,
ela guardava dentro do seu peito
aquele que voava naquele exacto momento.
Ele voaria a noite inteira um pouco abaixo das estrelas.
Eles forrariam a distância de certeza;
a certeza de que é muito mais fácil amar do que odiar,
mais doce rir do que chorar.
Ele levava com ele e deixava com ela
quase meio ano...
Meio ano em que alargaram portas,
amainaram ventos, renasceram a cada diálogo
ao concluírem que o paraíso existia dentro deles.
Ela continuaria a cuidar do periquito que ele cuidara,
das flores que ele regara
e a passear pelos lugares preferidos dele.
O seu menino tinha crescido.
Continuava a ser o seu menino
mas já não era apenas o seu menino; era o seu amigo...
Amigo que voava naquele momento para outro lugar.
Lugar que o mundo dos homens obrigava...
Mundo que obrigava mas não podia impedir que
depois de tantos limites,
depois de tantas agonias,
depois de tantos últimos suspiros
a esperança passara a ser certeza.
``As nossas almas atadas
libertaram-se,
o caminho outrora de pedras
passou a águas livres num leito de um rio.
Os medos, os medos são agora aves livres
num céu real.
Enquanto os homens mantêm fronteiras ácidas,
nós crescemos  em energias
onde a liberdade é pura,
concerta o desconserto mental
e nos retira o fardo da alma.
É a vitória, a verdadeira vitória...
As estrelas encontraram-se na estrada escura,
fundindo a luz e purificando as almas que se deixam purificar.
Tudo é uma questão de querer
Não esqueças:
Tudo é uma questão de querer...
Através da luz do amor!``




A breves passos do paraíso


No ringue da vida fui vencendo as sombras,
desvencilhei-me das suas redes
e uma a uma foram caindo, sem poder;
Nem a mais teimosa dessas sombrias criaturas
será lembrança,
para que a minha mente não traga de volta
o redemoinho das épocas imaturas.

Passei a conhecê-la: era aquela que invadia a paz
com orquestrações poluídas,
tentando dividir em pequenas migalhas a felicidade.
Aprendi onde alçar voo
e fugi dos seus trechos movediços.
Entre o amor à vida e o medo, venceu o amor
e o meu espírito mostrou-me uma tela de luz
diante da qual a sombra tremia como deusa insegura.
Rompi os limites do corpo físico,
aplanei no território mais puro da minha consciência
e cheguei ao outro lado da existência;
encontrei, junto à musical onda do mar, um anjo
de quietude pacífica e alegria harmoniosa
tocando um hino de dimensão superior
mostrando que a felicidade não se explica.
Quando todos descobrirmos a ilusão em que vivemos
o amor eliminará todos os nossos conflitos
porque a paz não se comemora; acontece...
Adeus inútil sombra!
Descobri
que vivia

a breves passos do paraíso!

Lá longe, o farol...

O homem quer a vida
como bicho de estimação
mas não há bicho que aguente
tanta desorientação.

O homem gosta da vida
a vida gosta de luz
a luz da vida gosta
ao homem, a luz,
nem sempre o seduz

Libertar

Liberto-me da sombra que
lanças sobre mim
Liberta-te da sombra que lanço sobre ti e
livres de
laçadas, encontrar-nos-emos nos
laços do amor de
livre vontade

Cheguei a casa feliz

Cheguei a casa feliz
e tu nem deste por isso;
a tua pressa em discutir
ofuscou a minha felicidade.
Ah como enfraqueceu tão rapidamente
este sentimento leve, poderoso
 e ganhou vontade de dar vida a esse inseto
que gosta de erguer a taça à guerra.
Mas, felizmente, falou mais alto
o meu eu sábio e engoli em seco.
Não foi fácil engolir em seco
mas fi-lo, embora doesse...
Senti um liquido com arestas afiadas
cortando garganta abaixo
mas depois, igual a um rio que rompe tortuosos caminhos
e encontra o oceano
os golpes acalmaram diante da luz macia da harmonia.
Foste dormir e eu fiquei na sala. A casa ficou em silêncio
digerindo os maus pensamentos.
Não tarda nada estaremos os dois no meigo casulo da paz.

Poetando

´´ O homem quer o barco
o barco quer o mar
o mar quer a onda
a onda quer brincar.
O mar aventureiro
faz a corte à ilha
mas a ilha quer o farol
que de noite  brilha.
O farol aprumadinho
vive a sonhar
com a sereia que ama
a rebeldia do mar.
A noite procura o pintor
o pintor pinta-lhe um farol
o farol atrai o poeta
que o descreve como um sol. ``

Poeta atrevido brincando com segredos
onde o sonho é terra de bela vida
navegando por emoções, preso à poesia;
 canoa de estrelas, de liberdade vestida!

Quando a mulher já não sente

Quando a mulher já não fala,
já não chora, já não grita e não sente
há a arte de lembrar ser criança
que se inventa
e colhe o oiro de ser gente;
abre-se poeta
e na folhagem do universo
encontra a floração da poesia
que se faz voz,
seca as lágrimas,
cria ecos
e por todo o lado
faz-se rio  sentimento

É o acorde perfeito
entre a arte de escrever
e a mulher abatida;
dar vida
à criança que gosta de viver
... eu mulher...

Contar carneirinhos

Um, dois, três, quatro, cinco...
cinco carneirinhos a saltar
o sexto já não vi
adormeci

mas antes que o sétimo saltasse a cerca
acordei;
o sono traiçoeiro

tinha salto de carneiro

Juras

Jabaru, aldeia onde viviam
Jussara e
Joanita que
judiadas por dois
jactanciosos que se exibiam
janotas,
juntaram a
juventude ferida
jorrando lágrimas.
Joguetes de
juras falsas
jardinariam elas a vida ou
jazeriam eternamente
jurando não mais viver?

I
Jussara 

João vizinho de
Jonas, viu-o deixar
Jussara sozinha e triste. Com
jeito bateu-lhe na porta vestindo a
jaqueta domingueira e num tom
jovial garantiu-lhe que ela seria a
jóia da sua vida.
Jussara ressentida com a partida de
Jonas, fez contas ao sofrimento
juntou as duas frações;
João igual a
Jonas, e
jurou não mais querer  sofrer.
João triste pelo
 julgamento
jurou não mais querer ninguém.

Jussara e
João destinaram-se a
joguetes de
juras.


II
Joanita

Jorge
jurou a
Joanita uma casa com
janelas viradas para um
jardim
Jurou de um
jeito que a
jovem acreditou.

Jorge com
jeito para
juras, virou
jardinista de outras
Joanas, às quais
jurou uma casa com
janelas viradas para um
jardim.

Joanita afirmou, sem
jurar, não mais acreditar em
juras
Joaquim chegou e, sem
jurar, fez...

Juntos foram
jovens felizes, sem
juramentos




 Razão

Que talentosos somos para contaminar a razão,
mergulhá-la em águas dúbias,
em intranquilas marés que não cabem no respeito.

A incompreensível  lonjura, no centro da discussão,
à sua razão agarrado, devotado à confusão
vive o abastecedor de palavras absolutas
que me arrumam no silêncio, sem que ele me conheça;
pois o que ele diz que eu penso, eu não penso.
Por isso, ele, razão e eu, silêncio. Bom senso!

Contrapor com alguém de razões empertigado
é um tremendo esforço com  modesto resultado.
Ele gosta de discussão.
Bom senso; eu silêncio e ele razão.

Jato de vida

Jato de vida,
joia empolgada enquanto
jovem,
jorra de novo
justificando a minha
jornada que
jamais se julga sem
juventude


Sou


Sou folha resistente
de árvore exposta aos invernos das terras frias
Sou espírito forte
vindo de outras eras procurando a perfeição
Não sou apenas um corpo. uma voz entre tantas,
mas sim uma das expressões verdadeiras
das energias do Universo
Sou sentimento usando palavras
para me expressar
Vivo num espaço de paz onde todos os seres são belos
Sou alma, um livro de arte que ensina ao coração
que o corpo é moradia terrena
a respeitar
Meu Mestre superior não julga
porque tem o coração aberto ao amor
E eu sou parte dele e ele é parte de mim

 
A sombra abatida


A figura no espelho, nebulosa,
Sombra leve, imensamente sombria
Carregando ilusão, nervosa,
Farta de se ver assim; sombra fria.

Ela sabia que se via apenas no passado...
Os olhos iludidos, no espelho mergulhando
Recresciam num olhar alucinado
Na sombra triste que ria soluçando.

Ela e a sombra estendiam os braços,
Tentavam tocar as pontas dos dedos
Mas na diferença do tempo, cresciam espaços,
Espaços negros cobertos de segredos.

O olhar crescia em direção ao espelho
Tentando ver o presente na imagem fria
Mas o reflexo trazia aquele olhar velho
Da sombra do nada, que nada dizia.

Num instante, ela decidiu renascer
E vida à sombra foi concedida;
Aquele olhar velho passou a ver...
Passou a viver, a sombra abatida.

´´ É no silêncio dos espelhos que nos encontramos no diálogo do nosso espírito``



Se a Terra é um vaso largo de terra fértil...

A Terra é um vaso largo
de terra fértil,
de humo sagrado
dado a criaturas livres
para que nasçam e vivam
sem muros farpados,
sem estranhas fronteiras
e sem balas traiçoeiras.

A Terra é um vaso largo
de terra fértil,
de humo sagrado
aquecida pelo sol,
um anel de ouro
sem dedos escravos...

Mas então de que lugar são
A Maria violada,
o João baleado,
a criança faminta
e o José escravizado?

Se a Terra é um vaso largo
de terra fértil,
de humo sagrado
aquecida pelo sol,
sem dedos escravos,
sem arame farpado,
sem estranhas fronteiras
e balas traiçoeiras,
então de que lugar veio
a mente perversa que se diz distinta
que viola a Maria
e traz a criança faminta?
De que lugar vieram
os que encomendam as balas
que baleiam o João
e aquele que arrasta o José
para modernas senzalas?
Melhor escolher um caminho diferente 

Melhor escolher um  caminho diferente,
ainda que desconhecido.
Melhor enfrentar um mundo incógnito,
cheio de fantasmas novos,
com um novo espírito,
do que enfrentar os mesmos com o cansaço atual.
A oportunidade poderá lá estar...
 à nossa espera.
 E se não estiver?
O que há a perder?
O perder está neste encalhe político
 que trata o povo como fraca mercadoria.
O medo prende-nos, funda os obstáculos.
A liberdade está na coragem de puxar pela tesoura
e cortar a corda que nos estrangula.




Mil e um, mil e um, mil e um...

Dentro de cada um de nós
há um passarinho pronto a voar.
Temos mil e um, mil e um, mil e um....
Eu ouço asas batendo alegria,
tristeza, desapontamento,
lágrimas, sorrisos, amor...
Que festa! É o hino da liberdade
 no paraíso da poesia,
nas asas dos poetas que batem
 mil e uma vez, mil e uma vez, mil e uma vez...

O desconhecido


Um desconhecido com algo em comum;
procurar o instante da solidão
encontrar o momento superior do tão longe
ainda que a poucos metros
viva a gigantesca sociedade,
a aparente área vencedora

O desconhecido passa e por um instante,
apenas por um instante, o som
dos nossos passos misturam-se

Tudo o resto é o universo, sem precisar do homem

 
O homem da flauta de Pã


Como seda lavrada caíam as horas nocturnas
sobre a casa pela gigante figueira abrigada,
para escutarem a hora serena no adeus do dia:
- O grilo completo de talento
 saía da toca espalhando magia.
O homem com a sua flauta de Pã,
fina música, historiava o tempo...
Em disciplina a água do rio,
banhava os pés de uma rã,
(humedecendo a sua pele esverdeada)
que sobre a pedra molhada,
abrigada pela gigante figueira,
coaxava em tom baixo
para a lua que serenava no fundo do rio, deitada.
A mansidão e a harmonia da hora,
como uma corda entrançada,
reestabelecia o equilíbrio entre os últimos dias de vida
e a solidão da vida do homem de idade avançada,
que tocava flauta de Pã
nas horas nocturnas da casa pela gigante figueira abrigada.

Depois de um anoitecer onde tudo se silenciou,
um estranho herdeiro chegou,
à casa pela gigante figueira abrigada,
(um herdeiro que não conhecia a serena melodia)
e não viu nada;
não viu a rã de pele esverdeada,
não viu o grilo com a sua alegria e talento
pois pouco sabia
do homem da flauta de Pã, que na hora serena do adeus do dia,
historiava o tempo.

Eu ainda ouço o som alegre do grilo,
o coaxar da rã
chamando pelo  homem da flauta de Pã.




Fernanda R-Mesquita






















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