Janelas- poesia

Prefácio

Carmen Dolores
A vida é uma incógnita.
Enquanto estamos sob a proteção, conforto e segurança de uma janela não sofremos influências externas desse portal aberto ao mundo.
Da mesma forma que a nossa mente cuja cognição fica particularmente afetada quando carece de conhecimento e não cede lugar à imaginação, ao sonho ou ao desejo de dominar outras realidades.
As Janelas de Fernanda Rocha Mesquita apresentam a vontade de atingir o cognoscível: A liberdade da alma.
Medos, isolamentos, batalhas, vidas condicionadas conscientes de uma prisão cuja "chave não pode ser utilizada em virtude de sentir o peso da necessidade de terceiros".
"A liberdade condicionada que a civilização dos homens conhece, em nada se relaciona com a poetisa: Poder respirar o ar que a natureza nos oferece, encher os pulmões com o sussurro dos rios e o canto dos pássaros ficam por explicar num pecado que desequilibra a nossa relação humana com a natureza" porque as pessoas vivem de aparências na sua maioria impostas pela sociedade e essas aparências "engolem-nos a alma".
A sociedade em que vivemos converte-se em justiceira... curioso como a justiça é convertida em hipocrisia e apela a um sentimento de repulsa inclusivamente quando fazemos uma auto-restrospectiva e induz-me recordar a célebre frase que li num dos episódios de uma série policial transmitida por um dos canais televisivos: "fui absolvida pelo crime, mas não pelo ato". Seremos hipócritas ou inocentes?
Numa fusão de sentimentos: sensações, esperança, revolta, dor, angústia, enfermidade, amor, luta ou solidão, Fernanda Rocha Mesquita regressa às suas raízes.
Das várias artes tradicionais a poesia abre a janela ao passado para transcender o mundo fático e convida o leitor a conhecer o mistério que reside na autora.

Nota do autor
Fernanda R. Mesquita
Quantas vezes brinquei debaixo daquela janela. Já está velha. Bem, talvez só um pouco mais velha do que eu. A madeira usada e pintada de branco obedecia, rangendo no parapeito, às mãos  que a afagava e convidava a vida a entrar. Amiúde recebia os braços daquela, que com o  olhar vigilante sobre a minha figura pequena, me alertava repetidamente `` tem cuidado´´. Eu crescia debaixo dela, enquanto saltava à corda com os outros meninos. Crescia segura que os pequenos estalidos do soalho, vindos do lado de dentro daquela janela, significavam ordem e zelo. Nada era feito em vão e tudo era feito a pensar em alguém. Ninguém era esquecido. Enquanto o cimo das serras alcançavam a humildade, a liberdade fluía no leito do rio e a vida não hesitava em dar provas da sua criação no corpo de uma simples papoila, eu, pintava o sol mesmo em dias em que ele não nascia porque, do lado de dentro daquela janela existia outro mundo, sempre com o meu lugar à minha espera. 
  Às vezes, dessa janela falavas-me de um ladrão da liberdade. Eu perguntava-te se era um homem de capote de fazenda grossa e áspera. Tu explicavas-me que os ladrões da liberdade nem sempre se vestiam assim.
-´´ Por vezes são aqueles que pertencem a uma raça de gosto mais apurado``- dizias.
Nas horas mais calmas, enquanto a noite ia ressuscitando na sua voz  profunda ensinaram-me  a abrir janelas porque a prisão poderia estar numa porta, da qual eu teria a chave na mão e não a poderia usar. Agora eu entendo; são os deveres aliados à pouca vontade dos outros que nos prendem. 
A verdade é que muitas vezes quis ( mais tarde ) tornar-me invisível, quando me perdia no meio de uma multidão maravilhada por conceitos tão abstratos que sustentavam templos aparentemente abertos, sem janelas mas  onde os submissos à lei de um deus feio ( a doença psicológica de rir e ofender tudo o que fosse diferente ), era a cadeia. Algumas vezes  caí no fundo de um lago, onde as lamas eram profundas e as águas limpas eram rasas, quase inconsciente mas não submissa. Chegou a ser um conforto perder-me propositadamente melancólica nos mistérios da natureza; ajudava-me a ser sombra, fazendo frente às sombras que me perseguiam. Cheguei a chorar até sentir um buraco na garganta provocado pela dor. Buraco que me apanhava as palavras antes delas chegarem à boca. Muito tarde encontrei o amor quando já pensava que ele não passava de um fantasma que se recusava a identificar ou que era eu que não sabia amar.
  Numa vontade instintiva de me salvar de todos os assaltos inimigos, deixava a minha carne e incentivava o meu espírito a recorrer à encantadora loucura de voltar sempre lá; à primeira e principal janela da minha vida. Muitos foram os ferimentos provocados pelos estilhaços dos vidros que partiram das várias janelas que abri, mas a minha essência, essa nunca deixei que a atingissem. Hoje eu sei porquê. Porque a primeira janela que me foi oferecida tinham  vidros especiais, reforçados por uma  armação especial; a do amor. Sei que até ao fim dos meus dias retornarei a ela. É como depois de uma longa e atribulada viagem voltar a ser pequenino e ter um pouco de colo. 
Parte I
Inocência e felicidade

Pela janela dos sonhos, o tempo desbotou a inocência das palavras,
como um nascer do sol no pior dos invernos.
À medida que se libertam das angústias do passado e da ansiedade do futuro,
reentram poemas alados decantando a felicidade.

João Murty

Aquela estrela

Já longe do dia,
a noite de braços estendidos
ia escurecendo o céu sobre a aldeia,
que se tornava lentamente vazia...
A névoa, dançando misteriosa
escondia
a lua e as estrelas
na nuvem  silenciosa...
Então que estrela era aquela
que solitária e solidária
brilhava naquela janela?

Entre os montes,na casa caiada de branco
o homem descansava no travesseiro a sua mágoa
enquanto a mó da azenha se movia na água...
O moleiro enfarinhado
mas atento,
vigiava o vento
que galopava nas velas do moinho, determinado
a vencer  a névoa que dançava misteriosa,
escondendo
a lua e as estrelas
na nuvem  silenciosa...
Então que estrela era aquela
que solitária e solidária
brilhava naquela janela?

Os pinhais desciam e abraçavam os caminhos,
as aves acomodavam-se nos ninhos,
o galo marcava  no poleiro
um lugar distinto no galinheiro
enquanto o cão vigilante
abanava a cauda curioso
pelo movimento silencioso
da nuvem que escondia
a lua e as estrelas
num lugar misterioso...
Então que estrela era aquela
que solitária e solidária
brilhava naquela janela?


A chuva miudinha tocada pelo vento,
de braço dado
com o galho que trazia orvalhado,
espreitaram pela vidraça
e acharam graça;
descobriram através da janela baça,
que lá dentro, uma menina
bem aconchegada,
ainda acordada,
ainda traquina,
ria,
porque ela sabia
que estrela era aquela
que brilhava na janela
até chegar a madrugada...

Era a mecha da lamparina
que se mantinha naquele canto,
que como por encanto
afugentava os fantasmas noturnos da menina.

E desde que a noite estendera os braços
até o dia clarear
a inocente alma
dormia calma
porque a mecha da lamparina
dançando, dançando adormecia
a traquina menina,
até que a avó, no lar harmonioso,
num passo silencioso,
quando pressentia a luz do dia
ainda menina,
chegava e apagava
a luz da lamparina
e eu acordava
menina... menina... tão menina!
Dos teus dedos nasciam poemas


Tu não sabias escrever, nem ler
mas dos teus dedos nasciam poemas
quando trazias o vento ao moinho de cana
que fazias para mim,
quando do balouço que penduravas debaixo de um pinheiro
me empurravas até eu alcançar o sol,
quando me ensinavas a utilidade dos rios
enquanto regavas as hortas que cultivavas,
quando trauteavas cânticos  do povo
enquanto o teu suor amaciava o atilho com que
apertavas o molho de trigo,
quando a minha pequena figura embevecida
te via colher a uva, e me davas a provar
ensinando-me que aquele  fruto era sinal
da obediência da cepa à natureza,
quando descias ao meu tamanho
e traquinas, nos ajustávamos aos intervalos
dos galhos esguios das árvores
para espreitar o ninho de alguma ave...
Depois pé ante pé, engolíamos o riso
para o soltar mais à frente  
e oferecer o eco das nossas gargalhadas
às serras que abraçavam o nosso mundo.
Parte II
Adversidades
(A poesia sempre presente)

Quer em horas da calmaria ou de inquietação ela chega sempre de coração enérgico. Até o silêncio fica atento com o olhar  desconfiado. Ela, a poesia, segura de si é sempre  o mestre. Eu apenas sou o elemento de utilidade provisória; como se eu fosse um livro pronto a ser explorado para ela extrair a frase certa e fazer da ponta dos meus dedos um campo de batalha.  Pois, porque por vezes ela leva-me consigo para o infinito e salva-me deste mundo cheio de coisas tão pouco úteis. Apenas ela me proporciona a independência para escrever sobre monstros e anjos. Por isso:
Das encruzilhadas da palavra escrita
nasce
a insubmissão cristalina ao anonimato
que quebra qualquer fronteira.
É o fruto indomável que nos liberta do medo
e oferece os nossos pensamentos mais rebeldes
à liberdade.
A poesia caminha lado a lado com aquele outro
que inventamos, para parecermos bem ao mundo.
A poesia é a única dama
que se veste de todas as realidades
e desfila sempre bela.

Lágrimas

Gotinhas húmidas e transparentes
queimam o meu rosto cansado!
Mas não são lume!
São lágrimas fortes e quentes,
são um grito silenciado
num silencioso queixume.

São um livro fechado
tão quase depois de o abrir,
são o poema inacabado
que a meio quis partir.

E nessa lágrima transparente,
nesse silencioso queixume,
morreu o sorriso inocente
numa gotinha quente
que queima sem ser lume!
Parte III
Encontros felizes


Vivi várias realidades; a algumas, aquelas de péssima índole,
 cheias de códigos maliciosos e de raízes malignas... voltei as costas.
Depois de uma regularidade excessiva  em campo de batalha, entendi que não falávamos a mesma língua...
E como não queria viver na sombra ou em permanente conflito,
consumida por ódios e lágrimas, converti-as ao isolamento.
Tranquei a porta,  pregando eu mesma, tábua a tábua...
(Senão,  não me sobraria tempo para viver e amar.)
Agora sei que morrerei nova, ainda que morra com cem anos de idade!
Pintura

Deixei-me apaixonada, descansar...
como o rosto pintado numa tela, belo instante;
sobre o teu colo disposta a amar
Escrava dos teus dedos... delirante!

Sou como o pano pronto a colorir, vaporoso...
Que se estende e submete à pintura,
onde tu hábil pintor, virtuoso,
juntas os nossos corpos... aquarela pura!

E depois dos nossos instintos cansados,
descansas os dedos, iguais a pincéis suados...
E eu plácida, no teu peito descontraída...

Que pintura real! Que plenitude! Que beleza!
Que deixa num quadro a virtude, a certeza
de que o amor é o plasma  da vida!

Fernanda R. Mesquita
 Sólidas paredes

Abertas as janelas, qual palácio de fadas e princesas,
onde nem sempre o sol entra , mas o brilho permanece,
sólidas paredes, candelabros de velas acesas
onde uma criança brinca feliz  e no imaginário adormece.

Como um sismo, um dia o palácio estremece ,
e as fortes paredes tornam-se frágeis e indefesas,
a criança fica só e é na solidão que cresce,
sem esquecer as paredes de antes, autênticas fortalezas.

As portas ao ciúme trancou, quando um raio de sol perdeu,
então do  mundo desconfiou e do amor se escondeu,
das alegrias se despediu, e nas tristezas se encarcerou.

Descobriu no amor a esperança que julgava então perdida,
coloriu o sol  num quadro, escreveu um livro sentida,
os seus poemas são as janelas que  à vida nunca fechou.

Eduardo Mesquita













O livro Janelas- segunda edição  inteiro aqui 
ou na Issuu:


Tão simples a vida

A minha alma alcança a imortalidade sempre que paro
e encontro a face bela dos segredos vitais do mundo,
(segredos que não se ocultam),
apenas do que semeamos germina um ópio
que embaça esses segredos que não desejam ser segredo.
As minhas pálpebras abrem-se nesta cabeceira da vida;
Deixo de sonhar com flores, brisas, aromas.
Não preciso ... tudo isso está aqui.
Não preciso de acreditar em nada, porque tudo existe neste momento.
Não preciso ter esperança em nada, apenas sentir.
Cada elemento presente é sensível mas forte e real;
uma toalha verde estende-se livre pelo chão
 espalhando bondosamente, histórias, em silêncio.
O único fanatismo aqui presente é a minha vontade embriagadora
 de querer absorver tudo rapidamente,
e memorizar para depois
poder contar.
Quem sofre deste fanatismo sabe
 que amanhã não vai estar aqui  mas noutro lugar onde nada se parece,
onde geme um frenesim insano.
Tão simples a vida;
A erva desabotoa-se na preguiça do pelo macio
de um animal...


Poesia inspirada nos momentos passados em Ride the Wind Ranch


video
Obrigada Carmen!







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